Sei que preciso de escrever desde que desliguei a chamada, desde que fiquei sozinha sem o som da sua voz. Principalmente porque foi daquelas alturas em que senti que tive que sair sem estar minimamente preparada para isso, como se a conversa tivesse ficado a meio e me tivesse deixado completamente desnorteada. Foi como se a minha bússola tivesse ficado avariada e, por isso, com o cérebro em branco e completamente entorpecida. Acho que fiquei assim até me deitar e ter deitado algumas lágrimas, sem conseguir realmente falar no assunto, mas a precisar urgentemente de o fazer - era tão pesado que passei uma noite estranhamente em branco, onde parecia que não estava a dormir serenamente mas sim a acordar de hora a hora com frases ditas durante toda a sessão. Passei o dia de ontem com dores de cabeça aflitivas e, à noite depois de ter iniciado uma conversa sobre o final da minha relação, senti que o meu corpo ia desligar, que não estava a suportar realmente lidar com as últimas horas, que estavam a ser demasiado para mim. As dores, a conversa, a sessão...
Desde que desliguei a chamada, sabia que precisava de escrever só que tive medo - e ainda tenho, apesar de estar a fazê-lo - de abrir um documento e deixar as palavras fluir, olhar o branco estava a assustar-me, talvez porque o meu cérebro ficou em branco... Escrever e apagar, escrever e apagar. Quase como se não encontrasse realmente o sentido de estar a escrever porque poderia não me ajudar a encontrar o sentido a tudo o que foi dito.
Saber que, quando eu não estava minimamente à espera, me diz que é possível regressarmos e que sabe que eu preciso urgentemente do meu espaço seguro, que vamos ter em atenção todas as medidas de segurança e que para a semana nos vamos voltar a ver depois de quase dois meses... Dizer-me que está a fazer algumas pessoas regressar e que, por tudo o que fomos falando, pensou logo em mim... Só me faz sentir um enorme carinho e sorte. Sorte, sobretudo, por ter encontrado alguém que cuida de mim de uma forma tão bonita como esta.
Retomar presencialmente está, de certo modo, a causar-me ansiedade. E eu sei que está porque ainda não consegui falar sobre o assunto em voz alta. Será que vou demorar realmente a entrar como sempre? Será que vou simplesmente desatar a chorar? Ou será que não vou conseguir discernir sequer o que estou a sentir? E apenas tremer profundamente? O que é que o corpo quer dizer que as palavras não conseguem? Tenho muita vontade de regressar e muito receio, ao mesmo tempo. Sinto que já não estou habituada a lidar com uma sessão...
Acho que, indiretamente, sentia que esta sessão ia ser absolutamente marcante porque umas horas antes de acontecer dizia que sentia que seria o inferno. E uns minutos antes de sair de casa sofri uma descarga tão grande que o meu corpo não parava de tremer e fiquei realmente assustada... E termos começado pelo regresso e pela falta que eu sinto de um abraço e me ter dito que o facto de irmos retomar seria como o abraço que preciso... É um poema.
Sabia que tinha deixado um assunto pendente na semana anterior, situação que me tinha deixado profundamente frustrada e sabia que o iria abordar. Só não estava a contar com a confusão que se instalou em mim depois da nossa conversa. No meio do meu assumir da minha última tentativa de falar com alguém que me tem provado vez e vez seguida que não precisa disso, confessei-lhe que andava a ler conversas antigas e que tinha percebido que os nossos problemas vinham de há muito tempo... Eu já sabia mas parece que ganhei uma outra noção e lembro-me de me ter dito que eu estava a tentar encontrar um sentido para a forma como tudo acabou. E eu acho que estou a falhar redondamente nessa tarefa. Falámos sobre fazer o meu 25 de abril e gritar liberdade. Sobre se essa liberdade seria para ela ou para mim. Falámos sobre a porta que eu senti que fechou, sobre a porta que eu senti que ela fechou, depois de ter sentido há uns dias que a tinha entreaberto. E confundiu-me de uma forma que não estava à espera e simplesmente bloqueei por completo os largos minutos em que falámos sobre toda esta questão. Neste momento sinto que tudo o que tinha como garantido até termos falado pode estar errado e só queria voltar a rebobinar tudo para conseguir processar... O pior ainda estava para vir, porque foi o que não planeei e que simplesmente surgiu que, também contribuiu, para tudo o que tínhamos falado antes ficasse envolto numa espécie de névoa... Quase como se o meu cérebro apenas se focasse no que aconteceu a seguir. Custou-me muito admitir que há uma memória, mesmo que possa ser construída e não real, que me abalou os alicerces e que em dez anos tenho feito de conta que não existe... e quase pode justificar a maioria dos meus comportamentos. Ter-me dito que seria quase pornográfico e que teria quase um lado voyeuristico. Acho que o meu cérebro está com extrema dificuldade em processar tudo que dissemos... E ter terminado com a questão que deixou no ar é o que me está a deixar mais no chão: Afinal de quem era o desejo? Sei que no meio de tudo ainda questionou se eu também sentia que me iria julgar mas não, só sinto uma profunda segurança. Sobretudo sei que há uma intimidade muito profunda em ser verdadeiramente ouvida.
Acho que, indiretamente, sentia que esta sessão ia ser absolutamente marcante porque umas horas antes de acontecer dizia que sentia que seria o inferno. E uns minutos antes de sair de casa sofri uma descarga tão grande que o meu corpo não parava de tremer e fiquei realmente assustada... E termos começado pelo regresso e pela falta que eu sinto de um abraço e me ter dito que o facto de irmos retomar seria como o abraço que preciso... É um poema.
Sabia que tinha deixado um assunto pendente na semana anterior, situação que me tinha deixado profundamente frustrada e sabia que o iria abordar. Só não estava a contar com a confusão que se instalou em mim depois da nossa conversa. No meio do meu assumir da minha última tentativa de falar com alguém que me tem provado vez e vez seguida que não precisa disso, confessei-lhe que andava a ler conversas antigas e que tinha percebido que os nossos problemas vinham de há muito tempo... Eu já sabia mas parece que ganhei uma outra noção e lembro-me de me ter dito que eu estava a tentar encontrar um sentido para a forma como tudo acabou. E eu acho que estou a falhar redondamente nessa tarefa. Falámos sobre fazer o meu 25 de abril e gritar liberdade. Sobre se essa liberdade seria para ela ou para mim. Falámos sobre a porta que eu senti que fechou, sobre a porta que eu senti que ela fechou, depois de ter sentido há uns dias que a tinha entreaberto. E confundiu-me de uma forma que não estava à espera e simplesmente bloqueei por completo os largos minutos em que falámos sobre toda esta questão. Neste momento sinto que tudo o que tinha como garantido até termos falado pode estar errado e só queria voltar a rebobinar tudo para conseguir processar... O pior ainda estava para vir, porque foi o que não planeei e que simplesmente surgiu que, também contribuiu, para tudo o que tínhamos falado antes ficasse envolto numa espécie de névoa... Quase como se o meu cérebro apenas se focasse no que aconteceu a seguir. Custou-me muito admitir que há uma memória, mesmo que possa ser construída e não real, que me abalou os alicerces e que em dez anos tenho feito de conta que não existe... e quase pode justificar a maioria dos meus comportamentos. Ter-me dito que seria quase pornográfico e que teria quase um lado voyeuristico. Acho que o meu cérebro está com extrema dificuldade em processar tudo que dissemos... E ter terminado com a questão que deixou no ar é o que me está a deixar mais no chão: Afinal de quem era o desejo? Sei que no meio de tudo ainda questionou se eu também sentia que me iria julgar mas não, só sinto uma profunda segurança. Sobretudo sei que há uma intimidade muito profunda em ser verdadeiramente ouvida.