segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2018 começou com os dias longe de casa e com a certeza no peito de que não poderia ser mais leve e feliz, tenho a certeza que as memórias bonitas que guardo do Porto no início do ano são o que me fez aguentar os dias mais tristes e a dor que as reviravoltas me causaram - porque 2018 mandou-me ao chão muitas vezes e deixei de acreditar que o amor poderia vencer as adversidades, os contratempos de feitios e quereres que foram mais que muitos, as incertezas da sobrevivência de uma relação que (parece) forte em presença mas que enfraquece na ausência física... Tudo isto causou uma dor quase diária que me fez, muitas vezes, dizer que desistia e mandar a toalha ao chão... Mas já cá volto. 2018 começou com vários "não" que me fizeram perceber que o caminho em termos profissionais não era por onde tinha planeado e que havia mais para mim. Não era assim que tinha pensado no final de 2017, mas a vida troca-nos as voltas e 2018 foi o ano que me fez aprender isso, muitas vezes da pior maneira. O acordo de estágio que assinei no início do ano, as experiências que iniciei e, no fundo, o salvamento que foi ter uma pequena protecção onde me socorrer, depois de todos os "não" que recebi fez-me ganhar algum alento - sempre a mesma a zelar por mim e a resgatar-me de tantas formas, de todas as que conseguia e que eu lhe permitia... O projeto da FCT foi mais uma experiência muito positiva deste início de ano e com a qual aprendi a ter uma crítica construída em relação ao meu próprio trabalho e depois construtiva desse mesmo trabalho. Todos os pontos que me apontaram tinham sido aqueles que já tinha apontado sozinha e isso fez-me crescer, apesar da dor do pior "não" de todos os de 2018 e da dúvida do que fazer a seguir. Mas não ia baixar os braços e não o fiz. Se já antes procurava um trabalho, depois deste "não" apostei forte nesse caminho e desde outubro que ganho o meu dinheiro, que junto, para ter a certeza de não vou voltar a sofrer por não saber como ajudar os meus, que não vou ter mais noites sem dormir e que o próximo ano de doutoramento pode estar garantido. Assusta-me o final deste contrato e a incerteza de um novo projecto da FCT, de poder ouvir outro "não", porque sei que esse fará muito mais danos do que este... Este ano apostei forte no meu currículo, e espero que seja só o início da construção de um caminho bonito em termos profissionais durante 2019. 
Ter iniciado o doutoramento em outubro, ao mesmo tempo que trabalhava em full time e depois da formação em part-time mas com dois trabalhos... Fez-me questionar o caminho que tinha seguido. A questão que pairou nos últimos tempos ainda não parou de me perseguir: quer desistir do doutoramento? Quer adiar o doutoramento? O sentimento de falha é constante e a certeza de que não estou a dedicar o tempo que deveria a um novo projecto para defender junto da FCT e, por conseguinte, um projeto de tese para defender em junho de 2019, estão a ser difíceis de gerir. Não quero desistir. Não sei o que faria se desistisse mas sei que esta sensação me bloqueia os sentidos e me faz paralisar. Sei que não lhe sei reagir. E espero que em 2019 aprenda a lidar com isto porque é profundamente necessário para continuar a crescer. 2018 trouxe-me o trabalho árduo e, mais uma vez, um "não", o meu artigo não seria publicado ainda, pelo facto de não ter um grau académico superior... Mas a minha vontade vai adiante e o artigo será finalizado no início de 2019 e, quem sabe, publicado durante esse ano. Graças à minha orientadora que nunca me deixa enfrentar uma tempestade sozinha e que está sempre lá para me ensinar a manter a calma perante uma onda muito forte - a admiração, o carinho e o amor que lhe tenho não param de crescer. 2018 mostrou-me que o trabalho pode ser recompensado e o facto de ter pessoas que acreditam em mim torna tudo mais surpreendente e só espero ser capaz de demonstrar que sou digna dessa confiança.
2018 trouxe-me uma mágoa enorme na última Páscoa que passei com o meu avô, a dor que me causou demorou algum tempo a passar - e transformou-se em culpa, que lentamente tem diminuído. Lembro-me claramente da viagem de regresso a casa, depois da última vez que o vi e da dor que provocou, da sensação de despedida... Lembro-me claramente de ter mencionado um débil e muito transtornado "vou perder o meu avô" e, cinco dias depois, o meu mundo desabou e acho que ainda não voltou ao lugar... Há um antes e um depois de 21 de abril. Vai haver sempre - passem os anos que passarem - um antes e um depois de 21 de abril de 2018. A morte chega-nos sem avisar que vem e pode chegar da forma mais estúpida de sempre. A dor de o ter perdido misturada com a certeza de que o perdi por razões absurdas.... A certeza de que ele não foi salvo, como deveria ter sido, machuca o meu coração todos os dias. 2018 fez-me perder um dos meus pilares e ter o mês mais esgotante da minha vida, em que andava de mochila às costas sem saber onde iria dormir na noite seguinte. Lembro-me do dia em que quase desmaiei em terapia e a partir daí, foi a escalar, até eu aprender a dizer que não podia continuar no ritmo em que estava, ter percebido que estava prestes a ter um esgotamento e que tinha que me afastar do centro da confusão antes que a confusão me levasse. 2018 ensinou-me a olhar mais para mim e para as necessidades do meu corpo e da minha alma. O caminho que percorro desde que iniciei a terapia tem tido muitos baixos que me fazem querer virar as costas por ser tão difícil de gerir todas as emoções com que me debato constantemente... Mas também sei que, sem esta ajuda, não caminhava de forma tão (mesmo que só em aparência) segura por alguns trilhos. No meio de tudo isto, perdi a capacidade de acreditar que o amor nos pode salvar. Questionei muitas vezes a minha relação. Questionei todas as certezas que tinha em relação à minha felicidade. Questionei muitas vezes a minha sanidade mental. Afastei-me dos meus e deixei que se afastassem de mim. Perdi-me, por longos dias. Embora tenha guardadas atitudes tão bonitas de todos aqueles que deixei entrar por momentos. Nunca vou esquecer a forma como vieram ao funeral do meu avô e como me deram a mão nesse dia. Sei que tenho amigos para a vida. Nunca vou esquecer o apoio que senti nesse dia. Nunca vou esquecer a forma cuidadosa como cuidaram de mim depois. Sei que sou acarinhada por tantas pessoas bonitas e que, por muito que as conversas possam não ser diárias, há ligações que não são quebradas por nada.  No meio de todos os desencontros, consegui que alguns reencontros acontecessem e guardo 2018 no coração por ter sido o ano que me fez voltar a ter certeza de que as amizades são bens únicos e recuperáveis, depois de várias e dolorosas tentativas. 2018 fez-me ganhar, por ter mantido os meus amigos comigo e, com a força que me fez deixar de acreditar no amor, fez-me, com cuidado, voltar a confiar devagarinho. Ensinou-me que tenho que ser a melhor pessoa para ti que possa ser e apesar de custar muitas vezes fazer este exercício e a minha personalidade aparecer algumas vezes, tem compensado. Principalmente desde que estamos na mesma página deste livro bonito que já conta com tantas reviravoltas. Apaixonarmo-nos pela mesma pessoa todos os dias dá trabalho, viver uma relação à distância, ainda mais. As saudades são mais que muitas, as saudades custam a fazer os dias acontecer. Mas 2018 trouxe o inesperado caminho para alcançares a pessoa que queres ser e eu sinto-me verdadeiramente orgulhosa (e feliz) de ter estado ao teu lado, mesmo que não fisicamente, neste período. Tínhamos muito medo da realidade do pós mas correu tudo muito melhor do que qualquer previsão e eu sou verdadeiramente feliz por viver a vida ao lado de uma pessoa tão forte como tu és. Todos os dias me inspiras a tornar-me melhor. Mesmo que a distância entre nós seja palpável. 
2018 fez-me acreditar que as pessoas à nossa volta fazem com que sejamos melhores pessoas e que a nossa família vai ser sempre o nosso ponto de abrigo. 2018 começou a mostrar-me que não faz mal ser mais transparente, que tenho que dizer o que sinto, mesmo que seja difícil de expressar e que não seja apreendido da forma que espero. Este caminho é longo mas trará frutos no futuro, assim acredito. Outro caminho longo que foi iniciado em 2018, depois de longos anos a ser adiado, foi a minha saúde. As dores de cabeça e o aperto no peito instalaram-se na minha vida e não têm data de ida... No entanto, ganhei força para insistir em tomar conta da minha saúde e iniciei um processo de análises - embora ainda espere pela chamada da especialidade - que me fizessem sair de todo este caminho com um diagnóstico das dores que são parte de mim como se o meu feitio se tratasse... 2018 também me fez aprender a engolir o medo e ensinou-me a pedir ajuda, para começar a tomar alguma medicação que me fizesse parar de sentir este aperto doloroso que se tornou parte de mim. Fez-me enfrentar os medos de frente e voltar a entrar num carro, apesar de todo o pânico que senti e que ainda sinto, apesar das lágrimas que deitei - que agora já não deito, só por dentro - apesar do corpo bloquear - e paralisar - e não corresponder ao que o meu cérebro comandava... Saber que continuei, que persisti, que não vou desistir enquanto não der a volta a isto - 2019 vai ser um ano de continuidade, porque não quero desistir do poder ser mais autónoma e independente. 2018 fez-me perder o medo de seguir alguns trilhos e ter iniciado yoga, apesar de não conseguir praticar com a frequência que sei que preciso, tornou-se das melhores coisas deste ano. Em 2019 quero tornar-me mais organizada e aprender a dar mais atenção ao lado da mente e da alma. O que me alimentou a alma ao longo de 2018 foram os inúmeros momentos em que vi o sol a pôr-se no horizonte com a certeza no peito de que tinha sobrevivido a mais um dia, por entre momentos dolorosos e gargalhadas brilhantes. Ainda tive tempo de aprender que o nascer do dia é igualmente poderoso. Deixei de ter medo de acordar cedo porque aprendi que corre tudo melhor quando temos mais tempo para viver o dia. No fundo, sinto que este ano iniciei um processo de aprendizagem que que vai manter por algum tempo: não sou a super mulher.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018


O ano passado estava a chover no dia de natal quando saímos para ir à igreja ver o presépio. E eu, mais um chapéu de chuva, de braço dado contigo, descemos a rua. Num passo lento, porque já te custava a andar... E lembro-me de me teres dito que não estarias cá para o ano...
A memória inundou-me ontem e desde aí que está em loop na minha mente. Sacana, tinhas razão... E dói tanto.

Nem quero acreditar que as próximas horas vão acontecer. Nem quero acreditar que o dia de amanhã vai acontecer.
E a tristeza da minha mãe ontem, quando chegou a casa, e nos disse, "tenho a informar-vos que as vossas prendas são da primark". Eu não me importo nem um pouco mas ardeu-me muito a tristeza da voz dela. Eu sei que fazem sempre um esforço por no natal e no aniversário darem prendas um bocadinho melhores e sempre úteis para as duas e eu tenho a certeza que o que foi escolhido, mesmo que não seja o que tu estavas à espera, mãe, vai ser sempre útil. Não me importo mesmo do sítio de onde vem a prenda. Eu sei que disse várias vezes que gostava que me dessem livros para a minha tese de doutoramento mas não me importo que não seja. Juro. Eu só queria ter a certeza que vai tudo correr bem... Que vamos estar todos bem apesar da forte ausência que se vai sentir à mesa. Eu só quero ter força para enfrentar as próximas horas. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Não consigo nem sei (ainda) evitar a sensação que se apodera de mim à medida que os dias passam no calendário e chegam a meio do mês. Torno-me apática e todos os movimentos que faço são mais lentos e muito mais dolorosos. Como se pressentisse sempre que o dia está a chegar. Como se a dor fosse escalando até chegar ao dia em que me lembro de todos os passos que dei e que me lembro que já não estavas, já não eras. Que nunca mais te vi naquela porta. Que nunca mais disseste Adeus em vez de Olá. Nunca mais te vi. E, sobretudo, não te vi ainda em casa. Naquele quarto frio que é sinónimo da tua morte. Não me pude despedir de ti nem estar no centro de toda aquela tragédia triste que foi a madrugada em que partiste, sem eu perceber bem porquê.
Ontem entrei no quarto e aproximei-me da cómoda, não sei bem porquê. Fiquei ali por uns segundos, a fixar o meu olhar no espelho. Estendi a mão até à tua urna e a mão ficou no ar porque não cheguei a tocar naquela mala que a protege. E depois retirei a mão, ao ouvir um chamamento, e fugi dali tão rápido como entrei. 
Não costumo entrar dentro daquele quarto, já não era habitual antes. Mas desde que morreste deitado naquela cama, muito menos... Olhar lá para dentro faz-me lembrar que morreste ali. Que as tuas cinzas estão em cima da cómoda, naquela mala estúpida e ridícula que a protege de olhar para o que te tornou, porque ela foi uma das causas mais fortes pelas quais já não fazes parte deste mundo. E ela chega ali e fala sempre contigo, como não fazia quando estavas vivo. E lamenta-se sempre de aqui estar. E eu sei que o maior lamento de todos é a forma como foste, isso era o que ela deveria lamentar. Só que é mais fácil repetir até à exaustão que aconteceu tudo como deveria, que a tua morte foi santa e que não havia nada a fazer perante um ataque fulminante. A dor disto tudo é que é fulminante. E eu, estranhamente, continuo à espera que me digam que isto é um sonho mau, que vais voltar. É sempre como se fosses voltar... Porque nada disto faz sentido. Porque não pode fazer sentido que a morte nos chegue assim, em dias normais em que aparentemente é tudo igual ao anterior. É tão estranho. Podia ser só mais um dia, mas foi o dia da tua morte. Estava tudo a ser normal e, de repente, morreste. E estás em todo o lado e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. Estás em todos nós e, ao mesmo tempo, nenhum de nós te vê. És parte do que dizemos. És parte do que sentimos. Do que foi e já não volta a ser mais.
Custa tanto saber que há partes de mim que nunca chegaste a conhecer e que as que conhecias não estavam à altura do que era o teu patamar - porque só pode ser isso. Custa-me saber que fiquei sempre aquém do potencial que, supostamente, achavas que poderia alcançar - porque só pode ser isso. Custa-me saber que todas as escolhas que fiz e que conheceste são erradas ou menos certas e que todas as que não chegaste a conhecer te fariam dar saltos para longe de quem sou. Um dos maiores medos que tenho é desiludir todos aqueles que me rodeiam e que gosto mais do que de mim... Porque só posso gostar tanto mais de todos e ter mais medo que certezas, para não me libertar e simplesmente ser quem sou. Viver com esta máscara de forma permanente causa danos internos quase impossíveis de sarar e vai demorar muito tempo até me conseguir perdoar do caminho que decidi fazer. E uma das dores que mais vai custar a ultrapassar é a dor da tua partida, que deixou uma ferida permanente em mim, muito difícil de curar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A minha memória prega-me partidas nos dias que são mais dolorosos e eu já sei disso mas não me consigo habituar a querer deslindar tudo o que aconteceu - por saber que só assim avanço (avançamos, porque utiliza sempre o plural e isso me faz sentir bem mais acompanhada no meio de todo este circo que sinto à minha volta) - e só conseguir fragmentos, como se a minha cabeça fizesse gala em se livrar do que mais custa. Nesta altura sinto-me tão cansada como desiludida com este meu cérebro que gosta de reagir desta forma à dor profunda que este caminho causa. E gostava de conseguir perceber o porquê de ser esta a minha reacção principal, quando deveria ser lembrar-me de todos os segundos para desenhar uma fita do tempo e, com isso, ser capaz de unir as linhas e chegar às conclusões, ainda que muito inacabadas, sozinha. Não que eu sinta que já chegou a altura de ficar sozinha, porque não sinto, acho que estou muito longe disso e tenho cada vez mais medo do dia que possa acontecer. Vamos ser as duas a decidir, e ainda ontem me recordou que se eu sentisse que estava pronta para estar sozinha, que teríamos que fazer um plano para que isso acontecesse. Mas não sinto, não sinto e tenho medo em todos os pontos do meu corpo. Não me sinto bem, nunca me sinto bem. Como é que é suposto eu estar sozinha? Disse-lhe ontem que é triste não saber estar bem e não saber qual foi o último momento em que me senti bem e é realmente triste. Talvez tenha razão quando ouço que estou sempre com a mesma cara de infeliz como se tivesse muitos problemas... E a verdade é que tenho alguns que me deixam na lama e que não sei resolver - e já não tenho máscara, tenho feito um esforço enorme para viver sem ela e, por isso, mostro-me cada vez mais pele e sensações. Talvez odeie isto. Talvez seja melhor ser da outra maneira mas este caminho só anda em frente e a máscara já caiu. 
Questionou-me tantas vezes, em diferentes momentos, sobre o que era para mim estar bem e eu sinto que a minha resposta não foi à altura de tudo o que sinto e gostava de arranjar uma máquina do tempo para retroceder e conseguir dizer-lhe que estar bem é, sobretudo, não sentir esta bola no peito que me prende a respiração, este aperto pesado que nunca sai. Esta forma de respirar estranha que se apoderou de mim e que poucas vezes não sinto. Estar bem é não me sentir a enlouquecer no meio da loucura que sinto à minha volta. Saber viver no meio do desassossego onde vivo e saber que posso ser independente dele, que não tenho que ser sugada para este buraco profundo. Estar bem é ter o olhar de fora sobre a vida que a terapia me trás, é conseguir ser a minha própria doutora Teresa. É analisar de fora, com ainda mais distância e com menos dor. Porque só assim é que me sentirei mais saudável no futuro. É saber mostrar que não foram os medicamentos que me deram a capacidade de dizer mais vezes o que sinto e como sinto, de questionar quando está errado e de não me sentir mal quando ouço esse comentário. É dar os louros a quem os tem e o nosso caminho está a ser pautado de vitórias pequeninas para que eu me sinta melhor no futuro e a gargalhada com gosto que deu quando disse que estávamos - estava - safas do olhar delas sobre a minha pequena mudança... 
Comecei pelo assunto que levei preso a mim a semana passada e pela certeza de que quero acreditar que este é o caminho certo, apesar do bloqueio que sinto em mim e do medo que tenho que seja para durar. Quero deixar aqui claro que me disse que sentia que eu tinha tentado enfrentar o assunto e não  me falhar - embora me sinta constantemente a falhar. E, do seu lado, senti medo também, que me tenha enrolado em tanta coisa só para me afastar do centro do furacão que me trouxe essa frase que lhe disse há tantas semanas atrás... Sobre querer fugir e me sentir bem com tudo o que existe fora de casa, porque sempre estou mais longe e não levo com a avalanche de forma direta. E disse-me tantas vezes ao longo da conversa que eu queria ser omnipotente e diz-me isso tantas vezes que eu ganhei coragem e insisti nessa palavra, questionando o porquê de estar sempre a dizer isso sobre mim e garantindo que começava a compreender o que me dizia. Sobre querer fazer tudo e estar em todo o lado e garantiu-me que isso não era possível. Quer fazer o doutoramento, trabalhar, cuidar dos pais, cuidar das finanças da casa, isso não é humanamente possível. Insistiu comigo com todas as coisas que lhe tenho dito que estou a fazer e que quero fazer, enumerou-as por tópicos, mostrou-me que eu não podia estar em todos os sítios ao mesmo tempo. Sinto que estou melhor agora do que estava há uns meses atrás, ou sinto que agora é diferente. Vamos sempre falar sobre ele e sobre a dor que tudo o que tem acontecido nos últimos meses me causou, porque foi um rombo profundo nos alicerces de que sou feita... Aos seus olhos a morte do avô é um espelho de toda a negligência que se vive, do que se manda para debaixo do tapete, do que não se fala, do que está no meio de todos mas não se diz. E é por isso que lhe custa tanto e é por isso que não consegue ultrapassar. É por isso que a dor é diferente em si. Ainda o procura pela casa? Disse que sim mas não continuei a resposta porque não quis abrir a caixa de memórias que me faziam sentir ainda pior do que já estava. Todas as vezes, quando vou lavar a loiça e ele deveria entrar na cozinha a perguntar-me se me estava queimar. Todas as vezes, que deveria colocar as mãos debaixo da água quente para dar um pequeno salto e gritar em tom de brincadeira "está quentjinha". Sinto tanto a falta da presença porque esta ausência grita muito mais do que alguma vez pensei, pela forma repetina como ocorreu e pela loucura toda que trouxe associada. Sinto-me realmente abandonada enquanto tudo acontece ao mesmo tempo e mostrou-me claramente que pensa que o centro de toda a minha dor não vem de onde eu sempre pensei que viria, chamar-lhe a situação dos 14 anos já é quase uma piada entre nós porque em poucas palavras definimos a imensidão que tem em mim. Disse-me que achava que a situação em si era apenas a ponta de um icebergue muito mais profundo e doloroso, embora não quisesse retirar ou diminuir a dor que tudo isso me causou. E tudo isto levou-nos à velha conversa da sensação de cegueira em que vivia, no escuro onde me encontrava e zangou-se comigo quando questionou se eu queria mesmo ser cega perante tudo isto, não foi? Senti que o tom de voz de alterou e que me tentou mostrar que é melhor viver na claridade dolorosa que na floresta profunda onde não existe saída. Porque aqui existe um caminho algures para descobrir. Por muito longo que seja, por muito que custe. 
Antes de nos despedirmos, perguntei baixinho e como é que eu vou viver o natal? Há alguma forma de parar o tempo e não viver o dia de natal, tinha eu dito no início... E a resposta foi tão clara que até me assustou: Fazer como a avó diz que quer fazer? Mas disse-me que tinha que me lembrar que ele não quereria que nós estivéssemos assim. Portanto teria que viver o dia com as memórias dele. Esteja onde ele estiver, ele não gostaria que fosse assim como me está a dizer. E eu vou lembrar-me disso à medida que o tempo chegar. 
Estava tão cansada. Estive a tremer o tempo todo. Olhava-me e via o meu corpo aos solavancos. E fingia que não estava a acontecer nada, tentava respirar fundo por entre cada frase. Tentava acalmar o meu corpo enquanto me respondia e a olhava, muitas vezes sem ser nos olhos porque tenho sempre medo de olhar de forma tão direta... E nunca me fez reparos sobre isso, talvez tenha sido melhor assim. E no final, mesmo no final, não me conseguia levantar. Tinha tantas dores no corpo. Lembro-me de ter perguntado se tínhamos corrido a maratona durante esta última sessão porque me sentia completamente exausta e acelerada. E sorriu. Sorriu e deu-me forças para me levantar garantindo que estaremos de volta num abrir e fechar de olhos e que lhe poderei contar a porcaria de natal que tive.

O que a memória me permite escrever, o que quero deixar claro aqui.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Sinto-me cada vez mais aterrorizada com o que aí vem e à medida que os dias correm mais medo tenho e mais me arde a garganta - as palavras teimam em não querer sair e os pensamentos confundem-se sempre. Já várias vezes tentei, incluindo no meu espaço seguro, dar-lhes uma voz e continuo sem conseguir. Porque é torná-los reais e verdadeiros. Porque é ouvir-me e sentir-me desvanecer. Porque me vai doer muito mais depois de dito em voz alta. E tenho feito aquele exercício de que tantas vezes me fala, sobre conversarmos dentro da minha cabeça, embora a única coisa que eu veja é sempre o sorriso... E quero acreditar que isso me vai dar a coragem necessária para me preparar... Porque só tenho mais uma semana para isso. Porque o tempo não para. Só corre. Ainda não ouvi falar de natal nesta casa e sempre que tu me falas em natal só me apetece gritar e não parar mais - tipo o tempo. Quando ainda hoje me questionaram sobre o que sentia, se me sentia igual em relação a ti... E eu disse que sim. Porque não mudou nada, nem um milímetro, continua a doer tanto e a arder tanto. Não fiz questão que a conversa continuasse porque não quero sentir que estou sempre a dizer as mesmas coisas e porque tenho tentado - ao máximo - proteger-me mais de tudo: mas vejo mais, ouço mais, apreendo mais - do que nunca. E há equilíbrios difíceis de fazer. Há dores tão profundas em nós que nem as palavras escritas lhes dão menos força para nos deitarem abaixo... Só mesmo as ditas a viva voz e sei que caminhei mais um bocadinho nesta estrada quando fui capaz de dizer e chorar sobre o medo que tenho da desilusão que possas sentir. Não me sei referir a ti no passado, muitas vezes. Custa-me acreditar que não estás aqui, custa-me e vai custar-me tanto mais. Não há uma forma de me preparar para o que aí vem?  

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Precisava de ser capaz de dizer em voz alta que me sentia a falhar no meio de tudo o que tenho andado a fazer, precisava de dizer que sinto que a coisa mais importante e à qual deveria estar a dar mais tempo e atenção, tem estado em segundo, terceiro ou quinto plano - ou mesmo em nenhum plano. Precisava de me ouvir a dizê-lo e sabia que só o poderia dizer ali, daquela forma, naquele contexto, na segurança estranha deste processo terapêutico que quanto mais anda, mais tem para andar. Ter-me questionado de todas as formas possíveis e imaginárias... Não me sai da cabeça a questão Quer adiar o doutoramento? e não me sai da cabeça a forma como me fez ver - embora me diga sempre que quero só ouvir mas que já sei, não é bem verdade... - que não tenho tido tempo útil, só se não dormisse é que chegava a mais algum lado. A forma como me disse ah, eu queria era escrever a dormir podem parecer pequenas frases soltas que não fazem sentido nenhum cá fora mas que fizeram e fazem sempre dentro de mim porque mostra que me conhece e não tem medo nenhum de me fazer questionar a minha própria realidade - e, ao mesmo tempo, diz-me que sabe que vai doer e que dói mesmo. Disse-me que sabia que não era a pessoa indicada para me ajudar, que só me poderia ajudar a pensar e incentivou-me a estar com a minha orientadora, ela sim, a pessoa certa para me ajudar a navegar esta onda - ela, que antes de saber o que se estava a passar comigo, já estava a marcar uma reunião para esta semana, ela, a que me acalma sempre só de a ver. E hoje, reunirmos hoje, um ano depois, foi muito bonito. E apesar de eu estar mais calada do que o habitual porque me é tão difícil explicar tudo o que sinto em relação a este assunto, porque nunca é só este... Falamos sobre ser um novelo de lã que desenrola e tem sempre novos metros e é verdade... Este assunto nunca é só isto. É sempre mais. O que é que estou a fazer à minha vida? Porque é que decidi fazer isto já? Estou a fazer a coisa certa? Sou capaz? Sou madura o suficiente para estar a fazer tudo isto? Deveria de ter aceite o estágio? Deveria estar a trabalhar ao mesmo tempo que estou a fazer o doutoramento? Mas se não trabalhar não tenho forma de seguir no doutoramento... E é sempre mais. Obrigada por me ajudar a questionar escolhas tão difíceis em voz alta. Obrigada por me mostrar que não faz mal haver a esquerda e a direita e que tenho que fazer uma escolha, sem medo. E que a escolha pode mesmo só ser acalmar e priorizar por datas ou pode ir mais profundamente e ter menos aulas, fazer o doutoramento em mais tempo, ou não o fazer de todo. Mas... Se não estiver a fazer o doutoramento estou a fazer o quê à minha vida? Estou a adiar. E sorriu. Como sorri sempre, antes de me responder. Eu não quero adiar isto, só queria mesmo ser um bocadinho super mulher, realmente... Como me conhece bem, dado que mal tinha aberto a boca e já me estava a mandar com um «Se quer que eu a ajude a ser a super mulher, não consigo porque também não sou!», sempre que me lembro disto, sorrio com a resposta rápida e pronta que me enviou mal comecei a tentar só desbobinar tudo isto...  É sempre tão bonito parar e admirar a forma como nos ligamos e a confiança que tenho em tudo isto que estamos a fazer juntas. 
E quanto ao doutoramento e afins, só sei que tenho que parar de querer controlar tudo e tenho que perceber que não tenho tempo e que tenho que organizar as minhas prioridades. Penso que a reunião de hoje possa ter ajudado nesse sentido mas não me sinto mais tranquila, só tenho vontade de chorar. Abrir os trabalhos que tenho para fazer não me faz sentir que estou a avançar em fazê-los, sinto-me francamente bloqueada e não sei como me ajudar a mim própria a sair desta. Os trabalhos, o projeto da FCT, o artigo, o currículo, o projeto de tese. As prioridades. E a minha cabeça a explodir.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Os meses podem suceder-se uns aos outros da forma que quiserem porque nada disso importa quando a dor que sinto dentro de mim desde que és luz não se evapora. Dizem que temos que aprender a viver com as saudades mas eu acho que antes disso temos que conseguir compreender os porquês. E eu não consigo compreender porque é que tiveste que ir. Que raio de ensinamento queria a vida, o tempo, os cometas, ensinar a esta família para que te arrancassem de nós sem dó nem piedade. Só sofrimento, teu e nosso. Teu, tanto. 
Eu não consigo conceber o mundo que me tirou o meu avô da forma mais atroz que é possível lembrar-me que exista. Eu não sei entender o que é suposto retirar de tudo isto sem ser uma loucura que me leva ao desespero. Os meses continuam a passar e parece que a vida se vai reconstruindo aos bocadinhos mas eu fiquei parada no tempo em que aqui estavas. Eu fiquei parada porque continuo sem conseguir entender. Todos os momentos continuam a fazer-me lembrar a tua partida e o aperto que mora em mim não me deixa ter paz. E por falar em paz, saber que não a tiveste nos últimos momentos da tua vida térrea faz-me sentir uma revolta imensa que não tem passado de maneira nenhuma. Acalma quando me afasto do epicentro do furacão que a avó se tornou. Quando não ouço e quando não arde nos ouvidos e na pele aquilo que ela diz. É um insulto à forma como tu foste embora. É um insulto à vida que ainda tinhas dentro de ti quando poderia ter chamado por ajuda. Porque não era necessário fazer grandes malabarismos, bastava ligar para casa do filho onde alguém a iria acudir muito mais rápido do que ela poderia pensar. Eu não compreendo como é que ela continua a negar tudo o que aconteceu apenas e só para se deitar com a cabeça na almofada de forma mais tranquila. Nem sequer sei se é exactamente essa a razão e eu precisava de saber. Não sei que tipo de paz me trariam as respostas a estas perguntas mas sinto que corro uma maratona louca desde que foste embora e estou cansada disto. Só queria que tudo parasse um momento. Eu queria saber se tu agora ainda gostas verdadeiramente de mim, com tudo o que imagino que sabes desde que partiste. Sempre tive medo que soubesses em vida e que a desilusão pautasse o teu olhar mas a verdade é que não sei que orgulho tinhas de mim porque sinto que todas as escolhas que fiz desde que me tornei senhora das minhas próprias vontades não foram de encontro ao que tu gostarias. E agora que partiste gostava de saber se me amas, tal como amavas em vida. Porque eu quero acreditar que o amor que me tinhas era inquebrável, fossem quais fossem as minhas escolhas. Sinto tanto a falta de tantas coisas que nunca te disse e sinto tanto o último dia em que te vi, a despedida do teu olhar. E choro, por dentro. E caem-me lágrimas no colo sem as conseguir - ou tentar - controlar. Porque há dores que não se controlam e a tua partida é ferida aberta em mim, que não tem data de resolução. Dizias tantas vezes que íamos sentir tanto a falta do velho e dizias tantas vezes que te estavas a sentir cada vez mais doente. E eu só pergunto como é que não te lembraste, tu também, de nos pedir ajuda naquelas horas fatídicas? Nós iríamos socorrer-te. Sabias disso, certo? Morreste sabendo disso? Vês, avô? As questões nunca param e não sei como me ajudar. 

sábado, 17 de novembro de 2018

Nunca sequer imaginei que este final de ano pudesse ser como está a ser - enfrentar um trabalho que não sei sequer se gosto dele, com mais aulas de doutoramento que as que acho necessárias, com um novo desafio de trabalhar durante dois meses, com pouco tempo para estar dentro de casa na minha zona de conforto... Incluir isso tudo nos entretantos em que tento terminar trabalhos, em que assisto a conferências, em que volto às consultas... Não pensei que conseguisse tudo isto. E gostaria de incluir os treinos no ginásio, a ajuda em casa, dormir um pouco melhor... Não cheguei ainda a uma rotina que consiga considerar confortável mas quero caminhar para isso. Afinal de contas ter arranjado um emprego ao mesmo tempo que faço o doutoramento era um objetivo e deveria servir para me organizar melhor - sempre o quis. Sentir que estou a fazer mais por mim, que sou capaz disso. 

Em relação ao trabalho de dois meses, quero deixar aqui para ler daqui a uns tempos que agora sinto que será uma imensa experiência benéfica para mim. Sei que me sinto extremamente honrada por terem pensado em mim para desempenhar estas tarefas - que vão ser bem pagas, mas que, mais que isso, me vão permitir construir um currículo bem melhor do que aquele que estaria prestes a construir. O objetivo de trabalhar para o projeto da FCT para o ano encontra-se ainda na minha mente - se bem que o papão da defesa do projeto de tese no final do próximo ano... Está tudo tão longe e ao mesmo tempo tão perto. Eu só espero conseguir ser capaz de fazer tudo sem erros. Ser a melhor profissional que consigo ser. Responsável. Atenta. Disse-me que era mérito meu, que estou a colher os frutos daquilo que temos vindo a construir, que me estou a tornar mais sólida profissionalmente e a traçar o meu caminho e é bom ouvir todas essas coisas e guardá-las no meu peito - porque também guardo as menos boas, as confusas, as dolorosas. 

E tenho muitas saudades de me sentar numa sala em que estejamos apenas as duas e sentir que temos tempo para conversarmos, sobre tudo e sobre nada. Tenho saudades de quando diz que agora é o confessionário e que o que dizemos ali dentro que não repetimos lá fora, porque é verdade. É mesmo. É uma ligação bonita a que temos. Esta semana disse que sentia saudades e é verdade, sinto. Há muita coisa a acontecer que gostava de partilhar, faz parte da maior parte dos projetos que quero ver nascidos, palpáveis. Bonitos. Quando crescer... E sinto que estou a crescer.
Ontem à noite voltei a escrever - mesmo com todo o medo que tinha disso. Só porque achava que isso faria diminuir toda a dor que sentia dentro de mim.

O meu peito é chumbo e explode ao sê-lo. Eu não sei se isto é possível mas é exactamente o que sinto, pequenas explosões dentro de mim que teimam em não parar. Tenho um peso dentro do peito que não me deixa respirar em condições, o ar não passa, é rarefeito. É mais fácil respirar lá dentro. Mesmo com o cheiro a médico que, às vezes, se encontra infiltrado no ar quando entro. E queixo-me algumas vezes e outras calo-me porque sei que vou respirar melhor mesmo que o peito arda. Não tenho medo de me queixar porque sei que é a única pessoa que consegue entender as nuances do que digo ainda antes sequer de eu própria entender. E dou graças a quem quer que exista a puxar os cordelinhos por me ter colocado neste caminho, apesar de saber que a decisão de continuar a percorrê-lo é minha. Porque por mais dor que traga, também me faz ser mais forte e conhecer melhor as minhas capacidades de entrega interior para me tornar alguém melhor para si própria. 
Ajuda voltar a achar que vou respirar um pouco melhor, muitas vezes, à medida que parece que vamos desatando os nós e esta semana disse-me que parecia que eu estava enroladinha num novelo de lã. E eu não sei sair daqui, sinto que me enrolo mais à medida que o tempo vai passando. E que o meu peito dói mais. O único sítio onde a dor quase permanente em que vivo acalma é quando sei que não estou só. Porque me sinto só constantemente com as minhas coisas e os meus pensamentos. Estou só nos meus problemas porque não sou ouvida da forma que gostaria de ser, parece ser tudo sujidade que se esconde debaixo do tapete, parece ser tudo assobiado para o lado, empurrado com um pontapé, como se já não fosse possível trazer mais sofrimento a ninguém - talvez nunca tenha havido cota, merda. Merda. Eu não rebentei com a cota assim que nasci. Simplesmente nunca fizeram uma para mim porque lhes esgotei o ser ao nascer. [Foi isto? É isto? O meu cérebro explode porque eu não sei que palavras usamos. Só me lembro da dor e de querer fugir. De estar pregada à cadeira a sentir todo o meu corpo tremer.] Mas eu não tive culpa disso e eles também não. Não tens problema nenhum, és uma criança normal, não há nada errado contigo. Mas havia, sempre houve. O que é que se passa com esta família em que o sofrimento não pode ser sentido e vivido? Parece que existe um grau de loucura cujo expoente máximo é aquela que negou completamente a morte do marido e que deixou que ele sofresse horas seguidas, não auxiliando o marido moribundo, não lhe dando um pouco de paz. E ele precisava tanto dela, ele precisava de não ter morrido como morreu. E eu pergunto como é que é suposto lidar com isto? Não acho que seja possível conseguir ultrapassar um acontecimento tão traumatizante como este - e diz-me que tudo isto colocou a nu o que sinto e a forma como os vejo. Quando me diz que não confio neles. Que não acredito neles. Quando me pergunta se já perdi a esperança. Sei que sorri. E talvez não saiba a resposta a estas perguntas ou não queira saber. Às vezes prefiro não saber o que sinto - pode ser essa a causa pela qual neguei durante tantos anos precisar de percorrer este caminho. Na verdade, eu sinto que eu não sei aceitar isto tudo que agora vejo. Isto tudo que agora sei. Eu não sei aceitar tudo o que se arrasta à minha volta e tudo o que permanece assim, sem resolução visível. Eu não sei aceitar que tenho as mãos atadas e que não consigo fazer nada para resolver nada, que sou apenas uma espectadora atenta a certos detalhes da minha vida. E é por isso que tento estar em todo o lado ao mesmo tempo, perceber tudo e apoiar em tudo o que posso. É por isso que diz que eu tenho tendência para ser omnipotente e que quando o meu corpo paralisa e entro em pânico que é a maior verdade que poderia acontecer. Porque o meu pânico paralisante repõe o facto de eu não ser uma adulta que toma decisões. Repõe o facto de existirem pessoas antes de mim que as têm que tomar. Eu não posso ser mãe dos meus pais. Eu sou a filha. Diz-me isso provavelmente há dois meses e eu continuo sem conseguir saber como reagir e o que fazer - e já me afastei de tantos epicentros de crise. Só que continuo a sofrer. Continua a ser desesperante e aterrorizador viver assim. Continuo sem saber como sair deste novelo de lã onde vivo há mais anos do que quero admitir - do que sempre quis admitir. 
Evitei pensar porque doía até ter falado no assunto e ter sentido que abri um imenso buraco dentro de mim que sangra abundantemente e que não consigo controlar. Evito escrever mais que isto porque continua a doer. Só queria rebobinar tudo de forma a recordar exactamente todas as partes que me deixaram em ferida aberta e com as quais tenho que aprender a lidar. Colocar para o lado não é um bom princípio e eu tenho tendência a fazê-lo, com algumas dores de crescimento que as conversas me trazem. E eu sei que não me ajuda, no final do dia. A verdade é que poderia, muito bem, continuar a juntar palavras a estas que deixo aqui escritas e que isso não me faria diminuir, nem um pouco, o aperto que se instalou no meu peito. Dói-me não conseguir sair de mim para saber o que fazer.

domingo, 30 de setembro de 2018

Tenho orgulho em nós, tenho orgulho nas palavras difíceis das quais não fugimos e de não termos medo de chorar ou gritar, tenho plena noção da paz que sinto ao teu lado mesmo quando não trocamos uma palavra e estamos só. E agradeço-te pela viagem que fizeste, um dia antes, só para termos um dia para nós, porque precisávamos dele - de beber da força uma da outra. E de dizer muitas vezes que tínhamos medo de tudo mas que íamos ultrapassar juntas.

És tão forte e eu estou tão orgulhosa de ti. Sexta feira foi um dos dias que mais me custou, as horas não passavam, mas também não foi tão mau como esperávamos. Foste e voltaste em cinco, seis horas, e o meu coração acalmou. Tu estavas bem. A recuperação é sinuosa e difícil mas vais conseguir, um dia de cada vez. Eu estou aqui - sei que não aí, e dói-me não estar aí. Mas contigo.

sábado, 22 de setembro de 2018

Até aqui, e mesmo precisamente há uma semana (e um dia), a data do meu pesadelo não estava marcada - talvez porque eu nunca quis acreditar completamente que fosse acontecer, porque sempre pensei que fosse de outra forma que não esta, porque não te via segura, porque não estavas confortável ou confiante. E, na minha cabeça, tu ias dizer que não com maior probabilidade do que dizer que sim. Portanto não estava preparada para que a tua decisão fosse sim, para que a tua decisão fosse avançar com isto já agora. Eu sei que estás mais perto da concretização de um dos teus maiores objetivos de vida e que viveres sem parte do peso que carregas te trará uma maior qualidade de vida mas eu não consigo conceber as horas que vou ficar sem saber de ti. Eu não consigo saber que vou estar aqui enquanto tu vais estar lá - eu tenho um medo profundo do que te vai acontecer e nem sei bem explicar qual é que é o meu maior medo. E logo agora, que está tudo a acontecer ao mesmo tempo e que eu nem posso tentar sair daqui.

O que mais me está a custar no meio disto tudo é a tua tranquilidade desde que tomaste a decisão de avançar e a minha dor e confusão em contraste com o que demonstras sentir. Sinto-me tão cansada e ainda nem cheguei lá, ainda faltam alguns dias para chegar. E o medo, o aperto, a dor, que me consome, desde que percebi que ias avançar. As minhas perguntas e dúvidas, enviadas de forma repentina, porque não me aparece tudo ao mesmo tempo... A única coisa que me acalma é saber que te vou poder abraçar antes disto tudo e que isso nos fará mais fortes. Nós vamos ultrapassar isto juntas. Tenho tanto orgulho em ti e na forma como estás a lidar com tudo isto, és tu que me acalmas e que me dás força. O primeiro passo será dado daqui a menos de uma semana e vai correr tudo bem - é só o que eu tenho que pensar, um minuto atrás do outro.  

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Faltava uma semana para fazerem cinco meses da tua partida e, finalmente, conseguimos todos ter uma noção daquilo que te aconteceu; a resposta chegou. E eu demorei uma semana a sentir-me capaz de escrever tudo isto porque me dói profundamente relembrar. Dói-me profundamente entrar nesta casa e saber que não te vou ver, ouvir e cheirar. Dói-me muito tudo isto mas dói-me ainda mais a forma como partiste. E, no meio de tudo isto, dói-me o alívio que aquele pedaço de papel lhe trouxe. Eu tinha medo que trouxesse uma desgraça ainda maior. Mas não me preparei para a eventualidade deste acontecimento, não me preparei para ouvir que tinhas morrido bem, depois de sofreres oito horas sem ela te dar nenhum tipo de auxílio de maior. Eu tinha medo que tudo corresse mal e que ficasses ainda pior, que a nuvem negra que se abateu sobre nós ainda aumentasse de tamanho... Mas não esperei que a falta de consciência dela fosse a vertente maior. A raiva consome-nos e eu tenho que arranjar forma de fazer as pazes com as coisas que ouço, tenho que filtrar a informação e guardar apenas o que vale a pena guardar. Só que não sei se sei fazer isso porque tudo isto poderia ter sido evitado - ou quase. O alívio que ela sentiu... Não deveria ter sido assim. Não queria que ela sentisse ainda mais culpa e que tudo piorasse exponencialmente... Mas também acho que o outro lado da escala é demasiado para saber lidar. 


Espero que estejas em paz. E tenho tantas saudades tuas. Tantas. De chegar e te ver. De estares aqui. De te ouvir. Fazes-me uma falta profunda. Este nosso mundo está louco demais sem ti aqui. Parece que perdemos todos o norte. Mesmo que tenha ouvido que no tempo em que aqui estavas as coisas já estavam complicadas... que nada era fácil... Mas a dor? A dor de não estares não existia e só por isso já era tudo bem melhor.

sábado, 1 de setembro de 2018

Sempre tive um carinho especial por setembro, muito parecido ao que tenho na passagem de dezembro para janeiro. E este setembro iniciou-se com uma experiência que já queria ter realizado há muito tempo atrás mas que adiava constantemente. A minha necessidade de relaxar o corpo e acalmar a mente vem de há muito tempo e, algumas vezes, consigo isso através da escrita. Mas tenho que aprender a utilizar o meu corpo como veículo de calma. Tenho que aprender a fortalecer a minha mente. E o yoga e a meditação vão ser os meus aliados perfeitos nos tempos que se avizinham. Vou garantir que os vou utilizar. Quero conseguir esse objetivo. Hoje foi o primeiro dia e foi realmente difícil de garantir o equilíbrio, só sei que comecei exatamente no estado mental necessário. Sei que tenho que aprender a controlar as minhas respirações antes de avançar - embora hoje tenha feito toda a experiência e sentido imensa dificuldade nela - não o que se via de fora. Estou a começar um setembro bonito, tenho fé nisso. Fiz duas listas, uma no final de agosto, e uma hoje, e vou trabalhar pelos meus objetivos e pela minha felicidade mental. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

"Porque tu és mais importante para mim que uma tristeza que me causes.", disse-te isto hoje e disseste que era bonito mas antes de o ser é muito verdadeiro. É o porquê da minha preocupação constante contigo e é por isso que eu vou abandonar os meus amuos e as minhas mágoas (mesmo que causadas por ti) se tu precisares de alguma coisa minha. E foi por isto que eu interrompi o meu afastamento em relação a ti, há quatro dias, e te disse que estaria presente nas datas que me dissesses que seriam as tuas idas ao hospital. A verdade é que não sabia na altura que iríamos continuar uma conversa, o meu objetivo era e apenas só dar-te a entender que eu estaria para ti porque tu és importante para mim, mesmo acima dos meus sentimentos de mágoa. E, se no primeiro dia, me custou mesmo muito conversar contigo e sentir a tua agressividade em relação a mim e o teu apego a uma razão que dizes que tens sem olhares para o meu lado... A verdade é que tudo o que me apontaste nesse primeiro dia existe e eu nunca, em momento algum, neguei a existência desses problemas. A grande diferença entre nós as duas é que eu, desde o início, te disse exatamente quais seriam os meus pontos fracos nesta relação e a forma como poderia não os resolver no tempo que considerarias o ideal. As coisas na vida não são no tempo em que gostaríamos, são no tempo em que estamos preparados para que aconteçam, ou no tempo em que têm que acontecer porque alguma coisa sai do nosso controlo. E em relação às minhas decisões e à forma como vivo - perante tudo o que já me aconteceu - quero estar no controlo na medida do que possa. Custou-me realmente compreender a tua agressividade em relação a mim mas, também, não te ouvir abordar claramente os teus erros enquanto sublinhavas os meus... Estou na disposição de dar o meu melhor para que tudo se tranquilize entre nós - é certo - mas não farei nada no teu tempo e sim no meu. Como sempre. Se gostares verdadeiramente de mim, vais esperar. Tal como eu continuo aqui à espera que vejas todos os erros que cometeste no passado e que fizeram com que esta relação fosse uma autêntica bola de neve. 
Há dois dias perguntaste-me, acredito que a medo, o que éramos uma para a outra. E eu disse-te, o mais sinceramente possível, que nem eu sabia mas que não me parecia que fôssemos o que éramos até aqui. E espero que não voltemos a ser tão cedo porque precisamos de pegar nisto com todo o cuidado do mundo e ir reconstruindo devagarinho. Nós somos duas pessoas que gostam uma da outra e que fizeram e disseram muita porcaria mas que, neste momento, estão, as duas, a tentar não fazer porcaria. Penso que, pela primeira vez, estamos as duas exatamente na mesma página e na mesma linha de raciocínio. A cabeça fria e a racionalidade têm que nos fazer chegar a algum lado. As pequenas regras que vamos impondo, em situações que antes eram motivos de discussão e mau estar, vão contribuir para alguma coisa... E a minha experiência da melhor versão de mim própria mantém-se ativa. Desta vez com um bichinho qualquer que me diz que te vais esforçar por fazer o mesmo, ao mesmo nível que eu, ainda que admitas que podes cometer erros. E é bom que o faças porque é a realidade, eles vão acontecer. Só temos que arranjar uma forma de lidar com eles nessa altura. Sinto-me muito mais tranquila do que estava há muitos meses. E isso é a maior dádiva que eu posso retirar deste período de tempo todo onde os erros se acumularam e o mau estar foi diário.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Carrego com toda a força que tenho no peito para parar de sentir esta dor profunda que me invade desde que comecei a treinar esta manhã - foi tão doloroso que tive que parar de correr. E não consigo deixar de a sentir. Às vezes vem acompanhada com uma dificuldade em sentir que estou a respirar e outras vezes com uma guinada forte na cabeça. 

[Uma semana depois da consulta no centro de saúde e a medicação já me deitou abaixo uma vez e demorou a fazer efeito - mas fez um efeito puro. E, por isso, volto a ela. Não sei o que quer dizer utilizar em caso de SOS, eu só quero simplesmente que a dor passe e não se instale dentro de mim. Não consigo lidar com dores brutais e pânico. As duas coisas, misturadas, deitam-me sempre abaixo.]

Aguento até dia 10, eu aguento até dia 10.
«Além disso.. para que queres alguém que só luta por ti quando tu viras as costas? Essas pessoas não têm interesse. Interesse tem quem luta antes de chegar a esse ponto de rutura.»


Ler para não esquecer.
"Para chegar ao amor precisas primeiro de sofrer, o problema é só esse; para receberes amor precisas primeiro de te perdoar, a pior parte é essa, para dares amor precisas de ser mais do que o perdão, mas implica a vida", gostava tanto de ter tempo para te voltar a ver com tempo e nos sentarmos com tempo em algum sítio em frente a um rio qualquer só para conversarmos sobre a vida. 

domingo, 26 de agosto de 2018

«Parece que o tempo todo
A gente nem percebeu
Que aqui não dava pé não
Que tua amarra no meu peito não se deu»

AnaVitória
Cada dia que passo sem escrever tudo o que me apetece dizer-lhe é mais um dia ganho ou mais um dia perdido? Preciso tanto de voltar. Estar sozinha está a dar cabo de mim. Estou cansada de me pegar sozinha. Não consigo aguentar. E vou aguentando.
Estou há dez dias à espera que te surja alguma coisa para me dizer e há dez dias que compreendo que não valho assim tanto para ti porque não vens. Há dez dias que a minha cabeça se revolta de um lado para o outro entre certezas de que fiz o que deveria por mim própria e dúvidas de que deveria ter-nos dado mais algum tempo. E não compreendo porque é que não vens. Não compreendo porque é que não mereço que lutes por mim. Não compreendo mesmo. Gostava tanto de saber o que te vai na cabeça e de saber porquê, de saber, afinal, o que valho para ti. Dizes que não posso saber que importância tenho em ti mas as tuas atitudes vazias mostram-me perfeitamente que posso.

Quanto tempo é que demoras? Não coloquei esta música para mais nada sem ser para ter a certeza de que não vinhas e não fiz isso sem ser para provar um ponto a mim própria; o esperar que venhas não faz com que ganhes vontade de vir - porque na verdade não tens vontade. Se tivesses tinhas vindo no dia em que sabias que tinha uma consulta e quererias saber o que me tinha acontecido. Se tivesses essa vontade tinhas falado comigo no dia em que fazia mais um mês da morte do meu avô, nem que fosse para que eu soubesse que estavas ali. 

Há dias em que não espero que venhas, só só queria que viesses. E nesses dias apetece-me arrancar-te de mim porque não correspondes, em nada, ao que eu preciso de ti. A verdade é que os erros que cometes deveriam ser colmatados só e só por atitudes tuas. E não são - nunca foram. As tuas atitudes foram iguais, sempre. Mesmo quando eu fiz o último esforço por um nós muito deteriorado. Nunca fui valorizada como deveria. Palavras vazias e poucas atitudes concretas e consistentes mataram lentamente todo o meu progresso. Dei-nos um último mês muito em paz, e tenho tanto orgulho em mim por esse esforço. Só pensei que fosses seguir-me... E, mesmo quando te disse que não conseguia mais, pensei que fosses pegar e dizer-me que agora remavas tu um bocadinho porque eu merecia isso. Porque a nossa relação merecia mais de ti, mais do que estavas a dar. Não tive nada disso e essa é uma dor que transporto comigo todos os dias por muito que não fale nisso. Aprendi que falar não muda nada e não apaga o aperto no peito com que vivo. Porque não valho para ti aquilo que tu vales para mim. Só que não faz mal; valho para mim própria o suficiente para me afastar sempre que me retiras mais um pouco de oxigénio - resta saber se estes dias são apenas para ganhar forças novamente ou se vou levar a minha avante. Se vou realmente deixar-te ir porque tu não sabes cuidar de ninguém. Nem de ti própria.

Eu não consigo compreender o cansaço que dizes sentir, não consigo compreender os ciúmes estúpidos que te atropelaram, não consigo compreender porque é que não dás importância ao que eu digo e não consigo compreender como é que não consegues pedir desculpa pelas más atitudes que tomas. E é disso que tenho que me recordar sempre que as dúvidas me atropelam. Tem que haver uma forma de te arrancar de mim, só tenho que dar tempo ao tempo para me fazer compreender o que realmente quero, de vez.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Faz exatamente uma semana hoje que terminaria o prazo da minha experiência no seu primeiro mês e, faz, também, uma semana que te deixei uma resposta pendurada - principalmente porque não vale a pena. Porque antes disso já havia uma lista infindável de coisas onde erraste e me partiste completamente o coração. Se, nesta semana, há uma parte de mim com montes de dúvidas da decisão que tomou - mesmo que eu ainda não tenha a certeza completa de que a tomei -  há outra que acha que fez o melhor. Que afastar-me de ti é sempre melhor que me fazeres sofrer.

Cada vez tenho mais a certeza de que não nos conseguimos entender e que não somos compatíveis nos feitios, principalmente desde que tomo mais atenção ao que preciso e ao que não me dás. E ser atacada constantemente em vez de compreendida acaba por desaguar numa falta de respeito que me deixa completamente sem chão. Já há muito tempo que me fazes mais mal que bem. Não entendo as tuas atitudes, não entendo as tuas desculpas, não entendo o cansaço que dizes sentir e não entendo porque é que não és capaz de lutar por mim. E isto continua a arrastar-se. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

São quatro meses à espera de uma resposta que teima em não chegar e essa resposta ia fazer com que tudo ficasse diferente. Digo diferente porque pode não ser melhor. Pode ser pior. E não sei. São quatro meses a entrar na vivenda à espera de te ver. A percorrer todos os cantos daquela casa à espera de te ouvir. São quatro meses a meter menos um prato na mesa e quase a rebentar de dor. Quatro meses a chorar às vezes quando ninguém vê e outras vezes quando vêem. São quatro meses absolutamente insuportáveis. Estar sem ti é dos maiores suplícios que temos que aprender a viver, tu eras a alegria daquela casa e isso perdeu-se. Por muito que repetisses as mesmas histórias que sempre contavas e por muito que, às vezes, já ninguém tivesse paciência.
O que me custa mais no meio destes quatro meses, para além da tua ausência, é saber que há coisas que não soubeste. Saber que podes não gostar de mim, agora que me vês como sou, estando onde estiveres. Não sei exatamente no que acredito mas sei que o meu peito me dói muito mais desde que foste embora, desde que és cinzas naquele pote que ninguém abre. O que me custa aceitar é que tu desencadeaste uma mudança dentro de mim que se está a ver para fora e que começo a mostrar uma vulnerabilidade e uma fragilidade tão grandes que não sei onde é que vão parar. Desde que morreste que eu perdi a máscara. Queria que estivesses aqui. Queria tanto que estivesses aqui porque não merecias ir. 

domingo, 19 de agosto de 2018

Senti, quando vi fotos tuas em Lisboa no final de junho, que a dor em relação a ti e a tudo o que nos tinha ligado e tínhamos dito uma à outra não tinha passado, embora já conseguisse estar mais tranquila e os meus pensamentos já não me doessem tanto quando tinha um vislumbre da tua existência. Senti isso de uma forma muito forte e senti uma tristeza muito grande - muito maior do que sempre que piso o Porto e sinto que poderia estar ao teu lado, poderia ver-te em algum lugar, poderíamos esbarrar uma contra a outra, ou poderia ligar-te até nos sentarmos a conversar - porque poderia ter passado uma parte desse dia ao teu lado se não tivesse feito tanto mal.

Ao longo do tempo fui assumindo para mim própria a minha parte da culpa no que nos aconteceu. Ao início revoltei-me quando percebi que assumi a culpa sozinha e que, carregando-a, talvez te tenha mostrado que ainda não estava pronta para te ter de volta para termos uma conversa a sério. O que aconteceu ontem durante o dia, sem ambas o termos planeado, foi uma conversa que serviu para fechar um ciclo muito doloroso para mim. Saber que tens noção de que não estiveste nas alturas em que precisava, saber que tens noção de que não disseste as coisas da melhor forma e saber que te preocupaste comigo ao longo do tempo e que nunca me desejaste qualquer mal, foram tudo pequenas coisas riscadas da minha lista de dores intensas sempre que via o teu nome. Tudo o que te disse ontem foi de coração aberto e de uma verdade mesmo pura. Ao longo do último ano fui fazendo uma auto-análise e adequando tudo o que me disseste, que me aparecia em pensamentos sem eu contar nas mais variadas alturas do dia, e percebendo que não poderia aproximar-me das pessoas da forma que me aproximei de ti para não lhes fazer mal como te fiz a ti, e, também, para nunca mais ouvir aquilo que me disseste. Quase que se tornou num dos meus maiores pesadelos, esta obsessão em me manter longe o suficiente para não me causar problemas a mim nem a ninguém à minha volta. Aprendi a lidar sozinha com os meus problemas e a conversar comigo própria, para dentro, em vez de para os outros. Talvez isso me tenha tornado uma pessoa completamente diferente daquela que era mas nunca me escondi que aquilo que se tinha passado entre nós tinha ficado guardado em mim de uma forma muito profunda e traumática. Aprendi contigo que temos que ouvir os outros e aceitar a existência de conversas mais difíceis para que tudo fique claro dos dois lados, antes mesmo de a bomba explodir. Fazer perguntas e vê-las respondidas é muito mais simples do que deixar tudo fechado dentro de nós. Tu ensinaste-me muito e a forma como tudo aconteceu entre nós ensinou-me mais ainda. Sei que tudo o que disseste, tinhas razão em dizê-lo, apesar de me continuar a custar a forma como o disseste. Mas até isso falaste e até isso senti que poderia ser ultrapassado. A conversa que tivemos fez-me um bem incrível e foi aliviando um peso que trazia dentro de mim e percebi que a mágoa que guardava cá dentro podia, finalmente, tornar-se num sentimento bonito de experiência e não ser uma carga pesada para continuar a carregar. 

Quero que compreendas agora, que as minhas atitudes correspondem às palavras e que, apesar de só querer continuar a conversar contigo, te sei dar espaço. E que o que acontecer entre nós ficará apenas e só ao teu critério. Deixei bem claro aquilo que sinto e que gostaria de tentar que voltássemos à vida uma da outra. Está em absoluto nas tuas mãos sem qualquer tipo de compromisso. És muito importante para mim e só quero que estejas feliz.   

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Ontem faltava precisamente uma semana para fazer um mês desta minha experiência e na semana que tinha iniciado já dava sinais de muito cansaço e de uma quebra brutal na confiança que tinha vindo a construir nas tuas atitudes - que, na realidade, não eram em nada diferentes de tantas outras vezes em que dizias que estavas a tentar, os erros continuavam a acumular-se enquanto eu continuava a fazer por confiar em ti e entregar-te bocadinhos da minha vida. O que mais me custou nisto tudo foi ter levado os dias a mostrar-te que estavas a errar - de uma forma tão constante que até me dá vontade de chorar - e me dizeres, a dada altura, que estavas furiosa contigo própria e que não percebias as tuas atitudes. 

Sei que não posso levar-me muito a sério quando já várias vezes te disse antes que não conseguia mais e que desistia, que estava cansada e farta de remar sozinha... Sei que tenho que viver uma hora de cada vez e que há horas em que vai custar-me mais perceber que não vais realmente mexer uma palha a caminhar na minha direção e o quão injusto isso é depois de todo o esforço que fiz por um nós. Mas, ainda assim, penso que esta vez é diferente porque esta era, realmente, a minha última cartada. Custou-me sentir a alteração no meu estado psicológico e não ter conseguido manter-me calma ou afastar-me simplesmente da conversa para não gerar uma discussão. Já estava há quase um mês a portar-me de uma forma substancialmente diferente e já tinha percebido que as discussões só eram geradas por mim porque o mau-estar desta relação era meu. Os erros eram, maioritariamente, desse lado... 


Sinto-me sozinha, muito sozinha mesmo, sinto-me absurdamente desrespeitada, sinto que me humilhaste e que me mandaste abaixo de uma forma que eu não merecia porque nada do que te disse ontem, quando já estava muito menos calma, foi uma novidade. Já te tinha dito várias vezes que o que fazias não era suficiente e que qualquer dia ia mesmo desistir. E nunca ouviste. Acho que o facto de ter tentado falar contigo sobre o meu avô e de não teres ligado a isso de forma nenhuma, humilhando completamente o que te estava a dizer, e focando a conversa num tema acessório, foi mesmo a gota de água nesta relação mais que deteriorada.

[Vou mesmo fazer uma lista de tudo o que precisei e não tive e olhar para isso sempre que achar que cometi um erro. Vou arrancar este íman que parece que tenho que cola sempre a ti, destruas tu a parte de mim que destruíres. O meu amor próprio tem que ser maior que a merda que me fazes.]

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

14 dias passaram desde o início da minha "experiência" e queria deixar aqui marcadas as primeiras impressões destes últimos dias e daquilo que a minha mudança de comportamento tem demonstrado e quero olhar para as partes boas e escrever, depois, as partes más, porque elas continuam a existir.
O balanço - que tenho feito por semanas mas que me abstive de escrever - é, no geral, positivo. Sinto-me melhor no final do dia, já não me sinto tão esgotada e tão sem forças. O que me desgastava eram as discussões, as coisas más que dizia e a raiva e o ressentimento que carregava constantemente comigo. A forma como perdia a paciência a explicar um monte de vezes, um monte de coisas. A forma como sentia que já me devias conhecer e conhecer aquilo de que eu precisava, mas, mesmo assim, continuava o meu rol de explicações - a teu pedido. Isso parou. As minhas respostas passaram a ser que tu sabias bem o que já tínhamos falado e que não iria repetir-me porque não ajudava ninguém. Não sei se desta parte te apercebeste mas penso que até isso diminuiu o teor das nossas discussões. Essas são praticamente inexistentes. Sinto que consegui arranjar forma de dizer as coisas sem ser agressiva, embora ainda ache que me vês dessa forma. Consigo demover-te de que estou a criar uma discussão, acho que é esse o meu maior ganho.  
Sinto que desde que comecei isto que o medo não me abandonou, que tenho uma dor imensa comigo, que me obrigo a dizer todas as coisas que digo - e, às vezes, fico redondamente arrependida -, sempre com receio de não ser ouvida da forma que preciso - e já aconteceram tantas situações em que engoli e deixei passar, continuando simplesmente a conversa e dando o melhor de mim, sempre pensando que um dia ias lá chegar. Ainda há muitas vezes em que me quero afastar e que sinto que não vou aguentar isto durante muito mais tempo porque o esforço acaba por ser todo da minha parte. Sinto que estás praticamente na mesma, sinto que não se alterou nada em ti de forma significativa, uns dias e umas alturas consegues corresponder a tudo o que tenho andado a dizer que preciso, em termos de preocupação, apoio, atitude. E noutros... parece que não queres saber. E eu não entendo mesmo porquê. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Se eu já não durmo bem, não vou dormir bem nos próximos cinco dias. Pensava que seria no início do próximo mês mas eles dizem que afinal é no início deste mês e aí podem estar todas as respostas do meu futuro. Sei que não tinha qualquer tipo de expetativas até agora e que estava simplesmente a ir com a corrente mas agora só tenho um medo enorme de que corra tudo mal. Se sentir que eu falhei... Porque é que sinto sempre antes de acontecer que já vou falhar? Tenho tanto medo de falhar. Preciso que corra tudo bem. Preciso tanto. De energias positivas de dentro de mim.
Sei que não ultrapassei a morte do meu avô quando o telefone de casa toca a estas horas e me sobe a comida à garganta, fico seca, completamente paralisada e com vontade de vomitar, e o meu pai se levanta a correr. Acho que disse baixinho "mãe" como se ela me pudesse poupar de mais algum sofrimento que pensei que viesse... Sei que está tudo bem presente quando já passaram vários minutos e continuo a querer chorar e não parar mais. Alguém que me acalme, se faz favor. 
É estranho, quando estou muitos dias longe, sinto essa ausência e uma vontade imensa de nos sentarmos simplesmente e deixarmos a conversa fluir. Sinto mesmo essa necessidade e penso nisso muito mais vezes do que aquilo que admito. Podem já ter passado vários dias desde a última vez que nos sentamos frente a frente mas custou-me muito deixar a nossa conversa assentar. Ouvir tudo o que ouvi, sobre o quanto se via que o meu avô estava orgulhoso de mim e me amava, foi demasiado difícil. Contar-lhe - e muito por alto - tudo o que tem sido a minha vida nos últimos meses e a forma como tento desesperadamente agarrar-me a alguma coisa como se fosse uma porcaria de uma tábua de salvação mas não estou a sentir nada... Transmite-me uma tranquilidade e uma energia incríveis e sempre senti isso mas, desta vez, senti mais. Saber que o primeiro comentário que fez mal me viu foi na direção do assunto da morte do meu avô mostra uma preocupação para comigo que eu já sabia que tinha mas nem sei como não desatei a chorar naquele momento. Perguntar-me para quê? e não porquê?, disse-me para fazer esse exercício... Disse-me que compreendia o traumatizante e o doloroso que os últimos meses tinham sido e que eu poderia utilizar o trabalho para sair de casa, que poderia escudar-me com a frase de que me tinha mandado fazer muita coisa... Mas eu não consigo, assim que nos despedimos, a energia que me transmite quase que se evapora... Depois, no dia a seguir, volta. Mas depois vai embora novamente. Não estou dependente desta presença mas, às vezes, sinto-lhe falta. Quando crescer, quero ser como ela..., disse eu estas férias falando sobre tudo o que faz e é verdade. Quero muito.
A metáfora mais forte que me tem vindo à cabeça nos últimos dias é a da esponja, é quase como se eu fosse uma esponja que absorve toda e qualquer sujidade... Só que eu sugo simplesmente todos os problemas e ambientes tensos e situações estranhas... em vez de tudo o que é bom. Eu apanho todo o mal. E depois fica cá dentro em vez de fluir e ir saindo. E os apertos no peito, na garganta, as constantes dores de cabeça, os afastamentos, a dificuldade em dizer o que sinto ou a certeza de que não vou mesmo dizê-lo, são tudo sintomas desta esponja em que me tornei. Guardar todas estas coisas não está a ajudar-me mas não sei (ainda) viver de outra forma.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Acho que as viagens de carro são a melhor forma de o meu cérebro processar muita da informação que durante a semana não consigo processar, sinto que são o momento em que paro e sou só eu e os meus pensamentos e as luzes da cidade e o carro em andamento...

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Lembro-me de tão pouco do que me disse porque só me lembro de ter que desesperadamente falar, dizer muitas coisas. Demonstrar a falta que me fez e, atabalhoadamente, dizer um monte de coisas que me foram surgindo e que me foi perguntando... E há sempre uma certeza de que faz o puzzle comigo. E de não ter medo que as lágrimas caíam. De não ter medo de me mostrar frágil e vulnerável, porque cada vez que fala é como se não estivesse sozinha. É, mesmo, o tom de voz certo e sempre, a coisa certa a dizer. E nunca me vou cansar desta sensação de que cheguei a um lugar absolutamente seguro apesar do medo puro que sinto, ao mesmo tempo. 

Saber que poderia ter estado na segunda anterior e que não estive por lapso meu... Mas saber que também não me procurou ou perguntou se estava tudo bem... Não sei. Seria mais uma semana de caminhada e não menos uma. Seria menos uma semana sozinha. E sinto que me falhei. Mas não consigo deixar de sentir que também falhou um bocadinho, poderia ter perguntado por mim....


A terapia tem que ser... verdadeira.



[Depois da viagem de carro de quinta feira]

A dada altura, depois de ter dito tanta coisa, quase em vómito, e de me ter ouvido apenas, perguntou-me naquele tom de voz suave, com um meio sorriso, já adivinhando a minha resposta rápida - e as suas coisas? Que coisas são essas? Porque nem me lembro que tenho coisas. Sinto que a minha vida é uma espera por respostas, comportamentos, soluções... Nem sei que tenho coisas no meio de tudo o que está a acontecer à minha volta e de tudo o que me sufoca. Às tantas também me perguntou se tinha vergonha ali dentro e eu penso que lhe respondi que não tenho, não no meu sítio seguro, não posso ter vergonha quando estou a dizer tudo o que estou a dizer para ser ajudada quando não me consigo ajudar. Já sei que não vou ser julgada, já sei que não estou sozinha. E também me lembro que me perguntou se o casaco tinha ficado com cheiro - e nunca vou entender como é que uma simples pergunta que me faz me pode destruir tanto por dentro - mas eu sorri e respondi rapidamente que não ficou, porque ele não o vestiu. O casaco ainda cheira ao avô, ainda cheira a casa.
Todos os dias há algum género de comentário que me faz entender que este assunto já não é mandado para debaixo de nenhum tapete (Mas será que alguma vez foi? Quanto mais penso mais me lembro de ouvir comentários em todas as alturas da minha vida...) e que está cada vez mais evidente, como se visse, mais e mais, a luz do dia e de todos nós. E não sei se isso me deixa mais tranquila ou mais envergonhada. Só sei que os comportamentos recentes me fizeram sentir mesmo vergonha e que não sei o que é suposto acontecer a partir daqui. Sei que não é - ainda, ou talvez, ou talvez esteja muito errada - um problema completamente diário porque ainda não existiram grandes acidentes com esta questão... Mas o que é que é suposto acontecer a seguir? Como é que é suposto eu reagir? É um escape ou é mais que um escape? É uma doença? Só vai parar realmente quando for tratada? Como é que é que é suposto lidarmos com isto? 

[Ontem à noite contei os dias, quase 50, em que vou ter que lidar com isto quase sozinha. Com isto e com o que quer que aconteça depois e no entretanto.]

terça-feira, 24 de julho de 2018

Estava, verdadeiramente, a precisar que alguém me chamasse à atenção sem paninhos quentes em relação às minhas atitudes. Eu sabia, em relação a mim própria, que estava a falhar em muitos momentos e em muitas reações porque também tenho capacidade de auto-análise. Sei que estou mais crítica, sei que ajudaria se fosse menos crítica, sei que expludo à primeira falha, e ajudaria que não o fizesse, sei que ataco mal me sinto atacada, e que rapidamente se torna uma bola de neve de discussões que trazem outras atrás. Eu sabia tudo isto mas estava a ser-me difícil mudar-me até porque também consigo analisar toda a situação e saber que não mereço muitas das atitudes que ela tem para comigo. E, por isto, estava a precisar de uma conversa franca e séria. E teria que ser com alguém como tu, em quem eu confio de olhos absolutamente fechados. E que me conhece bem, que não tem medo de me dizer o que acha e que não vai fugir só porque eu estou a dizer o que sinto mesmo que não saiba muitas coisas porque já nem as consigo entender.

Ser a Rosa que a Joana precisa. Ser a melhor versão possível de mim própria. Fazer a minha parte para que esta relação melhore.

Sei - nas últimas vinte e quatro horas já percebi isso, porque já aconteceu várias vezes - que me vai custar mesmo muito os vários momentos em que sinto que ela está a falhar e eu simplesmente não reagir a eles. Manter sempre na minha cabeça que tenho que ser a Rosa que ela precisa de ter ao lado e que não vai ajudar criar mais um conflito e uma nova discussão só consegue trazer ainda mais mau estar. Custa muito e não sei se vou conseguir manter a atitude tranquila que tenho sentido que tenho desde ontem à tarde, e que ainda não sei se foi percebida como tal - e gostava que já tivesses percebido que a minha atitude modificou, mas talvez seja preciso mais tempo até que digas alguma coisa. Mas sei que vale a pena tentar. A verdade é que já reagi muitas vezes antes e que essa reação não leva a lugar nenhum, porque nunca compreendeste o meu lado verdadeiramente, ou porque interpretaste mal, ou porque voltaste a cair no mesmo erro... e essa bola de neve apenas trouxe mais discussões e mais agressões mentais. A violência das palavras também corrói por dentro e lembro-me do que me disseste de esta relação ser quase como se existisse uma mutilação física, as trocas de agressões verbais constantes entre mim e ela estavam a fazer-nos mesmo mal. E eu sei que é verdade. E, por muito que, muitas vezes, me afaste e acabe por não responder quando me sinto atacada ou deixada para trás, sei que há vezes que não sou mais forte e que respondo e contribuo para piorar o ambiente tóxico onde vivemos. Por isso ontem abri os olhos e parei - sinto-me diferente. Tenho medo de não conseguir levar esta atitude muito tempo dentro de mim mas estou a esforçar-me para fazer a minha parte e para ser a Rosa que ela precisa de ter ao lado. Porque se isso acontecer mais facilmente ela será a Joana que eu preciso de ter ao meu lado. Assim o espero.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Esperar - o mais tranquilo possível - por segunda feira. Fazer com que tudo esteja o mais calmo possível dentro de mim até lá chegar. Depois vou desabar completamente... E depois vou aguentar novamente, até setembro. 
Três dias depois de regressar do Algarve, depois do jantar, o meu pai disse que ia ver a mãe e eu não conseguia ficar simplesmente em casa. Eu precisava de ver com os meus olhos como é que a minha avó estava. 

Quando estávamos a despedir-nos, e nos abraçamos, a minha camisola ficou presa no fio que a avó usa desde que foste, avô. O fio tem uma pequena medalha com a tua fotografia, estás fardado. Tal como deverias ter ido... Quando ficamos presas, ela começou a gritar "ai, o avôzinho"  e tentamos libertar-nos. Acho que até foi o pai que nos libertou... Assim que ficamos libertas, eu peguei no fio e beijei-lhe a medalha. Ela ficou com os olhos cheios de lágrimas e ficou para morrer. E eu peguei-lhe na testa e dei-lhe muitos beijinhos. 

domingo, 15 de julho de 2018

As últimas duas semanas custaram-me como eu saberia que iriam custar e ainda mais - mas este regresso a casa está a ser o mais pesado possível e a deixar-me completamente atarantada no meio de toda a dor profunda que vejo no meu pai. Sentir uma fortaleza a cair não é fácil e saber que o nosso futuro está dependente de uma pessoa que está a tentar dar o seu melhor sem saber o que fazer... O meu peito explode de dor e não sei como é que ainda não vomitei. Queria fazer mais mas não sei o quê. Queria dar mais que a minha opinião. Tenho tanto medo do que está a acontecer.

sábado, 30 de junho de 2018

Eu sei que é um processo longo e que iria demorar muito tempo. E eu sei o que é um ataque de pânico. As coisas que eu sei e que tu não sabes. Não esperava - mesmo! - que voltasses a tocar no assunto e não esperava - de todo! - que tivesses falado com a tia sobre isso. Depois do "bem feita!" que ouvi nunca mais ia reagir a este assunto e agora apanhaste-me de rompante... Eu aceito tudo o que acharem que é melhor porque eu quero realmente conduzir. E eu sei que a terapia é um processo longo - oh se sei.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Peguei no casaco para ajudar a transportar, não era por nada em especial. Até seria apenas para deixar já no carro. E lembrei-me da pergunta que me fez, numa das sessões, sobre o cheiro, sobre se as roupas ainda cheiravam a ele. E, meio a medo, juntei o meu nariz ao tecido e inspirei. Cheirava a ti como ainda nada, nos últimos dois meses, me tinha cheirado a ti. E foi com uma voz como se dissesse um segredo e em pavor que me aproximei do pai dizendo "cheira ao avô", e ele respondeu "então leva-o para casa" e cheguei ao pé da minha mãe, que cheirou e disse "e não é que cheira mesmo?". Peguei no casaco, abracei-o e parecia que ia vomitar as entranhas. Saiu-me um som mesmo estranho de dentro, parecia um começo de um pranto misturado com o início de um vómito. 

Não consigo dormir, avô. Cheirou-me a casa. E tu não estás em lado nenhum e eu não sei que mundo é este. Porquê? Porque é que tiveste que ir embora?

[São duas semanas sem a ver e sem a ouvir e ainda vão doer mais do que costumam doer. Com quem é que eu vou depositar tudo isto? Só existe cota desse lado... faz-me uma falta profunda.]

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O ponto final [que agora preciso].

[Escrito e enviado a 26 de julho e conversado nesse mesmo dia. Durante os próximos dias não haverá qualquer tipo de contacto entre nós. E eu sei que me fará muito bem. Espero que também te seja tão benéfico como pensavas que seria quando conversamos.]


Sei que me neguei a escrever até agora porque não queria enfrentar verdadeiramente tudo o que tem acontecido entre nós - e parece que só enfrento quando escrevo, depois de acalmar. Agora penso que já chega de fugir, já chega da atitude de deixar passar os dias porque continua o elefante no meio da sala e não desaparece só porque não lhe toco. Sei que tenho que pensar verdadeiramente e deixar de ignorar porque dói. Ignorar só me faz sentir que continua a doer cada vez mais e, por isso, tenciono ser clara, uma última vez. Não quero sentir, daqui a uns tempos, que não estou tranquila e que deixei partes por dizer, não quero sentir que não fiz tudo o que podia (que já fiz, não sei o que fazer mais) e que não disse tudo o que sentia. 

Sabia, no dia em que falamos pessoalmente pela última vez, que me estava a limitar a adiar o inevitável. Não me quis afastar de ti logo abruptamente porque te tenho um carinho enorme, porque quero fazer parte da tua vida - sim, ainda uso o presente do indicativo embora saiba que não o mereces. Quero estar ao teu lado nos bons e nos maus momentos, quero sentir que te incentivo a seres melhor, quero fazer parte da tua vida futura. Quis tanto tudo isto até sentir que não via mais nada à minha frente porque nem o presente me aparecia. Não era um dia de cada vez, simplesmente já não era nada. Era vazio. Há muitos meses que era vazio, carregado de discussões sobre tudo e qualquer coisa que se transformavam sempre e iam desaguar aos verdadeiros problemas da nossa relação. Não me quis afastar de ti, sobretudo, porque não queria sentir que te estava a falhar e a abandonar-te. Sei bem o que dói quando parece que a pessoa que mais precisas de ter ao teu lado não está. Não te queria fazer sentir o mesmo e fiquei. Mas não fiquei só por ti. Fiquei porque ainda tinha uma esperança ténue dentro de mim. Apesar de sentir, ao mesmo tempo, que estava a adiar uma decisão que teria que tomar, para o bem da minha paz interior. Sabia, como vim a provar nos últimos dias, que tudo o que te disse não ia resolver nada, de fundo, em ti. Esse caminho tens que ser tu a fazê-lo e não podia esperar que, só por te ter dado as ferramentas e por te ter feito sentir que me estavas a perder, que ias mudar. Mas esperei, esperei tanto que sentisses que me estavas a perder e quisesses que eu ficasse... E esperei que tudo entre nós voltasse a fazer algum sentido. Tinha esperança, tinha uma esperança profunda que, falando contigo e mostrando-te que não te ia abandonar, que os teus comportamentos fossem modificar depois disso. Apenas te ia dar algum tempo de manobra, algum espaço longe de mim para pensares, apesar de estar profundamente magoada com os teus comportamentos passados e de sentir que tudo poderia ficar ainda pior. Na verdade, foi essa réstia de esperança que atropelaste nos últimos dias porque eu esperei que fosses tomar algum tipo de atitude - esperei, de todas as vezes que me falaste, que abordasses o "nós" que estava no canto qual elefante e que me demonstrasses o que pensavas, a que conclusões tinhas chegado, que caminho querias fazer. Porque eu queria, pacientemente, fazer parte desse caminho. Apesar da dor. Apesar da desilusão. Apesar da raiva. Pensei que, ao longo dos últimos dias, me fosses dizer que não querias que eu fosse embora, nos momentos em que me falaste. Pensei que me fosses dizer que querias recuperar o que tínhamos - mesmo sabendo eu que isso era impossível porque já tudo tinha mudado. Mas, construir de novo, era, ainda, uma opção na minha cabeça. Pensei que fosses mudar o meu pensamento de que tu não estavas verdadeiramente cá. Pensei que fosses mostrar-me que me valorizavas o suficiente para crescer comigo, para alterares as tuas atitudes para que tudo pudesse ser melhor do que sabíamos que poderia ser. 

Nos últimos dias, o que vi das tuas atitudes foi uma pessoa que apenas continuou no rumo em que estava, que nunca tomou uma iniciativa concreta de falar comigo sobre nós - dado que, afinal de contas, ainda éramos um nós - e que me foi fazendo sentir mais e mais invisível. A falta de respeito para comigo, a falta de compreensão nas atitudes próprias e a apatia, a distância quando conversávamos e a forte convicção de que não ias mudar brevemente, fizeram-me procurar forças dentro de mim para um final que não desejava. Ainda hoje não desejo que isto seja real apesar de saber que é o melhor para mim, para manter a minha sanidade mental intacta. Sei que te tinha dito que iríamos ficar afastadas e que o propósito era realmente não falarmos, mas dado que falamos pontualmente, esperei diferente do que aconteceu. Esperei mais de ti porque eras tu quem tinha que dar mais, mostrar mais, sentir mais. Tu tinhas que me mostrar que eu era importante na tua vida. Tu tinhas que me fazer sentir que havia espaço para um presente estável, sem dor. Sei que te tinha pedido, também, para vires ter comigo quando precisasses de mim e a verdade é que não esperei que viesses, não pensei que fosses falar-me sobre ti própria por saberes que eu não iria falar sobre mim - embora, quando vieste ter comigo dia 21, tivesses mostrado totalmente o contrário. O que eu sei é que precisas de avançar, de sentir que estás a comandar o teu futuro e que acreditas que sairás a sentir-te uma nova pessoa - se bem que sei que essa perspectiva é irrealista e infantil e, talvez um dia, percebas o que te tentei dizer. 

Se formos dizer a verdade sobre os últimos meses - quiçá o último ano - , apesar de estarmos juntas, já não estavas comigo há muito tempo. Estávamos em páginas diferentes e a puxar cada uma para o seu lado. Estávamos a escrever diferentes versões da mesma história e nunca chegando a nenhuma conclusão, juntas. Porque uma relação faz-se a dois. Sempre a dois. E tu não estiveste comigo. E eu fiz tudo o que podia para estar contigo, para compreender o incompreensível. Tentei de tantas maneiras compreender o que nem tu compreendes e, por isso mesmo, torna-se ainda mais difícil ficar. O que sinto verdadeiramente, e pelos últimos dias, é que perdeste a noção do que é ouvir o que a outra pessoa precisa. Porque eu voltei a tentar - várias vezes, fazer-te entender que tinhas que mudar. Mas, pior ainda, é que não sabes - e isto penso que nunca soubeste - pensar por ti própria, colocar-te no lugar do outro e perceber como tens que agir. Simplesmente fazer o exercício de agir com a outra pessoa da forma que gostarias que agissem contigo. Não é difícil, pois não? Pelos vistos, é. Porque nunca aconteceu. Precisas de crescer, para ti e contigo e espero que faças esse caminho e que te tornes quem queres ser - quando chegares ao que isso é.

Já desisti de te explicar o que me fazias sentir. Já desisti de esperar atitudes diferentes da tua parte. Já desisti, simplesmente. Custa-me desistir mas custa-me muito mais continuar à espera de uma atitude da tua parte que pareces não querer tomar. Talvez tenhas que crescer e aprender, sem mim. Este é o meu ponto final. Não tens que me responder. Sê feliz. Talvez, um dia, nos voltemos a encontrar e as páginas em que vivemos se encontrem também.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dois meses de um "porquê?" seguido de um "como?" ainda sem resposta e de uma dor diária que não desaparece. Dois meses a ter mais medo de ter a resposta a estas perguntas do que viver na ignorância. Ou melhor, acho que há um balançar destas duas opções que não me agrada. Porque viver na ignorância está a manter-nos a todos juntos. E se não for assim? E se os medos do meu pai (e os meus...) estiverem corretos e existir mesmo negligência de cuidados prestados? O que acontece depois? São dois meses de um medo puro que tudo se mantenha tal e qual está mas medo puro que tudo mude abruptamente. São dois meses a viver num pânico que me tolda, muitas vezes, o raciocínio e me faz achar que vou vomitar. Dois meses a acordar para a dura realidade que é viver num mundo onde não estás. Nos primeiros cinco segundos em que abro os olhos está tudo bem, não aconteceu nada. Estou simplesmente a despertar para um novo dia. Mas depois, quando a realidade me atinge, parece que o meu peito vai rebentar de uma dor com a qual tenho que viver. Dois meses a procurar por ti, sempre à espera de te ouvir ou te ver. A entrar por todos os sítios que eram teus e a fazer questão de te encontrar, sabendo bem que não é possível. São dois meses de conversas mentais contigo, perguntando-me milhões de vezes as mesmas coisas e chegando a nenhuma resposta. São dois meses de uma falta tremenda. Perdi um pilar absolutamente essencial para o meu crescimento da forma mais abrupta possível e não estou a saber lidar com isto. 

Sei que hoje deveria ligar à avó mas não consigo passar por isso. Não hoje. Eu sei que deveria ligar-lhe, precisamente por ser hoje, mas não consigo. Falta-me a coragem quando ainda ontem ela me repetiu quase a história toda até me dizer "bem, tu já sabes o resto", porque sim, eu sei o resto. O resto é que o perdemos todos e que nada disto é justo. 


Tu, de sorriso e voz alegre, de espírito firme e sempre animado. Tu, a alegria de qualquer festa e a boa disposição de qualquer sítio. Tu e as tuas histórias, contadas vezes sem conta. Adoravas a vida e dizias sempre que era tão bom estar aqui. Dizias que a vida era tão bonita e que era boa para nós. Dizias que devíamos ser felizes. "É preciso calma e paz na alma", repetias muitas vezes nos últimos tempos. Estou a tentar, avô, e acho que estamos todos a tentar. Por favor, olha por nós, sejas tu o que fores.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Estava a bloquear tudo por medo de me confrontar com as verdades que me disse. Não queria responder mentalmente à pergunta que me colocou - nem sequer me queria lembrar da sua existência - talvez porque não lhe sei responder concretamente. Disse-me que eu tinha que pensar porque é que não queria que eles soubessem, qual era a minha razão para isso acontecer. Mas, para além de um medo puro que destruam o trabalho que temos vindo a fazer, e que eu seja alvo de ataques verbais que reconheço que me mandam abaixo desde que sou adolescente... Eu não quero ser alvo de ataques verbais sem ter a certeza que vou ter capacidade de me defender e de defender o trabalho que temos vindo a realizar. Diz-me que eu apenas tenho que dizer que senti a necessidade de procurar ajuda para conseguir falar melhor com eles e que tenho conseguido fazer isso graças à terapia, que estou mais aberta e disponível para os ouvir e menos fechada para lhes dizer certas coisas. Diz-me que tem a certeza absoluta que eu estou preparada para essa conversa e para nos defender mas enquanto eu não estiver, vou sempre sentir que estou a esconder mais pedaços de mim, em vez de me tornar mais sincera dentro desta casa. Porque é que é tão importante contar-lhes? Para ser o mais sincera possível. Mas não quero ser a fraca. Não quero que destruam o que temos vindo a construir, é um instinto de proteção que me cansa diariamente. Não saber qual será a reação caso saibam. Não saber o que eu vou dizer, faltarem-me as palavras para explicar. Omitir partes? Mentir? Qual é o caminho? Eu estou cansada de viver assim mas não faço nada para mudar isto - e eu sei que não faço, caramba, eu sei que deixo isto andar todos os dias e quanto mais deixo andar mais noção ganho de que ficariam mesmo muito desiludidos comigo - por medo. Disse-me que tinha a certeza da disponibilidade absoluta da minha mãe para me ouvir, apenas pela prova do que eu lhe tinha contado que tinha acontecido da última vez que entramos as duas num carro e da pergunta dela. Das várias perguntas e de me ter perguntado se eu sentia um terror absoluto e se eu queria trabalhar nisto. Ela já está disponível para a minha dor - para alguma, pelo menos. Nós as duas conseguimos perceber isso apenas pelos relatos de pequenas situações que lhe transmito - mas sempre pelos meus olhos. Eu tenho noção que o que mais lhe custaria era saber que eu andei a falar sobre tudo o que acontece aqui sem ela saber que isso aconteceu. E penso que isso me impede sempre de contar, impede sempre que as palavras saíam... 
Disse-me sinceramente que eu me queixava  deles mas que estava a fazer o mesmo que eles faziam, a meter para debaixo do tapete, a não olhar para o elefante na sala. Disse-me [e foi o que mais me doeu] que eu tinha jogado com o assunto e que tinha escolhido continuar o jogo em vez de colocar as cartas em cima da mesa e explicar que já tinha ajuda... E é verdade, eu escolhi continuar mas apenas por não saber como reagir, por não saber o que vinha a seguir, por me ter sentido completamente paralisada... Eu não sinto que tenha jogado com ela [mas eu sei que agora ela sentirá se eu contar a verdade, eu sei que ela olhará para mim com uma desilusão latente e eu não quero voltar a ser alvo desse olhar de desilusão e falha...]. Eu sinto que apenas tentei perceber o que ela estava a dizer e que, como não acredito que nada disto vá em frente, deixei de lado e escolhi - sim, eu sei que escolhi - não dizer a verdade. Desta vez saí mesmo completamente magoada daí de dentro por ser tudo verdade e por saber que sou eu que estou a fazer isto comigo própria. A verdade magoou-me e sempre que penso nisto só me apetece vomitar, literalmente. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

"Isto tudo tem pouco sentido. Mas se é para lhe dizer que há dias em que saudades são tramadas, não é obrigatório ter nexo. (...) Que não sabe conversar para as estrelas e por isso escreve monólogos."

Tenho tantas saudades tuas, avô. Eu acho que sabes, pelo menos, quero acreditar que sabes e que ouves todos os desabafos que faço em silêncio enquanto caminho sozinha. A vida está a passar e eu vou falando contigo. As árvores, o sol, a rua, os carros. Por entre tudo isto, eu falo contigo na minha cabeça, todos os dias, em todas as alturas. Custa-me tanto saber que não estás em lugar nenhum neste mundo dos vivos. Custa-me saber que não te vou ver mais, tocar mais, beijar mais, ouvir mais. Eu dava tudo para me ter despedido de ti, eu dava tudo para termos estado contigo naquela noite e termos conseguido fazer mais do que ela... Dava tudo para te ter só aqui mais um instante. Se soubesses que choro todas as semanas pela forma como tudo isto anda, ias ficar mesmo muito triste... Desculpa. Eu tento ser forte cá fora, eu tento ser o pilar que a psi diz que sou mas, lá, com ela, desabo totalmente. O meu peito já não é um lugar confortável há muito tempo mas desde que desapareceste... tem custado muito mais ser eu. 
Agora que nos cruzamos e senti que ia vomitar percebi que estava a bloquear, não sei se conscientemente, tudo o que aconteceu ontem. Não sei como tive capacidade para sorrir ou acenar. Só me senti prestes a cair da fortaleza construída à toa para bloquear tudo o que conversamos ontem. Mas agora sei que é preciso e não vou virar as costas, só preciso de me sentir suficientemente segura para deixar acontecer.


Eu não sei se o que eu vejo e se os comentários que a mim me doem tanto ouvir e são feitos em voz alta... eu não sei se alguém compreende o que diz, a complexidade do que diz e o que está realmente a dizer. Eu não sei se assumem que é um problema grave, que nos afeta a todos, dentro da cabeça deles, ou se é alguma coisa normal dizer o que dizem e tudo continuar na mesma. Nem sequer sei a regularidade com que acontece agora porque tenho reparado pouco. Não sei distinguir se é da minha cabeça ou se é real. E isso custa-me. No meio de tudo o resto, olhar para isto, saber que continua a acontecer, mesmo depois da morte do avô e eu ter pensado que tinha parado por uns tempos... Não parou. E agora, pai?

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Quando passou a azáfama do dia de hoje comecei a sentir-me muito cansada e muito sozinha. Ao mesmo tempo sabia que não podia recorrer a ninguém - acho que nem sequer saberia o que dizer. Pensei, em muitos momentos durante as últimas horas, em falar sobre o que estou a sentir com alguém mas também sei que ninguém iria entender. Às vezes só me apetece ser vento e desaparecer. Voltar apenas quando estiver pronta para o regresso. Desfazer-me das máscaras que possuo e só voltar quando for inteira e transparente, quando sentir que consigo cuidar de mim. E quando souber que vou parar de ser um segredo ambulante. 
Eu sei que estou sozinha porque escolho estar. Eu não duvido que estariam de bom grado para me ouvir se eu apenas fizesse esse movimento, se eu apenas pedisse ajuda. Mas há certas coisas que não se entendem, por muito boa vontade que se tenha. "Há certos movimentos que são daqui", como me diz tantas vezes. E quem diz "dali" também diz "do meu cérebro", eu lido sozinha.