A forma como entrei e a primeira coisa que verbalizei foi uma antevisão para o que mais me marcou... O meu pensamento mais recorrente ao longo da semana foi desilusão. Sentir que estava a desiludir-me e pior, sentir que estava a desiludi-la. Não deve ser muito normal este sentimento e, pior, não deve ser confortável a posição em que se/me/nos colocou/colocamos. Percebi isso quando disse que o seu papel não era interferir na realidade lá fora e que sabia que o tinha feito porque me tinha aconselhado ou mandado sair e ir marcar uma consulta. Disse-me claramente que não era esse o seu papel e eu senti como se de um pedido de desculpas se tratasse. Podia não ser, mas senti-o assim. Na verdade, e como lhe disse, não foram as dores persistentes que me assustaram, o que me assustou verdadeiramente no meio de tudo o que estava a passar foi aquele momento que me abanou com tanta violência - sempre com palavras - e me mandou cuidar de mim. Diz-me que não pode ser ninguém a fazê-lo, que já tenho idade suficiente, que não posso sentir-me mais uma criança e que não posso esperar por ninguém. Diz-me que tenho que ser capaz porque só fez o que fez depois de me ver enrolada e aprisionada, aflita, cheia de dores, desesperada e desnorteada. E eu perdoo este infiltrar na minha realidade de uma forma que nunca aconteceu antes porque o sinto como preocupação genuína e como um colo tão profundo que é difícil alguma vez classificar. A ligação que construímos permite-me avançar por entre tantas situações pontiagudas, atravessar tantas montanhas e perceber verdadeiramente o que sinto em mim... Que só tenho a agradecer por não me abandonar nas minhas dores, ouvir todas as perguntas que deixo no ar, todas as frases não planeadas e todos os suspiros. Faz-me sentir - e diz-me, também - que está verdadeiramente comigo. Fez isso quando disse que estava da parte de dentro, que via mais de fora do que eu, mas que estava comigo, portanto nem tanto assim... E é tão bom ter esta segurança. É bom ter esta certeza dentro de mim que não confio em mais ninguém desta forma, mesmo quando me lança um "se calhar já nem em mim confia". Disse-me que eu tinha que confiar nos médicos, mais uma vez, porque eu precisava. Confiar neles como ali. E depois destruíram a minha confiança e agora só tenho medo de ser ainda mais destruída e de não conseguir mostrar que não sou louca, que as dores estão lá, que há qualquer coisa de errado comigo. Eu paraliso perante as minhas dores e eu quero aprender a lidar com isto de forma diferente, eu gostava de ter outras capacidades de defesa que não tenho. Só que o que mais me custa no meio de tudo isto é a análise que faz de toda a situação e o que aponta... Deveria levar outra pessoa. A tia. A avó. A irmã. Só que não posso... Pensa que a está a trair? E é sempre assim, chegamos sempre a isto... E é por isso que tudo em mim arde tanto. É por isso, também, que as noites se tornaram menos bem dormidas. É por isso que o peso apareceu e não desaparece. A sessão tem estado em segundo plano no meu cérebro e as dores gerais têm estado em primeiro, e quando não incomoda um, sintonizo no outro. E estou cansada porque sinto sempre falta do único sítio onde me sinto profundamente a 100% e onde me posso comprometer comigo própria. Está a guiar-me (ou a acompanhar-me, porque todas as decisões estão na vida real onde não interfere) na minha procura pela vida mais plena. E cada vez mais tenho a certeza que entreguei totalmente e estou absolutamente empenhada em ser melhor, encontrar um equilíbrio e construir dias felizes. Mesmo quando me parte o coração em mil pedacinhos que demoram muito mais do que uma semana a colar. E desta vez saí bastante partida. Tão partida que mais de metade está fechado algures, a sete chaves, para não espetar mais. Para não torcer mais. E o que me custa mais é que deixei de conseguir chorar. É apenas uma vontade incontrolável que não se torna real e só torna tudo mais pesado.
quarta-feira, 27 de março de 2019
quarta-feira, 20 de março de 2019
Cada vez que paro, o que me vem à memória é o tom inflamado que se manteve quase até meio da sessão. Foi a forma como a sua voz soou desesperada e absolutamente aflita de cada vez que eu me calava - porque a minha é apenas cansada, triste e desiludida. Cada vez que me permito parar e estou sozinha dentro da minha cabeça vou até lá e penso que pode ter razão quando diz que sente que eu tentei e depois deixei de tentar por sentir que não me davam ouvidos. A forma como deixei que as lágrimas saíssem simplesmente enquanto dizia isto... Eu só tenho as minhas fracas memórias e só trabalhamos baseadas nelas... E penso, muitas vezes, como é que seria se tivéssemos acesso, por breves instantes, ao outro lado da história. Porque a verdade não é minha e absoluta. A verdade é um conjunto de todas as verdades que não só o que sou. Isso assusta-me, assusta-me trabalhar em cima de possíveis percepções falsas de acontecimentos que me marcaram desta forma porque eu simplesmente deixei andar, fui tão negligente comigo própria que me abandonei e deixei de dar ouvidos ao meu corpo. Porque a minha tristeza é, também, para comigo e para com a forma como me deixei abandonar e como não cuidei de mim, como perdi a capacidade de bater o pé e dizer que precisava de mais.
Pela primeira vez - e demorou tanto tempo - sou capaz de compreender que não me dei atenção, que fui curando estas dores sozinha e que poderia ter ficado muito mais grave do que agora ficou. É assustador. Repeti, muitas vezes, baixinho, que tinha medo. E disse-me que eu tinha que deixar o medo de lado e que este susto que eu estava a sentir poderia fazer-me ir perceber o que tinha, ouvir os médicos e deixar-me cuidar. Pedir ajuda. Como faço ali. Como confio ali [e eu só pensava que não era bem assim porque não confio desta forma em mais ninguém]. Pediu-me tantas vezes que eu não adiasse mais. Disse tantas vezes "já chega!" e de forma tão clara e, ao mesmo tempo, exasperada que, às tantas, percebeu que o tom de voz não estava calmo como o habitual. Disse que estava demasiado inflamada e que não estava a ver o lado em que eu cheguei até aqui. Mas o que, sem sombra de dúvida, me atravessa e dilacera completamente o peito, é a forma como me diz que eu sei que não me dá conselhos mas que vai dar. Porque estivemos praticamente o tempo todo à volta disto e não saímos do lugar... "vai sair daqui e vai imediatamente marcar uma consulta porque tem que cuidar de si".
E eu (ainda) não fui. Eu falei sobre o assunto duas vezes. Logo na segunda e depois na terça feira - em pequenas coisas já vislumbro pequenos pedaços da minha força interna. E não resultou em nada porque a minha opinião é que tenho que ser vista o mais rápido possível e que não posso continuar a esperar... Mas não me sinto com coragem de bater mais o pé do que referir o assunto de passagem. Eu começo a saber que tenho que cuidar de mim mas isso não me dá (ainda) a força necessária para ser capaz de mais. Ir sozinha. Como me disse que eu deveria ir. Cuidar de mim sozinha porque já tenho idade para isso. E está a começar quarta feira, estamos a meio da semana, e eu continuo à deriva, simplesmente à deriva, como se fosse uma criança pequena amarrada. Como se não soubesse cuidar de mim sozinha. Neste momento, estou desiludida comigo própria e sei que, se chegar lá na segunda feira, com a situação muito perto do que estava há dois dias, que não serei a única desiludida... E isso ainda dói mais.
quarta-feira, 13 de março de 2019
"A terapia é muitas vezes uma forma de espelho sonoro. É a própria pessoa, com as suas palavras, que descobre o problema e o resolve. Quem não se cura é porque não se escuta mal a si próprio."
Tem graça ter esbarrado com esta frase precisamente no dia em que mais tempo tive para pensar e mais medo tive do que pensei. Pesou tanto ter lido isto. Pesa tanto fazer isto. Escrever frases e deixá-las a meio por medo de tudo. É tão desgastante e doloroso este caminho. É tão bom sentir, bem no profundo de mim, que estou nas mãos da pessoa certa para me ajudar. A ver o que não quero. A sentir o que não gostaria. A ouvir-me mesmo quando falo baixo. A ouvir até o que não digo. Tenho cada vez mais medo de ficar sozinha. Principalmente quando sei que o caminho é longo e que não me sinto assim tão forte quanto me vê e me garante que sou.
Assinar:
Comentários (Atom)