Eu preciso de escrever sobre o que foi voltar mas acho que me está demasiado marcado no corpo para conseguir ter palavras que expliquem a segurança que senti ao voltar ao meu espaço seguro, àquelas paredes, ao quadro em cima do divã que olho tantas vezes quando não a consigo olhar nos olhos, à janela ao meu lado direito. E sobretudo à certeza de a ter comigo. No mesmo espaço físico. Ao seu olhar preso no meu. Ao sorriso com que me brinda sempre a espera. E ao meu corpo a tremer ao som do meu medo. O medo de ter deixado de saber fazer isto.
Sentia-me demasiado irrequieta. Estava tão nervosa que acabei por "vomitar" em golfadas, sem qualquer controlo... O mais estranho de tudo foi a minha reacção corporal. Normalmente sou quieta - tirando todos os momentos que tremo, o meu corpo mantém-se preso e seguro - e, desta vez, senti-me sempre a mexer, sempre a esbracejar, sempre a tocar nas minhas próprias mãos, como se senti-las me pudesse acalmar, como se me estivesse a relembrar que estava mesmo ali. Sempre a tremer profundamente. No entanto, quando saí, foi com uma sensação de calma que me deixou absolutamente tranquila. Até perceber que durou perto de 10 minutos. Caminhava com uma certeza no peito de que, afinal, ainda sabia fazer isto. Ou que o facto de a ter comigo, à minha frente, me ajuda a sentir que sim. E, depois desses 10 minutos iniciais em que tudo pareceu tão simples, caí por um poço fundo do qual não sei se saí entretanto... Fazia-me imensa falta a viagem até casa para me voltar a sentir minimamente humana e conseguir aparecer como se nada se tivesse passado. Fazia-me falta a sensação de ter tempo de lidar com a dor e poder guardá-la num canto de mim, caso ainda não fosse capaz. Fazia-me falta a ida e a volta, em que, como dissemos há umas semanas atrás, me permitia entrar no mood e me libertar dele - ou quase.
Saber que íamos resgatar a sessão anterior - ou que eu ia fazê-lo, neste caso - deixou-me entre sentimentos que não conseguia bem definir. E que, ainda agora, não consigo retirar de mim. Quando me senti com coragem de avançar para o assunto disse-me que era para apenas deixar fluir... E eu expliquei que tinha ficado demasiado cheia com a forma como tínhamos terminado, que não poderia ter acontecido daquela forma porque me deixou desorganizada por dentro. "Às vezes acontece, termos que acabar uma sessão e não termos mais tempo para pensar sobre as coisas. Pois, mas eu fiquei com aquela bomba nas minhas mãos, sozinha. O que é que pensou? Que merda foi esta?" Sei que falámos sobre o assunto e sei que me acalmou mas não me recordo exactamente de qualquer conjunto de palavras que tenha dito que tenha levado a esse acalmar. Saber que percebeu logo qual é que seria o meu medo e que o disse em vez de eu o dizer, poupou-me ao sofrimento de ter de o apontar em voz alta e de me deixar, ainda mais, desorganizada por dentro. Caminhámos às voltas do mesmo e tenho a sensação de que vamos caminhar ainda durante algum tempo... Disse-me, às tantas, que tinha sido tudo demasiado violento e, à medida que desenrolávamos o fio, fomos encontrando outros adjectivos para compor a minha memória, como cru e gráfico e, sobretudo, o pornográfico da sessão anterior. E o meu corpo tremia incontrolavelmente. Disse-me, com tanta convicção, que a sexualidade não era nada disso. E eu agora acrescento que a própria intimidade com alguém o é ainda menos. Já depois de me questionar de forma tão directa e tão incisiva por várias vezes, em que eu sinto que mal reagia, disse-me que ali poderia questionar-me mas nunca, mesmo nunca, dessa forma. Tão crua. Tão nua. Tão directa. Como se espreitasse pela fechadura de uma porta. E, sobretudo, que eu poderia ser capaz de me defender agora, como não fui capaz antes. E que poderia ser capaz de dizer que não tenho que falar da minha vida e que não tenho que dar esses detalhes. Mas não. Eu sinto sempre que não. Sinto que, quanto a isto, serei sempre aquela pessoa que não se conseguiu defender e cujas palavras ficaram presas na garganta. Porque eu não me recordo de ter falado. E, a medo, questionei "Isto é mesmo um trauma, não é?" e anuiu, sem qualquer palavra, e isso bastou-me e acalmou um lado meu inquieto há tempo demais. Ao fim de tantos anos, consegui ter capacidade de perguntar e perceber que há mesmo em mim uma ferida muito profunda e considero-o uma vitória. No entanto, tenho a perfeita noção de que após isso houve uma conversa sobre o assunto da qual não tenho qualquer memória. Só me recordo dos nossos risos depois de eu ter dito que precisava de fazer alguma coisa para me recordar de tudo o que aconteceu e podermos trabalhar a partir daí. E de ter questionado se eu estava a pensar numa espécie de hipnose. Se isso me garantisse que eu ia ao passado, trazia de lá o guião e voltava minimamente inteira, eu era capaz de o fazer. Mas nunca noutras mãos.