Sempre fui clara. Consigo lembrar-me de todas as vezes que te disse que estares comigo nesta fase não seria fácil. E sei que to disse olhos nos olhos, sei que to disse por escrito, sei que to disse a viva voz. Tenho a consciência limpa quanto a isto, só porque tenho que ter a consciência o mais tranquila possível em todas as vertentes da minha vida. E tu és uma vertente importante da minha. És, talvez, das vertentes mais importantes da minha vida. Só tinha que ser o mais sincera e o mais clara possível para contigo. E fui. Sou. [Tenho medo. Tenho muito medo.] Estar contigo agora não era o caminho mais certo - mas desde quando é que nós fazemos o que é certo? - porque eu preciso de me focar em mim para melhorar quem sou. E ter uma relação, mesmo que à distância, não era o correto para mim. Eu devia de estar sozinha. Eu devia de percorrer este caminho sozinha. [Mas saber que te tenho por perto ajuda-me a manter-me. Tu estás por perto e isso faz-me sentir bem. Só que agora tu tens menos tempo para mim, tu tens uma prioridade mais importante e isso faz-me sentir mais sozinha, mais abandonada na minha solidão. E continuo com medo, que me deixes, que fiques farta, que me abandones ainda mais, que me abandones não por falta de tempo mas por falta de vontade.]
E depois, claro, há o teu lado, porque agora somos duas. Ter uma relação à distância não era o que tu merecias. Tu mereces bem mais do que precisar de um abraço e não o ter. Tu mereces mais do que eu te posso dar porque eu tenho medo de tanta coisa. Eu vivo com o meu medo e tu vives com o teu medo. Eu sei que nos apoiamos no meio dos medos que possuímos mas sei que isto não era exatamente o que merecias. Eu sei que merecias mais do que eu, merecias uma pessoa com experiência, concreta e sei qualquer medo no bolso, que vivesse a vida da forma mais brilhante possível. E foste apaixonar-te por mim?
E depois, para além do eu e do tu, há o nós. Quando eu te expliquei mais de mil vezes que não estava bem para estar com alguém tu disseste que ias ser capaz de aceitar - compreender, ter força para lidar - que eu tenho mais dias maus do que bons. Só que sinto que não. Tu não estás a saber lidar com as minhas zangas repentinas, com a minha frieza [porque tenho medo, sempre porque tenho medo de qualquer coisa], com o que tens que me dar mas não sabes que tens - só que sabes, e é isso que me irrita. Tu sabes. Eu aprendi a não me calar. Eu aprendi a dizer que quando dói, dói muito, ou pouco. Só dói. Eu aprendi que não posso mascarar o que sinto e que tenho que ser absolutamente clara - lá está, como quando te olhei nos olhos e disse que talvez fosse melhor deixarmos as coisas correr - e se me sinto mal, não vou ser querida. Vou mostrar que sinto isso. E tu não estás a saber lidar com isso. É agora que queres desistir? Ou ainda achas que vale a pena continuar e que vamos ser felizes? Que te faço mais feliz que triste?
A verdade é que tu és a pessoa que está comigo, tu és aquela pessoa que, sem querer, me pressiona a fazer mais, me mostra que estou a fazer pouco (por nós) mesmo que eu esteja a dar o meu melhor. E isso é mau. Isso é negativo porque nesta fase eu tenho que fazer as coisas com calma, com cuidado, ao meu ritmo e no meu tempo, sem sentir obrigações. E eu estou a sentir que tu precisas de mais do que aquilo que eu te estou a dar e não consigo dar mais porque tenho que cuidar de mim - sobretudo não fingir para contigo, é isso que é cuidar de mim. Portanto em que é que ficamos? Onde é que estamos? Para onde vamos?
[Juro que quero mesmo dormir contigo, quero que venhas passar um dia aqui comigo. Se te digo que não dá agora é porque penso mesmo que pode correr mais mal que bem. Pelo meu medo. Pelo meu medo de tudo o que tenho que fazer até chegar a essa cama onde vamos dormir. Mas preciso de dormir contigo. Preciso de abrir os olhos e sentir-te lá. Preciso de saber que me vais tapar com os lençóis quando eu tiver frio e que os tremores que me assaltam durante a noite já não te dão medo, que nada em mim te transmite medo. Preciso de ti, preciso mesmo de ti. E sei que precisas do mesmo. Será que é isto que é o amor?]