domingo, 29 de abril de 2018

É tão simples encontrar pequenas soluções que nos tragam paz de espírito em momentos que precisamos disso. O que mais nos custa é mesmo seguir essas soluções que sabemos ser o certo para nós. 

Mas eu sabia que já tinha dito tantas vezes o que sentia e que já me tinha mostrado tantas vezes tão esgotada de tudo o que tu não fazes por mim e de todas as vezes em que as tuas palavras são simplesmente vazias, em que tudo é mais importante que eu.. quando eu faço o impossível para que tu sintas o meu apoio... a única solução era mesmo afastar-me de ti para conseguir alguma paz de espírito. Eu preciso de paz neste momento e é muito triste que tu já não consigas (ou queiras) ser o meu ponto de abrigo e a minha paz. Custa tanto...
Dói-me tanto estar nesta casa onde não te vejo em nenhum lado, os locais onde estavas estão agora vazios. Faz-me tanta impressão estar aqui onde tu não estás. No quintal onde não caminhas, não regas as flores e os legumes e não vês se faz chuva ou sol. Não cavas a terra, não colocas espinhas para os teus gatinhos virem comer no final das nossas refeições... No meu quarto onde não entras, nunca, quando entravas tantas vezes, para perguntar se estamos bem e se está tudo bem connosco. Não entras aqui, já cansado, a vir dar as boas noites, sem os dentinhos. Não entras mais e isso faz-me impressão. Não estás ali na sala, no teu computador, a querer mostrar-nos todas as novidades que encontraste no facebook nesta nova semana em que não nos conseguimos ver pessoalmente. E eu procuro-te, avô. E não estás à mesa, a contar histórias do teu passado na guerra e a partilhar-te pela milésima vez com a tua família. Não entras na cozinha, quando eu estou a lavar a louça, preocupado se me estou a queimar, se tens que desligar a água por estar muito quente. Preocupado por ser eu sempre a lavar a louça ou a trazer-me notícias das conversas que correm na sala. Não fazes mais queixas da avô, não fazes mais nada e eu tenho medo de estar aqui, nesta casa que me soa a tristeza da tua morte. Dormir aqui custa muito mais do que dormir na minha cama, em minha casa. Aqui acordo várias vezes por noite, quase que parece que estou à espera de te ouvir acordar, de te ouvir fazer algum barulho que antes me deixava irritada por me acordar... agora, de bom grado, gostaria que me acordasses. Ainda me levanto a meio da noite para ir à casa de banho e, às seis ou sete da manhã, ainda acho que te vou encontrar lá a fazer a tua higiene matinal. Lembraste quando fechavas as portadas das janelas e o gradeamento de toda a casa, à noite, e chegavas ao quarto e dizias "vocês ainda vão sentir muito a falta deste velho?"... oh, avô, tu tinhas tanta razão e a verdade é que nós sempre ta demos. Nós sabíamos que íamos sentir muito a tua falta. Ninguém está preparado para perder um alicerce da maneira que nós te perdemos. Custa-me tanto, meu avô. Esta última semana foi das mais longas da minha vida e eu sinto-me tão cansada.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Tenho a agradecer-vos o facto de se terem levantado às cinco da manhã e terem dormido apenas quatro horas para estarem comigo num dos piores dias da minha vida. Tenho a agradecer o facto de não ter sido eu a pedir, de apenas me terem dito que estariam para mim, fosse onde fosse e às horas que fosse. Tenho a agradecer-vos as vezes em que o silêncio falou e que apenas me deram a mão, que deixaram as lágrimas instalar-se e me disseram baixinho para chorar apenas. Eu sei, eu sei que foi difícil para vocês verem o que viram. Queria poupar-vos ao meu sofrimento. Verem as vezes em que fui completamente abaixo, em que os tremores tomaram conta de mim, em que as lágrimas apenas saíam... E, na verdade, eu quis poupar-vos a gravarem essas imagens como parte da vossa vida. E foi por isso - e não só pelas horas e pelo dinheiro - que vos disse que preferia que não viessem. Eu sabia que não estava em condições. Eu sei que ainda não estou. Mas o dia foi muito menos duro com a vossa companhia, um de cada lado.

"That's the thing about pain. It demands to be felt"

Pode já ter passado quase uma semana mas não podia deixar de refletir aqui sobre a forma como me senti absolutamente segura com a sua mão na minha, a acompanhar-me e a impedir que eu colapsasse fisicamente, no meio do caos profundo onde estava (e ainda estou). Eu lembro-me claramente da minha dificuldade em chegar à faculdade, da sensação de que as minhas pernas se arrastavam e que os passos eram tudo menos seguros, o meu cérebro não era mais cérebro... mas a minha convição de que tinha que fazer isso e que precisava mesmo de si estava bem dentro de mim desde que recebi a notícia. Foi uma dor profunda contar a história em voz alta, o meu corpo tremia e a minha voz fugia-me, os meus olhos eram apenas lágrimas... eu sei que foi um choque receber a notícia, chegou a dizer-me que eu tinha lançado uma autêntica bomba - embora falemos muitas vezes que eu chego lá e lanço bombas... Nem uma semana tinha passado desde a nossa conversa em que eu tinha chorado tanto por sentir que o iria perder... E as coincidências estranhas e estúpidas desta vida abalaram os meus alicerces. Eu não ia aguentar isto sozinha. Tê-la comigo é parte da minha força para ultrapassar este momento. Vai marcar-me completamente a forma como tudo isto aconteceu e vou demorar muito a aceitar e a deixar de me sentir revoltada. Acredito que as próximas semanas de terapia serão de tal forma intensas que o mais provável é mesmo acabar por desmaiar a sério - o meu corpo bloqueia a dor. Preciso que não me deixe sozinha. Preciso mesmo.

[Tenho esta frase, do título, na minha cabeça desde o velório, avô, e estou a agarrar-me a ela com todas as forças e a permitir-me sentir a dor... porque se não o sentir agora tenho medo que o meu futuro seja muito mais duro...]

   


quinta-feira, 26 de abril de 2018

24 de abril de 2018

A casa parece vazia sem ti, avô. Silenciosa. Porque tu eras a alma e a alegria da casa. Eras a luz e a felicidade palpável. Agora parece fria, um pouco como tu estavas quando te beijei a testa ainda agora.
Estamos sempre em viagem, avô. Só tenho ido dormir à minha casa, tomar um banho, fazer uma coisa ou outra para não pensar muito... mas sabes? Arrependo-me sempre de sair de casa, e tenho saído pouco, quatro horas por dia. Não quero ver pessoas. Não quero estar sozinha. Não sei o que sinto, parece que estou vazia.
Nós voltamos sempre à vivenda, estamos com a avó até à uma da manhã, estamos sempre com ela. Chegamos a casa às duas. E depois quem é que diz que eu durmo? O pai não tem ido a casa. Não vai a casa desde sábado. Acabou de se despedir, sabias? Tu estás aqui deitado, frio, e ele despediu-se... diz que não vai deixar a mãe sozinha, não vai trabalhar mais... E agora?
Sabes, avô? Ontem foi um dia mesmo difícil, as notícias pareciam pingos de água numa torneira estragada. Estava tudo em aberto, um monte de hipóteses plausíveis sem nenhuma certeza concreta. E nós precisamos de certezas concretas para que o luto se faça. Ainda agora, que estás aqui deitado à minha frente, não sabemos o que aconteceu contigo, não sabemos por que é que morreste. Tu sabes, avô? Eu sei que percebeste que ias morrer, eu sei, a avó contou-me. Ela contou a história tantas vezes a tanta gente e cada vez que a ouvia falar apetecia-me berrar até que ela se calasse... 
Eu tive medo, avô, do que ia acontecer. Eu sabia que os próximos dias seriam um autêntico calvário, mas não tinha noção da loucura e da confusão. Porque o pesadelo já estamos todos a viver, desde as cinco da manhã de sábado. 
Desculpa-me por ter demorado a entrar na capela para te ver, desculpa. Eu tive uma descarga de energia tão grande, só chorava e tremia... estava com tanto medo de te ver, de saber que tinhas uma ligadura na cara, de saber que te tinham cortado a cabeça... isso quer dizer que não encontraram a causa da tua morte no coração? Avô, isto é tudo tão confuso. Estou tão cansada. E quem é que diz que algum de nós dorme? Foi tudo tão repentino, estamos todos completamente paralisados. A dor paralisa-nos. 
Desculpa termos vindo embora, nós vamos descansar um pouco e voltamos, sim? Até já, meu avô. E sabes? Tinhas razão. Nós estamos a sentir muito a falta do velho.

domingo, 22 de abril de 2018

Desabei completamente, fechei-me na casa de banho durante algum tempo e só consegui chorar de forma incontrolável. Só sei que não consegui lidar com o sofrimento daquilo que estava a passar-me nos olhos e não queria que mais ninguém visse as minhas lágrimas. Não queria mesmo preocupar mais ninguém. 
Custou-me muito, sem perceber que ia acontecer, que ia lidar com o teu sofrimento, o pouco que deixas transparecer. Nos últimos dois dias mostraste um lado teu que eu não conhecia e, de alguma forma, isso tornou-te mais meu pai aos meus olhos. Nós vamos ultrapassar tudo isto. Nós vamos ultrapassar tudo porque a família é o nosso lugar seguro - tem que ser.
«Volta porque não aguento,
Sem ti tudo ficou cinzento.
Prefiro ter-te com todos os defeitos
Do que não te ter no meu peito.
Porque sem ti não consigo,
Volta para me dar sentido.
Sou apenas um corpo perdido,
Por isso só te peço que voltes.»

Meu Avô Zé 💖
21.04.2018


O choque do som estridente do telefone em contraste com as horas, 5.14h da madrugada. O meu sono era leve e levantei-me de um salto ao mesmo tempo que ouvia os meus pais a fazer o mesmo no quarto ao lado. Chego à porta do meu quarto, o meu pai encara comigo e esboça a notícia sem sequer ter a certeza do que está a dizer. O meu corpo sofreu uma alteração no seu equilíbrio, senti que ia desfazer-me e passar a ser chão. Achei que ia perder o pé, vomitar e desmaiar, tudo ao mesmo tempo. Deitei-me na cama a tremer de medo. Por eles, por piorar ainda mais uma situação já de si horrível. Terem que se preocupar comigo não faria parte do rol dos acontecimentos de um dia que começou bem cedo. Os meus pais voaram para cá, eu e a minha irmã não voltamos a deitar-nos para dormir. Só para ajudar na má disposição física que se instalou. Aqueci água para fazer um chá enquanto rezava a Deus nenhum para que tudo isto fosse só um pesadelo e que salvassem o meu avô. Mas, dentro de mim, já sabia. Talvez tenha sido por isso que a reacção da minha irmã foi incontrolável enquanto eu me limitei a abraça-la e a deixar que o corpo dela soluçasse simplesmente até acalmar. Eu não chorei até me sentar no sofá e ficar sozinha. As lágrimas vieram em força, a dificuldade em respirar instalou-se. Parecia que ia sufocar. Quando decidimos sair de casa e vir para perto do resto da família eu estava incontrolável. Lembro-me de não saber que roupa vestir, de não me saber despir. De apenas chorar e procurar ar desesperadamente. Sentei-me no chão do quarto enquanto ganhava força e me tentava acalmar e só agora em retrospectiva entendo que deixei a minha irmã ver um dos meus ataques internos, exteriormente, e sinto vergonha e medo do que aí vem.
Desde que aqui chegamos, perto das oito da manhã, que a minha avó tem momentos de uma lucidez incrível onde repete até à exaustão tudo o que aconteceu nas últimas horas de vida do meu avô ou nas últimas semanas... misturados com outros em que agarra as faces com as mãos e apenas chora em silêncio. Já várias vezes lhe pedimos que ela se deitasse para descansar mas ela afirma com toda a certeza que não quer deitar-se naquela cama e olhar para o lado... Não termina nunca a frase e tanto pode querer dizer que não quer deitar-se na cama onde o seu marido faleceu como não quer deitar-se mais numa cama vazia, depois de mais de cinquenta anos a dormir com alguém. A minha mãe é uma capa de força, foi ela quem me deu a notícia ao telemóvel e pediu desculpa. Como se tivesse culpa de alguma coisa que aconteceu. Não tem. Ela. Eu. A minha irmã. A minha avó. O meu pai. Ninguém tem. A morte vêm quando tem que vir. O meu pai fuma um cigarro atrás do outro como se por entre o fumo do tabaco as memórias do seu próprio pai estivessem mais vividas. Às tantas, depois de mil tentativas, conseguimos que ele se sentasse ao fundo do sofá onde a minha mãe se deitou, exausta. E os olhos dele estavam vidrados na parede em frente, nunca disse nada. Levantou-se depois e não voltou a sentar-se, saiu para trabalhar, o que, para mim, deve ser melhor do que estar aqui à espera de alguma coisa que não vem. Já todos nos levantamos, mais vezes do que era suposto, e estou a olhar para elas enquanto dormem. Ao menos elas dormem. Espero que a minha avó também esteja a descansar. E eu não consigo dormir. Acho que não fui talhada para dormir nas alturas de maior stress e acho que era parecida contigo. Que sou. Esta casa é vazia sem ti, avô. Eu estava magoada contigo por muita coisa e talvez nunca mais te consiga explicar nada disto mas eu não estava preparada para te perder. Só espero que tenhas ido em paz para um sítio melhor que este. Vais transformar-te em cinzas porque era o que gostarias. Nós vamos cuidar de tudo e da avó. Eu prometo.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Já percebi que a minha vida profissional vai ser um monte de altos e baixos que não vou conseguir controlar de forma nenhuma. E talvez isso também tenha a ver com a minha pouca capacidade para ver que tenho realmente ferramentas para conseguir, a minha fraca auto estima e a minha relutância em acreditar em mim.  
Vão ser muitos os dias que me vou sentar em frente a um computador a pensar que vai ser produtivo e, pelo contrário, vou sentir-me uma burra inútil e pouco inteligente quando o dia termina. Vou sentir-me ainda mais em baixo, sentir que tudo o que faço não está bem feito, sentir que devo desistir e que o caminho está errado. E isso ainda me faz pior, no final de contas. Hoje foi um desses dias e não me estou a sentir nada bem, tenho um aperto na garganta que não sai, está apenas a alastrar-se ao peito e ficar lá preso e eu odeio quando isso acontece. Neste momento já só me apetece gritar ou desistir completamente porque este artigo não está a sair como deveria. Nem acho que alguma vez vá sair deste word para ser publicado onde quer que seja.

[E aqui estou eu a aplicar o meu novo método de escrever o que estou a sentir, a reconectar-me com a escrita, a encontrar esperança em alguma coisa. Quando me perguntou na terça feira se eu costumava escrever e eu disse que antes costumava... e me disse que eu devia de voltar, porque me poderia ajudar... eu tenho pensado nisso a sério nos últimos dias. E estou a esforçar-me para me ajudar.] 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Ouço-vos ultimamente dizer que as pessoas não têm culpa de ser assim, argumentos como ser uma combinação de genes e que não se pega e que as pessoas são como são e têm que ser respeitadas e penso sempre que o vosso discurso mudou. Ou, pelo menos, que mudou para o geral do mundo lá fora porque não me recordo de algum dia ter sido desta maneira. E não sei se sou eu que estou maluca porque o vosso discurso sempre foi assim, tal como o ouço hoje, e eu apreendi-o de forma contrária ou se realmente as minhas inseguranças quanto a tudo isto são realidades palpáveis. Sinto-me confusa, sinto que estou a enlouquecer cada vez que este assunto me passa pela cabeça. Começo a sentir-me mesmo maluca quando vos ouço falar, só me apetece gravar tudo para não perder nenhum fio da conversa, para a rebobinar de seguida e conseguir, de forma mais calma, perceber se tenho razão. E depois, quando acaba, começo a imaginar o que sentiriam na possibilidade de algum dia eu assumir a minha própria verdade. E isso ainda me assusta mais porque é lançar-me para o absoluto desconhecido sem ter a certeza da forma como ficaremos, como família, no final de tudo isso.
Já não me lembrava da última vez que tinha deixado alguém entrar desta forma, que tinha deixado que uma conversa decorresse de forma relativamente normal, olho no olho, sem ser ali dentro. Tenho passado mais tempo calada do que a falar em voz alta daquilo que sinto. Ou até a escrevê-lo, tendo outras pessoas como leitores dos meus sentimentos. E estava, de certa forma, a necessitar de uma conversa destas, ainda que tenha sentido em muitos momentos que continuei a fugir à realidade das palavras, ao cru do que sinto. Sou tão boa a não dizer, dizendo, que acabo por escolher mesmo não o fazer. Talvez tenha medo que me vejam de outra forma se for absolutamente sincera ou talvez tenha medo do que já aconteceu tantas vezes, que diminuam o que sinto e a forma como sinto, que digam que exagero, ou mesmo só que me digam que compreendem de forma vazia. E falando diretamente do que aconteceu hoje e de todas as vezes que a voz não me saiu quando queria dizer a verdade total: talvez tenha medo que me veja a mim de outra forma porque a verdade é que não sei de que forma me vê. A verdade é que me faltou a coragem de abrir mais a nossa relação. Porque sinto que a mim me diz as coisas sem medos de as dizer. Não sou só eu a desabafar ali dentro... Aos meus olhos a nossa relação já deixou de ser, há muito tempo, de uma professora e uma aluna normal. A admiração, o respeito e o carinho que lhe tenho são muito mais do que a normalidade real. Já passou a ser mais do que isso, na minha cabeça, e daí o medo de dizer as coisas como elas são. Já para não falar do medo que tenho de o dizer, em relação a mim própria, pela vergonha que (ainda) sinto, pelas inseguranças que isto tudo coloca a nu. Por isto, sei que poderia não ser nada, ouvir o que tenho para dizer, sem utilizar meias palavras. Mas, para mim, é alguma coisa. É, também, deixar mais uma pessoa entrar da qual depois posso vir a esperar algum tipo de apoio e segurança porque dado tudo aquilo que tenho sentido, o meu instinto de proteção tornou-se mais forte e não digo nada com medo de que me falhem. Porque sinto que todos falham. E hoje não me falhou, e senti muitas vezes que não sabia o que me dizer, só me conseguia ouvir. Senti, mesmo assim, que nunca fez tensões que a conversa terminasse. Mesmo quando os silêncios se instalaram. Disse-lhe várias vezes que já não conversava assim com alguém há muito tempo porque sentia que todas as pessoas me irritavam. Tremi o tempo todo e nunca tive frio, embora os tremores me estivessem a fazer senti-lo. Várias vezes me passou pela cabeça levantar-me e fugir mas a troca de experiências foi de tal forma intensa que nem me conseguia mexer. Spoiler alert: nunca vai deixar de se sentir assim. A mim nunca me disseram por isso eu estou a dizer-lhe. E fui eu que terminei a conversa, por sentir que estava prestes a desabar, por não querer chorar, embora várias vezes as lágrimas me tenham picado os olhos. E ficou ali, só se levantou depois de eu me levantar e disse que me queria abraçar. E eu, dentro do abraço, disse-lhe baixinho "estou tão cansada" e respondeu-me que sabia. Agradeceu-me por eu confiar e eu agradeci-lhe por me deixar confiar, e por também me fazer sentir que não é só de um lado que esta relação se está a construir, porque, quero acreditar, que estas trocas intensas que acontecem entre nós, não lhe acontecem assim às três pancadas com todos os seus alunos...
E, às vezes, não há coisas certas a dizer, basta que deixemos alguém entrar. Foi isto que eu aprendi hoje e que precisava tanto de aprender. Não posso esperar pela coisa certa, por muito que sinta que tudo o que me dizem é errado, eu tenho que deixar alguém entrar. Tenho que partilhar algumas das coisas, tenho que confiar no processo terapêutico e tenho que acreditar no caminho que estou a fazer. Que é difícil, que é doloroso, mas que é meu. E tenho que acreditar que eu sou capaz. E, como diz muitas vezes, isto agora aqui é o confessionário, o que se diz aqui, fica aqui. Mas sabe? Este é o meu confessionário e já tenho muitas palavras sobre nós por aqui. Talvez um dia lhe diga isto. E talvez um dia perca o medo e lhe crie uma etiqueta.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Vou sempre recordar-me dos restos de base nos meus dedos, de ter lavado as mãos insistentemente... de me estar sempre a perguntar porquê, e como, é que os meus dedos estavam tão sujos... e só depois ter realizado o quando e o como e a dor que isso fez instalar no meu peito. E, a partir daí, não consegui fazer mais nada de útil no estágio e comecei a arrumar as tralhas para regressar a casa. Custa-me sempre entrar, principalmente porque não quero ver ninguém e pelo peso de disfarçar a dor que trago comigo... E eu lamento tanto ter que colocar a máscara. Mas ainda é preciso... Pode chegar uma altura em que deixará de ser mas ainda é... Almocei e deitei-me na cama, não conseguia sentir nada sem ser dor. Durante meia hora pensei que não me levantaria mais. Mas reuni todas as forças do meu ser e saí de casa. No entanto, agora, só me quero ir deitar, dói-me a cabeça, dói-me o corpo, dói-me existir. Há dias em que me dói existir. Custa-me demasiado carregar tudo isto sozinha mas há coisas que tenho que aprender a carregar sozinha. Estou a aprender. Estou. 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Quando eu chego ao ponto de pensar que é impossível ficar mais desiludida com tudo o que tem acontecido, eis que (me provas que) afinal é. Mais um dia. Mais um dia em que eu nada vi. Começo a não ter - mesmo - palavras para classificar o buraco onde nos estamos a enfiar. Estou só francamente cansada.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Olho em volta e vejo-me sozinha. Sinto que ninguém está, ninguém me procura com a permanência que desejo. Ninguém me vê como eu preciso que me vejam. Ninguém me sabe. Mas, na verdade, nem eu me sei. O afastamento e o isolamento que tenho causado a mim própria trouxe-me uma verdade que eu não contava: a de que só se esforçam e só estão quando eu estou primeiro. Eu sou só. Mas esta descoberta não (me) pode fazer mal. Eu vou ser sempre a minha única companhia. Portanto é melhor que comece a aprender a suportar-me com um sorriso. A mimar-me. A dar-me atenção. A dar-me alento. A descobrir força e capacidade dentro de mim para ser. Eu estou só a tornar-me melhor. É só isso. Não faz mal estar sozinha porque estou comigo e eu aguento tudo.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Não me acontecia há uns dias e até já me tinha esquecido da sensação... Aperto forte no peito, dor no coração, dificuldade em respirar. Dói-me demasiado estar assim. E nestas alturas tenho que me afastar para cuidar de mim.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sinto que, desta vez, cheguei ao limite da minha paciência e que não consigo - por muito que queira, porque sempre o fiz - colocar-te acima de qualquer discussão que tenhamos. O que nos atinge agora é a mesma coisa que nos atingiu tantas outras vezes e que tu arrumas durante uns dias ou umas semanas mas que depois me volta a magoar estupidamente. E, por isso, eu não consigo fechar mais os olhos. Eu não consigo dizer-te coisas bonitas e eu não consigo tentar outras conversas ou passar em frente quando ages como se eu não soubesse o que faço comigo, como se fosse burra, como se... o que se tem passado é que se eu sinto um mínimo de mágoa e dor em qualquer coisa que me digas eu vou responder na mesma moeda sem pensar muito. Porque tu não podes pensar quando me atinges desta maneira. Só podes não pensar porque já te expliquei muitas vezes o que me dói. Enjoa-me até ao profundo de mim estarmos como estamos mas não consigo evitar mais. Não consigo colocar-te acima, não mais. Acima de mim. Que era o que fazia antes e constantemente. O teu bem estar sempre. Quando tu olhavas ao meu apenas quando te lembravas que eu também era um ser humano. E eu sou sempre um ser humano. E nós estamos por um fio muito fino porque eu não vou suportar mais que me trates bem uns dias ou uns tempos para depois esqueceres que eu existo quando a vida corre. Se queres que eu seja uma pessoa que reconheces, trata de seres primeiro uma pessoa que eu reconheço. Porque tu não eras assim. Tenho nojo de ser isto mas não consigo mais fechar os olhos e acreditar que vai ficar tudo bem. Se vai ser assim que vais entender? Muito provavelmente também não, mas já te disse há uns dias, não tenho mais cartas no baralho. Agora é desta forma. Até passarmos a odiar-nos, que era a última coisa que eu queria.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Lembro-me sempre que antes disto tudo (antes da terapia), achava que a minha família era melhor do que algumas que via para aí. Achava que me poderia apoiar fortemente nela, que seria o meu alicerce inquebrável. E como me sinto arruinada por, cada vez mais, me sentir errada. Era tão ingénua. Ainda sou. Talvez ainda seja. E custa tanto. 

Só tenho que aguentar forte quem sou até segunda, não falta assim tanto e eu consigo fazê-lo. É viver um dia atrás do outro o melhor que sei. Mas precisava tanto de dizer tanta coisa que me arde por dentro. Precisava tanto de segurança.