Enquanto fazia uma pequena retrospetiva mental de 2019 só me conseguia lembrar de que há um antes e um depois de agosto, confesso que até me custou a recordar de tudo o que aconteceu antes desse mês - em que caí para o fundo de um poço e em que acharam, à minha volta, que estava a ficar com uma depressão e que precisava de ajuda a sério - mal sabendo que eu já a tinha. Houve, no entanto, momentos muito difíceis de gerir durante o início deste ano.
Ainda nem 2019 tinha começado e já estava a passar por uma situação que me é difícil falar; posso ter colocado bem fundo na memória os seus contornos mas sei que 2019 me trouxe vários dissabores do mesmo género, possivelmente tão graves no sentido de me incomodarem o espírito e me fazerem sentir envergonhada do que via e ouvia. O facto de ter demorado tanto tempo a partilhá-lo em voz alta só demonstra o quanto me doeu aquele comportamento apesar de ter sido, também, dos momentos em que utilizei a minha voz para mostrar que não estava confortável em vez de me calar.
O ano começou com um medo enorme de que tudo acontecesse novamente, ter o meu avô a caminho do hospital e ter sido diagnosticado com uma infeção renal grave devido a medicação excessiva assustou-me e fez-me voltar a tudo o que tinha vivido em abril de 2018. Fez-me falar sobre o luto não realizado do meu avô, a forma como a sua morte me abal(a)ou e como a certeza da não permanência dos que nos são mais próximos nos pode levar a lugares escuros. Voltei a sentir aquela velha sensação de negligência, desta vez por parte dos médicos. Se bem que, como fui relembrada, foram também os médicos que me salvaram a mim... E não o fizeram só a mim... Uns meses depois do episódio do meu avô, também salvaram a minha avó. Os meses sem comer e as recusas constantes em ser observada no hospital eram pequenos indícios de que alguma coisa grave se passava mas acho que nenhum de nós imaginou quão grave seria. O internamento dela em setembro na sequência da descoberta de um cancro grave e em estado avançado trouxe-me o medo latente de uma nova perda sem aviso prévio. Voltei a entrar num hospital mais vezes do que gostaria e a respirar aquele cheiro que me leva às náuseas. Mas o amor foi mais forte e todos os dias voltava a passar por esse tormento só para chegar a ela. Escolho carregar no peito a gratidão quando a sei viva, ainda que longe da sua autonomia e a viver num lar - este ano fez-me confrontar-me com a forma como tudo muda repentinamente.
Em 2019 preocupei-me muitas vezes com o meu futuro profissional e termino 2019 com a sensação de falhanço pelo que não consegui. Em termos profissionais tomei a pior decisão que poderia tomar em maio e desisti de um trabalho que sabia fazer bem e que me dava relativo prazer, no horário que queria e com um pequeno ordenado para as minhas despesas... Dizia eu, para me focar no doutoramento. Mas, tal como vim a perceber mais tarde, esta desistência estava agregada a um desejo muito forte que as coisas mudassem e que eu fosse apenas a filha. Não correu como esperava, voltei a ir abaixo, voltei a ponderar tudo, arrependi-me da minha decisão. Também o trabalho seguinte, em que embarcamos juntas - experiência essa em que, durante um mês e pouco, trocamos impressões e me agarrei a toda a força que me transmitiste, em que sei que só aguentei por estares ao meu lado porque todos os dias me sentia péssima ao realizar aquele trabalho, sem confiança nenhuma [e já me mandaste isso à cara, e como me doeu...] -, não se mostrou aquilo que eu pretendia e trouxe, mais uma vez, a incerteza em relação ao como ajudar no futuro e à sua não permanência num local de trabalho. Porque é que não pode ser diferente? Qual é o ensinamento que se deve retirar daqui? No entanto, termino 2019 numa nova empresa, num trabalho que me é relativamente fácil de fazer e com a certeza de que posso ajudar caso seja necessário, tendo passado por uma formação medíocre e estando a aprender muitas coisas apenas enquanto trabalho - embora tenha uma despesa fixa mensal que, neste momento, me deixa aflita - é como se estivesse a escolher entre a terapia e a mãe, não é? E há sempre frases que me chicoteiam de uma forma dolorosa de tão verdadeiras... A forma como recebi mais um não da FCT deitou-me muito abaixo porque este não foi pautado de críticas positivas que me confundiram. Também este ano apresentei o meu projeto de tese, em que fiz mea culpa de todos pequenos apontamentos que a FCT me indicou e onde fui ouvida, por o mais perto de um especialista na área da tese que supostamente terei em mãos. Digo supostamente porque se encontra tudo às voltas na minha mente e não tenho uma decisão tomada sobre se seguirei em frente ou opto por parar um pouco e refletir no futuro. Não mereço? Não sou boa o suficiente? Não sou capaz? Estes pensamentos perseguem-me desde agosto... O que fazer a seguir? Qual é o meu caminho? Serei capaz de ter um futuro na minha área? Qual é a minha área? O que me faz feliz? Sei o que me fez feliz; voltar ao arquivo, fazer investigação mesmo que não a minha... 2019 trouxe-me um desafio profissional de assistente de investigação e trouxe-me, também, momentos de incerteza. Trouxe-me um possível paper numa conferência internacional, já aceite, e um trabalho em curso para o apresentar. 2020 vai levar-me, ainda que com muito medo e com tudo o que possa acontecer até lá, à Holanda para o apresentar... Terei que começar, muito brevemente, a preparar essa viagem.
2019 fez-me ainda abraçar dos projetos que estão no forno, à espera de luz do dia - os meus dois artigos já escritos por mim e enviados para uma revista da área... Desde setembro que espero por notícias e comentários sobre a sua publicação e espero que me possam ser mais valias numa futura candidatura à FCT. É que isto quer dizer que ainda não mandei a toalha completamente ao chão, por muito que me veja sem reacção a nada do que tem a ver com a realização da tese desde a defesa do projecto...
Em abril o meu mundo ruiu, por duas vezes. Perdi o chão quando a bomba estourou, o meu sítio seguro, o único sítio onde me encontrava sem máscaras iria desaparecer, ser descontinuado... Em vez de enfrentar o problema de frente e falar sobre a situação, comecei um processo de se-não-falar-no-assunto-não-existe ou não-sei-o-que-sentir-ou-dizer que me levou por um caminho bem sombrio do qual não sei ainda se já recuperei. Foram longos meses de revolta interior e indecisões, incertezas palpáveis em noites mal dormidas, numa angústia esgotante que se transformou numa dor no peito persistente que me fez sofrer demasiado... Comecei a tomar medicação natural para ajudar a que os dias corressem de uma forma mais tranquila e fazer com que as dores no peito fossem acalmadas o melhor possível. Passei os meses de verão numa letargia dolorosa. O que me recordo de agosto é de dias inteiros a chorar, com dificuldade em sair da cama e sobreviver com uma dor agonizante no peito. Em setembro tornei-me mais eu, voltei à terapia, fui capaz de contar à minha irmã quem sou e não fui renegada, contei à minha avó e ela continua a amar-me como sempre, admiti o meu processo terapêutico e deixei um largo peso lá atrás... O segredo que carregava sobre a terapia era muito pesado de carregar e desfiz-me dele sem ter bem a consciência disso. Iniciei, em novembro, terapia num consultório privado e desde aí que sou responsável pelo pagamento do meu processo terapêutico e isso mudou tudo. O que não mudou foi o sorriso com que me brinda à chegada e a certeza de que estará ali, aconteça o que acontecer, para me acompanhar no que eu permitir. Enquanto as duas percebermos que é necessário. [E a falta que me tem feito nos últimos dias...] Nos primeiros meses deste ano a minha relação iniciava o princípio do fim. Ganhou uma pequena bolha de oxigénio perto de setembro - voltar ao Porto é sempre voltar a um lugar onde me sinto mais livre e essa sensação é impagável, apesar de, agora, também dolorosa - para chegar ao fim em novembro. Em 2019 perdi a pessoa que achava que estaria comigo em todos os momentos da minha caminhada e ainda estou a aprender a lidar com essa perda. Termino 2019 com a sensação de que a dor de desistirem de nós pode tornar-nos apáticos e vazios, profundamente confusos. Sem saber bem o caminho a seguir, sem saber bem o que sentir, só conseguir identificar vazio. Custa muito olhar para dentro e nada ver. Preciso de aprender a olhar para mim e preciso de entender estas emoções antes que me comam viva... Espero que o próximo ano me traga isso. No fundo, 2019 ensinou-me que é possível sermos mais verdadeiros com os que vivem à nossa volta mesmo que esse movimento parta do desespero e não da consciência concreta. E todos os meus grandes gestos dos últimos meses do ano partiram do desespero. O único movimento que partiu de uma consciência concreta aconteceu ainda em abril, com o brilho da lua e das luzes do casamento do meu primo. Chorar as saudades do meu avô e ter assumido a minha verdade fez-me iniciar o Reiki, pelas tuas mãos, Ana, e ter descoberto pequenos laivos de um bem estar que me faltou durante os meses de verão. Apesar de lhe estar a fugir desde que me disse que teria que lá voltar com a cabeça no lugar quanto ao meu futuro algures em agosto, na verdade, o pedido para pensar sobre o que queria para a Rosa deixou-me sem chão... Como a Rosa ainda não sabe o que quer e tem passado por tormentas internas, o Reiki ficou pousado num canto do meu coração. E muitas vezes me disseste para voltar a falar com o mestre e lhe contar o que se passava comigo... Nunca o fiz, sinto-me em falta e, mais do que isso, não era capaz de lhe recorrer sem estar frente a frente com os seus olhos azuis. Aprendi, nos últimos anos, que uma conversa é muito mais poderosa olhos nos olhos e não quero abdicar disso quando me for possível.
Em 2019, parei de ir ao ginásio durante alguns meses e como consequência disso voltei a engordar e não me sinto bonita, confiante ou segura de mim. Comecei a tomar medicação diariamente para as dores de cabeça e vi-as melhorar exponencialmente após seis meses de medicação. Estou sem medicação neste momento desde outubro e parece que podem voltar ao que eram, tenho medo disso. Conduzi algumas vezes, não tantas como deveria e ouvi demasiadas vezes que tenho que fazer mais nesse campo. Mas será que quero fazer mais? Continuo a não conseguir confiar em mim ao volante de um carro e tenho sérias dúvidas que este sentimento passe apenas por ter mais experiência...
2019 foi um ano de luta, que me mandou ao chão muitas vezes e que me fez tentar conhecer o meu corpo e ouvir a minha mente, derrotar fantasmas e combater medos. Afinal de contas somos a nossa casa, temos de nos cuidar. O foco, em 2020, serei, ainda mais eu.
[aos amigos que estão presentes quando deixo que estejam, aos que fazem questão de me dar a mão e viver os altos e baixos da vida comigo, aos que não me deixam desistir de mim e de procurar a minha felicidade... Obrigada por estarem e desculpem por qualquer coisa. Sou francamente grata por tudo o que me dão e só espero retribuir na mesma medida.]