segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2018 começou com os dias longe de casa e com a certeza no peito de que não poderia ser mais leve e feliz, tenho a certeza que as memórias bonitas que guardo do Porto no início do ano são o que me fez aguentar os dias mais tristes e a dor que as reviravoltas me causaram - porque 2018 mandou-me ao chão muitas vezes e deixei de acreditar que o amor poderia vencer as adversidades, os contratempos de feitios e quereres que foram mais que muitos, as incertezas da sobrevivência de uma relação que (parece) forte em presença mas que enfraquece na ausência física... Tudo isto causou uma dor quase diária que me fez, muitas vezes, dizer que desistia e mandar a toalha ao chão... Mas já cá volto. 2018 começou com vários "não" que me fizeram perceber que o caminho em termos profissionais não era por onde tinha planeado e que havia mais para mim. Não era assim que tinha pensado no final de 2017, mas a vida troca-nos as voltas e 2018 foi o ano que me fez aprender isso, muitas vezes da pior maneira. O acordo de estágio que assinei no início do ano, as experiências que iniciei e, no fundo, o salvamento que foi ter uma pequena protecção onde me socorrer, depois de todos os "não" que recebi fez-me ganhar algum alento - sempre a mesma a zelar por mim e a resgatar-me de tantas formas, de todas as que conseguia e que eu lhe permitia... O projeto da FCT foi mais uma experiência muito positiva deste início de ano e com a qual aprendi a ter uma crítica construída em relação ao meu próprio trabalho e depois construtiva desse mesmo trabalho. Todos os pontos que me apontaram tinham sido aqueles que já tinha apontado sozinha e isso fez-me crescer, apesar da dor do pior "não" de todos os de 2018 e da dúvida do que fazer a seguir. Mas não ia baixar os braços e não o fiz. Se já antes procurava um trabalho, depois deste "não" apostei forte nesse caminho e desde outubro que ganho o meu dinheiro, que junto, para ter a certeza de não vou voltar a sofrer por não saber como ajudar os meus, que não vou ter mais noites sem dormir e que o próximo ano de doutoramento pode estar garantido. Assusta-me o final deste contrato e a incerteza de um novo projecto da FCT, de poder ouvir outro "não", porque sei que esse fará muito mais danos do que este... Este ano apostei forte no meu currículo, e espero que seja só o início da construção de um caminho bonito em termos profissionais durante 2019. 
Ter iniciado o doutoramento em outubro, ao mesmo tempo que trabalhava em full time e depois da formação em part-time mas com dois trabalhos... Fez-me questionar o caminho que tinha seguido. A questão que pairou nos últimos tempos ainda não parou de me perseguir: quer desistir do doutoramento? Quer adiar o doutoramento? O sentimento de falha é constante e a certeza de que não estou a dedicar o tempo que deveria a um novo projecto para defender junto da FCT e, por conseguinte, um projeto de tese para defender em junho de 2019, estão a ser difíceis de gerir. Não quero desistir. Não sei o que faria se desistisse mas sei que esta sensação me bloqueia os sentidos e me faz paralisar. Sei que não lhe sei reagir. E espero que em 2019 aprenda a lidar com isto porque é profundamente necessário para continuar a crescer. 2018 trouxe-me o trabalho árduo e, mais uma vez, um "não", o meu artigo não seria publicado ainda, pelo facto de não ter um grau académico superior... Mas a minha vontade vai adiante e o artigo será finalizado no início de 2019 e, quem sabe, publicado durante esse ano. Graças à minha orientadora que nunca me deixa enfrentar uma tempestade sozinha e que está sempre lá para me ensinar a manter a calma perante uma onda muito forte - a admiração, o carinho e o amor que lhe tenho não param de crescer. 2018 mostrou-me que o trabalho pode ser recompensado e o facto de ter pessoas que acreditam em mim torna tudo mais surpreendente e só espero ser capaz de demonstrar que sou digna dessa confiança.
2018 trouxe-me uma mágoa enorme na última Páscoa que passei com o meu avô, a dor que me causou demorou algum tempo a passar - e transformou-se em culpa, que lentamente tem diminuído. Lembro-me claramente da viagem de regresso a casa, depois da última vez que o vi e da dor que provocou, da sensação de despedida... Lembro-me claramente de ter mencionado um débil e muito transtornado "vou perder o meu avô" e, cinco dias depois, o meu mundo desabou e acho que ainda não voltou ao lugar... Há um antes e um depois de 21 de abril. Vai haver sempre - passem os anos que passarem - um antes e um depois de 21 de abril de 2018. A morte chega-nos sem avisar que vem e pode chegar da forma mais estúpida de sempre. A dor de o ter perdido misturada com a certeza de que o perdi por razões absurdas.... A certeza de que ele não foi salvo, como deveria ter sido, machuca o meu coração todos os dias. 2018 fez-me perder um dos meus pilares e ter o mês mais esgotante da minha vida, em que andava de mochila às costas sem saber onde iria dormir na noite seguinte. Lembro-me do dia em que quase desmaiei em terapia e a partir daí, foi a escalar, até eu aprender a dizer que não podia continuar no ritmo em que estava, ter percebido que estava prestes a ter um esgotamento e que tinha que me afastar do centro da confusão antes que a confusão me levasse. 2018 ensinou-me a olhar mais para mim e para as necessidades do meu corpo e da minha alma. O caminho que percorro desde que iniciei a terapia tem tido muitos baixos que me fazem querer virar as costas por ser tão difícil de gerir todas as emoções com que me debato constantemente... Mas também sei que, sem esta ajuda, não caminhava de forma tão (mesmo que só em aparência) segura por alguns trilhos. No meio de tudo isto, perdi a capacidade de acreditar que o amor nos pode salvar. Questionei muitas vezes a minha relação. Questionei todas as certezas que tinha em relação à minha felicidade. Questionei muitas vezes a minha sanidade mental. Afastei-me dos meus e deixei que se afastassem de mim. Perdi-me, por longos dias. Embora tenha guardadas atitudes tão bonitas de todos aqueles que deixei entrar por momentos. Nunca vou esquecer a forma como vieram ao funeral do meu avô e como me deram a mão nesse dia. Sei que tenho amigos para a vida. Nunca vou esquecer o apoio que senti nesse dia. Nunca vou esquecer a forma cuidadosa como cuidaram de mim depois. Sei que sou acarinhada por tantas pessoas bonitas e que, por muito que as conversas possam não ser diárias, há ligações que não são quebradas por nada.  No meio de todos os desencontros, consegui que alguns reencontros acontecessem e guardo 2018 no coração por ter sido o ano que me fez voltar a ter certeza de que as amizades são bens únicos e recuperáveis, depois de várias e dolorosas tentativas. 2018 fez-me ganhar, por ter mantido os meus amigos comigo e, com a força que me fez deixar de acreditar no amor, fez-me, com cuidado, voltar a confiar devagarinho. Ensinou-me que tenho que ser a melhor pessoa para ti que possa ser e apesar de custar muitas vezes fazer este exercício e a minha personalidade aparecer algumas vezes, tem compensado. Principalmente desde que estamos na mesma página deste livro bonito que já conta com tantas reviravoltas. Apaixonarmo-nos pela mesma pessoa todos os dias dá trabalho, viver uma relação à distância, ainda mais. As saudades são mais que muitas, as saudades custam a fazer os dias acontecer. Mas 2018 trouxe o inesperado caminho para alcançares a pessoa que queres ser e eu sinto-me verdadeiramente orgulhosa (e feliz) de ter estado ao teu lado, mesmo que não fisicamente, neste período. Tínhamos muito medo da realidade do pós mas correu tudo muito melhor do que qualquer previsão e eu sou verdadeiramente feliz por viver a vida ao lado de uma pessoa tão forte como tu és. Todos os dias me inspiras a tornar-me melhor. Mesmo que a distância entre nós seja palpável. 
2018 fez-me acreditar que as pessoas à nossa volta fazem com que sejamos melhores pessoas e que a nossa família vai ser sempre o nosso ponto de abrigo. 2018 começou a mostrar-me que não faz mal ser mais transparente, que tenho que dizer o que sinto, mesmo que seja difícil de expressar e que não seja apreendido da forma que espero. Este caminho é longo mas trará frutos no futuro, assim acredito. Outro caminho longo que foi iniciado em 2018, depois de longos anos a ser adiado, foi a minha saúde. As dores de cabeça e o aperto no peito instalaram-se na minha vida e não têm data de ida... No entanto, ganhei força para insistir em tomar conta da minha saúde e iniciei um processo de análises - embora ainda espere pela chamada da especialidade - que me fizessem sair de todo este caminho com um diagnóstico das dores que são parte de mim como se o meu feitio se tratasse... 2018 também me fez aprender a engolir o medo e ensinou-me a pedir ajuda, para começar a tomar alguma medicação que me fizesse parar de sentir este aperto doloroso que se tornou parte de mim. Fez-me enfrentar os medos de frente e voltar a entrar num carro, apesar de todo o pânico que senti e que ainda sinto, apesar das lágrimas que deitei - que agora já não deito, só por dentro - apesar do corpo bloquear - e paralisar - e não corresponder ao que o meu cérebro comandava... Saber que continuei, que persisti, que não vou desistir enquanto não der a volta a isto - 2019 vai ser um ano de continuidade, porque não quero desistir do poder ser mais autónoma e independente. 2018 fez-me perder o medo de seguir alguns trilhos e ter iniciado yoga, apesar de não conseguir praticar com a frequência que sei que preciso, tornou-se das melhores coisas deste ano. Em 2019 quero tornar-me mais organizada e aprender a dar mais atenção ao lado da mente e da alma. O que me alimentou a alma ao longo de 2018 foram os inúmeros momentos em que vi o sol a pôr-se no horizonte com a certeza no peito de que tinha sobrevivido a mais um dia, por entre momentos dolorosos e gargalhadas brilhantes. Ainda tive tempo de aprender que o nascer do dia é igualmente poderoso. Deixei de ter medo de acordar cedo porque aprendi que corre tudo melhor quando temos mais tempo para viver o dia. No fundo, sinto que este ano iniciei um processo de aprendizagem que que vai manter por algum tempo: não sou a super mulher.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018


O ano passado estava a chover no dia de natal quando saímos para ir à igreja ver o presépio. E eu, mais um chapéu de chuva, de braço dado contigo, descemos a rua. Num passo lento, porque já te custava a andar... E lembro-me de me teres dito que não estarias cá para o ano...
A memória inundou-me ontem e desde aí que está em loop na minha mente. Sacana, tinhas razão... E dói tanto.

Nem quero acreditar que as próximas horas vão acontecer. Nem quero acreditar que o dia de amanhã vai acontecer.
E a tristeza da minha mãe ontem, quando chegou a casa, e nos disse, "tenho a informar-vos que as vossas prendas são da primark". Eu não me importo nem um pouco mas ardeu-me muito a tristeza da voz dela. Eu sei que fazem sempre um esforço por no natal e no aniversário darem prendas um bocadinho melhores e sempre úteis para as duas e eu tenho a certeza que o que foi escolhido, mesmo que não seja o que tu estavas à espera, mãe, vai ser sempre útil. Não me importo mesmo do sítio de onde vem a prenda. Eu sei que disse várias vezes que gostava que me dessem livros para a minha tese de doutoramento mas não me importo que não seja. Juro. Eu só queria ter a certeza que vai tudo correr bem... Que vamos estar todos bem apesar da forte ausência que se vai sentir à mesa. Eu só quero ter força para enfrentar as próximas horas. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Não consigo nem sei (ainda) evitar a sensação que se apodera de mim à medida que os dias passam no calendário e chegam a meio do mês. Torno-me apática e todos os movimentos que faço são mais lentos e muito mais dolorosos. Como se pressentisse sempre que o dia está a chegar. Como se a dor fosse escalando até chegar ao dia em que me lembro de todos os passos que dei e que me lembro que já não estavas, já não eras. Que nunca mais te vi naquela porta. Que nunca mais disseste Adeus em vez de Olá. Nunca mais te vi. E, sobretudo, não te vi ainda em casa. Naquele quarto frio que é sinónimo da tua morte. Não me pude despedir de ti nem estar no centro de toda aquela tragédia triste que foi a madrugada em que partiste, sem eu perceber bem porquê.
Ontem entrei no quarto e aproximei-me da cómoda, não sei bem porquê. Fiquei ali por uns segundos, a fixar o meu olhar no espelho. Estendi a mão até à tua urna e a mão ficou no ar porque não cheguei a tocar naquela mala que a protege. E depois retirei a mão, ao ouvir um chamamento, e fugi dali tão rápido como entrei. 
Não costumo entrar dentro daquele quarto, já não era habitual antes. Mas desde que morreste deitado naquela cama, muito menos... Olhar lá para dentro faz-me lembrar que morreste ali. Que as tuas cinzas estão em cima da cómoda, naquela mala estúpida e ridícula que a protege de olhar para o que te tornou, porque ela foi uma das causas mais fortes pelas quais já não fazes parte deste mundo. E ela chega ali e fala sempre contigo, como não fazia quando estavas vivo. E lamenta-se sempre de aqui estar. E eu sei que o maior lamento de todos é a forma como foste, isso era o que ela deveria lamentar. Só que é mais fácil repetir até à exaustão que aconteceu tudo como deveria, que a tua morte foi santa e que não havia nada a fazer perante um ataque fulminante. A dor disto tudo é que é fulminante. E eu, estranhamente, continuo à espera que me digam que isto é um sonho mau, que vais voltar. É sempre como se fosses voltar... Porque nada disto faz sentido. Porque não pode fazer sentido que a morte nos chegue assim, em dias normais em que aparentemente é tudo igual ao anterior. É tão estranho. Podia ser só mais um dia, mas foi o dia da tua morte. Estava tudo a ser normal e, de repente, morreste. E estás em todo o lado e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. Estás em todos nós e, ao mesmo tempo, nenhum de nós te vê. És parte do que dizemos. És parte do que sentimos. Do que foi e já não volta a ser mais.
Custa tanto saber que há partes de mim que nunca chegaste a conhecer e que as que conhecias não estavam à altura do que era o teu patamar - porque só pode ser isso. Custa-me saber que fiquei sempre aquém do potencial que, supostamente, achavas que poderia alcançar - porque só pode ser isso. Custa-me saber que todas as escolhas que fiz e que conheceste são erradas ou menos certas e que todas as que não chegaste a conhecer te fariam dar saltos para longe de quem sou. Um dos maiores medos que tenho é desiludir todos aqueles que me rodeiam e que gosto mais do que de mim... Porque só posso gostar tanto mais de todos e ter mais medo que certezas, para não me libertar e simplesmente ser quem sou. Viver com esta máscara de forma permanente causa danos internos quase impossíveis de sarar e vai demorar muito tempo até me conseguir perdoar do caminho que decidi fazer. E uma das dores que mais vai custar a ultrapassar é a dor da tua partida, que deixou uma ferida permanente em mim, muito difícil de curar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A minha memória prega-me partidas nos dias que são mais dolorosos e eu já sei disso mas não me consigo habituar a querer deslindar tudo o que aconteceu - por saber que só assim avanço (avançamos, porque utiliza sempre o plural e isso me faz sentir bem mais acompanhada no meio de todo este circo que sinto à minha volta) - e só conseguir fragmentos, como se a minha cabeça fizesse gala em se livrar do que mais custa. Nesta altura sinto-me tão cansada como desiludida com este meu cérebro que gosta de reagir desta forma à dor profunda que este caminho causa. E gostava de conseguir perceber o porquê de ser esta a minha reacção principal, quando deveria ser lembrar-me de todos os segundos para desenhar uma fita do tempo e, com isso, ser capaz de unir as linhas e chegar às conclusões, ainda que muito inacabadas, sozinha. Não que eu sinta que já chegou a altura de ficar sozinha, porque não sinto, acho que estou muito longe disso e tenho cada vez mais medo do dia que possa acontecer. Vamos ser as duas a decidir, e ainda ontem me recordou que se eu sentisse que estava pronta para estar sozinha, que teríamos que fazer um plano para que isso acontecesse. Mas não sinto, não sinto e tenho medo em todos os pontos do meu corpo. Não me sinto bem, nunca me sinto bem. Como é que é suposto eu estar sozinha? Disse-lhe ontem que é triste não saber estar bem e não saber qual foi o último momento em que me senti bem e é realmente triste. Talvez tenha razão quando ouço que estou sempre com a mesma cara de infeliz como se tivesse muitos problemas... E a verdade é que tenho alguns que me deixam na lama e que não sei resolver - e já não tenho máscara, tenho feito um esforço enorme para viver sem ela e, por isso, mostro-me cada vez mais pele e sensações. Talvez odeie isto. Talvez seja melhor ser da outra maneira mas este caminho só anda em frente e a máscara já caiu. 
Questionou-me tantas vezes, em diferentes momentos, sobre o que era para mim estar bem e eu sinto que a minha resposta não foi à altura de tudo o que sinto e gostava de arranjar uma máquina do tempo para retroceder e conseguir dizer-lhe que estar bem é, sobretudo, não sentir esta bola no peito que me prende a respiração, este aperto pesado que nunca sai. Esta forma de respirar estranha que se apoderou de mim e que poucas vezes não sinto. Estar bem é não me sentir a enlouquecer no meio da loucura que sinto à minha volta. Saber viver no meio do desassossego onde vivo e saber que posso ser independente dele, que não tenho que ser sugada para este buraco profundo. Estar bem é ter o olhar de fora sobre a vida que a terapia me trás, é conseguir ser a minha própria doutora Teresa. É analisar de fora, com ainda mais distância e com menos dor. Porque só assim é que me sentirei mais saudável no futuro. É saber mostrar que não foram os medicamentos que me deram a capacidade de dizer mais vezes o que sinto e como sinto, de questionar quando está errado e de não me sentir mal quando ouço esse comentário. É dar os louros a quem os tem e o nosso caminho está a ser pautado de vitórias pequeninas para que eu me sinta melhor no futuro e a gargalhada com gosto que deu quando disse que estávamos - estava - safas do olhar delas sobre a minha pequena mudança... 
Comecei pelo assunto que levei preso a mim a semana passada e pela certeza de que quero acreditar que este é o caminho certo, apesar do bloqueio que sinto em mim e do medo que tenho que seja para durar. Quero deixar aqui claro que me disse que sentia que eu tinha tentado enfrentar o assunto e não  me falhar - embora me sinta constantemente a falhar. E, do seu lado, senti medo também, que me tenha enrolado em tanta coisa só para me afastar do centro do furacão que me trouxe essa frase que lhe disse há tantas semanas atrás... Sobre querer fugir e me sentir bem com tudo o que existe fora de casa, porque sempre estou mais longe e não levo com a avalanche de forma direta. E disse-me tantas vezes ao longo da conversa que eu queria ser omnipotente e diz-me isso tantas vezes que eu ganhei coragem e insisti nessa palavra, questionando o porquê de estar sempre a dizer isso sobre mim e garantindo que começava a compreender o que me dizia. Sobre querer fazer tudo e estar em todo o lado e garantiu-me que isso não era possível. Quer fazer o doutoramento, trabalhar, cuidar dos pais, cuidar das finanças da casa, isso não é humanamente possível. Insistiu comigo com todas as coisas que lhe tenho dito que estou a fazer e que quero fazer, enumerou-as por tópicos, mostrou-me que eu não podia estar em todos os sítios ao mesmo tempo. Sinto que estou melhor agora do que estava há uns meses atrás, ou sinto que agora é diferente. Vamos sempre falar sobre ele e sobre a dor que tudo o que tem acontecido nos últimos meses me causou, porque foi um rombo profundo nos alicerces de que sou feita... Aos seus olhos a morte do avô é um espelho de toda a negligência que se vive, do que se manda para debaixo do tapete, do que não se fala, do que está no meio de todos mas não se diz. E é por isso que lhe custa tanto e é por isso que não consegue ultrapassar. É por isso que a dor é diferente em si. Ainda o procura pela casa? Disse que sim mas não continuei a resposta porque não quis abrir a caixa de memórias que me faziam sentir ainda pior do que já estava. Todas as vezes, quando vou lavar a loiça e ele deveria entrar na cozinha a perguntar-me se me estava queimar. Todas as vezes, que deveria colocar as mãos debaixo da água quente para dar um pequeno salto e gritar em tom de brincadeira "está quentjinha". Sinto tanto a falta da presença porque esta ausência grita muito mais do que alguma vez pensei, pela forma repetina como ocorreu e pela loucura toda que trouxe associada. Sinto-me realmente abandonada enquanto tudo acontece ao mesmo tempo e mostrou-me claramente que pensa que o centro de toda a minha dor não vem de onde eu sempre pensei que viria, chamar-lhe a situação dos 14 anos já é quase uma piada entre nós porque em poucas palavras definimos a imensidão que tem em mim. Disse-me que achava que a situação em si era apenas a ponta de um icebergue muito mais profundo e doloroso, embora não quisesse retirar ou diminuir a dor que tudo isso me causou. E tudo isto levou-nos à velha conversa da sensação de cegueira em que vivia, no escuro onde me encontrava e zangou-se comigo quando questionou se eu queria mesmo ser cega perante tudo isto, não foi? Senti que o tom de voz de alterou e que me tentou mostrar que é melhor viver na claridade dolorosa que na floresta profunda onde não existe saída. Porque aqui existe um caminho algures para descobrir. Por muito longo que seja, por muito que custe. 
Antes de nos despedirmos, perguntei baixinho e como é que eu vou viver o natal? Há alguma forma de parar o tempo e não viver o dia de natal, tinha eu dito no início... E a resposta foi tão clara que até me assustou: Fazer como a avó diz que quer fazer? Mas disse-me que tinha que me lembrar que ele não quereria que nós estivéssemos assim. Portanto teria que viver o dia com as memórias dele. Esteja onde ele estiver, ele não gostaria que fosse assim como me está a dizer. E eu vou lembrar-me disso à medida que o tempo chegar. 
Estava tão cansada. Estive a tremer o tempo todo. Olhava-me e via o meu corpo aos solavancos. E fingia que não estava a acontecer nada, tentava respirar fundo por entre cada frase. Tentava acalmar o meu corpo enquanto me respondia e a olhava, muitas vezes sem ser nos olhos porque tenho sempre medo de olhar de forma tão direta... E nunca me fez reparos sobre isso, talvez tenha sido melhor assim. E no final, mesmo no final, não me conseguia levantar. Tinha tantas dores no corpo. Lembro-me de ter perguntado se tínhamos corrido a maratona durante esta última sessão porque me sentia completamente exausta e acelerada. E sorriu. Sorriu e deu-me forças para me levantar garantindo que estaremos de volta num abrir e fechar de olhos e que lhe poderei contar a porcaria de natal que tive.

O que a memória me permite escrever, o que quero deixar claro aqui.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Sinto-me cada vez mais aterrorizada com o que aí vem e à medida que os dias correm mais medo tenho e mais me arde a garganta - as palavras teimam em não querer sair e os pensamentos confundem-se sempre. Já várias vezes tentei, incluindo no meu espaço seguro, dar-lhes uma voz e continuo sem conseguir. Porque é torná-los reais e verdadeiros. Porque é ouvir-me e sentir-me desvanecer. Porque me vai doer muito mais depois de dito em voz alta. E tenho feito aquele exercício de que tantas vezes me fala, sobre conversarmos dentro da minha cabeça, embora a única coisa que eu veja é sempre o sorriso... E quero acreditar que isso me vai dar a coragem necessária para me preparar... Porque só tenho mais uma semana para isso. Porque o tempo não para. Só corre. Ainda não ouvi falar de natal nesta casa e sempre que tu me falas em natal só me apetece gritar e não parar mais - tipo o tempo. Quando ainda hoje me questionaram sobre o que sentia, se me sentia igual em relação a ti... E eu disse que sim. Porque não mudou nada, nem um milímetro, continua a doer tanto e a arder tanto. Não fiz questão que a conversa continuasse porque não quero sentir que estou sempre a dizer as mesmas coisas e porque tenho tentado - ao máximo - proteger-me mais de tudo: mas vejo mais, ouço mais, apreendo mais - do que nunca. E há equilíbrios difíceis de fazer. Há dores tão profundas em nós que nem as palavras escritas lhes dão menos força para nos deitarem abaixo... Só mesmo as ditas a viva voz e sei que caminhei mais um bocadinho nesta estrada quando fui capaz de dizer e chorar sobre o medo que tenho da desilusão que possas sentir. Não me sei referir a ti no passado, muitas vezes. Custa-me acreditar que não estás aqui, custa-me e vai custar-me tanto mais. Não há uma forma de me preparar para o que aí vem?  

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Precisava de ser capaz de dizer em voz alta que me sentia a falhar no meio de tudo o que tenho andado a fazer, precisava de dizer que sinto que a coisa mais importante e à qual deveria estar a dar mais tempo e atenção, tem estado em segundo, terceiro ou quinto plano - ou mesmo em nenhum plano. Precisava de me ouvir a dizê-lo e sabia que só o poderia dizer ali, daquela forma, naquele contexto, na segurança estranha deste processo terapêutico que quanto mais anda, mais tem para andar. Ter-me questionado de todas as formas possíveis e imaginárias... Não me sai da cabeça a questão Quer adiar o doutoramento? e não me sai da cabeça a forma como me fez ver - embora me diga sempre que quero só ouvir mas que já sei, não é bem verdade... - que não tenho tido tempo útil, só se não dormisse é que chegava a mais algum lado. A forma como me disse ah, eu queria era escrever a dormir podem parecer pequenas frases soltas que não fazem sentido nenhum cá fora mas que fizeram e fazem sempre dentro de mim porque mostra que me conhece e não tem medo nenhum de me fazer questionar a minha própria realidade - e, ao mesmo tempo, diz-me que sabe que vai doer e que dói mesmo. Disse-me que sabia que não era a pessoa indicada para me ajudar, que só me poderia ajudar a pensar e incentivou-me a estar com a minha orientadora, ela sim, a pessoa certa para me ajudar a navegar esta onda - ela, que antes de saber o que se estava a passar comigo, já estava a marcar uma reunião para esta semana, ela, a que me acalma sempre só de a ver. E hoje, reunirmos hoje, um ano depois, foi muito bonito. E apesar de eu estar mais calada do que o habitual porque me é tão difícil explicar tudo o que sinto em relação a este assunto, porque nunca é só este... Falamos sobre ser um novelo de lã que desenrola e tem sempre novos metros e é verdade... Este assunto nunca é só isto. É sempre mais. O que é que estou a fazer à minha vida? Porque é que decidi fazer isto já? Estou a fazer a coisa certa? Sou capaz? Sou madura o suficiente para estar a fazer tudo isto? Deveria de ter aceite o estágio? Deveria estar a trabalhar ao mesmo tempo que estou a fazer o doutoramento? Mas se não trabalhar não tenho forma de seguir no doutoramento... E é sempre mais. Obrigada por me ajudar a questionar escolhas tão difíceis em voz alta. Obrigada por me mostrar que não faz mal haver a esquerda e a direita e que tenho que fazer uma escolha, sem medo. E que a escolha pode mesmo só ser acalmar e priorizar por datas ou pode ir mais profundamente e ter menos aulas, fazer o doutoramento em mais tempo, ou não o fazer de todo. Mas... Se não estiver a fazer o doutoramento estou a fazer o quê à minha vida? Estou a adiar. E sorriu. Como sorri sempre, antes de me responder. Eu não quero adiar isto, só queria mesmo ser um bocadinho super mulher, realmente... Como me conhece bem, dado que mal tinha aberto a boca e já me estava a mandar com um «Se quer que eu a ajude a ser a super mulher, não consigo porque também não sou!», sempre que me lembro disto, sorrio com a resposta rápida e pronta que me enviou mal comecei a tentar só desbobinar tudo isto...  É sempre tão bonito parar e admirar a forma como nos ligamos e a confiança que tenho em tudo isto que estamos a fazer juntas. 
E quanto ao doutoramento e afins, só sei que tenho que parar de querer controlar tudo e tenho que perceber que não tenho tempo e que tenho que organizar as minhas prioridades. Penso que a reunião de hoje possa ter ajudado nesse sentido mas não me sinto mais tranquila, só tenho vontade de chorar. Abrir os trabalhos que tenho para fazer não me faz sentir que estou a avançar em fazê-los, sinto-me francamente bloqueada e não sei como me ajudar a mim própria a sair desta. Os trabalhos, o projeto da FCT, o artigo, o currículo, o projeto de tese. As prioridades. E a minha cabeça a explodir.