Eu estava tão elétrica e acelerada que me pediu tantas vezes para pensar. Como se me estivesse a pedir para acalmar. Para parar. Para a ouvir. E agora eu sinto que tenho que fazer um trabalho mental maior para refletir sobre tudo porque na altura não consegui, porque a interrompi tantas vezes, porque ansiava por alguma ajuda que sentia que não estava a chegar. Desde ontem à noite que tenho tanta coisa dentro da minha cabeça que nem consigo distinguir umas coisas das outras [vou sempre lembrar-me da sonora gargalhada e do gosto com que riu quando lhe disse que adorava a existência das bases que ajudavam alguma coisa a esconder as noites muito mal dormidas] e quero deixar claro aqui, tal como lhe disse a viva voz, que só me levantei da cama porque ia estar ali. E o silêncio pesado, sempre o silêncio pesado de antes de expirar e ganhar balanço para falar. A forma como me espera sempre é de mestre, a forma como me transmite confiança e coragem, como me responde sempre baixinho quando eu começo como se contasse um segredo, como se suspirasse apenas...
Andamos às voltas e o aperto, a dor, a inflamação, a ferida, que abriu no meu peito ontem à noite nunca saiu, nunca diminuiu de intensidade, nunca. Acho que foi por isso que me saiu tantas vezes seguidas a frase "eu tenho tanta raiva dentro de mim", porque isto que estou a sentir só pode ser raiva, não pode ser mais nada. Apetece-me bater com a cabeça nas paredes porque sinto que nada do que faço é suficiente para manter tudo coeso. Porque a minha estrutura familiar desapareceu há três semanas. E se antes já tinha falhas, agora tem muitas mais e andamos todos "a toque de caixa" de alguém que nos puxa os cordéis, como se fôssemos apenas fantoches. Ela é má, ela é desequilibrada e ela não o ajudou quando devia. E eu posso entrar aqui - e ali - e dizer muitas vezes que sinto uma raiva, uma revolta e uma dor imensa porque ela me levou o meu avô. Mas, mesmo assim, "eu prefiro que ela me esgote e esteja viva, que diga mil vezes as mesmas coisas, do que não me esgotar porque... está morta". E quando é que chegam os resultados da autópsia?, perguntou-me às tantas e eu só consegui dizer que vou estar mais seis meses sem saber o que aconteceu ao meu avô e aí disse-me que depois eu queria apontar culpas... E se quiser? E se for ela mesmo a responsável por ele estar em cinzas no pote que ainda ninguém viu? Porquê seis meses? Seis meses de sofrimento? Seis meses disto que tem acontecido nas últimas três semanas? Eu não sei se aguento seis meses disto...
E quando me falou na minha dor? Como é que espera que eu sinta alguma coisa parecida com dor - de forma mais ou menos constante - quando eu não consigo deixar de pensar que a minha avó se vai embora porque não quer mais viver? E quando se esforça por me fazer ver que eu tenho mais vida... não vê que é em vão? É tudo tão secundário perante tudo o que está a acontecer. Respondi-lhe com um tom de voz tão estranho que nem sei bem ao que soava "Eu só me lembro de ter vida quando me diz que eu tenho vida, que tenho coisas para fazer", e isto é mesmo verdade. Eu ando, constantemente, para trás e para a frente com uma mala de roupa a tapar buracos que não tenho que ser eu a tapar, constantemente no papel de que estou a salvar tudo por um momento mas que não salvo nada na realidade.
Só sei que hoje soei desesperada... Eu pedi tantas vezes para me ajudar, para me indicar um caminho, para me dizer o que achava que era melhor eu fazer... Não que não me estivesse a ajudar, eu é que, se calhar, não estava a conseguir ouvir o que me estava a querer dizer. Eu é que não sei o que fazer e torna-se difícil perceber qual é o caminho. Do que retirei de hoje, que talvez tenha que ler muitas vezes nos próximos tempos: Isto não é culpa minha, eu não posso resolver. Eu não posso ser eternamente um "penso rápido" na ferida porque algum dia eles têm que tomar uma decisão. Eu só posso esperar que a tomem e estar lá, estar presente, ir dando a minha opinião, ir fazendo com que eles pensem. Não posso ser eu a passar por cima deles. Por muito que não confie neles - e não é tão mau não confiar neles? Não me lembro se me chegou a responder. Ainda agora saí e não devia de ter saído. É a única pessoa que não me julga quando eu solto a minha raiva, quando digo que ela se pode estar a sentir mal e que é bem feita que o sinta porque lhe fez mal a vida toda, é a única pessoa que ouve realmente quando eu digo que é bem feita que ela sinta tudo isto porque ela passou a vida a magoar toda a gente por ser infeliz e, principalmente, ele que estava com ela vinte e quatro horas por dia. Ele pode ter alguma culpa na forma como não ajudou a moldar a personalidade destrutiva dela mas ele era (é) um verdadeiro anjo na Terra. Avô, tu não tens uma pequena noção do que se anda a passar aqui... "Zé só havia um", como a minha mãe tem repetido constantemente.