quinta-feira, 31 de maio de 2018

Está a recusar medicação que nos faria ficar mais descansados, a partir de domingo, quando ficar aqui sozinha quando hoje, desde que chegamos, afirmou várias vezes que se sente frágil, fraca, triste, desmotivada. Que não tem ação ou vontade para nada, que não quer viver. Este género de discurso faz ativar toda e qualquer bandeira mental em todos nós e o medo é real, porque a verdade é que vai ficar aqui sozinha, porque a nossa vida não é aqui, é lá e porque não quer ir para lá, que fica melhor aqui. E o meu medo está a tornar-se absoluto e sério, o relógio não pára, o meu peito aperta-se numa dor profunda que não tinha há uns dias - desde segunda, talvez. E a prova em como o pai está absurdamente preocupado em deixá-la aqui sozinha apareceu em forma de história; que contou aqui no quarto a meio da tarde - sem sequer se aperceber verdadeiramente da dimensão do que disse - ele insistiu com ela até ela dizer que lhe ligaria várias vezes ao dia, incluindo se saísse de casa por algum motivo, mesmo que ele estivesse a trabalhar.

Adormeci a chorar, avô. E tive uma noite mesmo má. Mas tu fazes tanta falta aqui, neste mundo, que custa muito não chorar... Há tantos momentos do dia em que o meu pensamento é apenas teu, em tantas alturas... e dói tanto tudo isto. Eu choro tantas vezes porque tudo arde em mim. Ela está a portar-se tão mal, avô, o pai está tão cansado de tudo isto. Neste momento ele quase precisa de férias da baixa que teve, ele está absolutamente esgotado de dividir dias e dias sozinho com ela como companhia...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Desde sábado que quero escrever mas fujo. Não quero saber reagir a tudo isto porque sei que nada está concreto na minha cabeça, não quero assentar os pensamentos, não quero guardar as memórias por se encontrarem, ainda, tão confusas. Não consigo perceber - não consigo, mesmo quando repetes que achavas que as saudades que eu teria de ti fosse mais importantes que o resto - como é que achavas que alguma coisa seria diferente daquilo que aconteceu. Morri de vergonha quando vi toda a gente parada a olhar para nós, porque isso aconteceu mesmo, mesmo que não tenhas percebido nada porque só querias que eu parasse para olhar para ti. E eu só queria fugir dali. Vi-te ainda antes de me agarrares no braço e acho que durante cinco segundos não quis acreditar - até me tocares mesmo. A exclamação "o que estás aqui a fazer?" foi a única coisa que me saiu no momento e não podia, mesmo, ter sido de outra maneira. O que esperavas que fosse acontecer? A sério que não consigo entender. Eu não estou há meses a dizer as mesmas coisas só porque gosto de discutir, só porque gosto de arranjar problemas, só porque gosto de dizer que não estou bem. Eu sinto mesmo aquilo que te digo, todo o cansaço, toda a dor, todos os teus erros que já não consigo chutar para o lado. Eu estou mesmo magoada, desiludida e cansada de tudo o que tem sido a nossa relação. Eu não podia abraçar-te quando te vi porque só queria fugir dali e do olhar de toda a gente. Andei o mais depressa que pude. Disseste que te rejeitei e isso doeu-me mas, ao mesmo tempo, a minha exclamação mantém-se, o que é que esperavas? Quando eu estou mesmo completamente cansada de tudo o que nos tem acontecido e que, maioritariamente, é culpa das tuas atitudes? Eu compreendo que te tenhas sentido completamente na merda mas na merda ando eu há meses e se foi preciso veres-me pessoalmente e veres o quão calada e quieta consigo ser... para perceberes que não ando a brincar, ainda bem que me viste no sábado para quando chegasse domingo soubesses com o que contar. A única coisa que me lembro de sábado é da sensação constante de pânico que senti enquanto estavas ao meu lado, porque me abalaste completamente a confiança quando apareceste à minha frente. Mas, por outro lado, eu sei que o que fizeste foi uma atitude das que te tenho pedido que mostres. Tenho que me habituar às surpresas que te passam pela cabeça mesmo que o meu ser odeie completamente surpresas... 
Domingo não acrescentou nada ao que já nos tem acontecido. A conversa que tivemos foi mais uma. Eu não consigo acreditar que as coisas mudem assim, só por me teres visto e só porque percebeste que eu estou mesmo a falar a sério. Custou-me ver-te chorar mas, ao mesmo tempo, as tuas lágrimas não resolvem nada porque continuas a cometer os mesmos erros. Já ouvi tantas lágrimas e os erros continuam a amontoar-se... Sinto-me fria às tuas emoções mas não é por maldade. É por proteção. Eu preciso de esperar pelos teus comportamentos para perceber se posso confiar de novo em ti. Daí ter recusado, sempre, qualquer beijo teu.

E, no meio de tudo isto, não deixei de sentir uma segurança bonita enquanto conduzias e enquanto falavas baixinho comigo ou trauteavas as músicas que passavam no rádio. Não deixei de te querer abraçar forte e custou-me despedir-me. Quando voltaste atrás, à plataforma, depois de eu ter saído do autocarro, soube que também te custou e só aí (nos) permiti um beijo. E não sei, ainda, se foi a melhor coisa que eu fiz. Sinto-me mesmo muito confusa com tudo o que aconteceu e sei que ergui um muro tão alto... que não sei se vais querer escalar. Mas a razão de tudo isto são as tuas atitudes... Eu só me tenho afastado... 

terça-feira, 29 de maio de 2018

«Quero dedicar a ti as vitórias que consiga», todas as semanas, quando me sinto suficientemente segura, choro. As lágrimas caem-me e eu não consigo evitar. Em todas as letras de todas as músicas, em todos os textos, em todas as palavras, há uma dor latente e uma saudade imensa. Dói-me a tua ausência e todos os dias me custa saber que nunca mais te vou ver. Tenho tantas saudades tuas, avô.  

terça-feira, 22 de maio de 2018

Eu precisava de escrever alguma coisa sobre segunda, sobre o que aconteceu ali dentro, mas sei que estou a bloquear tudo o que aconteceu e a única coisa que me consigo lembrar é do sentimento violento e das lágrimas constantes a escorrerem-me pelas faces, limpas pelos dedos rapidamente... É o único sítio onde me sinto segura o suficiente para estar de forma vulnerável e frágil. É o único sítio onde posso sentir o que sinto sem ser julgada e é a única pessoa que sabe o que eu sinto antes sequer de eu saber. E não faz mal. É uma ligação intensa e estranha ao mesmo tempo. Mas não me sinto sozinha.  

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Um mês de perguntas sem resposta. Um mês de desespero. Um mês de noites mal dormidas. Um mês de incertezas. Um mês de dúvidas. Um mês de desamparo. Um mês de solidão. Um mês de um apoio brutal da família. Um mês de proteção. Um mês de viagens. Um mês sem saber onde durmo na noite a seguir. Um mês de incompreensão. Um mês de sofrimento. Um mês de mágoa. Um mês de confidências e conversas sérias. Um mês de revolta. Um mês de saudade. Um mês de raiva. Um mês de dor. Um mês de um aperto no peito tão forte que parece que vou desmaiar. Um mês de uma vontade de desaparecer e nunca mais voltar. Um mês de uma preocupação constante. Um mês de uma intimidade nunca antes sentida. Um mês de lágrimas. Um mês de burocracias. Um mês de corridas. Um mês de falta de concentração. Um mês de tudo ser secundário. Um mês de uma vida suspensa. Um mês de nada parecer real. Um mês de pesadelo. Um mês em que te procuro em todos os cantos da casa. Um mês de pânico avassalador. Um mês de consultas violentas e gritos, lágrimas, revoltas. Um mês de tentativas de manter uma rotina mais ou menos normal no único dia da semana a que me permito isso. Um mês de não aceitação. Um mês uma dor profunda. Um mês sem ti, avô. Foi o mês mais longo de toda a minha existência. 

[Hoje bateu-me... Eu perdi o fio precisamente no dia 19. Tal como o último dia em que te falei e que deixei de te falar porque estava a escrever o artigo... E não sei se isso arde mais ou se me apetece mesmo desaparecer.] 
02.05h

Não estou a conseguir perceber o que aconteceu, faltam-me peças do puzzle. Eu não quero acreditar que voltaste a deixar-me sozinha sem seres absolutamente clara comigo. Portanto só sobra o poder ter-te acontecido alguma coisa. E isso assusta-me. 
Da outra vez tu disseste-me que eu não tinha sequer baixado a guarda. Disseste que eu nem sequer tinha procurado por ti. E, desta vez, eu dei-te um tempo razoável para me responderes e voltares ao raciocínio que tinha ficado a meio, à conversa que tinha permanecido inacabada. Quando achei que seria mais provável estares em casa enviei-te uma mensagem. Não respondeste. Nem a uma coisa nem a outra. E eu não sei se sinta dor, raiva ou preocupação, medo. Só sei que nada disto me faz bem. Só sei que tenho a cabeça a explodir e que a minha noite vai ser incrivelmente difícil. 
Se tu estás a ser tão pouco clara e a fazer tão pouco para me manter ao teu lado o nosso afastamento vai continuar. O fosso está tão fundo e as tuas atitudes só continuam a contribuir para que piore. E, à medida que me continuas a desiludir, mais eu me fecho porque não me dás motivos para acreditar em ti.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Desde ontem à noite que intervalo entre o desespero de escrever a pedir ajuda, porque me sinto cada vez mais isolada dentro da minha cabeça e preciso simplesmente de a ouvir, e os restos de força que encontro dentro de mim para me manter sozinha. Tento lembrar-me de tudo o que falamos nas últimas semanas para me manter e (tentar) respirar fundo, acreditar que consigo lidar com os próximos dias até nos vermos - tal como lidei com estes. Manter-me afastada não tem sido fácil, as tentativas de regressar à rotina pesam-me no coração, o sentimento de falhanço e incapacidade está a fazer-me pior do que o que me sentia por estar lá, a acompanhar de perto os acontecimentos. Estou mesmo a acusar tudo isto e não sei se estou a fazer o que é melhor para todos.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Seres a companhia enquanto eu soube as notícias de que entrei no doutoramento foi alguma coisa de mesmo especial. E depois, todas as coisas bonitas que disseste sobre mim, sobre a minha inteligência, a minha capacidade de trabalho, o facto de ainda não falarmos mas saber que me acompanhavas à distância... lembrares-te até de uma situação que eu não me lembro em que eu não estava bem por causa da tese de mestrado... foi tudo tão bonito e fez-me sentir tão bem. Desde que apareceste na minha vida que me ensinas a ver o mundo com outros olhos e a ver-me com outros olhos. E, por isso, fez todo o sentido que fosses a minha companhia neste momento de alegria. E não esquecendo que o dia, incrivelmente difícil, começou com uma mensagem tua às 11h da manhã a partilhares comigo a notícia de que tinhas entrado no teu mestrado. 

«Sabes o que é que me faz mais feliz? Tu estares aqui comigo nisto e todas as coisas bonitas que disseste hoje sobre mim. São essas coisas que fazem os meus dias de porcaria terem luz. Obrigada por me ensinares luz, Sam.»
Eu fiquei tão mas tão pior quando me disseste que a avó hoje estava em baixo e, de seguida, quando a mãe te enviou aquela mensagem em que dizia tudo aquilo que nós sabemos e o quanto precisamos de ajuda, o mal que ela nos está a fazer a todos... mas o que me deixou mesmo mal foi teres-me perguntado quando é que eu ia para lá ajudar-te. Sentir que te estou a falhar deixa-me de coração completamente partido, sentir que não estou a fazer o que podia... porque podia estar aí, contigo e com ela, e ajudar a acalmar muitas fúrias e mal entendidos, discussões e palavras feias... Não há palavras para a dor que tenho instalada no peito desde segunda e que teima em não desaparecer porque são umas coisas atrás das outras. E o facto de falar nisto e enquanto falo chorar é só prova de que estou a viver tudo isto de uma forma tão intensa... e que fiz bem em me afastar esta semana para fazer com que eles tomassem uma decisão, estou a força-los a isso ao não ser o penso rápido que tenho sido. E ao tentar recuperar as rédeas da minha vida. Mas custa tanto fazer isso sabendo que precisas de mim, pai. A nossa família está completamente a desmoronar-se e isto não pode mesmo continuar. Estou tão triste. 
Estávamos a falar sobre tudo o que tem acontecido e sobre a morte do avô e tudo isso... e eu devo ter soado tão anormal, a forma como disse que ia demorar algum tempo a aceitar tudo isto, as vezes em que referi que me custava que ninguém o tivesse salvado, que ele não nos tivesse ligado, que ela não nos tivesse ligado, a falta que o resultado da autópsia nos faz a todos - e o que pode ainda trazer esse resultado... e perguntaste-me se eu precisava de falar com um médico, disseste que não fazia mal. E eu estive quase, mas mesmo quase, a dizer que sabia onde poderia arranjar essa ajuda - até teres dito que podia falar com um médico de família e eu perceber que não estavas a ir tão longe quanto eu... Mas só o facto de isto ter acontecido já me embrulhou o estômago de várias maneiras. Eu não quero que esta conversa - por muito que não diga nada - chegue até aos meus pais e tenho medo, tenho muito medo, disso acontecer. Porque é que não aprendo a calar-me?

segunda-feira, 14 de maio de 2018

«não adianta tentar tapar os buracos se começares a descoser a meio», é por estas, é sempre por estas e por algumas destas, que há um lugar no meu coração para ti, dia após dia e ano após ano, porque a minha vida e os maus momentos são muito menos maus sabendo que estás à distância de um pequeno click. 
Eu estava tão elétrica e acelerada que me pediu tantas vezes para pensar. Como se me estivesse a pedir para acalmar. Para parar. Para a ouvir. E agora eu sinto que tenho que fazer um trabalho mental maior para refletir sobre tudo porque na altura não consegui, porque a interrompi tantas vezes, porque ansiava por alguma ajuda que sentia que não estava a chegar. Desde ontem à noite que tenho tanta coisa dentro da minha cabeça que nem consigo distinguir umas coisas das outras [vou sempre lembrar-me da sonora gargalhada e do gosto com que riu quando lhe disse que adorava a existência das bases que ajudavam alguma coisa a esconder as noites muito mal dormidas] e quero deixar claro aqui, tal como lhe disse a viva voz, que só me levantei da cama porque ia estar ali. E o silêncio pesado, sempre o silêncio pesado de antes de expirar e ganhar balanço para falar. A forma como me espera sempre é de mestre, a forma como me transmite confiança e coragem, como me responde sempre baixinho quando eu começo como se contasse um segredo, como se suspirasse apenas...
Andamos às voltas e o aperto, a dor, a inflamação, a ferida, que abriu no meu peito ontem à noite nunca saiu, nunca diminuiu de intensidade, nunca. Acho que foi por isso que me saiu tantas vezes seguidas a frase "eu tenho tanta raiva dentro de mim", porque isto que estou a sentir só pode ser raiva, não pode ser mais nada. Apetece-me bater com a cabeça nas paredes porque sinto que nada do que faço é suficiente para manter tudo coeso. Porque a minha estrutura familiar desapareceu há três semanas. E se antes já tinha falhas, agora tem muitas mais e andamos todos "a toque de caixa" de alguém que nos puxa os cordéis, como se fôssemos apenas fantoches. Ela é má, ela é desequilibrada e ela não o ajudou quando devia. E eu posso entrar aqui - e ali - e dizer muitas vezes que sinto uma raiva, uma revolta e uma dor imensa porque ela me levou o meu avô. Mas, mesmo assim, "eu prefiro que ela me esgote e esteja viva, que diga mil vezes as mesmas coisas, do que não me esgotar porque... está morta". E quando é que chegam os resultados da autópsia?, perguntou-me às tantas e eu só consegui dizer que vou estar mais seis meses sem saber o que aconteceu ao meu avô e aí disse-me que depois eu queria apontar culpas... E se quiser? E se for ela mesmo a responsável por ele estar em cinzas no pote que ainda ninguém viu? Porquê seis meses? Seis meses de sofrimento? Seis meses disto que tem acontecido nas últimas três semanas? Eu não sei se aguento seis meses disto...
E quando me falou na minha dor? Como é que espera que eu sinta alguma coisa parecida com dor - de forma mais ou menos constante - quando eu não consigo deixar de pensar que a minha avó se vai embora porque não quer mais viver? E quando se esforça por me fazer ver que eu tenho mais vida... não vê que é em vão? É tudo tão secundário perante tudo o que está a acontecer. Respondi-lhe com um tom de voz tão estranho que nem sei bem ao que soava "Eu só me lembro de ter vida quando me diz que eu tenho vida, que tenho coisas para fazer", e isto é mesmo verdade. Eu ando, constantemente, para trás e para a frente com uma mala de roupa a tapar buracos que não tenho que ser eu a tapar, constantemente no papel de que estou a salvar tudo por um momento mas que não salvo nada na realidade.
Só sei que hoje soei desesperada... Eu pedi tantas vezes para me ajudar, para me indicar um caminho, para me dizer o que achava que era melhor eu fazer... Não que não me estivesse a ajudar, eu é que, se calhar, não estava a conseguir ouvir o que me estava a querer dizer. Eu é que não sei o que fazer e torna-se difícil perceber qual é o caminho. Do que retirei de hoje, que talvez tenha que ler muitas vezes nos próximos tempos: Isto não é culpa minha, eu não posso resolver. Eu não posso ser eternamente um "penso rápido" na ferida porque algum dia eles têm que tomar uma decisão. Eu só posso esperar que a tomem e estar lá, estar presente, ir dando a minha opinião, ir fazendo com que eles pensem. Não posso ser eu a passar por cima deles. Por muito que não confie neles - e não é tão mau não confiar neles? Não me lembro se me chegou a responder. Ainda agora saí e não devia de ter saído. É a única pessoa que não me julga quando eu solto a minha raiva, quando digo que ela se pode estar a sentir mal e que é bem feita que o sinta porque lhe fez mal a vida toda, é a única pessoa que ouve realmente quando eu digo que é bem feita que ela sinta tudo isto porque ela passou a vida a magoar toda a gente por ser infeliz e, principalmente, ele que estava com ela vinte e quatro horas por dia. Ele pode ter alguma culpa na forma como não ajudou a moldar a personalidade destrutiva dela mas ele era (é) um verdadeiro anjo na Terra. Avô, tu não tens uma pequena noção do que se anda a passar aqui... "Zé só havia um", como a minha mãe tem repetido constantemente.

domingo, 13 de maio de 2018

Tenho o coração completamente despedaçado. Esta viagem de carro deixou-me agoniada e a tremer por dentro de todas as maneiras possíveis. Estou tão cansada de tudo isto e de sentir que não consigo fazer nada porque nada está ao meu alcance... Ouvir a minha mãe dizer o que disse... Era alguma coisa que eu nunca esperaria mas acho que tudo o que tem acontecido nos tem feito, a todos, abrir portas de intimidade de uma forma que nunca tentamos antes, "até me apetece chorar de cada vez que vejo a minha filha fazer uma mala", e depois... saber que a minha cara demonstra um cansaço extremo que julgava não mostrar... é tudo tão estranho e tão doloroso ao mesmo tempo - e sinto uma dor profunda tão grande sempre que analisamos o comportamento da minha avó... E depois:
- A tua avó fez muito mal à tua mãe. 
Mom - Eu nunca tinha ouvido a minha mãe a dizer nada disto.
- Mas a mágoa está lá.

Há coisas que me partem o coração de formas inexplicáveis. Há dores que nos moldam, não há? A minha vida nunca mais foi a mesma desde que desapareceste, avô. A avó está a enlouquecer-nos a todos e a fazer com que tudo seja mil vezes pior, mas, mesmo assim, eu não quero sentir esta dor que sinto sempre que falo ou penso nela. Esta revolta. Esta raiva acumulada. Não quero ser isto. 

sábado, 12 de maio de 2018

«eras da minha alma, da minha casa, eu era tua costela, (...) e agora não te tenho, só te lembro, e gosto de te cantar, guarda um cantinho da tua nuvem para um dia eu ir lá morar», já me passaram muitos Alta Definição pelos olhos e muito poucos me deixaram como hoje, chorei, chorei e emocionei-me a sério. O Daniel pouco falou e isso é apenas mais uma prova da grandeza da Carolina. Emocionei-me em todas as partes em que falou do avô, da morte do avô e da música que lhe escreveu. É uma verdadeira inspiração. Há muito tempo que andava desesperada à procura da Nuvem e hoje, quando a encontrei na voz da Carolina, diretamente no Alta, percebi o porquê. E «só me resta que aí no céu exista uma nuvem com o nome de avô», nós estamos todos a sentir a tua falta, avô, uma falta tremenda. Tenho saudades da tua voz, das tuas mãos enrugadas e secas do sol e da terra, dos teus dedos iguais aos meus, das histórias que contavas vezes e vezes sem conta, tenho saudades da tua gargalhada e do teu sorriso. Dos poucos abraços que te dava, até isso me faz falta. Devia de te ter dado mais abraços mas da última vez que nos vimos e que nos despedimos, eu agarrei-te e abracei-te. Eu peguei-te nas mãos e sorri-te. E hoje só me lembro que nunca sabemos quando é que é a última vez que vamos ver alguém ou falar com essa pessoa... que só temos o dia de hoje, e hoje isso bateu-me com especial força.
Ontem a médica disse à avó que ela tinha que mudar de atitude e mal ela sabe... o quanto isso tem que acontecer. Mal ela sabe o que anda a acontecer e o quanto isto tudo está confuso e doloroso. Ontem ela disse que tu eras a pessoa mais preocupada com os outros e que tu estavas sempre bem... que tudo era sempre mais importante que tu. E que tu eras realmente especial e inesquecível e é isso que eu vejo e ouço desde que foste... Eu já sabia que tu eras um ser humano especial, mas não sei se dei o devido valor a tudo isso em vida. E está tudo num reboliço silencioso dentro de mim que é tão estranho porque os pensamentos nem parecem ter nexo. São três semanas muito longas, muito cansativas e muito duras. Incrivelmente esgotantes. 
Entrei na sala, antes do jantar, e estavas parado em frente à mais recente moldura que tínhamos oferecido aos avós, a ver as fotografias do teu pai. Em silêncio. E eu encostei-me a ti e agarrei-te no braço, também em silêncio. Não dissemos nada, nunca dissemos nada, mas pegaste-me na mão. E estávamos os dois a pensar no mesmo ou estávamos a pensar em coisas completamente diferentes. 

Três semanas muito longas, duras e confusas. Três semanas sem ti, meu avô.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Eu sabia que não deveria ver o vídeo sozinha e sabia que só queria vê-lo sentada ali dentro, com a companhia mais que certa para isso. Eu sabia, à partida, que era um vídeo de um dia normal, que tinha informações diárias corriqueiras. Eu sabia tudo isto e, mesmo assim, os meus braços pareceram chumbo de repente. Não conseguia acalmar para pegar no telemóvel. Acho que nem consegui olhá-la nos olhos neste processo de segundos que pareceu longos minutos. E ao ouvir a voz dele, segundos depois de ter dito em voz alta que achava que não me lembrava mais do som, desabei. Fazes-me tanta falta, avô, é tudo tão vazio sem ti. Dói tanto... E acho que é muito o que me disse hoje, ainda nenhum de nós conseguiu sentir verdadeiramente a dor da perda do avô porque estamos todos reféns da avó que diz que quer ir e que em várias alturas exprime claramente o desejo. E que se ela quiser ir, não serei eu a impedi-la, porque a vontade dela de ir será maior do que a minha vontade que ela fique. E eu não sou capaz de perder outro pilar agora... por isso tem razão, tenho cuidado mais de todos à minha volta que de mim própria, toda a minha vida está pendurada num segundo plano até que tudo acalme em meu redor. Quando eu sentir que a vida está a voltar, aos poucos, ao que era... quando o meu pai voltar a dormir em casa, quando a minha família voltar a estar reunida... quando deixar de ser tudo uma merda... eu preocupo-me comigo. 
Obrigada por me deixar pensar em voz alta e por me ajudar a delinear os passos, por me fazer sentir que ainda tenho um futuro mesmo que o tenha colocado em lista de espera perante a imensidão do que anda a acontecer na minha família - ou a forma intensa como eu apreendo tudo o que está a acontecer. Obrigada por me dizer, várias vezes, que tenho que fazer questões antes de tomar decisões e por me dizer que ali era a altura de me ouvir, perceber o que a Rosa quer, e não o que toda a gente à minha volta comenta. Obrigada por estar comigo, verdadeiramente. E por me dizer sempre que nos vemos para a semana. Por me deixar acalmar antes de me levantar, quando as minhas pernas tremem. Por me deixar acalmar, logo que chego e me sento, por me sorrir tranquilamente, por nunca me fazer sentir maluca, por dar sempre razão aos meus receios mesmo que eu não dê e por me ensinar a guiar o meu próprio caminho sem duvidar das minhas decisões - ali dentro, consigo, não tenho dúvidas, ou tenho-as todas. Mas é tudo menos duro porque a confiança, o carinho e a ligação que construímos não desvanece. A cada semana que passa mais tenho a agradecer(-me) baixinho ter tomado a decisão de pedir ajuda - tal e qual como hoje comecei, "eu preciso de ajuda em três coisas".
O meu avô morreu sem eu estar à espera e eu agora tenho medo que toda a gente morra - parece que vai tudo morrer de repente. [É como se toda a gente fosse morrer, Rosa?] E é por isso que eu não me afasto sem te avisar claramente e muitas vezes seguidas que me vou afastar. Posso estar incrivelmente magoada com a conversa que estejamos a ter mas vou sempre ser clara quanto ao teor das minhas atitudes - ou faço por isso. E, pelo menos, merecia o mesmo da tua parte. Pelo contrário, o que tive foi nada, desde as oito da manhã de hoje. Foi silêncio absoluto depois de mais uma madrugada com uma discussão estúpida em que eu te disse, pela milésima vez, a mesma coisa que disse tantas outras, mas, desta vez, tu decidiste ficar extremamente ofendida como se de uma novidade se tratasse. Qual é a parte de que eu preciso de paz que não entendes? Que as discussões me afetam mais agora do que em qualquer outra altura? O que é que eu preciso de fazer para que as tuas atitudes melhorem? É que eu não posso fazer nada, não posso dizer mais nada, não sei o que sentir mais. Ou até sei. Desde as oito da manhã que não sei se estás viva ou morta e à medida que as horas passam os cenários da minha cabeça tornam-se mais apocalípticos - e a raiva apodera-se, ainda mais, do meu ser. Se isto é uma vingança estúpida por me ter afastado a semana passada ou um afastamento propositado da tua parte para uma qualquer experiência que estejas a fazer contigo própria... O meu avô morreu de repente e tu não tens uma pinga de consideração e respeito por mim para me avisar quando te queres afastar de mim? O meu avô morreu, de um dia para o outro, e tu não pensas na merda que fazes? Continuas sem pensar nas atitudes que tens e na forma como os teus comportamentos erráticos e inconstantes me atingem mais e mais? És a mesma pessoa que diz que compreende melhor os erros que comete, que quer melhorar, que não é isto? Tens a certeza que me dás razão quando te mostro com exemplos visíveis os comportamentos que tens que me magoam? Se ultimamente eu estava magoada contigo e te disse tantas vezes que sentia que a nossa relação já não era uma relação... hoje, eu não consigo ter palavras para explicar o que sinto. Ou até tenho... podes mesmo esquecer que eu existo porque esta eu não perdoo. Se até aqui fiz de tudo para perdoar, esta não consigo mesmo perdoar. Não sou capaz de aceitar que possas jogar com este silêncio sem sequer avisar que é essa a tua intenção. 

domingo, 6 de maio de 2018

Sempre que te dou uma oportunidade para que te aproximes, fazes com que me afaste mais. Tu não aguentas mais do que um dia ou dois. E eu não quero mudar-te, não quero que mudes por mim e não quero continuar com alguém assim, tão inconstante nas suas atitudes que me faz sentir constantemente abandonada e sozinha. Posso perder-me de mim própria as vezes que forem precisas mas tenho que saber proteger-me quando tu não o fazes; e foi por isso que me afastei uns dias e é por isso que me vou voltar a afastar novamente. Não consigo aguentar isto assim como está. Eu só quero paz.
Fiz o que a minha consciência me ditou e dei-te os parabéns ontem sem esperar nada em troca - porque não espero - mas a única lembrança na minha cabeça de forma persistente era a de que está a fazer um ano que isto tudo mudou e nunca mais tivemos o que tínhamos. E isso está a afetar-me. Tu mudaste-me, eu fechei-me tanto por tua causa, mudei tanto... 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

"Eu ia para aí por tua causa, porque tu tens estado aí a segurar o barco sozinha.", sim, mãe, é verdade, tenho estado aqui o dia inteiro a fazer companhia à avó e, às vezes, não é fácil, hoje, especialmente, foi difícil em alguns momentos. Custou-me não saber o que lhe dizer, ficar em silêncio ou o cuidado extremo para não a querer magoar com algumas das minhas opiniões. Não foi dos dias mais difíceis mas custou-me. Ainda bem que vieram, ainda bem que vão ficar. 


["Custa-me dormir sem ti, não tenho dormido nada, custa-me muito que não estejas lá," isto e o abraço, a forma como te agarraste a mim mal entrei no quarto para pousar as tuas coisas... vale a pena marcar aqui. Também me custa dormir aqui, Carol. Acho que me custa dormir de qualquer jeito.] 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Já li mais que uma vez a mensagem que me enviaste esta manhã e sempre que a leio alguma coisa em mim me diz que finalmente compreendeste o que não é assim tão difícil de compreender. Só que, ao mesmo tempo, eu tenho tanto medo que me deixes cair de novo. Porque eu já vi esta história a acontecer tantas vezes e de todas as vezes que se repetiu eu fui perdendo a confiança, a segurança e a estabilidade que tinha em ti como certas. Eu não posso cair mais nenhuma vez, não posso deixar que me deixes cair mais nenhuma vez... E foi por isso que me afastei - foi a medida mais drástica que tomei alguma vez nestes longos meses de altos e baixos mas a verdade é que tenho que zelar pela minha sanidade mental e a minha calma interior.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Quando te disse que iria ficar aqui o resto da semana, a tua resposta foi muito clara - e sabes tão pouco do que me tem acontecido... "Não sei se isso será grande ajuda para ti...", e é tão verdade. Agora, mesmo estando aqui com o meu pai, tenho medo da altura em que ele se for embora para trabalhar e eu ficar aqui sozinha com ela. Porque ainda há duas ou três horas, quando estávamos sozinhas e o ambiente estava algo pesado, no meio de alguns gritos, o desabafo foi "gostava muito de ter coragem para vos libertar a todos", e agora que estou aqui a escrever estas linhas, estou a ouvir-los falar e o comentário é igual. E eu sei que levantei a voz quando te ouvi dizer isso, avó, eu sei, mas eu não podia ficar calada. Eu tive que te dizer que não te queria ouvir a dizer nada do género mais nenhuma vez porque tinha acabado de perder o meu avô e não te queria perder já de seguida... "Ainda vou eu primeiro", disse o meu pai entretanto. Nós estamos todos a dar em loucos, não estamos?
Entre a Joana e tudo isto...
A minha família está a desintegrar-se, a fugir-me por entre os dedos. E eu sinto que nada posso fazer para manter tudo coeso. Gostava de conseguir ouvir, verdadeiramente, e para interiorizar, quando me diz que não posso fazer nada e que têm que ser os adultos a tomar as decisões. Mas eu não consigo sentir que não estou a fazer nada, que só vejo as coisas a acontecer. Ainda está tudo uma confusão, ainda é tudo muito recente, ainda não há decisões concretas sobre o futuro. E isso assusta-me. Assusta-me que, de repente, todos se vão embora. Assusta-me, de verdade, estar a observar em primeira mão o contrário do que sempre tive como uma verdade absoluta: que a minha família era uma rocha. Não é uma rocha no sentido em que achei que era, há uma dose de loucura insana em todos nós que, nos momentos difíceis, se torna a pele de quem somos. Perdemos o fio condutor e simplesmente parece que tudo desaba à frente dos nossos olhares. Podemos ser uma rocha uns para os outros, ser tipo ciganos e estar quando é mais preciso, mas a loucura continua a fazer parte do nosso ADN. E é isso que me custa tanto a aceitar, é a revolta de saber que não se fez o suficiente e que mesmo que se tivesse feito o desfecho poderia ser o mesmo. Mas acho que me era mais confortável em termos de aceitação e luto saber que ele tinha falecido a caminho ou no hospital que aqui... sem socorro adequado. Eu sei que há o lado bom, eu sei que ele pode ter-se sentido feliz no final, em casa, com as suas coisas e com a sua companheira de 60 anos... e isso acalma, levemente, esta revolta de que tenho sido feita. Pedir-me para compreender e dizer-me que sabe que eu compreendo o que ela fez e a forma como reagiu quando eu sinto tanta revolta dentro de mim não me ajuda, não me ajuda porque depois fico sozinha cá fora e não está comigo a todos os passos que dou. Sinto que está tudo a desfazer-se, sinto que só estou rodeada de problemas e que não existem soluções visíveis. Sinto-me aprisionada, como se a partir de agora a nossa vida enquanto família nunca mais pudesse ser a mesma. Perguntou-me quais eram as soluções que estavam a pensar e eu só sei que não sei. Tentei, na noite de ontem (e com a nossa conversa na memória), perguntar ao meu pai se não seria melhor colocar a avó num lar, por exemplo, para termos a certeza de que estava acompanhada e segura... E a resposta "mais vale matá-la já", destruiu-me, ouvir que não tens a certeza que ela aguente os próximos dois meses... está tudo tão confuso, a minha vida está uma autêntica confusão. Por isso, às tantas, lhe disse que tinha medo de saber o que era estar sozinha, numa altura destas, e pediu-me para não pensar nisso porque eu não estava sozinha, que está comigo. E é isso que me vale, é sempre ter uma forma de explorar tudo isto com alguém que nunca irá julgar nada do que eu diga.