terça-feira, 21 de abril de 2020

Haverá sempre um antes e um depois de ti. Dois anos do pôr do sol mais bonito que já vi. Dois anos de uma das maiores dores da minha alma. Dois anos sem ti. E a falta profunda que nos fazes a todos.
Se aqui estivesses estavas a dar em maluco com o Covid-19. Não poderes sair da tua casa era um suplício para ti. 
A tua ausência é um suplício para nós. Dói-me a alma. Dói-me muito a alma hoje. Mas só me permiti sentir verdadeiramente quando deitei a cabeça na almofada. Sozinha. Nunca mais me vou esquecer da forma como me despedi de ti. Posso não me lembrar do que disse, ou achar que disse algo que na realidade não disse, mas sei que senti. Espero que estejas a olhar por mim. Espero, sobretudo, que te orgulhes de quem sou. 

sábado, 11 de abril de 2020

Estou habituada a tremer a sessão inteira. Sei que é incontrolável e já não tenho medo de estar sentada em frente aos seus olhos e simplesmente deixar-me ser quem sou, tal e qual como sou. E isso inclui tremer o tempo todo, comentar isso e prosseguir a tremer. Já não tenho medo de deixar os pensamentos fluir e já não penso antes de falar, já não planeio antes de chegar e já deixo simplesmente o rio correr porque sei que não estou sozinha. E desde que esta pandemia chegou que me estou a habituar a processar sozinha, sem ter paredes seguras ao meu redor, sem ter o seu olhar preso no meu, a fazer-me avançar depois de respirar fundo, sem lhe poder ver o sorriso no canto da boca e sentir que lhe entrego a alma sem medo de cair. Porque há uma sensação profunda de abandono em mim que não existe nunca desde que nos cruzamos. Nos momentos em que estamos, todas as semanas, eu sei e eu ouço, porque é provavelmente o que mais repete, que não estou sozinha. Mas, sobretudo, eu vejo que não estou sozinha porque está à minha frente, no mesmo espaço que eu. Porque, por muito que não me toque durante a sessão, há uma cadência diferente quando estamos frente a frente, as palavras gravam-se de outra maneira e tocam-nos de outra forma. Há uma energia que se transmite que agora tem sido muito difícil de encontrar nesta altura em que só ouço, em que na maioria do tempo não (a) vejo. E sinto tanto a falta dessa troca de olhares que começo sempre por pedir para a ver e, por isso, desta vez, ligou o vídeo ainda antes de me ligar... E foi um gesto tão bonito. Porque digo sempre que preciso... Mesmo que nunca corra bem e acabemos por fazer o resto da sessão apenas por chamada para que acabe por fluir melhor... Depois de várias sessões em que estou apenas sozinha, em que só lhe ouço a voz, sinto que tudo mudou mas nada mudou. A nossa relação continua igual e talvez vá sair fortalecida de tudo isto e anseio pelo dia em que voltamos a ter o nosso espaço físico para trabalhar - e sei que ambas precisamos disso porque falamos sobre isto. Falamos sobre a sensação de aprisionamento que, às vezes, sinto que me faz continuar a sair de casa para trabalhar. Mesmo que existam dias em que simplesmente não consiga fazê-lo. Disse-me que eu não o fazia (pedir para trabalhar a partir de casa) só por receio apenas mas, sobretudo, para sentir que saio de casa e que largo esta sensação de estar presa e agoniada no meio de toda a angústia que sinto aqui dentro. E eu ri-me porque disse que tínhamos que pensar sobre isto mas eu só estava a pensar em como me conhece tão bem. Seguimos em frente pelo caminho das coisas que não se dizem e que estão lá, pelos segredos que tenho que me pesam e me fazem sentir profundamente mal e pela dor que me atingiu quando me senti uma merda de filha que nem é capaz de estar lá para ouvir quando é preciso estar. E diz-me sempre que há uma parte de mim confundida com o papel que desempenho e confundida entre mim e a minha mãe - coisa que não vejo que acontece. Não sei perceber. Mas diz-me que as coisas que sinto não são minhas, são dela. Não sou eu que a coloco entre a espada e a parede; é ela. E depois falou-me sobre o que não se pode pronunciar e eu ri-me e disse que tudo isso era o meu Lord Voldemort. Riu-se e concordou em absoluto. E eu fiquei extremamente babada. Porque Harry Potter é definitivamente um definidor da minha vida. 

Esta sessão em particular foi muito difícil - e possivelmente tão importante como a de há duas semanas em que nos aproximamos de tudo isto quando lhe disse que não sabia ser feliz, que não conseguia ser feliz... E foi uma corrente de um rio que desaguou num mar que é (foi) o meu nascimento. Foi a primeira vez que me disse "o meu nascimento foi uma catástrofe" e agora foi semelhante a isso... "o meu nascimento foi bomba". E não sou eu quem dá as palavras porque nem sempre sei o que está cá dentro. Ouvi-las através da sua voz é como se me retirasse o medo, como se me devolvesse algo que nem sabia perdido, como se me desse de volta... Vai ser sempre a maior magia de tudo isto... Só sei que me destabilizou de tal maneira que não conseguia mover-me depois de desligarmos e que tive que me deitar para me acalmar. Que me queixei várias vezes da vontade de vomitar enquanto nos movimentávamos por estas águas geladas e profundas (como se quisesse vomitar em vez de falar, sim...) e que lhe disse que me tinha passado um autocarro por cima e corrido três maratonas sem sair do carro. Estamos a chegar ao âmago de uma questão que me define e o faz mesmo sem sequer ter noção de que acontece, e teve essa noção logo desde o início quando me falou na cota esgotada de um tempo que não controlava. A vida e a morte. "O meu nascimento define-me". Disse-me que "a experiência de quase morte é uma coisa muito enublada. Muito escura." e provavelmente agarrou-se a mim de uma forma muito profunda e, mesmo que não tenha qualquer desejo de morrer, há alturas em que sou mais morte que vida. Escrever sobre isto não liberta a dor que sinto cá dentro e o medo que tenho de todas estas sensações e sentimentos que não consigo nomear nem expressar sozinha. Mas disse-lhe, às tantas, e disse-me que era verdade, que senti que ao falar sobre isto, estávamos a tirar-lhe o poder que tinha sobre mim. "Há uma parte da minha alma que é morte. Como quando descobrimos que há uma parte da alma do Voldemort que vive no Harry." Foi isso que descobri esta sessão: há uma parte de mim que é morte. E com a qual tenho que aprender a viver.