terça-feira, 30 de abril de 2019

Acho que nunca estamos preparados para levar com um golpe e quando a bomba vem, aparece sem avisar. Foi isso que aconteceu e foi por isso que o meu cérebro parou e questionou várias vezes se era tudo mesmo verdade. E só umas horas depois começou a articular algum género de pensamento concreto e o primeiro nem foi sobre mim... O que lhe vai acontecer exatamente? Quer dizer que vai perder este emprego? Ou que, simplesmente, as funções vão mudar e vai ter outras valências? Tenho o cérebro a processar tudo isto de uma forma muito lenta porque não quero lidar com esta informação. Eu sei que teria que sair, que algum dia iria acontecer, que não poderia ser acompanhada eternamente mas há tanta coisa que só ali deixo... Há tanto de mim que só ali sou. Que não consigo ser em mais lado nenhum. Assusta-me, verdadeiramente, a possibilidade de termos que terminar isto sem eu sentir que posso ser capaz de caminhar sozinha. Já uma vez nos aproximamos deste fim e já uma vez me disse que, nessa altura, eu lutei com unhas e dentes para ficar, mesmo que eu não o tenha feito de forma absolutamente consciente. No entanto, este fim é diferente e mais definitivo e é isso que me revolta o ser. Que me revoltou tanto que nem consegui encontrar palavras para expressar o que estava a sentir sem ser repetir se era mesmo verdade... Eu quis, dizer tudo ali, levar com o primeiro impacto ali, porque ali estava comigo e eu não trazia tanta dor cá para fora, mas não sei se fui bem sucedida neste meu querer. 
Ter iniciado com esta bomba mudou tudo, mudou toda a minha capacidade de me aguentar com tudo o que aí vinha e a minha cabeça só explodia mais e mais. Tic-tac. Tenho - temos - dois meses para decidir o que é que eu consigo fazer a partir daqui. E eu sei que não há forma de construir uma relação destas com mais ninguém. A confiança é uma base profunda e eu confio de olhos fechados que não me vai deixar cair. É em si. É por sua causa. Como é que eu posso imaginar que vou ter isso com outra pessoa? Por muito que me diga que não vai ser a primeira vez e que já vou estar habituada à sensação... É completamente diferente reconstruir tudo de novo. E não é consigo. E com outra pessoa qualquer, mesmo que seja da sua inteira confiança. Dói-me tanto tudo isto. E eu demorei quase três anos a deixar-me ir... Como e quanto tempo vou demorar com outra pessoa? 
"Tem assim tantas dúvidas da relação que temos?", disse-me, às tantas, depois de lhe confessar que tinha ficado tão magoada a semana passada... Essa relação que temos permitiu-me dizer que tinha ficado magoada. "Comigo, com o que eu disse, ou consigo?", com tudo... Porque era uma coisa que sabíamos que estava lá mas não se dizia e destapou-a. "Então queria o mesmo funcionamento de casa?" e cada pergunta era mais uma ferida a arder dentro de mim. Tal como disse, clicou numa tecla qualquer tão verdadeira que me incendiou por dentro e, ao mesmo tempo, me fez questionar o meu comportamento... A zanga, a agressividade, a raiva, a dor, podem ser sentidas para fora e não para dentro. Para dentro destroem-me. É sobre isso que nos temos debatido nas últimas sessões e vamos continuar nessa viagem de uma maior conexão comigo, uma viagem dolorosa e profunda. Da qual quero fugir. Mas não fujo porque está ali e há uma confiança cega apesar da dor. 
O meu único medo era de que eu fosse vista como uma mentira, dissimulada, e que o cuidado com que caminho fosse visto dessa forma. Disse-me que não. Que não (me) via assim. E isso descansou-me porque não quero ser vista dessa forma pela única pessoa que vê todos os meus lados e que sabe que me conhece como ninguém. A pessoa que me olha e vê quem realmente sou, que não tem medo de me desconstruir, que diz que não posso ter medo que me odeie. A pessoa que vê o meu corpo a tremer e que me faz rir disso. Como é que é suposto isto tudo acabar quando eu não estou minimamente preparada para que acabe? Dói muito percorrer este caminho mas dói mais saber que vai acabar. 
"Não merecias ter tido o final de dia que tiveste. Não merecias. Pelo menos o final de dia deveria ter sido diferente. 
Só quero que saibas que eu vou estar aqui, mesmo que seja muito difícil a solução para a bomba de hoje. Estou aqui. E tenho a certeza que tu vais ter a força necessária para enfrentar isto."

Obrigada por me teres ouvido quando eu estava perto do colapso mental, quando todo o meu corpo tremia e quando eu não sabia se chorava ou ria. De dor. De desespero. De raiva. De solidão. Por antecipação a tudo o que virá. Obrigada por teres só atendido a chamada a dizer "vamos respirar fundo e contar até dez as duas".

E obrigada ao meu padrinho que não sabe mas permitiu-me quase duas horas com o coração mais tranquilo do que aquilo que era possível. Estar ao teu lado com a brisa do vento e o calor do sol acalmou a dor profunda que fazia, faz, parte de mim. 

sábado, 27 de abril de 2019

Eu queria escrever sobre esta sessão porque escrever é pensar sozinha e deixar pousar as memórias que circulam, velozes, na minha mente. Desta vez, tenho poucas. E fui percebendo isso à medida que a ouvia - sabia claramente que iria bloquear a maior parte do que tinha ali sido dito - e a semana ia correndo sem eu me recordar de mais. Sei que estive absolutamente ocupada e isso pode ter ajudado a não me lembrar mais no entanto, não foi só isso. E sei disso quando, na segunda feira, ouvi que estava com uma cara mesmo triste e se precisava de alguma coisa. Disfarcei. Voltei a fazê-lo na terça feira, quando fui relembrada do mesmo; o teu aspeto está melhor hoje, parecias mesmo triste ontem [e estava]. Desta vez fiquei profundamente magoada. E como fiquei tão magoada sinto que não consigo pensar sem tocar na ferida. Sei que fiquei tão surpreendida - e magoada - porque não esperava aquela análise tão profunda e verdadeira de quem sou. Acho que me fez confrontar com um lado meu que eu sabia que tinha e, talvez, vá sempre ter, que eu não queria trazer à luz do dia. Era só meu, estava só lá e não se falava disso dentro de mim. Agora, por culpa das suas palavras, tenho a memória inundada por esta única frase que me queima cada vez que me aparece. "É sempre tão delicada, tem medo de a partir. E essa delicadeza esconde uma zanga muito grande e uma agressividade muito grande", andamos em círculos e os círculos magoam-me, porque eu não queria chegar a nenhuma conclusão e obrigou-me a fazê-lo. Demonstrou-me que sentir esta agressividade é bom, é mais verdadeiro que a delicadeza que diz que mascara o que verdadeiramente está cá, que tenho que me permitir sentir essa espécie de dor, zangar-me. Deixar passar. Não deixar as coisas remoer dentro de mim. Disse que eu sabia bem o porquê de tudo isto, mesmo que eu tenha dito que não sabia. E, no final, disse-me que era eu quem estava ali. Que não a podíamos tratar a ela. Só a mim. 
E eu tenho medo de voltar e lhe dizer que me sinto abanada, que sinto que me empurrou de forma brusca, que não deveria ter sido assim. Quase como se tivesse desvendado um segredo que não era suposto ser dito, mesmo que fosse visto. Mas sei que vou chegar e não vou dizer nada disto desta forma porque não vai sair assim, vai sair de outra maneira qualquer. E não sei se é bom, já que tantas vezes diz que me posso zangar com o que representa para mim. E que, na verdade, na última semana, eu estive foi zangada e a precisar de si e não estava. Descarreguei a minha frustração em quem não tinha exatamente a culpa disso porque me deixou sem colo. E eu acho que esta análise é estranha e enviosada porque, por muito que eu estivesse aflita por estar sozinha, não descarreguei nada que não tivesse exatamente sido no sítio correto. Só me doeu muito a sensação da falta de colo - como, já percebi, vai doer sempre. E disse-me uma verdade tão dolorosa e importante, que a morte do meu avô me doeu tanto e continua a doer por ter sido um perpetuar dos colos rotos, que já não estão bem lá, que não cuidam, que não percebem que está tudo errado. É essa a minha forma de ver quem está à minha volta. E é isso que custa tanto. E ainda me custa mais o facto de eu tentar, desesperadamente, repor a verdade das situações e sentir que bato sempre contra uma parede e que estou - estamos - a perpetuar, novamente, uma ilusão de que está tudo bem assim... Continuar a viver na ilusão de que está tudo bem não é ver a verdade e confrontar-se com ela. E eu tento destapar e mostrar o que é feio (já dei um passo muito importante ao estar a fazer isto) e não estou a ser acompanhada por quem deveria - e a minha dor é tão grande, nem quero imaginar a dela, a vergonha e a humilhação de tudo isto. Continuar a viver assim é continuar, todos os dias, a colocar uma máscara e não mostrar o que está errado. E não sei se essa é a melhor forma de ultrapassar tudo isto. Desconfio que (me) traga muito mais dor. 

domingo, 21 de abril de 2019

Nunca quis viver este dia, achava que ia colapsar com a tua ausência. Não quero acreditar que já passou um ano, porque este ano foi demasiado duro, intenso e desesperado. Muitas vezes, senti que me arrastava em vez de caminhar. Os meus passos tornaram-se ainda menos confiantes e sei que todos os meus alicerces foram abanados pelo vento da tua partida. Inesperada - e não tanto assim porque vou sempre lembrar-me que uma semana antes, quando nos despedimos, nos despedimos realmente. Essa viagem de carro e a sessão no dia seguinte foram lágrimas fortes e uma sensação profunda de que te iria perder. Eu recordo-me claramente de ter dito essas palavras em voz alta e custa muito saber que tinha razão e que partiste quando eu ainda estava tão magoada contigo e, por isso, tão distante. Talvez por isso, na sessão em que sou capaz de balbuciar a tua morte, o meu corpo tenha simplesmente querido desligar [vou sempre lembrar-me da mão que me agarrou e me agarra sempre.] 
A madrugada de 20 para 21 de Abril de 2018 marcou o ponto de viragem. Marcou a (re)descoberta de toda a loucura em que vivo, apesar de, no fundo, sempre ter sabido que vivia. Há alguma coisa de muito disfuncional nesta família e na forma como abordamos os problemas, como cuidamos e como amamos. Sempre achei que éramos uma espécie de rochas fundas e que isso nos salvaria de todos os males e eu sei que continuamos juntos... Mas agora vejo mais e melhor e sei que, desde que te tornaste pó, há fendas nas profundidades das rochas que somos e sinto que tudo abre mais rápido do que seria suposto. Como se tu fosses uma cola que nos unia a todos com a tua personalidade. Este ano mostrou-me que eu sou capaz de quase me destruir para manter tudo coeso - e talvez estivesse a tentar fazer o papel que era o teu, mesmo sabendo que não o fazias de forma totalmente correta... O meu medo que tudo colapsasse era tanto que quase cheguei a um ponto sem retorno. Há poucas alturas em que um terapeuta dá conselhos e depois de teres ido... Foi a primeira vez que ouvi a minha a dizer-me que eu tinha que me afastar ou me destruía. Eu estava a dar mais do que podia dar, a fazer mais do que podia fazer, a tentar colar peças que não poderia ser eu a colar. Ouvi tantas vezes que tinha que me preocupar comigo e com as minhas coisas e tantas vezes questionei que coisas eram essas quando tudo à minha volta parecia lava saída de um furacão prestes a explodir novamente. Fui um penso rápido que impedia a cura mais tempo do que aquele que seria suposto e acho que, ainda hoje, não saramos. Mas sei, com toda a certeza, que eu não sarei. Há uma dor em mim e uma ferida aberta que não desaparece desde que partiste. Talvez por isso o ataque de pânico antes de entrar na capela [sei que só entrei ali dentro pela mão e pela força da Ana e isso nunca esquecerei] e não há poesia mais bonita do que te teres tornado pó e partido no dia da liberdade. Libertaste-te desta vida aqui. E és luz noutro lugar. 
E, na minha vida, há, claramente um antes e um depois da tua partida. Mas, na nossa, enquanto família, há o que éramos contigo e o que nos tornámos, sem ti. Há sempre uma tristeza latente nos olhares e um cruzar de memórias com sorrisos ternos que escondem mágoas profundas. Agora vejo muito mais do que via e sei muito mais do que sabia. Estou desperta a sons, cheiros e percepções que não queria ver - e tantas vezes que digo que era melhor ser cega, porque ser cega trazia menos desespero interno. No entanto, a tua morte ensinou-me que a vida não pára, só corre. E sei que houve momentos que achei que não ia aguentar. Sei que houve momentos em que quase não quis aguentar. Sei que falei muito contigo nos caminhos que percorria. Sei que senti muitas lágrimas a escorrerem pela minha cara. Sei que pensei muitas vezes não ser quem tu querias que eu fosse. Sei que tenho tanto medo de te desiludir. Sei que não sou quem sonhavas. Mas também não sei se eras capaz de me amar incondicionalmente, independentemente das minhas escolhas - e agora nunca saberei. Mas quero honrar a tua vida e isso inclui viver a minha. Traçar o meu caminho, porque mesmo com todas as dificuldades, eu estou cá. Eu escolho viver e tu sabias disso, quando fazias o caminho para o trabalho e paravas em frente ao hospital, olhavas para a janela e me pedias para ter força. Eu tive, avô. Eu tenho. E tenho que encontrar mais agora desde que não estás. 
Dizias, muitas vezes, que íamos sentir muito a falta do velho, como se soubesses que o fim se aproximava. E eu agora digo-te que a tua falta sente-se em todos os momentos, há um silêncio estranho em todas as casas, particularmente nas tuas, o teu lugar já não está ocupado à mesa e há menos histórias. Repetias tantas, tantas vezes e agora só queria ter questionado mais, ouvido mais, sabido melhor. Há menos alegria no ar e menos cantorias como som de fundo. Há um desiquilíbrio profundo desde que partiste - em mim e não só, em todos. Talvez tudo se torne mais fácil com a passagem do tempo mas desconfio que será muito difícil curar a forma como partiste, em mim. Um ano sem ti, meu avô Zé. Estejas onde estiveres, és luz. Sempre. 

sábado, 20 de abril de 2019

«Parece que, finalmente, chegaste onde ela queria e lhe deste o que ela queria. Felicidades para ela. 
Agora que isso já aconteceu, cuida de ti, Rosa. Porque ela não o está a fazer. Nem tem feito, nos últimos tempos. Isto até pode ser clichê, mas não há ninguém melhor que tu para cuidares de ti. Há que a pessoa que mais o devia fazer, não faz.
Ela levou-te ao limite pelo puro "prazer/orgulho" de te ter a dizer o que ela queria e como ela queria. Mesmo depois de todas as merdas que lhe disseste.
Sim, certamente também erraste. E sim, não te devias ter passado porque isso não é a solução para nada. Mas lá está, se aconteceu, houve algo por trás. E ela, como tu dizes, esteve cega de tudo.
E agora que teve o que queria, já vem toda cordeirinho falar contigo. É ridículo. 
Cuida de ti, Rosa. Mesmo. Porque ela neste momento não merece nada de ti.
E não te digo que isto é o fim de tudo e etc etc. Isso é algo que tu decidirás para a semana. Mas neste momento, agora, ela não te merece. Nem que tu te partas mais um bocado por ela. Já chega como estás.»

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Agora só consigo escrever: Obrigada, Ana. Pelo abanão. 
Podia ter sido tão melhor hoje do que fui. Sei disso. Mas, ainda assim, levei com um choque eléctrico mal li estas pequenas palavras. São curtas mas intensas. Só sei que hoje não consegui passar em frente e ultrapassar. Não consegui colocar para trás das costas e ser melhor. Sei que dei o meu melhor. Não chorei no meio da rua, embora tenha começado a chorar. Não deixei de andar quando me senti em pânico. Não faltei aos meus compromissos. Não fui tão besta como o meu cérebro me gritava. Estou demasiado magoada, não vai passar tão cedo. Mas também sei que errei. Já pedi desculpa, voltarei a pedir entretanto depois de tudo acalmar. É uma das coisas que ando a tentar mudar em mim; quando tudo acalma, pedir desculpa outra vez. Porque sei reconhecer os meus erros e os meus comportamentos menos bons. Só gostava de sentir que não sou a única - e sinto, e vejo, e dói.

quarta-feira, 17 de abril de 2019


Talvez hoje pudesse ter sido melhor em muitas alturas e não fui capaz. Mas dei por mim a ter vontade de estragar tudo em tantas alturas e não o fiz - isso tem que demonstrar que alguma coisa mudou dentro de mim... Sei que deixei que tudo gritasse e que cedi à tentação de iniciar uma discussão que só me ia deixar ainda mais desgastada. Se já estou mal, não posso contribuir para a minha própria dor. Acho que o pior é que estou a sentir um acumular de mágoa em mim e não estou a saber sair deste ciclo. Só sei que consegui parar de todas as vezes que ia voltar a ser a pessoa que critica e precisa de demonstrar demasiado o que sente; sei que consegui afastar-me do centro da confusão em que me estava a tornar. E isso tem que valer para que eu deite a cabeça na almofada e esteja o mais tranquila possível com o meu comportamento. Só sei que tudo em mim dói e que o meu peito arde demasiado. A dor. Tanta dor. 

terça-feira, 16 de abril de 2019


A primeira frase que me disseste foi "temos coisas para falar" e eu respondi que sabia - talvez o quisesse mais do que tu, há mais tempo do que tu, por motivos diferentes dos teus. Não o disseste em voz alta, para toda a gente ouvir, como era o meu medo, mas sim dentro do abraço forte com o qual me presenteaste mal me viste. Menos um medo dentro de mim, só faltava apagar mais uns quantos focos de incêndio e ficaria tudo bem. Não paro de pensar na coragem que tive para te pedir para conversarmos. Isso foi impulsivo em mim como poucas coisas são - porque o impulso dói. E depois disso achei mesmo que não iríamos falar, porque não ia voltar a ganhar coragem nem ia insistir - eu já deixei de insistir. Estou a aprender a respeitar o meu espaço e o dos outros e a respeitar que as pessoas podem querer o mesmo que eu ou não, e isso não faz mal. Pode magoar-me mas não é absolutamente errado.
E não param de me dançar na memória as frases que trocamos nos minutos em que estivemos juntas, banhadas pela luz da lua. Não fazia sentido de outra forma porque assim, quase sem luz, tive menos tempo de sentir vergonha. Quase não nos conseguíamos distinguir e isso ajudou-me a puxar os fios. Comecei no mais fácil, no que é mais simples e fui escalando a montanha sem me aperceber do que escalava. Só com a certeza de que não ia voltar atrás, já há muito tempo que desejava só partilhar pensamentos não pensados contigo. Acho que sempre senti uma energia diferente dentro de ti mas ganhaste-me totalmente quando ficaste comigo, quando eu não conseguia entrar na capela. Nunca vou esquecer esse gesto. O meu descontrolo encontrou um pouso concreto onde acalmar nessa noite. 
Tu e esta conversa marcaram um pequeno progresso em mim que quero assinalar como vitória. Eu estou a dar-me ao outro, apesar do medo da queda. Eu estou a confiar, apesar de achar que não deveria. Eu estou a partilhar a minha verdade e a minha essência, mesmo quando me rebelo contra... Mim própria. Eu já nem sei contra quem é a minha luta. Sinto que, um dia, o Dragão vai matar-me. Até lá estou a tentar não o alimentar e alimentar a minha luz. A minha paz interior constrói-se muito lentamente...  E tenho muito medo de não ter capacidade de a construir em melhores alicerces. Porque a cabeça onde habito não é, nunca foi, e duvido que algum dia possa ser, a minha melhor amiga. Por enquanto, só sinto que tenho a cabeça às voltas com a nossa conversa, sinto que acabou por acontecer o que me acontece tantas vezes - quando dói, bloqueio. Só sei que tenho muita pena que tenhamos sido interrompidas.

terça-feira, 9 de abril de 2019


Sem me aperceber que estou a fazer isso, vou entregando pequenos pedaços da minha verdade e sei que só acontece depois de o verbalizar em voz alta, aí, no meu sítio seguro. Onde não há nada proibido. Onde tudo é possível de ser sentido e explicado. Onde podemos assumir que os pequenos passos, para os olhos de todos os que estão fora daquelas paredes, são para nós (mim) vitórias passíveis de celebração. Que o que levo comigo seja, também, a capacidade de ver sem receio disso, as minhas mudanças. 
Já tantas vezes assumi que não há verdade maior do que este caminho que estou a construir, estes pés na terra, este contacto com o meu eu que deixei perdido algures no tempo... Estou a ganhar confiança e consistência. É um caminho com muitos tropeços, com muitas mazelas e com uma dor profunda que já estranho quando acalma. Mas é o meu caminho e só consigo sentir orgulho (e dor) quando deito a cabeça na almofada no final de mais um dia onde senti que dei mais de mim ao outro. O medo inqualificável de que me vão deixar cair, de que me vão magoar, de que não posso confiar, começa a esbater-se porque me ensina semana após semana, que é possível confiar em alguém de olhos fechados. E o quanto eu procurei o que temos vindo a construir... Nunca lhe disse - talvez um dia lhe diga - que durante vários anos o meu escape foi aproximar-me de professores. Falar com eles sobre a (minha) vida. Houve os que deixaram marcas intensas em mim de tal forma que ainda sei quem são, onde estão. E sei que guardam pedaços de mim. Naquela altura, e sei-o agora,  tentava fazer o que faço hoje, com a psicoterapia. É estranho como nós arranjamos sempre forma de ter o que precisamos... De uma forma ou de outra. A nossa mente é um lugar complexo mas arranja sempre forma de se curar.
Há muita coisa que preciso de desbloquear sobre esta semana. Há um medo profundo de não conseguir fazê-lo e de ficar em falta para comigo própria... Voltar a afastar-me dos que estão à minha volta e que não têm culpa nenhuma de nada. Mas acho que se há frase que resume tudo o que se passou ontem é "Sai sempre daqui remexida? (aceno) Eu sei, é como se estivesse a tocar em carne viva.", pode ter havido uma continuação deste trecho, e houve, mas resume tão bem o que estou a tentar abafar que nem mais capacidade tenho de escrever depois disto.

quarta-feira, 3 de abril de 2019


Disse-me, várias vezes - e já não é a primeira vez que o diz - que me sente, sobretudo, muito irritada. E agora, em retrospectiva ou em modo futuro e presente, eu sei que me irrito, mas não mostro. Eu não sei lidar com as minhas emoções e expressa-las corretamente, para fora do meu corpo. A forma como eu sempre lidei com tudo o que sentia de mais profundo foi colocar para dentro e não mostrar. E estarmos a fazer este trabalho conjunto vai-me permitindo perceber que posso ir dizendo pequenas coisas e que não faz mal quando não são apreendidas da forma que eu esperava. Ou melhor, faz mal, mas não faz porque são mais vitórias minhas que derrotas - porque eu disse, porque eu consegui dizer. E a propósito disto, da irritação que diz que sente em mim, disse-me também, que não fazia mal zangar-me. Que, de certeza, já me tinha zangado e que não fazia mal aparecer zangada [acho que mais facilmente apareci magoada mas passa quando a vejo e me sorri e eu sei que estou segura, ou passa durante a semana em que me consigo acalmar e acontecem mil coisas ao mesmo tempo]. "Pode zangar-se comigo. Não comigo, Teresa, mas com o que represento." e eu respondi-lhe, a rir, que realmente me zangava mas apenas durante cinco segundos. E seguimos em frente até que a minha boca abriu e não saiu um som... E continuou a falar, talvez tenha sido tão breve que nem se apercebeu deste meu movimento, mas questionei baixinho uns momentos depois "Como é que eu posso zangar-me com a única pessoa que me ouve assim?". Porque não posso. Não posso zangar-me, nem tenho motivos para isso, com a pessoa que ouve tudo o digo sem pestanejar. Que me diz que não me falham as palavras. Que me abre os olhos quando nem queria. Que me dá colo quando nem sabia que precisava. Não são palmadas nas costas e não é chamar-me coitadinha - nunca o fez, não o fará. E isso faz-me crescer. 
Diz-me que eu deveria ter em atenção as minhas questões e que ambas sabemos o porquê das atitudes que vou tendo, da falta de confiança de que me vão agarrar quando precisar disso. Diz-me, especialmente, que a posição dela é muito complicada. E eu disse-lhe que poderia ser, no entanto, as atitudes não ajudavam nada... Respondeu-me que eu não estava a perceber, que não estava a desculpar as atitudes nem estava do lado dela. Mas que, com ela, era sempre mais fácil discutir. E depois abriu um sorriso de quem me conhece profundamente, de quem conhece cantos de mim que nem eu sei que existem, de quem sabe tudo o que está por detrás de cada palavra que digo e de quem tem uma paciência infinita para me mostrar quem sou. Esse riso, que tem um toque de gozo, é daqueles que fica sempre comigo o resto da semana e me passa, muitas vezes, pela cabeça. Está, muitas vezes, dentro de mim, como costuma dizer. Costuma dizer que vem comigo e é verdade. 

Eu disse que tinha medo do que pudesse sentir na consulta de terça feira uma vez que me tinha sentido tão presa aos aspectos positivos da consulta de sexta feira que tinha escolhido ignorar os lados maus e a forma como fui puxada para a realidade fez com que os três dias seguintes fossem passados numa espécie de letargia estranha em que não sabia bem o que sentia - nem como me iria aguentar até conseguir dizer alguma coisa e me ouvir, como só quando é a minha única interlocutora se torna possível. Posso dizer frases pontuais às pessoas que me rodeiam e até achar que estou a fazer desabafos mais profundos mas sei que nunca vão ser apreendidos da forma que seriam - que são - quando somos só nós as duas. O meu maior medo era que voltasse a acontecer tudo outra vez e sabia que teria que ter os pés bem assentes no chão para não me deixar levar pela sensação de que finalmente estava a atingir uma etapa que tanto precisava e que tanto demorou. Sentia-me tão nervosa que todo o meu corpo tremia, enquanto sentada na sala de espera. Espasmos daqueles visíveis que não me importo de ter ao pé de duas pessoas mas que morro de vergonha que aconteçam perante outros olhares. Estava com tanto medo e saí completamente rendida, com um termo de comparação que me fez ver que deveria andar mesmo com os pés no chão e não nas nuvens. O facto de os exames terem sido pedidos naquele momento e de não me ter deixado sair do hospital sem os realizar são provas de que alguma coisa preocupou a doutora. Isso e a frase sobre as cicatrizes antigas, de infecções não curadas - ouço-a tão claramente que me dói -, são provas para apresentar no meu tribunal cerebral de que não estou maluca e que as minhas dores foram sendo caladas. O mais grave no meio de tudo isto são as questões que há três sessões deixa no ar "Quantas dores guardou? Quantas dores desistiu de dizer em voz alta? Quantas infecções curaram sozinhas? Quantas dores calou?". Estou ansiosa para conversarmos sobre a consulta de terça feira, para lhe dizer que o meu medo passou - em parte, pelo menos. O medo de não ser bem acompanhada e de não encontrar alguém que sentisse que se preocupou genuinamente. O sorriso da doutora, as questões sobre mim, a preocupação sobre todos os meus hábitos e a forma como vim ao mundo fizeram com que eu acalmasse este meu lado meio aflito perante o tratamento de poucos dias antes. Mas o medo de que todos os exames que eu fizer permaneçam normais e que nada me seja diagnosticado por assim dizer... Não basta só a minha descrição do género de dor e uma medicação associada a isso - que vou tomar direitinha porque estou focada na minha saúde, muito mais do que até aqui. Não basta só isto para me tranquilizar e eu não sei o que poderia tranquilizar-me. Disse em voz alta, pela primeira vez e talvez a única, que tenho medo que tudo seja normal e que as minhas dores permaneçam e falou-me em Psiquiatria e o meu cérebro já nem centra a altura em que isso aconteceu. O meu medo com as minhas dores nos ouvidos - ou sensações ou o que raio é isto que não desaparece - fez-me dizer, já duas ou três vezes, que tenho medo de ter tomado medicação durante tanto tempo que o meu corpo simplesmente se habituou a ela; soltou um "Calma lá, que isso não é assim!" E pode perfeitamente não o ser mas as minhas dores aparecem vindas de onde? Que explicação é que há para a sua continuidade? 
Estou só a escrever à medida que sinto o meu ritmo cardíaco a acalmar e a dor no peito a diminuir de intensidade, sem pensar muito no encadeamento da escrita, sem pensar muito no que devo dizer a seguir. É um pouco como estando aí, há uma altura em que me solto totalmente e sou só eu - o ser - e é a altura mais bonita de todas. Quando lhe falei de toda a consulta e todo o pós consulta e lhe disse que me sentia abananada perante todos os acontecimentos, enviou-me de volta a minha confusão, até disse que também se sentia assim... Talvez fosse normal porque começou a ver ligações que eu não (quis) vi(er) ["Ela mete a culpa na médica..."]. Disse-me, depois, que sabia que estava sempre a insistir neste assunto mas... e fez-me dizer, em voz muito baixa, aquilo que já repeti muitas vezes "acho que eles não iam aguentar", porque já fiz muito mal, porque já causei muito sofrimento, porque já esgotei muitas forças e porque não quero ser mais um peso. E durante tanto tempo calei tanta coisa que aquilo que mais ouço agora é que estou insubordinada e insolente, que saí da casca, que tenho que voltar a tomar a medicação para me acalmar - e essas palavras doem, mas, ao mesmo tempo, são também uma pequena vitória deste (longo) caminho que tem sido tão duro de percorrer.