sábado, 30 de junho de 2018

Eu sei que é um processo longo e que iria demorar muito tempo. E eu sei o que é um ataque de pânico. As coisas que eu sei e que tu não sabes. Não esperava - mesmo! - que voltasses a tocar no assunto e não esperava - de todo! - que tivesses falado com a tia sobre isso. Depois do "bem feita!" que ouvi nunca mais ia reagir a este assunto e agora apanhaste-me de rompante... Eu aceito tudo o que acharem que é melhor porque eu quero realmente conduzir. E eu sei que a terapia é um processo longo - oh se sei.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Peguei no casaco para ajudar a transportar, não era por nada em especial. Até seria apenas para deixar já no carro. E lembrei-me da pergunta que me fez, numa das sessões, sobre o cheiro, sobre se as roupas ainda cheiravam a ele. E, meio a medo, juntei o meu nariz ao tecido e inspirei. Cheirava a ti como ainda nada, nos últimos dois meses, me tinha cheirado a ti. E foi com uma voz como se dissesse um segredo e em pavor que me aproximei do pai dizendo "cheira ao avô", e ele respondeu "então leva-o para casa" e cheguei ao pé da minha mãe, que cheirou e disse "e não é que cheira mesmo?". Peguei no casaco, abracei-o e parecia que ia vomitar as entranhas. Saiu-me um som mesmo estranho de dentro, parecia um começo de um pranto misturado com o início de um vómito. 

Não consigo dormir, avô. Cheirou-me a casa. E tu não estás em lado nenhum e eu não sei que mundo é este. Porquê? Porque é que tiveste que ir embora?

[São duas semanas sem a ver e sem a ouvir e ainda vão doer mais do que costumam doer. Com quem é que eu vou depositar tudo isto? Só existe cota desse lado... faz-me uma falta profunda.]

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O ponto final [que agora preciso].

[Escrito e enviado a 26 de julho e conversado nesse mesmo dia. Durante os próximos dias não haverá qualquer tipo de contacto entre nós. E eu sei que me fará muito bem. Espero que também te seja tão benéfico como pensavas que seria quando conversamos.]


Sei que me neguei a escrever até agora porque não queria enfrentar verdadeiramente tudo o que tem acontecido entre nós - e parece que só enfrento quando escrevo, depois de acalmar. Agora penso que já chega de fugir, já chega da atitude de deixar passar os dias porque continua o elefante no meio da sala e não desaparece só porque não lhe toco. Sei que tenho que pensar verdadeiramente e deixar de ignorar porque dói. Ignorar só me faz sentir que continua a doer cada vez mais e, por isso, tenciono ser clara, uma última vez. Não quero sentir, daqui a uns tempos, que não estou tranquila e que deixei partes por dizer, não quero sentir que não fiz tudo o que podia (que já fiz, não sei o que fazer mais) e que não disse tudo o que sentia. 

Sabia, no dia em que falamos pessoalmente pela última vez, que me estava a limitar a adiar o inevitável. Não me quis afastar de ti logo abruptamente porque te tenho um carinho enorme, porque quero fazer parte da tua vida - sim, ainda uso o presente do indicativo embora saiba que não o mereces. Quero estar ao teu lado nos bons e nos maus momentos, quero sentir que te incentivo a seres melhor, quero fazer parte da tua vida futura. Quis tanto tudo isto até sentir que não via mais nada à minha frente porque nem o presente me aparecia. Não era um dia de cada vez, simplesmente já não era nada. Era vazio. Há muitos meses que era vazio, carregado de discussões sobre tudo e qualquer coisa que se transformavam sempre e iam desaguar aos verdadeiros problemas da nossa relação. Não me quis afastar de ti, sobretudo, porque não queria sentir que te estava a falhar e a abandonar-te. Sei bem o que dói quando parece que a pessoa que mais precisas de ter ao teu lado não está. Não te queria fazer sentir o mesmo e fiquei. Mas não fiquei só por ti. Fiquei porque ainda tinha uma esperança ténue dentro de mim. Apesar de sentir, ao mesmo tempo, que estava a adiar uma decisão que teria que tomar, para o bem da minha paz interior. Sabia, como vim a provar nos últimos dias, que tudo o que te disse não ia resolver nada, de fundo, em ti. Esse caminho tens que ser tu a fazê-lo e não podia esperar que, só por te ter dado as ferramentas e por te ter feito sentir que me estavas a perder, que ias mudar. Mas esperei, esperei tanto que sentisses que me estavas a perder e quisesses que eu ficasse... E esperei que tudo entre nós voltasse a fazer algum sentido. Tinha esperança, tinha uma esperança profunda que, falando contigo e mostrando-te que não te ia abandonar, que os teus comportamentos fossem modificar depois disso. Apenas te ia dar algum tempo de manobra, algum espaço longe de mim para pensares, apesar de estar profundamente magoada com os teus comportamentos passados e de sentir que tudo poderia ficar ainda pior. Na verdade, foi essa réstia de esperança que atropelaste nos últimos dias porque eu esperei que fosses tomar algum tipo de atitude - esperei, de todas as vezes que me falaste, que abordasses o "nós" que estava no canto qual elefante e que me demonstrasses o que pensavas, a que conclusões tinhas chegado, que caminho querias fazer. Porque eu queria, pacientemente, fazer parte desse caminho. Apesar da dor. Apesar da desilusão. Apesar da raiva. Pensei que, ao longo dos últimos dias, me fosses dizer que não querias que eu fosse embora, nos momentos em que me falaste. Pensei que me fosses dizer que querias recuperar o que tínhamos - mesmo sabendo eu que isso era impossível porque já tudo tinha mudado. Mas, construir de novo, era, ainda, uma opção na minha cabeça. Pensei que fosses mudar o meu pensamento de que tu não estavas verdadeiramente cá. Pensei que fosses mostrar-me que me valorizavas o suficiente para crescer comigo, para alterares as tuas atitudes para que tudo pudesse ser melhor do que sabíamos que poderia ser. 

Nos últimos dias, o que vi das tuas atitudes foi uma pessoa que apenas continuou no rumo em que estava, que nunca tomou uma iniciativa concreta de falar comigo sobre nós - dado que, afinal de contas, ainda éramos um nós - e que me foi fazendo sentir mais e mais invisível. A falta de respeito para comigo, a falta de compreensão nas atitudes próprias e a apatia, a distância quando conversávamos e a forte convicção de que não ias mudar brevemente, fizeram-me procurar forças dentro de mim para um final que não desejava. Ainda hoje não desejo que isto seja real apesar de saber que é o melhor para mim, para manter a minha sanidade mental intacta. Sei que te tinha dito que iríamos ficar afastadas e que o propósito era realmente não falarmos, mas dado que falamos pontualmente, esperei diferente do que aconteceu. Esperei mais de ti porque eras tu quem tinha que dar mais, mostrar mais, sentir mais. Tu tinhas que me mostrar que eu era importante na tua vida. Tu tinhas que me fazer sentir que havia espaço para um presente estável, sem dor. Sei que te tinha pedido, também, para vires ter comigo quando precisasses de mim e a verdade é que não esperei que viesses, não pensei que fosses falar-me sobre ti própria por saberes que eu não iria falar sobre mim - embora, quando vieste ter comigo dia 21, tivesses mostrado totalmente o contrário. O que eu sei é que precisas de avançar, de sentir que estás a comandar o teu futuro e que acreditas que sairás a sentir-te uma nova pessoa - se bem que sei que essa perspectiva é irrealista e infantil e, talvez um dia, percebas o que te tentei dizer. 

Se formos dizer a verdade sobre os últimos meses - quiçá o último ano - , apesar de estarmos juntas, já não estavas comigo há muito tempo. Estávamos em páginas diferentes e a puxar cada uma para o seu lado. Estávamos a escrever diferentes versões da mesma história e nunca chegando a nenhuma conclusão, juntas. Porque uma relação faz-se a dois. Sempre a dois. E tu não estiveste comigo. E eu fiz tudo o que podia para estar contigo, para compreender o incompreensível. Tentei de tantas maneiras compreender o que nem tu compreendes e, por isso mesmo, torna-se ainda mais difícil ficar. O que sinto verdadeiramente, e pelos últimos dias, é que perdeste a noção do que é ouvir o que a outra pessoa precisa. Porque eu voltei a tentar - várias vezes, fazer-te entender que tinhas que mudar. Mas, pior ainda, é que não sabes - e isto penso que nunca soubeste - pensar por ti própria, colocar-te no lugar do outro e perceber como tens que agir. Simplesmente fazer o exercício de agir com a outra pessoa da forma que gostarias que agissem contigo. Não é difícil, pois não? Pelos vistos, é. Porque nunca aconteceu. Precisas de crescer, para ti e contigo e espero que faças esse caminho e que te tornes quem queres ser - quando chegares ao que isso é.

Já desisti de te explicar o que me fazias sentir. Já desisti de esperar atitudes diferentes da tua parte. Já desisti, simplesmente. Custa-me desistir mas custa-me muito mais continuar à espera de uma atitude da tua parte que pareces não querer tomar. Talvez tenhas que crescer e aprender, sem mim. Este é o meu ponto final. Não tens que me responder. Sê feliz. Talvez, um dia, nos voltemos a encontrar e as páginas em que vivemos se encontrem também.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dois meses de um "porquê?" seguido de um "como?" ainda sem resposta e de uma dor diária que não desaparece. Dois meses a ter mais medo de ter a resposta a estas perguntas do que viver na ignorância. Ou melhor, acho que há um balançar destas duas opções que não me agrada. Porque viver na ignorância está a manter-nos a todos juntos. E se não for assim? E se os medos do meu pai (e os meus...) estiverem corretos e existir mesmo negligência de cuidados prestados? O que acontece depois? São dois meses de um medo puro que tudo se mantenha tal e qual está mas medo puro que tudo mude abruptamente. São dois meses a viver num pânico que me tolda, muitas vezes, o raciocínio e me faz achar que vou vomitar. Dois meses a acordar para a dura realidade que é viver num mundo onde não estás. Nos primeiros cinco segundos em que abro os olhos está tudo bem, não aconteceu nada. Estou simplesmente a despertar para um novo dia. Mas depois, quando a realidade me atinge, parece que o meu peito vai rebentar de uma dor com a qual tenho que viver. Dois meses a procurar por ti, sempre à espera de te ouvir ou te ver. A entrar por todos os sítios que eram teus e a fazer questão de te encontrar, sabendo bem que não é possível. São dois meses de conversas mentais contigo, perguntando-me milhões de vezes as mesmas coisas e chegando a nenhuma resposta. São dois meses de uma falta tremenda. Perdi um pilar absolutamente essencial para o meu crescimento da forma mais abrupta possível e não estou a saber lidar com isto. 

Sei que hoje deveria ligar à avó mas não consigo passar por isso. Não hoje. Eu sei que deveria ligar-lhe, precisamente por ser hoje, mas não consigo. Falta-me a coragem quando ainda ontem ela me repetiu quase a história toda até me dizer "bem, tu já sabes o resto", porque sim, eu sei o resto. O resto é que o perdemos todos e que nada disto é justo. 


Tu, de sorriso e voz alegre, de espírito firme e sempre animado. Tu, a alegria de qualquer festa e a boa disposição de qualquer sítio. Tu e as tuas histórias, contadas vezes sem conta. Adoravas a vida e dizias sempre que era tão bom estar aqui. Dizias que a vida era tão bonita e que era boa para nós. Dizias que devíamos ser felizes. "É preciso calma e paz na alma", repetias muitas vezes nos últimos tempos. Estou a tentar, avô, e acho que estamos todos a tentar. Por favor, olha por nós, sejas tu o que fores.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Estava a bloquear tudo por medo de me confrontar com as verdades que me disse. Não queria responder mentalmente à pergunta que me colocou - nem sequer me queria lembrar da sua existência - talvez porque não lhe sei responder concretamente. Disse-me que eu tinha que pensar porque é que não queria que eles soubessem, qual era a minha razão para isso acontecer. Mas, para além de um medo puro que destruam o trabalho que temos vindo a fazer, e que eu seja alvo de ataques verbais que reconheço que me mandam abaixo desde que sou adolescente... Eu não quero ser alvo de ataques verbais sem ter a certeza que vou ter capacidade de me defender e de defender o trabalho que temos vindo a realizar. Diz-me que eu apenas tenho que dizer que senti a necessidade de procurar ajuda para conseguir falar melhor com eles e que tenho conseguido fazer isso graças à terapia, que estou mais aberta e disponível para os ouvir e menos fechada para lhes dizer certas coisas. Diz-me que tem a certeza absoluta que eu estou preparada para essa conversa e para nos defender mas enquanto eu não estiver, vou sempre sentir que estou a esconder mais pedaços de mim, em vez de me tornar mais sincera dentro desta casa. Porque é que é tão importante contar-lhes? Para ser o mais sincera possível. Mas não quero ser a fraca. Não quero que destruam o que temos vindo a construir, é um instinto de proteção que me cansa diariamente. Não saber qual será a reação caso saibam. Não saber o que eu vou dizer, faltarem-me as palavras para explicar. Omitir partes? Mentir? Qual é o caminho? Eu estou cansada de viver assim mas não faço nada para mudar isto - e eu sei que não faço, caramba, eu sei que deixo isto andar todos os dias e quanto mais deixo andar mais noção ganho de que ficariam mesmo muito desiludidos comigo - por medo. Disse-me que tinha a certeza da disponibilidade absoluta da minha mãe para me ouvir, apenas pela prova do que eu lhe tinha contado que tinha acontecido da última vez que entramos as duas num carro e da pergunta dela. Das várias perguntas e de me ter perguntado se eu sentia um terror absoluto e se eu queria trabalhar nisto. Ela já está disponível para a minha dor - para alguma, pelo menos. Nós as duas conseguimos perceber isso apenas pelos relatos de pequenas situações que lhe transmito - mas sempre pelos meus olhos. Eu tenho noção que o que mais lhe custaria era saber que eu andei a falar sobre tudo o que acontece aqui sem ela saber que isso aconteceu. E penso que isso me impede sempre de contar, impede sempre que as palavras saíam... 
Disse-me sinceramente que eu me queixava  deles mas que estava a fazer o mesmo que eles faziam, a meter para debaixo do tapete, a não olhar para o elefante na sala. Disse-me [e foi o que mais me doeu] que eu tinha jogado com o assunto e que tinha escolhido continuar o jogo em vez de colocar as cartas em cima da mesa e explicar que já tinha ajuda... E é verdade, eu escolhi continuar mas apenas por não saber como reagir, por não saber o que vinha a seguir, por me ter sentido completamente paralisada... Eu não sinto que tenha jogado com ela [mas eu sei que agora ela sentirá se eu contar a verdade, eu sei que ela olhará para mim com uma desilusão latente e eu não quero voltar a ser alvo desse olhar de desilusão e falha...]. Eu sinto que apenas tentei perceber o que ela estava a dizer e que, como não acredito que nada disto vá em frente, deixei de lado e escolhi - sim, eu sei que escolhi - não dizer a verdade. Desta vez saí mesmo completamente magoada daí de dentro por ser tudo verdade e por saber que sou eu que estou a fazer isto comigo própria. A verdade magoou-me e sempre que penso nisto só me apetece vomitar, literalmente. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

"Isto tudo tem pouco sentido. Mas se é para lhe dizer que há dias em que saudades são tramadas, não é obrigatório ter nexo. (...) Que não sabe conversar para as estrelas e por isso escreve monólogos."

Tenho tantas saudades tuas, avô. Eu acho que sabes, pelo menos, quero acreditar que sabes e que ouves todos os desabafos que faço em silêncio enquanto caminho sozinha. A vida está a passar e eu vou falando contigo. As árvores, o sol, a rua, os carros. Por entre tudo isto, eu falo contigo na minha cabeça, todos os dias, em todas as alturas. Custa-me tanto saber que não estás em lugar nenhum neste mundo dos vivos. Custa-me saber que não te vou ver mais, tocar mais, beijar mais, ouvir mais. Eu dava tudo para me ter despedido de ti, eu dava tudo para termos estado contigo naquela noite e termos conseguido fazer mais do que ela... Dava tudo para te ter só aqui mais um instante. Se soubesses que choro todas as semanas pela forma como tudo isto anda, ias ficar mesmo muito triste... Desculpa. Eu tento ser forte cá fora, eu tento ser o pilar que a psi diz que sou mas, lá, com ela, desabo totalmente. O meu peito já não é um lugar confortável há muito tempo mas desde que desapareceste... tem custado muito mais ser eu. 
Agora que nos cruzamos e senti que ia vomitar percebi que estava a bloquear, não sei se conscientemente, tudo o que aconteceu ontem. Não sei como tive capacidade para sorrir ou acenar. Só me senti prestes a cair da fortaleza construída à toa para bloquear tudo o que conversamos ontem. Mas agora sei que é preciso e não vou virar as costas, só preciso de me sentir suficientemente segura para deixar acontecer.


Eu não sei se o que eu vejo e se os comentários que a mim me doem tanto ouvir e são feitos em voz alta... eu não sei se alguém compreende o que diz, a complexidade do que diz e o que está realmente a dizer. Eu não sei se assumem que é um problema grave, que nos afeta a todos, dentro da cabeça deles, ou se é alguma coisa normal dizer o que dizem e tudo continuar na mesma. Nem sequer sei a regularidade com que acontece agora porque tenho reparado pouco. Não sei distinguir se é da minha cabeça ou se é real. E isso custa-me. No meio de tudo o resto, olhar para isto, saber que continua a acontecer, mesmo depois da morte do avô e eu ter pensado que tinha parado por uns tempos... Não parou. E agora, pai?

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Quando passou a azáfama do dia de hoje comecei a sentir-me muito cansada e muito sozinha. Ao mesmo tempo sabia que não podia recorrer a ninguém - acho que nem sequer saberia o que dizer. Pensei, em muitos momentos durante as últimas horas, em falar sobre o que estou a sentir com alguém mas também sei que ninguém iria entender. Às vezes só me apetece ser vento e desaparecer. Voltar apenas quando estiver pronta para o regresso. Desfazer-me das máscaras que possuo e só voltar quando for inteira e transparente, quando sentir que consigo cuidar de mim. E quando souber que vou parar de ser um segredo ambulante. 
Eu sei que estou sozinha porque escolho estar. Eu não duvido que estariam de bom grado para me ouvir se eu apenas fizesse esse movimento, se eu apenas pedisse ajuda. Mas há certas coisas que não se entendem, por muito boa vontade que se tenha. "Há certos movimentos que são daqui", como me diz tantas vezes. E quem diz "dali" também diz "do meu cérebro", eu lido sozinha. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Preciso muito de escrever mas ainda não tenho coragem disso. 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Acho que uma das coisas à qual tenho que me agarrar nesta altura é a forma como eu estou a conseguir cuidar de mim, tomando uma decisão de me afastar de uma pessoa que já não me está a fazer bem, que já não é benéfica para mim neste momento. O facto de eu saber dizer que não, de eu mostrar que não estou feliz com a forma como as coisas estão e que eu preciso e quero mais numa relação. Essa é uma das coisas boas que retiro deste momento mau, que eu estou a conseguir seguir um caminho cujo objetivo é ficar bem a longo prazo. Acho que a decisão é um agora, não, agora não consigo fazer isto, agora não dá para mim. 


Fazes-me falta mas acho que já nem sei o que acontecia antes - porque as nossas discussões já eram diárias, sobre tudo e qualquer coisa completamente amontoado. Espero que estejas bem e não te estejas a passar com o que quer que aconteça quinta feira. Vou estar ao teu lado se precisares de mim, não te vou abandonar numa altura complicada para ti. [E foi isso que falhou do teu lado e dói-me mesmo muito sentir-me assim, porque me preocupo tanto com uma pessoa que não demonstra sentir o mesmo por mim.]
Hoje foi o primeiro dia, desde dia 21 de abril, que ficaste absolutamente sozinha. Já tinhas ficado algumas horas ou uma noite mas nunca um dia - e este foi o primeiro de uma série de dias em que ficarás. E, em vários momentos, pensei em como estarias e o que aconteceria se te ligasse, se ias chorar, se te ias mostrar resignada, se te apanharia com uma atitude positiva perante a vida... Acho que te encontrei conformada com a situação, acho que me partiu o coração ter-te ouvido dizer que "agora, aos 80 e tal anos, é que estou a aprender a estar sozinha" e que era Deus que queria desta forma - não sei se é deus mas sei que as coisas acontecem porque têm que acontecer. Talvez tenha sido, também, um bocadinho por isto que hoje me senti tão mal, que estive o dia todo super em baixo e que senti, várias vezes, um aperto doloroso no peito. Mas tu vais conseguir, avó. E ele está contigo, está conosco. 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A semana passada percebemos, as duas, que estou mais atenta e mais exigente perante o que preciso. E esta semana disse-me que estava a viver uma relação à distância que me serviu até certo ponto mas que, agora, chegando onde estou, já parece não servir. E a verdade é essa. Parece que já não estou a conseguir lidar com as contingências de uma relação à distância que se desenha nos parâmetros da minha. Porque a realidade que me está sempre a fazer ver é a de que eu fui escolher uma pessoa com uma vida pouco facilitada e com problemas realmente difíceis de resolver. Mas a verdade - e respondi-lhe isto claramente a semana passada - é que eu, quando fiz essa escolha, não sabia de nada, não sabia da história de vida e não preciso de sentir que está a desculpar todas as atitudes que ela tem só porque a história de vida é complicada, porque todos temos histórias de vida e todos temos os nossos problemas. E hoje ter-me atirado para cima que parte da minha zanga e da minha solidão em relação às atitudes da Joana não é na verdade para ela mas para si... Não faz o mínimo sentido na minha cabeça e eu não me ia zangar com ela porque não a tenho para me zangar. Eu zango-me com ela porque ela não está quando eu preciso - e muito! - que ela esteja. Eu zango-me com ela e eu torno-me impaciente a vários níveis. Neste momento eu já sei que toda e qualquer coisa que ela diga, o meu argumento vai bater certo com todas as outras frases que referi em várias alturas diferentes. E, ainda assim, ouço que estou a tentar sabotar esta relação e a tentar sabotar as atitudes boas que tem... E com essas coisas eu não consigo compactuar. Porque são o mais longe da realidade - eu só queria que ela ficasse do meu lado, se preocupasse comigo como eu preciso e não me deixasse sozinha  e se esquecesse de tudo o que tem acontecido quando tem pessoas à volta ou quando um assunto se prioriza a outros. E está tudo mais difícil do que estava quando eu aí entrei esta manhã porque, neste momento, estamos mesmo sem falar (até quinta, porque eu não consigo aguentar saber que vais ficar sozinha quinta feira, mesmo que tenhas dito que eu mereço saber o que aconteceu, eu quero estar para ti, como sempre estive...) e penso que a ideia é pensarmos calmamente no que isto se estava a tornar e pararmos de nos magoar uma à outra de vez. Só sei que tudo isto era a última coisa que eu precisava que me acontecesse a esta altura.
Estou a escrever isto, uma semana depois de ter acontecido, porque não quero deixar de marcar aqui o que começou na semana passada e o que tem vindo a planar até chegar ao chão - acho que esta semana chegamos ao chão, pelo menos senti isso. 

No meio de todos os acontecimentos que marcam este período tão difícil interiormente... o que mais custa, o que mais dói, o que inflama ainda mais... é perceber as brechas com as quais esta família se apresenta, porque vocês não apreendem o que eu apreendo, porque eu sou só eu e a forma como eu sinto é diferente da forma como cada um de vós sente. E não faz mal. Mas a mim magoa-me muito que, no meio de tudo, ainda me esteja a aperceber que em lugar de um apoio concreto e de uma decisão forte existe uma falha profunda. Tal como eu sinto que me falham, tantas vezes. E ver isto... É uma daquelas alturas em que afirmo baixinho para mim própria que preferia ser cega, como antes de iniciar este caminho doloroso. Disse-me que sentia que as coisas começavam a acalmar-se, que a confusão dos primeiros tempos já tinha abandonado o plano do profundo e que, por isso, agora já iríamos conseguir ver as coisas de outra maneira e que sentia, claramente, que eu via as coisas de um outro prisma, que a confusão tinha passado a doer menos e que estava menos perdida no meio de todas as emoções e sensações que tenho vivido.