Acho que nunca estamos preparados para levar com um golpe e quando a bomba vem, aparece sem avisar. Foi isso que aconteceu e foi por isso que o meu cérebro parou e questionou várias vezes se era tudo mesmo verdade. E só umas horas depois começou a articular algum género de pensamento concreto e o primeiro nem foi sobre mim... O que lhe vai acontecer exatamente? Quer dizer que vai perder este emprego? Ou que, simplesmente, as funções vão mudar e vai ter outras valências? Tenho o cérebro a processar tudo isto de uma forma muito lenta porque não quero lidar com esta informação. Eu sei que teria que sair, que algum dia iria acontecer, que não poderia ser acompanhada eternamente mas há tanta coisa que só ali deixo... Há tanto de mim que só ali sou. Que não consigo ser em mais lado nenhum. Assusta-me, verdadeiramente, a possibilidade de termos que terminar isto sem eu sentir que posso ser capaz de caminhar sozinha. Já uma vez nos aproximamos deste fim e já uma vez me disse que, nessa altura, eu lutei com unhas e dentes para ficar, mesmo que eu não o tenha feito de forma absolutamente consciente. No entanto, este fim é diferente e mais definitivo e é isso que me revolta o ser. Que me revoltou tanto que nem consegui encontrar palavras para expressar o que estava a sentir sem ser repetir se era mesmo verdade... Eu quis, dizer tudo ali, levar com o primeiro impacto ali, porque ali estava comigo e eu não trazia tanta dor cá para fora, mas não sei se fui bem sucedida neste meu querer.
Ter iniciado com esta bomba mudou tudo, mudou toda a minha capacidade de me aguentar com tudo o que aí vinha e a minha cabeça só explodia mais e mais. Tic-tac. Tenho - temos - dois meses para decidir o que é que eu consigo fazer a partir daqui. E eu sei que não há forma de construir uma relação destas com mais ninguém. A confiança é uma base profunda e eu confio de olhos fechados que não me vai deixar cair. É em si. É por sua causa. Como é que eu posso imaginar que vou ter isso com outra pessoa? Por muito que me diga que não vai ser a primeira vez e que já vou estar habituada à sensação... É completamente diferente reconstruir tudo de novo. E não é consigo. E com outra pessoa qualquer, mesmo que seja da sua inteira confiança. Dói-me tanto tudo isto. E eu demorei quase três anos a deixar-me ir... Como e quanto tempo vou demorar com outra pessoa?
"Tem assim tantas dúvidas da relação que temos?", disse-me, às tantas, depois de lhe confessar que tinha ficado tão magoada a semana passada... Essa relação que temos permitiu-me dizer que tinha ficado magoada. "Comigo, com o que eu disse, ou consigo?", com tudo... Porque era uma coisa que sabíamos que estava lá mas não se dizia e destapou-a. "Então queria o mesmo funcionamento de casa?" e cada pergunta era mais uma ferida a arder dentro de mim. Tal como disse, clicou numa tecla qualquer tão verdadeira que me incendiou por dentro e, ao mesmo tempo, me fez questionar o meu comportamento... A zanga, a agressividade, a raiva, a dor, podem ser sentidas para fora e não para dentro. Para dentro destroem-me. É sobre isso que nos temos debatido nas últimas sessões e vamos continuar nessa viagem de uma maior conexão comigo, uma viagem dolorosa e profunda. Da qual quero fugir. Mas não fujo porque está ali e há uma confiança cega apesar da dor.
O meu único medo era de que eu fosse vista como uma mentira, dissimulada, e que o cuidado com que caminho fosse visto dessa forma. Disse-me que não. Que não (me) via assim. E isso descansou-me porque não quero ser vista dessa forma pela única pessoa que vê todos os meus lados e que sabe que me conhece como ninguém. A pessoa que me olha e vê quem realmente sou, que não tem medo de me desconstruir, que diz que não posso ter medo que me odeie. A pessoa que vê o meu corpo a tremer e que me faz rir disso. Como é que é suposto isto tudo acabar quando eu não estou minimamente preparada para que acabe? Dói muito percorrer este caminho mas dói mais saber que vai acabar.
