"(...) Bloqueaste essas memórias, assim como acabas por bloquear as imagens negativas que tens dela e da personalidade dela. E é isso que te impede de avançar. Porque te manténs agarrada à imagem de uma pessoa e de uma relação que não existem nem existiram. Porque ninguém, nenhuma relação, são apenas coisas boas..."
sábado, 6 de junho de 2020
"Escreve uma legenda..."
Será que estavas à espera que eu legendasse essa foto? Que eu fosse um dos comentários? Foram as primeiras questões que surgiram. E aquela sensação de dor; de querer e não poder. Porque eu quis legendar essa foto, mas sabia que não poderia - que não posso, que tenho que lutar contra mim própria e simplesmente afastar-me, porque ficar por perto não me ajuda, não me dá o que preciso. E também sei, por tentativas anteriores, que os primeiros dias são os mais complicados porque tudo em mim arde.
Só sei que o meu coração parou e que os meus passos cessaram também assim que vi o teu sorriso. Há uma música que diz "paro quando ouço o teu nome" e eu acho que o (meu) mundo pára sempre que eu penso em ti ou te vejo numa fotografia, mesmo que não te possa tocar. Gostava de saber se, de cada vez que eu publico alguma fotografia, o teu coração também pára. Gostava de saber se te dói estar longe de mim, como me dói estar longe de ti. Gostava de saber tanta coisa que sei que nunca saberei... E tenho que aprender a lidar com tudo isto.
["apaixono-me por ti cada vez que te vejo sorrir", seria esta a minha legenda para a tua mais recente fotografia.]
quarta-feira, 3 de junho de 2020
Há dias de bombas... [parte II]
«Procurar alguém que não te procura (não na mesma intensidade, nem com o mesmo objectivo) ou esperar algo de alguém que não te dá nada, não é "seres como és". Sim, é de um dia para o outro que se deixa de fazer isso. Sim, somos nós que nos forçamos a deixar de dar importância a alguém. Só tu é que controlas a tua vida, pelo menos na maioria dos aspectos, e este é um deles. Só tu é que tens o poder de dizer "não, já chega, não vou fazer mais figura de parva e ir atrás". Enquanto tu não QUISERES isso, não há nada que alguém possa dizer que te ajude. E tu não queres isso. Porque, ao contrário do que tu dizes, basta querer. Só que tu não queres. Tu queres mergulhar na esperança e ficar a nadar, nadar, nadar, à espera que ela te venha dar a mão. E, quando ela dá um dedo, tu achas que ela te vai salvar e paras de nadar, e aí ela larga-te outra vez e tu tens de começar de novo.»
Há dias de bombas... [parte I]
«Durante algum tempo, agora mais para o fim das coisas, achei que vocês as duas se andavam a iludir. Que ambas sabiam que já não dava mais e que simplesmente não desistiam e não baixavam os braços. Depois de vocês acabarem, achei que a Joana te andava a iludir, no sentido de dar esperança que talvez pudesse haver um caminho para as duas, mas que tinhas que mudar e etc etc. Neste momento... Acho que és tu a iludires-te a ti própria. Porque a Joana já foi clara como a água ao dizer-te que tomou a decisão dela e que quer/vai/está a seguir em frente. Inclusive, a falta de interesse dela, a indiferença dela para contigo, já mostrou isso várias vezes. E tu continuas a procurar uma justificação para as coisas, tu continuas a esperar que ela tenha uma atitude decente contigo, mesmo sabendo que isso não vai acontecer. És tu que estás a alimentar isto sozinha, esta espécie de esperança que achas que poderá existir, mesmo sabendo que não existe.
Eu sei o que é querer falar com uma pessoa, sentir saudades, querer saber como ela está. Isso aconteceu-me com a Marta. Mas chegas a um ponto em que tens que perceber que já não é possível mais, que só te estás a destruir a ti própria e a outra pessoa está a avançar. E tens que dizer chega, tens que parar de fazer isso a ti própria.
Estás a alimentar um "e se" que não existe...
Eu sei que estou a ser dura, mas não consigo dizer isto de outra forma. Desculpa...
Neste momento, a Joana já te disse (e mostrou) a atitude/posição dela. E tu continuas a mascarar isso com "mas indiretamente ela pode estar a querer dizer isto ou aquilo". Ela se quisesse dizer algo, dizia, Rosa...
Ela disse ontem que se preocupava contigo, mas mostra isso? Não, não mostra. Preocupou-se em continuar/terminar a conversa que vocês tinham tido no domingo? Em dar-te as respostas que mereces? Não, Rosa.
Um amor não pode viver de palavras, ou meias palavras, e depois as atitudes não corresponderem.
Tu tens que parar de procurar na Joana a pessoa que amas, porque ela já não está lá. E ela já te disse isso...»
sexta-feira, 29 de maio de 2020
Eu quero que tu fiques. Mas tu não queres ficar.
Tenho seguido à risca a minha promessa de me manter afastada de ti - de não te procurar. E tens sido tu a vir ter comigo. A procurar-me. Ainda que pontualmente. E que não fiques o tempo suficiente para que exista uma conversa de verdade. Às vezes penso que o que me fazia falta era uma última conversa, uma última vez, cara a cara, olhos nos olhos. Eu tentei fazer isso, embora não tenha sido muito específica. E tu tentaste apenas ir para a cama comigo...
Às vezes penso que a nossa história não acabou. Que não pode acabar aqui, assim. Que há mais para nós reservado no futuro. E não sei se esta dor do que está por vir me entorpece ainda mais ou me dá força para o que está a acontecer. E, às vezes, acho que tudo isto é só um jogo teu para me provares que vais embora se eu não me mexer. E acho que nunca vou saber a verdade sobre essa espécie de chantagem emocional que sinto que podes estar a fazer comigo. "Porque esse é um jogo muito perigoso." Perigoso porquê? Agora que penso, não questionei... Mas talvez seja porque não vai levar a lado nenhum. E só vai trazer mais dor.
Há coisas que só digo com os seus olhos como interlocutores.
domingo, 24 de maio de 2020
Eu preciso de escrever sobre o que foi voltar mas acho que me está demasiado marcado no corpo para conseguir ter palavras que expliquem a segurança que senti ao voltar ao meu espaço seguro, àquelas paredes, ao quadro em cima do divã que olho tantas vezes quando não a consigo olhar nos olhos, à janela ao meu lado direito. E sobretudo à certeza de a ter comigo. No mesmo espaço físico. Ao seu olhar preso no meu. Ao sorriso com que me brinda sempre a espera. E ao meu corpo a tremer ao som do meu medo. O medo de ter deixado de saber fazer isto.
Sentia-me demasiado irrequieta. Estava tão nervosa que acabei por "vomitar" em golfadas, sem qualquer controlo... O mais estranho de tudo foi a minha reacção corporal. Normalmente sou quieta - tirando todos os momentos que tremo, o meu corpo mantém-se preso e seguro - e, desta vez, senti-me sempre a mexer, sempre a esbracejar, sempre a tocar nas minhas próprias mãos, como se senti-las me pudesse acalmar, como se me estivesse a relembrar que estava mesmo ali. Sempre a tremer profundamente. No entanto, quando saí, foi com uma sensação de calma que me deixou absolutamente tranquila. Até perceber que durou perto de 10 minutos. Caminhava com uma certeza no peito de que, afinal, ainda sabia fazer isto. Ou que o facto de a ter comigo, à minha frente, me ajuda a sentir que sim. E, depois desses 10 minutos iniciais em que tudo pareceu tão simples, caí por um poço fundo do qual não sei se saí entretanto... Fazia-me imensa falta a viagem até casa para me voltar a sentir minimamente humana e conseguir aparecer como se nada se tivesse passado. Fazia-me falta a sensação de ter tempo de lidar com a dor e poder guardá-la num canto de mim, caso ainda não fosse capaz. Fazia-me falta a ida e a volta, em que, como dissemos há umas semanas atrás, me permitia entrar no mood e me libertar dele - ou quase.
Saber que íamos resgatar a sessão anterior - ou que eu ia fazê-lo, neste caso - deixou-me entre sentimentos que não conseguia bem definir. E que, ainda agora, não consigo retirar de mim. Quando me senti com coragem de avançar para o assunto disse-me que era para apenas deixar fluir... E eu expliquei que tinha ficado demasiado cheia com a forma como tínhamos terminado, que não poderia ter acontecido daquela forma porque me deixou desorganizada por dentro. "Às vezes acontece, termos que acabar uma sessão e não termos mais tempo para pensar sobre as coisas. Pois, mas eu fiquei com aquela bomba nas minhas mãos, sozinha. O que é que pensou? Que merda foi esta?" Sei que falámos sobre o assunto e sei que me acalmou mas não me recordo exactamente de qualquer conjunto de palavras que tenha dito que tenha levado a esse acalmar. Saber que percebeu logo qual é que seria o meu medo e que o disse em vez de eu o dizer, poupou-me ao sofrimento de ter de o apontar em voz alta e de me deixar, ainda mais, desorganizada por dentro. Caminhámos às voltas do mesmo e tenho a sensação de que vamos caminhar ainda durante algum tempo... Disse-me, às tantas, que tinha sido tudo demasiado violento e, à medida que desenrolávamos o fio, fomos encontrando outros adjectivos para compor a minha memória, como cru e gráfico e, sobretudo, o pornográfico da sessão anterior. E o meu corpo tremia incontrolavelmente. Disse-me, com tanta convicção, que a sexualidade não era nada disso. E eu agora acrescento que a própria intimidade com alguém o é ainda menos. Já depois de me questionar de forma tão directa e tão incisiva por várias vezes, em que eu sinto que mal reagia, disse-me que ali poderia questionar-me mas nunca, mesmo nunca, dessa forma. Tão crua. Tão nua. Tão directa. Como se espreitasse pela fechadura de uma porta. E, sobretudo, que eu poderia ser capaz de me defender agora, como não fui capaz antes. E que poderia ser capaz de dizer que não tenho que falar da minha vida e que não tenho que dar esses detalhes. Mas não. Eu sinto sempre que não. Sinto que, quanto a isto, serei sempre aquela pessoa que não se conseguiu defender e cujas palavras ficaram presas na garganta. Porque eu não me recordo de ter falado. E, a medo, questionei "Isto é mesmo um trauma, não é?" e anuiu, sem qualquer palavra, e isso bastou-me e acalmou um lado meu inquieto há tempo demais. Ao fim de tantos anos, consegui ter capacidade de perguntar e perceber que há mesmo em mim uma ferida muito profunda e considero-o uma vitória. No entanto, tenho a perfeita noção de que após isso houve uma conversa sobre o assunto da qual não tenho qualquer memória. Só me recordo dos nossos risos depois de eu ter dito que precisava de fazer alguma coisa para me recordar de tudo o que aconteceu e podermos trabalhar a partir daí. E de ter questionado se eu estava a pensar numa espécie de hipnose. Se isso me garantisse que eu ia ao passado, trazia de lá o guião e voltava minimamente inteira, eu era capaz de o fazer. Mas nunca noutras mãos.
sábado, 16 de maio de 2020
«The intimacy of being listened to»
Sei que preciso de escrever desde que desliguei a chamada, desde que fiquei sozinha sem o som da sua voz. Principalmente porque foi daquelas alturas em que senti que tive que sair sem estar minimamente preparada para isso, como se a conversa tivesse ficado a meio e me tivesse deixado completamente desnorteada. Foi como se a minha bússola tivesse ficado avariada e, por isso, com o cérebro em branco e completamente entorpecida. Acho que fiquei assim até me deitar e ter deitado algumas lágrimas, sem conseguir realmente falar no assunto, mas a precisar urgentemente de o fazer - era tão pesado que passei uma noite estranhamente em branco, onde parecia que não estava a dormir serenamente mas sim a acordar de hora a hora com frases ditas durante toda a sessão. Passei o dia de ontem com dores de cabeça aflitivas e, à noite depois de ter iniciado uma conversa sobre o final da minha relação, senti que o meu corpo ia desligar, que não estava a suportar realmente lidar com as últimas horas, que estavam a ser demasiado para mim. As dores, a conversa, a sessão...
Desde que desliguei a chamada, sabia que precisava de escrever só que tive medo - e ainda tenho, apesar de estar a fazê-lo - de abrir um documento e deixar as palavras fluir, olhar o branco estava a assustar-me, talvez porque o meu cérebro ficou em branco... Escrever e apagar, escrever e apagar. Quase como se não encontrasse realmente o sentido de estar a escrever porque poderia não me ajudar a encontrar o sentido a tudo o que foi dito.
Saber que, quando eu não estava minimamente à espera, me diz que é possível regressarmos e que sabe que eu preciso urgentemente do meu espaço seguro, que vamos ter em atenção todas as medidas de segurança e que para a semana nos vamos voltar a ver depois de quase dois meses... Dizer-me que está a fazer algumas pessoas regressar e que, por tudo o que fomos falando, pensou logo em mim... Só me faz sentir um enorme carinho e sorte. Sorte, sobretudo, por ter encontrado alguém que cuida de mim de uma forma tão bonita como esta.
Retomar presencialmente está, de certo modo, a causar-me ansiedade. E eu sei que está porque ainda não consegui falar sobre o assunto em voz alta. Será que vou demorar realmente a entrar como sempre? Será que vou simplesmente desatar a chorar? Ou será que não vou conseguir discernir sequer o que estou a sentir? E apenas tremer profundamente? O que é que o corpo quer dizer que as palavras não conseguem? Tenho muita vontade de regressar e muito receio, ao mesmo tempo. Sinto que já não estou habituada a lidar com uma sessão...
Acho que, indiretamente, sentia que esta sessão ia ser absolutamente marcante porque umas horas antes de acontecer dizia que sentia que seria o inferno. E uns minutos antes de sair de casa sofri uma descarga tão grande que o meu corpo não parava de tremer e fiquei realmente assustada... E termos começado pelo regresso e pela falta que eu sinto de um abraço e me ter dito que o facto de irmos retomar seria como o abraço que preciso... É um poema.
Sabia que tinha deixado um assunto pendente na semana anterior, situação que me tinha deixado profundamente frustrada e sabia que o iria abordar. Só não estava a contar com a confusão que se instalou em mim depois da nossa conversa. No meio do meu assumir da minha última tentativa de falar com alguém que me tem provado vez e vez seguida que não precisa disso, confessei-lhe que andava a ler conversas antigas e que tinha percebido que os nossos problemas vinham de há muito tempo... Eu já sabia mas parece que ganhei uma outra noção e lembro-me de me ter dito que eu estava a tentar encontrar um sentido para a forma como tudo acabou. E eu acho que estou a falhar redondamente nessa tarefa. Falámos sobre fazer o meu 25 de abril e gritar liberdade. Sobre se essa liberdade seria para ela ou para mim. Falámos sobre a porta que eu senti que fechou, sobre a porta que eu senti que ela fechou, depois de ter sentido há uns dias que a tinha entreaberto. E confundiu-me de uma forma que não estava à espera e simplesmente bloqueei por completo os largos minutos em que falámos sobre toda esta questão. Neste momento sinto que tudo o que tinha como garantido até termos falado pode estar errado e só queria voltar a rebobinar tudo para conseguir processar... O pior ainda estava para vir, porque foi o que não planeei e que simplesmente surgiu que, também contribuiu, para tudo o que tínhamos falado antes ficasse envolto numa espécie de névoa... Quase como se o meu cérebro apenas se focasse no que aconteceu a seguir. Custou-me muito admitir que há uma memória, mesmo que possa ser construída e não real, que me abalou os alicerces e que em dez anos tenho feito de conta que não existe... e quase pode justificar a maioria dos meus comportamentos. Ter-me dito que seria quase pornográfico e que teria quase um lado voyeuristico. Acho que o meu cérebro está com extrema dificuldade em processar tudo que dissemos... E ter terminado com a questão que deixou no ar é o que me está a deixar mais no chão: Afinal de quem era o desejo? Sei que no meio de tudo ainda questionou se eu também sentia que me iria julgar mas não, só sinto uma profunda segurança. Sobretudo sei que há uma intimidade muito profunda em ser verdadeiramente ouvida.
Acho que, indiretamente, sentia que esta sessão ia ser absolutamente marcante porque umas horas antes de acontecer dizia que sentia que seria o inferno. E uns minutos antes de sair de casa sofri uma descarga tão grande que o meu corpo não parava de tremer e fiquei realmente assustada... E termos começado pelo regresso e pela falta que eu sinto de um abraço e me ter dito que o facto de irmos retomar seria como o abraço que preciso... É um poema.
Sabia que tinha deixado um assunto pendente na semana anterior, situação que me tinha deixado profundamente frustrada e sabia que o iria abordar. Só não estava a contar com a confusão que se instalou em mim depois da nossa conversa. No meio do meu assumir da minha última tentativa de falar com alguém que me tem provado vez e vez seguida que não precisa disso, confessei-lhe que andava a ler conversas antigas e que tinha percebido que os nossos problemas vinham de há muito tempo... Eu já sabia mas parece que ganhei uma outra noção e lembro-me de me ter dito que eu estava a tentar encontrar um sentido para a forma como tudo acabou. E eu acho que estou a falhar redondamente nessa tarefa. Falámos sobre fazer o meu 25 de abril e gritar liberdade. Sobre se essa liberdade seria para ela ou para mim. Falámos sobre a porta que eu senti que fechou, sobre a porta que eu senti que ela fechou, depois de ter sentido há uns dias que a tinha entreaberto. E confundiu-me de uma forma que não estava à espera e simplesmente bloqueei por completo os largos minutos em que falámos sobre toda esta questão. Neste momento sinto que tudo o que tinha como garantido até termos falado pode estar errado e só queria voltar a rebobinar tudo para conseguir processar... O pior ainda estava para vir, porque foi o que não planeei e que simplesmente surgiu que, também contribuiu, para tudo o que tínhamos falado antes ficasse envolto numa espécie de névoa... Quase como se o meu cérebro apenas se focasse no que aconteceu a seguir. Custou-me muito admitir que há uma memória, mesmo que possa ser construída e não real, que me abalou os alicerces e que em dez anos tenho feito de conta que não existe... e quase pode justificar a maioria dos meus comportamentos. Ter-me dito que seria quase pornográfico e que teria quase um lado voyeuristico. Acho que o meu cérebro está com extrema dificuldade em processar tudo que dissemos... E ter terminado com a questão que deixou no ar é o que me está a deixar mais no chão: Afinal de quem era o desejo? Sei que no meio de tudo ainda questionou se eu também sentia que me iria julgar mas não, só sinto uma profunda segurança. Sobretudo sei que há uma intimidade muito profunda em ser verdadeiramente ouvida.
sábado, 9 de maio de 2020
Eu sei que te devia esquecer mas não dá. Tu estás em tudo. Não sais da minha cabeça e estás entranhada na minha pele. Lembro-me de ter dito que eras a minha droga uma vez e tenho cada vez mais a certeza disso. E o pior é que não sei se me quero ver livre de ti. Qualquer pedaço teu é melhor do que o silêncio que me rodeia quando não estás. [E ultimamente não estás. Mas quando estavas, às vezes, também não te sentia cá. E agora, como é que saio disto?] E o pior de tudo é que acredito que temos muito para dar uma à outra e que somos de ficar. Apesar de já teres ido. O que é de ti? Já foste. E eu fiquei aqui, à espera que queiras voltar.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
Sobre segunda [e sobre o que não me saí da cabeça desde aí]:
S: Queres que te diga a primeira palavra que me veio à cabeça? Começa com "D" e tu não vais gostar.
I: Com "D"?
S: "Desiste".Precisava tanto de ter falado sobre isto. Mas tanto. E sinto-me tão frustrada. Tão incrivelmente frustrada. Tão burra. Sou tão burra.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
É tão estranho eu simplesmente já não planear nada... É como se eu soubesse que tenho uma rede de segurança. E eu sei que eu sempre senti segurança com ela, ou então já tinha desistido há muito tempo de fazer isto... Mas ver a forma como eu mudei. Antes eu precisava de fazer listas antes de entrar. Eu precisava de planear ao segundo tudo o que poderia dizer. E ficava aflita com todas as respostas e tudo o que me era enviado de volta, tudo o que não entendia, tudo o que não percepcionava. E acho que era por isto que eu tinha tanta necessidade de falar sobre o assunto de cada vez que saía. Porque me colocava fora de mim. Ou dentro de mim, na realidade. E lembro-me de, muitas vezes, ficar frustrada com a forma como as conversas corriam. Era, também, como se eu procurasse cá fora (lá fora, não sei bem) um pouco do que tinha lá dentro, com ela. Com o tempo fui percebendo que há coisas que são impossíveis de explicar aos outros. Fui sabendo gerir melhor esta sensação que se apodera de mim quando saio. Quando digo que não sou humana assim que saio, eu sinto mesmo que é como se a minha pele ficasse em ferida que demora a cicatrizar. Eu preciso de tempo para a deixar cicatrizar. E antes eu não sabia lidar com esse tempo que eu precisava. Agora acho que sei melhor, apesar de muitas vezes ainda me sentir desesperada com o que ouço, com as ligações que fazemos, com a verdade das coisas que digo. Há muita coisa que tive coragem de dizer duas vezes ou três na vida, e uma delas foi a ela. Eu já não tenho o medo profundo de me entregar (a ela) e ser livre, ali. Ser só eu. Ela hoje disse ser Rosa. E é ser Rosa. Eu posso ser Rosa com os meus amigos, mas é ser uma Rosa diferente... Não sei explicar a intensidade que esta Rosa dali tem. Hoje ela disse-me que eu era incómoda. Que eu era incomodava porque eu era a certeza de que alguma coisa não estava tão bem como parecia, porque mesmo que não se falasse, eu trazia a tensão acumulada em mim. "As coisas não são só o que se vêem." Repetiu-me isto hoje tantas vezes. Disse-me que deveria ser estranho para mim ter alguém que validava o que eu dizia. Ter alguém que não olhava para outro lado qualquer. Ter alguém que ouvia realmente o que eu sentia. E eu concordo, não me sinto muito habituada a isso e isso leva-me a um outro lado do que eu trouxe: talvez esteja a ser muito ingrata... Falamos sobre ingratidão, sobre eu ter uma casa e uma família, sobre ter mais do que muita gente tem e, ainda assim, criar problemas - que é o que tantas vezes ouço de mim, tantas que, por vezes, acredito mesmo que assim seja. Será que eu crio realmente os problemas ou que eles existem e eu estou só atenta a eles? Sou só uma esponja, como me chama?
Sinto muitas saudades do meu safe place. E acho que hoje percebi que não é o sítio físico, embora até aqui tenha pensado que eu sinto falta do local, do tempo, do espaço. É a pessoa. Eu sinto falta das reações humanas. Do sorriso. Sinto tanta falta do sorriso. De ver com os meus olhos e não só ouvir. Eu continuo a saber que ri, que ri com gosto das minhas piadas em relação a qualquer assunto. Mas ver... ver é muito maior e eu estou impedida de ver cada reacção a cada coisa que digo e é estranho porque, ao mesmo tempo, parece que me sinto mais liberta assim do que estando frente a frente com ela. O texto que encontrei esta semana, li-lho. Li-lhe a parte final. E depois fiquei absurdamente envergonhada. Porque ler algo meu em voz alta é de uma intimidade tão grande. Mas depois ela disse-me e eu estava a dizê-lo ao mesmo tempo que ela: que eu falava. E é tão íntimo como escrever. E não parava de tremer. O meu corpo sempre aos solavancos. Acho que nunca me vou mesmo habituar a esta sensação de perder a pele. De tocar a pele. De ser pele. De me despir completamente para outra pessoa. Sem merdas. É qualquer coisa de muito poderoso.
[A meditação guiada que comecei a fazer todas as noites desde a sexta feira santa, pela primeira vez, fez-me chorar na quarta feira à noite. E isso foi muito assustador para mim. E inesperado. E doloroso. Principalmente por tocar numa dor de uma perda que sinto, apesar de saber que não nos perdemos. Que ainda está aqui, comigo, ainda que de maneira diferente.]
terça-feira, 21 de abril de 2020
Haverá sempre um antes e um depois de ti. Dois anos do pôr do sol mais bonito que já vi. Dois anos de uma das maiores dores da minha alma. Dois anos sem ti. E a falta profunda que nos fazes a todos.
Se aqui estivesses estavas a dar em maluco com o Covid-19. Não poderes sair da tua casa era um suplício para ti.
A tua ausência é um suplício para nós. Dói-me a alma. Dói-me muito a alma hoje. Mas só me permiti sentir verdadeiramente quando deitei a cabeça na almofada. Sozinha. Nunca mais me vou esquecer da forma como me despedi de ti. Posso não me lembrar do que disse, ou achar que disse algo que na realidade não disse, mas sei que senti. Espero que estejas a olhar por mim. Espero, sobretudo, que te orgulhes de quem sou.
sábado, 11 de abril de 2020
Estou habituada a tremer a sessão inteira. Sei que é incontrolável e já não tenho medo de estar sentada em frente aos seus olhos e simplesmente deixar-me ser quem sou, tal e qual como sou. E isso inclui tremer o tempo todo, comentar isso e prosseguir a tremer. Já não tenho medo de deixar os pensamentos fluir e já não penso antes de falar, já não planeio antes de chegar e já deixo simplesmente o rio correr porque sei que não estou sozinha. E desde que esta pandemia chegou que me estou a habituar a processar sozinha, sem ter paredes seguras ao meu redor, sem ter o seu olhar preso no meu, a fazer-me avançar depois de respirar fundo, sem lhe poder ver o sorriso no canto da boca e sentir que lhe entrego a alma sem medo de cair. Porque há uma sensação profunda de abandono em mim que não existe nunca desde que nos cruzamos. Nos momentos em que estamos, todas as semanas, eu sei e eu ouço, porque é provavelmente o que mais repete, que não estou sozinha. Mas, sobretudo, eu vejo que não estou sozinha porque está à minha frente, no mesmo espaço que eu. Porque, por muito que não me toque durante a sessão, há uma cadência diferente quando estamos frente a frente, as palavras gravam-se de outra maneira e tocam-nos de outra forma. Há uma energia que se transmite que agora tem sido muito difícil de encontrar nesta altura em que só ouço, em que na maioria do tempo não (a) vejo. E sinto tanto a falta dessa troca de olhares que começo sempre por pedir para a ver e, por isso, desta vez, ligou o vídeo ainda antes de me ligar... E foi um gesto tão bonito. Porque digo sempre que preciso... Mesmo que nunca corra bem e acabemos por fazer o resto da sessão apenas por chamada para que acabe por fluir melhor... Depois de várias sessões em que estou apenas sozinha, em que só lhe ouço a voz, sinto que tudo mudou mas nada mudou. A nossa relação continua igual e talvez vá sair fortalecida de tudo isto e anseio pelo dia em que voltamos a ter o nosso espaço físico para trabalhar - e sei que ambas precisamos disso porque falamos sobre isto. Falamos sobre a sensação de aprisionamento que, às vezes, sinto que me faz continuar a sair de casa para trabalhar. Mesmo que existam dias em que simplesmente não consiga fazê-lo. Disse-me que eu não o fazia (pedir para trabalhar a partir de casa) só por receio apenas mas, sobretudo, para sentir que saio de casa e que largo esta sensação de estar presa e agoniada no meio de toda a angústia que sinto aqui dentro. E eu ri-me porque disse que tínhamos que pensar sobre isto mas eu só estava a pensar em como me conhece tão bem. Seguimos em frente pelo caminho das coisas que não se dizem e que estão lá, pelos segredos que tenho que me pesam e me fazem sentir profundamente mal e pela dor que me atingiu quando me senti uma merda de filha que nem é capaz de estar lá para ouvir quando é preciso estar. E diz-me sempre que há uma parte de mim confundida com o papel que desempenho e confundida entre mim e a minha mãe - coisa que não vejo que acontece. Não sei perceber. Mas diz-me que as coisas que sinto não são minhas, são dela. Não sou eu que a coloco entre a espada e a parede; é ela. E depois falou-me sobre o que não se pode pronunciar e eu ri-me e disse que tudo isso era o meu Lord Voldemort. Riu-se e concordou em absoluto. E eu fiquei extremamente babada. Porque Harry Potter é definitivamente um definidor da minha vida.
Esta sessão em particular foi muito difícil - e possivelmente tão importante como a de há duas semanas em que nos aproximamos de tudo isto quando lhe disse que não sabia ser feliz, que não conseguia ser feliz... E foi uma corrente de um rio que desaguou num mar que é (foi) o meu nascimento. Foi a primeira vez que me disse "o meu nascimento foi uma catástrofe" e agora foi semelhante a isso... "o meu nascimento foi bomba". E não sou eu quem dá as palavras porque nem sempre sei o que está cá dentro. Ouvi-las através da sua voz é como se me retirasse o medo, como se me devolvesse algo que nem sabia perdido, como se me desse de volta... Vai ser sempre a maior magia de tudo isto... Só sei que me destabilizou de tal maneira que não conseguia mover-me depois de desligarmos e que tive que me deitar para me acalmar. Que me queixei várias vezes da vontade de vomitar enquanto nos movimentávamos por estas águas geladas e profundas (como se quisesse vomitar em vez de falar, sim...) e que lhe disse que me tinha passado um autocarro por cima e corrido três maratonas sem sair do carro. Estamos a chegar ao âmago de uma questão que me define e o faz mesmo sem sequer ter noção de que acontece, e teve essa noção logo desde o início quando me falou na cota esgotada de um tempo que não controlava. A vida e a morte. "O meu nascimento define-me". Disse-me que "a experiência de quase morte é uma coisa muito enublada. Muito escura." e provavelmente agarrou-se a mim de uma forma muito profunda e, mesmo que não tenha qualquer desejo de morrer, há alturas em que sou mais morte que vida. Escrever sobre isto não liberta a dor que sinto cá dentro e o medo que tenho de todas estas sensações e sentimentos que não consigo nomear nem expressar sozinha. Mas disse-lhe, às tantas, e disse-me que era verdade, que senti que ao falar sobre isto, estávamos a tirar-lhe o poder que tinha sobre mim. "Há uma parte da minha alma que é morte. Como quando descobrimos que há uma parte da alma do Voldemort que vive no Harry." Foi isso que descobri esta sessão: há uma parte de mim que é morte. E com a qual tenho que aprender a viver.
domingo, 22 de março de 2020
terça-feira, 3 de março de 2020
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
domingo, 19 de janeiro de 2020
Diz-me que, neste momento, estamos a ir aos confins do inferno... Que estamos a mergulhar nos meus lados mais escuros, cinzentos e depressivos... Mas nunca falou sobre depressão... E eu continuo sem saber que nome dar a esta sensação de vazio constante, de um aperto no peito profundo, de uma dificuldade em estar só sem sentir dor... Há uma solidão gritante em mim que nada parece acalmar e que só melhora brevemente naquelas paredes.
Esta semana eu disse-lhe que precisava de saber o que era isto para conseguir começar a curar-me e falou-me em eu estar a "ganhar cota". A nossa metáfora de sempre completamente invertida. Será que todo este vazio é, afinal, uma coisa boa?
Continuar sem me recordar de sessões e sessões inteiras, bloquear totalmente o seu conteúdo faz-me ter mais medo do que certezas de que tudo isto, afinal, possa ter um desfecho positivo. Não tenho esperança... Não a sinto. E o meu peito arde. Preciso de continuar este caminho, agora mais do que nunca.
domingo, 12 de janeiro de 2020
«(...) continuo às voltas no fundo do poço sem conseguir subir... Torna-se cada vez mais solitário e assustador estar neste lugar sombrio... (...) Não consigo ter esperança em sair disto... Nem consigo compreender as razões de fundo que me trouxeram até aqui. Sinto-me completamente vazia, "desligada", anestesiada. É tão difícil.»
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