sexta-feira, 29 de maio de 2020

Eu quero que tu fiques. Mas tu não queres ficar. 

Tenho seguido à risca a minha promessa de me manter afastada de ti - de não te procurar. E tens sido tu a vir ter comigo. A procurar-me. Ainda que pontualmente. E que não fiques o tempo suficiente para que exista uma conversa de verdade. Às vezes penso que o que me fazia falta era uma última conversa, uma última vez, cara a cara, olhos nos olhos. Eu tentei fazer isso, embora não tenha sido muito específica. E tu tentaste apenas ir para a cama comigo...

Às vezes penso que a nossa história não acabou. Que não pode acabar aqui, assim. Que há mais para nós reservado no futuro. E não sei se esta dor do que está por vir me entorpece ainda mais ou me dá força para o que está a acontecer. E, às vezes, acho que tudo isto é só um jogo teu para me provares que vais embora se eu não me mexer. E acho que nunca vou saber a verdade sobre essa espécie de chantagem emocional que sinto que podes estar a fazer comigo. "Porque esse é um jogo muito perigoso." Perigoso porquê? Agora que penso, não questionei... Mas talvez seja porque não vai levar a lado nenhum. E só vai trazer mais dor.
Há coisas que só digo com os seus olhos como interlocutores.

domingo, 24 de maio de 2020

Eu preciso de escrever sobre o que foi voltar mas acho que me está demasiado marcado no corpo para conseguir ter palavras que expliquem a segurança que senti ao voltar ao meu espaço seguro, àquelas paredes, ao quadro em cima do divã que olho tantas vezes quando não a consigo olhar nos olhos, à janela ao meu lado direito. E sobretudo à certeza de a ter comigo. No mesmo espaço físico. Ao seu olhar preso no meu. Ao sorriso com que me brinda sempre a espera. E ao meu corpo a tremer ao som do meu medo. O medo de ter deixado de saber fazer isto. 
Sentia-me demasiado irrequieta. Estava tão nervosa que acabei por "vomitar" em golfadas, sem qualquer controlo... O mais estranho de tudo foi a minha reacção corporal. Normalmente sou quieta - tirando todos os momentos que tremo, o meu corpo mantém-se preso e seguro - e, desta vez, senti-me sempre a mexer, sempre a esbracejar, sempre a tocar nas minhas próprias mãos, como se senti-las me pudesse acalmar, como se me estivesse a relembrar que estava mesmo ali. Sempre a tremer profundamente. No entanto, quando saí, foi com uma sensação de calma que me deixou absolutamente tranquila. Até perceber que durou perto de 10 minutos. Caminhava com uma certeza no peito de que, afinal, ainda sabia fazer isto. Ou que o facto de a ter comigo, à minha frente, me ajuda a sentir que sim. E, depois desses 10 minutos iniciais em que tudo pareceu tão simples, caí por um poço fundo do qual não sei se saí entretanto... Fazia-me imensa falta a viagem até casa para me voltar a sentir minimamente humana e conseguir aparecer como se nada se tivesse passado. Fazia-me falta a sensação de ter tempo de lidar com a dor e poder guardá-la num canto de mim, caso ainda não fosse capaz. Fazia-me falta a ida e a volta, em que, como dissemos há umas semanas atrás, me permitia entrar no mood e me libertar dele - ou quase. 
Saber que íamos resgatar a sessão anterior - ou que eu ia fazê-lo, neste caso - deixou-me entre sentimentos que não conseguia bem definir. E que, ainda agora, não consigo retirar de mim. Quando me senti com coragem de avançar para o assunto disse-me que era para apenas deixar fluir... E eu expliquei que tinha ficado demasiado cheia com a forma como tínhamos terminado, que não poderia ter acontecido daquela forma porque me deixou desorganizada por dentro. "Às vezes acontece, termos que acabar uma sessão e não termos mais tempo para pensar sobre as coisas. Pois, mas eu fiquei com aquela bomba nas minhas mãos, sozinha. O que é que pensou? Que merda foi esta?" Sei que falámos sobre o assunto e sei que me acalmou mas não me recordo exactamente de qualquer conjunto de palavras que tenha dito que tenha levado a esse acalmar. Saber que percebeu logo qual é que seria o meu medo e que o disse em vez de eu o dizer, poupou-me ao sofrimento de ter de o apontar em voz alta e de me deixar, ainda mais, desorganizada por dentro. Caminhámos às voltas do mesmo e tenho a sensação de que vamos caminhar ainda durante algum tempo... Disse-me, às tantas, que tinha sido tudo demasiado violento e, à medida que desenrolávamos o fio, fomos encontrando outros adjectivos para compor a minha memória, como cru e gráfico e, sobretudo, o pornográfico da sessão anterior. E o meu corpo tremia incontrolavelmente. Disse-me, com tanta convicção, que a sexualidade não era nada disso. E eu agora acrescento que a própria intimidade com alguém o é ainda menos. Já depois de me questionar de forma tão directa e tão incisiva por várias vezes, em que eu sinto que mal reagia, disse-me que ali poderia questionar-me mas nunca, mesmo nunca, dessa forma. Tão crua. Tão nua. Tão directa. Como se espreitasse pela fechadura de uma porta. E, sobretudo, que eu poderia ser capaz de me defender agora, como não fui capaz antes. E que poderia ser capaz de dizer que não tenho que falar da minha vida e que não tenho que dar esses detalhes. Mas não. Eu sinto sempre que não. Sinto que, quanto a isto, serei sempre aquela pessoa que não se conseguiu defender e cujas palavras ficaram presas na garganta. Porque eu não me recordo de ter falado. E, a medo, questionei "Isto é mesmo um trauma, não é?" e anuiu, sem qualquer palavra, e isso bastou-me e acalmou um lado meu inquieto há tempo demais. Ao fim de tantos anos, consegui ter capacidade de perguntar e perceber que há mesmo em mim uma ferida muito profunda e considero-o uma vitória. No entanto, tenho a perfeita noção de que após isso houve uma conversa sobre o assunto da qual não tenho qualquer memória. Só me recordo dos nossos risos depois de eu ter dito que precisava de fazer alguma coisa para me recordar de tudo o que aconteceu e podermos trabalhar a partir daí. E de ter questionado se eu estava a pensar numa espécie de hipnose. Se isso me garantisse que eu ia ao passado, trazia de lá o guião e voltava minimamente inteira, eu era capaz de o fazer. Mas nunca noutras mãos. 

sábado, 16 de maio de 2020

«The intimacy of being listened to»

Sei que preciso de escrever desde que desliguei a chamada, desde que fiquei sozinha sem o som da sua voz. Principalmente porque foi daquelas alturas em que senti que tive que sair sem estar minimamente preparada para isso, como se a conversa tivesse ficado a meio e me tivesse deixado completamente desnorteada. Foi como se a minha bússola tivesse ficado avariada e, por isso, com o cérebro em branco e completamente entorpecida. Acho que fiquei assim até me deitar e ter deitado algumas lágrimas, sem conseguir realmente falar no assunto, mas a precisar urgentemente de o fazer - era tão pesado que passei uma noite estranhamente em branco, onde parecia que não estava a dormir serenamente mas sim a acordar de hora a hora com frases ditas durante toda a sessão. Passei o dia de ontem com dores de cabeça aflitivas e, à noite depois de ter iniciado uma conversa sobre o final da minha relação, senti que o meu corpo ia desligar, que não estava a suportar realmente lidar com as últimas horas, que estavam a ser demasiado para mim. As dores, a conversa, a sessão... 
Desde que desliguei a chamada, sabia que precisava de escrever só que tive medo - e ainda tenho, apesar de estar a fazê-lo - de abrir um documento e deixar as palavras fluir, olhar o branco estava a assustar-me, talvez porque o meu cérebro ficou em branco... Escrever e apagar, escrever e apagar. Quase como se não encontrasse realmente o sentido de estar a escrever porque poderia não me ajudar a encontrar o sentido a tudo o que foi dito. 
Saber que, quando eu não estava minimamente à espera, me diz que é possível regressarmos e que sabe que eu preciso urgentemente do meu espaço seguro, que vamos ter em atenção todas as medidas de segurança e que para a semana nos vamos voltar a ver depois de quase dois meses... Dizer-me que está a fazer algumas pessoas regressar e que, por tudo o que fomos falando, pensou logo em mim... Só me faz sentir um enorme carinho e sorte. Sorte, sobretudo, por ter encontrado alguém que cuida de mim de uma forma tão bonita como esta. 
Retomar presencialmente está, de certo modo, a causar-me ansiedade. E eu sei que está porque ainda não consegui falar sobre o assunto em voz alta. Será que vou demorar realmente a entrar como sempre? Será que vou simplesmente desatar a chorar? Ou será que não vou conseguir discernir sequer o que estou a sentir? E apenas tremer profundamente? O que é que o corpo quer dizer que as palavras não conseguem? Tenho muita vontade de regressar e muito receio, ao mesmo tempo. Sinto que já não estou habituada a lidar com uma sessão...
Acho que, indiretamente, sentia que esta sessão ia ser absolutamente marcante porque umas horas antes de acontecer dizia que sentia que seria o inferno. E uns minutos antes de sair de casa sofri uma descarga tão grande que o meu corpo não parava de tremer e fiquei realmente assustada... E termos começado pelo regresso e pela falta que eu sinto de um abraço e me ter dito que o facto de irmos retomar seria como o abraço que preciso... É um poema.
Sabia que tinha deixado um assunto pendente na semana anterior, situação que me tinha deixado profundamente frustrada e sabia que o iria abordar. Só não estava a contar com a confusão que se instalou em mim depois da nossa conversa. No meio do meu assumir da minha última tentativa de falar com alguém que me tem provado vez e vez seguida que não precisa disso, confessei-lhe que andava a ler conversas antigas e que tinha percebido que os nossos problemas vinham de há muito tempo... Eu já sabia mas parece que ganhei uma outra noção e lembro-me de me ter dito que eu estava a tentar encontrar um sentido para a forma como tudo acabou. E eu acho que estou a falhar redondamente nessa tarefa. Falámos sobre fazer o meu 25 de abril e gritar liberdade. Sobre se essa liberdade seria para ela ou para mim. Falámos sobre a porta que eu senti que fechou, sobre a porta que eu senti que ela fechou, depois de ter sentido há uns dias que a tinha entreaberto. E confundiu-me de uma forma que não estava à espera e simplesmente bloqueei por completo os largos minutos em que falámos sobre toda esta questão. Neste momento sinto que tudo o que tinha como garantido até termos falado pode estar errado e só queria voltar a rebobinar tudo para conseguir processar... O pior ainda estava para vir, porque foi o que não planeei e que simplesmente surgiu que, também contribuiu, para tudo o que tínhamos falado antes ficasse envolto numa espécie de névoa... Quase como se o meu cérebro apenas se focasse no que aconteceu a seguir. Custou-me muito admitir que há uma memória, mesmo que possa ser construída e não real, que me abalou os alicerces e que em dez anos tenho feito de conta que não existe... e quase pode justificar a maioria dos meus comportamentos. Ter-me dito que seria quase pornográfico e que teria quase um lado voyeuristico. Acho que o meu cérebro está com extrema dificuldade em processar tudo que dissemos... E ter terminado com a questão que deixou no ar é o que me está a deixar mais no chão: Afinal de quem era o desejo? Sei que no meio de tudo ainda questionou se eu também sentia que me iria julgar mas não, só sinto uma profunda segurança. Sobretudo sei que há uma intimidade muito profunda em ser verdadeiramente ouvida.

sábado, 9 de maio de 2020

Eu sei que te devia esquecer mas não dá. Tu estás em tudo. Não sais da minha cabeça e estás entranhada na minha pele. Lembro-me de ter dito que eras a minha droga uma vez e tenho cada vez mais a certeza disso. E o pior é que não sei se me quero ver livre de ti. Qualquer pedaço teu é melhor do que o silêncio que me rodeia quando não estás. [E ultimamente não estás. Mas quando estavas, às vezes, também não te sentia cá. E agora, como é que saio disto?] E o pior de tudo é que acredito que temos muito para dar uma à outra e que somos de ficar. Apesar de já teres ido. O que é de ti? Já foste. E eu fiquei aqui, à espera que queiras voltar.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Sobre segunda [e sobre o que não me saí da cabeça desde aí]:
S: Queres que te diga a primeira palavra que me veio à cabeça? Começa com "D" e tu não vais gostar.
I: Com "D"?
S: "Desiste".

Precisava tanto de ter falado sobre isto. Mas tanto. E sinto-me tão frustrada. Tão incrivelmente frustrada. Tão burra. Sou tão burra. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

20.04.2020

O dia em que o meu artigo foi aprovado. E eu sei que estás comigo. Porque não há nada mais poderoso do que o universo. És a minha luz. Meu avô. 
É tão estranho eu simplesmente já não planear nada... É como se eu soubesse que tenho uma rede de segurança. E eu sei que eu sempre senti segurança com ela, ou então já tinha desistido há muito tempo de fazer isto... Mas ver a forma como eu mudei. Antes eu precisava de fazer listas antes de entrar. Eu precisava de planear ao segundo tudo o que poderia dizer. E ficava aflita com todas as respostas e tudo o que me era enviado de volta, tudo o que não entendia, tudo o que não percepcionava. E acho que era por isto que eu tinha tanta necessidade de falar sobre o assunto de cada vez que saía. Porque me colocava fora de mim. Ou dentro de mim, na realidade. E lembro-me de, muitas vezes, ficar frustrada com a forma como as conversas corriam. Era, também, como se eu procurasse cá fora (lá fora, não sei bem) um pouco do que tinha lá dentro, com ela. Com o tempo fui percebendo que há coisas que são impossíveis de explicar aos outros. Fui sabendo gerir melhor esta sensação que se apodera de mim quando saio. Quando digo que não sou humana assim que saio, eu sinto mesmo que é como se a minha pele ficasse em ferida que demora a cicatrizar. Eu preciso de tempo para a deixar cicatrizar. E antes eu não sabia lidar com esse tempo que eu precisava. Agora acho que sei melhor, apesar de muitas vezes ainda me sentir desesperada com o que ouço, com as ligações que fazemos, com a verdade das coisas que digo. Há muita coisa que tive coragem de dizer duas vezes ou três na vida, e uma delas foi a ela. Eu já não tenho o medo profundo de me entregar (a ela) e ser livre, ali. Ser só eu. Ela hoje disse ser Rosa. E é ser Rosa. Eu posso ser Rosa com os meus amigos, mas é ser uma Rosa diferente... Não sei explicar a intensidade que esta Rosa dali tem. Hoje ela disse-me que eu era incómoda. Que eu era incomodava porque eu era a certeza de que alguma coisa não estava tão bem como parecia, porque mesmo que não se falasse, eu trazia a tensão acumulada em mim. "As coisas não são só o que se vêem." Repetiu-me isto hoje tantas vezes. Disse-me que deveria ser estranho para mim ter alguém que validava o que eu dizia. Ter alguém que não olhava para outro lado qualquer. Ter alguém que ouvia realmente o que eu sentia. E eu concordo, não me sinto muito habituada a isso e isso leva-me a um outro lado do que eu trouxe: talvez esteja a ser muito ingrata... Falamos sobre ingratidão, sobre eu ter uma casa e uma família, sobre ter mais do que muita gente tem e, ainda assim, criar problemas - que é o que tantas vezes ouço de mim, tantas que, por vezes, acredito mesmo que assim seja. Será que eu crio realmente os problemas ou que eles existem e eu estou só atenta a eles? Sou só uma esponja, como me chama?
Sinto muitas saudades do meu safe place. E acho que hoje percebi que não é o sítio físico, embora até aqui tenha pensado que eu sinto falta do local, do tempo, do espaço. É a pessoa. Eu sinto falta das reações humanas. Do sorriso. Sinto tanta falta do sorriso. De ver com os meus olhos e não só ouvir. Eu continuo a saber que ri, que ri com gosto das minhas piadas em relação a qualquer assunto. Mas ver... ver é muito maior e eu estou impedida de ver cada reacção a cada coisa que digo e é estranho porque, ao mesmo tempo, parece que me sinto mais liberta assim do que estando frente a frente com ela. O texto que encontrei esta semana, li-lho. Li-lhe a parte final. E depois fiquei absurdamente envergonhada. Porque ler algo meu em voz alta é de uma intimidade tão grande. Mas depois ela disse-me e eu estava a dizê-lo ao mesmo tempo que ela: que eu falava. E é tão íntimo como escrever. E não parava de tremer. O meu corpo sempre aos solavancos. Acho que nunca me vou mesmo habituar a esta sensação de perder a pele. De tocar a pele. De ser pele. De me despir completamente para outra pessoa. Sem merdas. É qualquer coisa de muito poderoso.

[A meditação guiada que comecei a fazer todas as noites desde a sexta feira santa, pela primeira vez, fez-me chorar na quarta feira à noite. E isso foi muito assustador para mim. E inesperado. E doloroso. Principalmente por tocar numa dor de uma perda que sinto, apesar de saber que não nos perdemos. Que ainda está aqui, comigo, ainda que de maneira diferente.]