terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Enquanto fazia uma pequena retrospetiva mental de 2019 só me conseguia lembrar de que há um antes e um depois de agosto, confesso que até me custou a recordar de tudo o que aconteceu antes desse mês - em que caí para o fundo de um poço e em que acharam, à minha volta, que estava a ficar com uma depressão e que precisava de ajuda a sério - mal sabendo que eu já a tinha. Houve, no entanto, momentos muito difíceis de gerir durante o início deste ano. 
Ainda nem 2019 tinha começado e já estava a passar por uma situação que me é difícil falar; posso ter colocado bem fundo na memória os seus contornos mas sei que 2019 me trouxe vários dissabores do mesmo género, possivelmente tão graves no sentido de me incomodarem o espírito e me fazerem sentir envergonhada do que via e ouvia. O facto de ter demorado tanto tempo a partilhá-lo em voz alta só demonstra o quanto me doeu aquele comportamento apesar de ter sido, também, dos momentos em que utilizei a minha voz para mostrar que não estava confortável em vez de me calar. 
O ano começou com um medo enorme de que tudo acontecesse novamente, ter o meu avô a caminho do hospital e ter sido diagnosticado com uma infeção renal grave devido a medicação excessiva assustou-me e fez-me voltar a tudo o que tinha vivido em abril de 2018. Fez-me falar sobre o luto não realizado do meu avô, a forma como a sua morte me abal(a)ou e como a certeza da não permanência dos que nos são mais próximos nos pode levar a lugares escuros. Voltei a sentir aquela velha sensação de negligência, desta vez por parte dos médicos. Se bem que, como fui relembrada, foram também os médicos que me salvaram a mim... E não o fizeram só a mim... Uns meses depois do episódio do meu avô, também salvaram a minha avó. Os meses sem comer e as recusas constantes em ser observada no hospital eram pequenos indícios de que alguma coisa grave se passava mas acho que nenhum de nós imaginou quão grave seria. O internamento dela em setembro na sequência da descoberta de um cancro grave e em estado avançado trouxe-me o medo latente de uma nova perda sem aviso prévio. Voltei a entrar num hospital mais vezes do que gostaria e a respirar aquele cheiro que me leva às náuseas. Mas o amor foi mais forte e todos os dias voltava a passar por esse tormento só para chegar a ela. Escolho carregar no peito a gratidão quando a sei viva, ainda que longe da sua autonomia e a viver num lar - este ano fez-me confrontar-me com a forma como tudo muda repentinamente. 
Em 2019 preocupei-me muitas vezes com o meu futuro profissional e termino 2019 com a sensação de falhanço pelo que não consegui. Em termos profissionais tomei a pior decisão que poderia tomar em maio e desisti de um trabalho que sabia fazer bem e que me dava relativo prazer, no horário que queria e com um pequeno ordenado para as minhas despesas... Dizia eu, para me focar no doutoramento. Mas, tal como vim a perceber mais tarde, esta desistência estava agregada a um desejo muito forte que as coisas mudassem e que eu fosse apenas a filha. Não correu como esperava, voltei a ir abaixo, voltei a ponderar tudo, arrependi-me da minha decisão. Também o trabalho seguinte, em que embarcamos juntas - experiência essa em que, durante um mês e pouco, trocamos impressões e me agarrei a toda a força que me transmitiste, em que sei que só aguentei por estares ao meu lado porque todos os dias me sentia péssima ao realizar aquele trabalho, sem confiança nenhuma [e já me mandaste isso à cara, e como me doeu...] -, não se mostrou aquilo que eu pretendia e trouxe, mais uma vez, a incerteza em relação ao como ajudar no futuro e à sua não permanência num local de trabalho. Porque é que não pode ser diferente? Qual é o ensinamento que se deve retirar daqui? No entanto, termino 2019 numa nova empresa, num trabalho que me é relativamente fácil de fazer e com a certeza de que posso ajudar caso seja necessário, tendo passado por uma formação medíocre e estando a aprender muitas coisas apenas enquanto trabalho - embora tenha uma despesa fixa mensal que, neste momento, me deixa aflita - é como se estivesse a escolher entre a terapia e a mãe, não é? E há sempre frases que me chicoteiam de uma forma dolorosa de tão verdadeiras... A forma como recebi mais um não da FCT deitou-me muito abaixo porque este não foi pautado de críticas positivas que me confundiram. Também este ano apresentei o meu projeto de tese, em que fiz mea culpa de todos pequenos apontamentos que a FCT me indicou e onde fui ouvida, por o mais perto de um especialista na área da tese que supostamente terei em mãos. Digo supostamente porque se encontra tudo às voltas na minha mente e não tenho uma decisão tomada sobre se seguirei em frente ou opto por parar um pouco e refletir no futuro. Não mereço? Não sou boa o suficiente? Não sou capaz? Estes pensamentos perseguem-me desde agosto... O que fazer a seguir? Qual é o meu caminho? Serei capaz de ter um futuro na minha área? Qual é a minha área? O que me faz feliz? Sei o que me fez feliz; voltar ao arquivo, fazer investigação mesmo que não a minha...  2019 trouxe-me um desafio profissional de assistente de investigação e trouxe-me, também, momentos de incerteza. Trouxe-me um possível paper numa conferência internacional, já aceite, e um trabalho em curso para o apresentar. 2020 vai levar-me, ainda que com muito medo e com tudo o que possa acontecer até lá, à Holanda para o apresentar... Terei que começar, muito brevemente, a preparar essa viagem.
2019 fez-me ainda abraçar dos projetos que estão no forno, à espera de luz do dia - os meus dois artigos já escritos por mim e enviados para uma revista da área... Desde setembro que espero por notícias e comentários sobre a sua publicação e espero que me possam ser mais valias numa futura candidatura à FCT. É que isto quer dizer que ainda não mandei a toalha completamente ao chão, por muito que me veja sem reacção a nada do que tem a ver com a realização da tese desde a defesa do projecto... 
Em abril o meu mundo ruiu, por duas vezes. Perdi o chão quando a bomba estourou, o meu sítio seguro, o único sítio onde me encontrava sem máscaras iria desaparecer, ser descontinuado... Em vez de enfrentar o problema de frente e falar sobre a situação, comecei um processo de se-não-falar-no-assunto-não-existe ou não-sei-o-que-sentir-ou-dizer que me levou por um caminho bem sombrio do qual não sei ainda se já recuperei. Foram longos meses de revolta interior e indecisões, incertezas palpáveis em noites mal dormidas, numa angústia esgotante que se transformou numa dor no peito persistente que me fez sofrer demasiado... Comecei a tomar medicação natural para ajudar a que os dias corressem de uma forma mais tranquila e fazer com que as dores no peito fossem acalmadas o melhor possível. Passei os meses de verão numa letargia dolorosa. O que me recordo de agosto é de dias inteiros a chorar, com dificuldade em sair da cama e sobreviver com uma dor agonizante no peito. Em setembro tornei-me mais eu, voltei à terapia, fui capaz de contar à minha irmã quem sou e não fui renegada, contei à minha avó e ela continua a amar-me como sempre, admiti o meu processo terapêutico e deixei um largo peso lá atrás... O segredo que carregava sobre a terapia era muito pesado de carregar e desfiz-me dele sem ter bem a consciência disso. Iniciei, em novembro, terapia num consultório privado e desde aí que sou responsável pelo pagamento do meu processo terapêutico e isso mudou tudo. O que não mudou foi o sorriso com que me brinda à chegada e a certeza de que estará ali, aconteça o que acontecer, para me acompanhar no que eu permitir. Enquanto as duas percebermos que é necessário. [E a falta que me tem feito nos últimos dias...] Nos primeiros meses deste ano a minha relação iniciava o princípio do fim. Ganhou uma pequena bolha de oxigénio perto de setembro - voltar ao Porto é sempre voltar a um lugar onde me sinto mais livre e essa sensação é impagável, apesar de, agora, também dolorosa - para chegar ao fim em novembro. Em 2019 perdi a pessoa que achava que estaria comigo em todos os momentos da minha caminhada e ainda estou a aprender a lidar com essa perda. Termino 2019 com a sensação de que a dor de desistirem de nós pode tornar-nos apáticos e vazios, profundamente confusos. Sem saber bem o caminho a seguir, sem saber bem o que sentir, só conseguir identificar vazio. Custa muito olhar para dentro e nada ver. Preciso de aprender a olhar para mim e preciso de entender estas emoções antes que me comam viva... Espero que o próximo ano me traga isso. No fundo, 2019 ensinou-me que é possível sermos mais verdadeiros com os que vivem à nossa volta mesmo que esse movimento parta do desespero e não da consciência concreta. E todos os meus grandes gestos dos últimos meses do ano partiram do desespero. O único movimento que partiu de uma consciência concreta aconteceu ainda em abril, com o brilho da lua e das luzes do casamento do meu primo. Chorar as saudades do meu avô e ter assumido a minha verdade fez-me iniciar o Reiki, pelas tuas mãos, Ana, e ter descoberto pequenos laivos de um bem estar que me faltou durante os meses de verão. Apesar de lhe estar a fugir desde que me disse que teria que lá voltar com a cabeça no lugar quanto ao meu futuro algures em agosto, na verdade, o pedido para pensar sobre o que queria para a Rosa deixou-me sem chão... Como a Rosa ainda não sabe o que quer e tem passado por tormentas internas, o Reiki ficou pousado num canto do meu coração. E muitas vezes me disseste para voltar a falar com o mestre e lhe contar o que se passava comigo... Nunca o fiz, sinto-me em falta e, mais do que isso, não era capaz de lhe recorrer sem estar frente a frente com os seus olhos azuis. Aprendi, nos últimos anos, que uma conversa é muito mais poderosa olhos nos olhos e não quero abdicar disso quando me for possível. 
Em 2019, parei de ir ao ginásio durante alguns meses e como consequência disso voltei a engordar e não me sinto bonita, confiante ou segura de mim. Comecei a tomar medicação diariamente para as dores de cabeça e vi-as melhorar exponencialmente após seis meses de medicação. Estou sem medicação neste momento desde outubro e parece que podem voltar ao que eram, tenho medo disso. Conduzi algumas vezes, não tantas como deveria e ouvi demasiadas vezes que tenho que fazer mais nesse campo. Mas será que quero fazer mais? Continuo a não conseguir confiar em mim ao volante de um carro e tenho sérias dúvidas que este sentimento passe apenas por ter mais experiência... 
2019 foi um ano de luta, que me mandou ao chão muitas vezes e que me fez tentar conhecer o meu corpo e ouvir a minha mente, derrotar fantasmas e combater medos. Afinal de contas somos a nossa casa, temos de nos cuidar. O foco, em 2020, serei, ainda mais eu. 
[aos amigos que estão presentes quando deixo que estejam, aos que fazem questão de me dar a mão e viver os altos e baixos da vida comigo, aos que não me deixam desistir de mim e de procurar a minha felicidade... Obrigada por estarem e desculpem por qualquer coisa. Sou francamente grata por tudo o que me dão e só espero retribuir na mesma medida.]

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Ganhei coragem e perguntei-lhe se achava que eu estava a ficar com uma depressão. E agora gostava de me lembrar da resposta concreta e elaborada que deu ou de ter insistido mais no tópico porque se perdeu no meio da conversa. Porque a única coisa que me lembro é de ela dizer que estávamos a trabalhar para tentar que não acontecesse. O que quer dizer o quê? Que está já a acontecer? Que está próximo de acontecer? É isso que se vê? Tenho medo. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Tremi como tantas vezes e doeu como sempre mas o sorriso estava lá. E é a mesma. Não é diferente nem estranho. Nem por um segundo. Só é mais sério a partir de agora.

[primeira sessão em consultório privado, primeira vez que dei o passo a sério por mim] 

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Vi esta imagem no fim de semana e tocou-me particularmente... Mas depois de segunda feira passou a tocar-me mais. Quando me falou dos fios do novelo que desenrolávamos. O poder que a terapia tem em mim... Tenho-me vindo a aperceber dele à medida que é possível saber que posso ficar sem ela. Sem o espaço que acolheu tantas das minhas dúvidas, inseguranças e incertezas quanto a isto da vida. 

terça-feira, 2 de julho de 2019

Estou a sufocar. Sinto-me a sufocar. Sinto-me a perder a vida. A perder a motivação. A perder a vontade. A perder o rumo. A perder a cor. Sinto-me cinzenta, escuta, presa. Tudo me dói e nada me faz o click de parar com esta situação que só enrola e fica pior. Sinto-me a cair numa espiral que não tem fundo e não sei encontrar a saída, nem sei se tenho força para a procurar. Estou cansada de tudo isto e cansada de ser como sou mas não tenho força para mudar nada. Repenso tudo, recapitulo tudo, não sei o que fiz para chegar até aqui nem como me deixei ficar. Estou absorvida por este ar rarefeito que respiro há tanto tempo que nem sei parar. Eu não sei parar. Estou a perder-me. 

quarta-feira, 19 de junho de 2019


Está a tornar-se tão físico que me está a assustar. Sinto a comida a navegar dentro de mim, como se fossem barcos inteiros. Sinto que vou vomitar a toda a hora. Sinto que a qualquer altura tudo o que comi pode simplesmente sair, em qualquer momento, sem eu estar à espera. Não tenho controlo sobre este meu lado que não está a saber gerir o que se está a passar. Só agora é que estou a processar realmente, até aqui deixei que tudo se instalasse bem longe de mim, tentei fechar tudo isto a sete chaves num local ermo e sem acesso... E só agora... Só desde segunda feira, quando começamos a conversar é que me sinto a aperceber-me que vai ter um fim. É real. Passou a ser a partir do segundo em que abordamos, sem medo - eu tinha-o, tinha tanto medo e sei que só o fiz porque estava ali comigo - as opções que existem e que a deixam mais confortável e segura de que o trabalho que temos vindo a desenvolver não vai cair por terra...
E eu sinto que me estão a matar. Estão a matar a parte de mim que nasceu ali dentro e que aprende que é possível ser melhor, mais aberta, mais positiva, com mais ferramentas para olhar a vida de outra forma. É uma revolta interior tão grande e tão intensa que se transforma em bloqueios totais quando como e em ácido quando a comida me cai no estômago. É tão difícil de lidar que o meu corpo rejeita qualquer género alimentar, como simplesmente porque sei que tenho que comer para manter uma aparência... Não que não tenha fome. Mas tenho mais medo do que sinto quando a refeição acaba. Do contorcionista que vive no meu estômago desde segunda feira e parece não querer sair. 
Estou tão ansiosa que o meu corpo treme em muitos momentos onde não deveria e demonstra uma fraqueza que não me comove. Eu deveria ser mais forte e mostrar-me mais segura para que a máscara não caia. Mas, a cada dia que passa, mais parece que só serei feliz se parar de olhar o mundo por estes olhos e desviar a máscara para aprender a ver com lucidez. A terapia trouxe-me uma lucidez que tenho medo que morra assim que fechar a porta pela última vez. Talvez o que me vá custar mais é perder o sorriso com que me brinda sempre e o olhar que me vê por dentro. Apesar de continuar a assustar não há sensação melhor do que esta de ser verdadeiramente (re)conhecida por quem sou, mesmo que eu ainda não saiba. Porque eu não sei mas sei que sabe, que vê o que eu não vejo, que percebe o que eu não percebo e que está dez passos à frente de onde me coloco. E é muito bom saber que, ainda assim, está exatamente ao meu lado no meu ritmo de caminhada. Nunca me senti desamparada e é essa sensação de abandono que me assusta mais - mesmo que ainda não tenha terminado nada. 
Sei que o nosso tempo vai acabar. E sei-o com medo porque agora estou sozinha e consigo senti-lo. O meu corpo pede-me que me acalme mas eu simplesmente não consigo. O meu corpo pede-me que tente gerir da melhor forma todas estas mudanças mas eu sinto-me só a falhar-me à grande. 

domingo, 26 de maio de 2019

«Acho que para ti, de uma forma ou outra, isto é estar perto dela. Independentemente de estares a ser rebaixada a alguém com quem ela não se preocupa, não quer saber e por quem não tem mostrado nada a não ser crueldade, frieza e até um certo desprezo. Mas tu estás perto dela. E isso parece que te apazigua, mesmo estando a ser espezinhada em todos os sentidos. Ela está a falar contigo. E pronto. (...) Preferia não conhecer, preferia achar que isto era apenas mais uma tentativa de resolver seja o que for. Mas já nem isso é. Isto és tu, com o único motivo de estares perto dela. Mas sabes uma coisa, Rosa? Neste momento, és tu que estás a ser cruel para contigo própria. Juntamente com ela. Tu estás a compactuar com tudo o que ela te faz, ao ajudares a fazê-lo a ti própria. E acredita que me custa dizer-te isto, mas custa-me ainda mais ver o que (te) estas a fazer.»

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Para não (me) esquecer.

"Tens. Tens de abrir os olhos e deixar de ser tão exigente. Tens de abrir os olhos e ver que dificilmente vais encontrar outra pessoa que aguente mais ou tanto que eu, que ature os teus problemas, que espere pela resolução deles, que espere por ganhares a tua liberdade. As pessoas ficam mais velhas e não querem chatices de merda. Muito menos querem andar a brincar aos adolescentes que não saem e não fazem a vida deles por causa dos pais. As pessoas ficam mais velhas e sabem muito bem aquilo que querem ou pelo menos aquilo que não querem. E as pessoas não querem alguém numa situação como a tua. Não esperes encontrar alguém que vá estancar a sua vida para esperar eternamente por ti. Isso não acontece. Nem eu consegui e também eu tenho os meus problemas que não me deixam avançar e viver a vida normalmente. Por isso abre os olhos e mete os pés, as pernas à estrada. Rapidamente. Porque vais acordar e já vais ter mais de 25 anos e não aproveitaste a vida. É o meu conselho"

Mal li a mensagem, andei uns metros e desabei. Perdi a força nas pernas e perdi a vontade de caminhar. Sentei-me num banco, a tremer, a chorar. Não entendo como é que, numa capa de sinceridade, alguém pode ser tão cruel ao ponto de utilizar todas as fraquezas e fragilidades do outro e atira-las e, depois, simplesmente lhe dizer que não vai ser feliz com mais ninguém. Porque ninguém vai aturar "isto". Isto sou eu. Isto são as minhas dores. As que entrego a poucos e as que te entreguei, nunca pensando que fosses cravar mais uma faca na minha essência de forma tão clara. É uma traição a quem sou de cada vez que tens que cuidar-me e não o fazes e é uma traição ainda maior utilizares os meus piores pesadelos para me magoar desta forma, sabendo deliberadamente que o fazes - porque só podes saber. Nunca te fiz o mesmo, nunca te atirei à cara todo o caminho que tens que percorrer, porque as coisas dizem-se de várias formas. Não a forma cruel que escolheste. Agradeci-te pela sinceridade porque, cega como estás, nunca vais entender a dor que me causaste - ou, se calhar, sabes, e foi propositada. Mandar alguém à merda não é insulto nenhum e não é nada, mesmo nada, comparado com a dor que causaste. Depois disto, qualquer esperança que eu tivesse de que abrisses os olhos para o que (me) andas a fazer foi aniquilada totalmente. Porque se nem te importas em me magoar desta forma, é sinal que não te importas, de todo, comigo. Eu já sabia, mas, ainda assim, dói. 
Sempre que saio cá para fora, depois de percorrer a maratona interior mais longa da minha semana, ouço que estou estranha. Fico demasiado introspectiva, sem saber o que dizer, o que pensar, o que sentir. Como lidar com o mundo que continuou a correr enquanto eu voei. 
A avalanche de emoções toma conta de mim de tal maneira que não há como não parecer deslocada deste mundo e num outro qualquer. O meu corpo permanece, a minha cabeça está noutro lado. Talvez lá dentro, talvez muito longe. A forma como tudo me toca - e toca tão profundamente - é diferente todas as semanas. Tenho que procurar dentro de mim capacidade para absorver todas as palavras ditas e todas as palavras não ditas, todos os olhares, todas as perguntas que deixo no ar e teima em não responder... Eu sei que tenho que ser eu a fazê-lo e não quero demitir-me da minha responsabilidade em tomar as minhas decisões de vida, mas, às vezes, poderia ajudar mais - em vez de desajudar, como lhe disse que fazia esta semana. Não digo que não me ajudou, ajuda sempre, mas não responder às questões diretas que lanço e fazer-me pensar em situações que ainda não me tinham passado pela cabeça é trazer mais lenha para uma fogueira que já está a arder. Sei que erro quando digo que desajudou porque, na verdade, não criou nenhum castelo no ar, apresentou-me a realidade, nua, crua e fria, mas continuou sem me responder - e eu sei que não pode, mas raios... Eu precisava. Já quase que a ouço dizer que agora me apetece mandá-la também à merda, mas nunca poderia. Só não posso deixar de me zangar quando necessito desesperadamente de respostas e deixo perguntas no ar sem as obter. Só sorri. Só espera que eu fale. Só não me deixa sozinha. Mas não tem voz, não tem opinião e à medida que avançamos nesta floresta profunda eu sinto que preciso mais de um guia com uma lanterna do que andar de mão dada às cabeçadas... Guia-me sem eu ver nada, ainda assim, porque durante a semana vou recebendo pedacinhos do que me diz - do que parecia não estar a ajudar-me - e sentir que podem ser uma possível solução. E a lembrar-me de frases assustadoras e de paralelos que não vejo, que me são transmitidos e que me causam tanta impressão como dor. Como comparar a minha relação - e a forma como me comporto nela - com a minha relação com a minha mãe. E, mais uma vez, ouvir que me estou a destruir... É difícil viver a separação, não é? O mais difícil é o equilíbrio entre a emoção e a razão - porque não quero viver sem ela mas também não posso viver com ela. E é esse desequilíbrio que me faz entrar completamente de cabeça perdida, a fervilhar de raiva. Quando já pedi tanto colo e continuo sem o ter. Quando já implorei tantas vezes e continuam ser ver. O que mais me custa é continuar a magoar-me para manter toda a gente à tona. [tu estás a afundar-te para as manteres a respirar] 
Tenho medo, de ficar sozinha, de ser sozinha. Sinto-me cada vez com mais medo e mais anulada, desesperada e caída. A força que tenho para caminhar é cada vez menos. Tal como lhe disse, sou uma árvore que não está segura, vem uma rabanada de vento e... Tenho medo de ser arrancada, de tombar. E qualquer coisa me pode fazer esgotar por completo as minhas forças... Qualquer coisa, o mínimo que seja, pode ser o trigger que despoleta uma tempestade da qual não sei sair - mas, ao mesmo tempo, parece que nunca saí do centro da tempestade. Disse-me que eu me estava a destruir e constantemente mo diz e custa-me mais ouvir quando é da boca de alguém que tudo vê de fora e só a mim me conhece. "Para ser o plano B deles está a deixar de lado o seu plano A". E a prova em como isso está a acontecer é que, precisamente no dia em que tenho uma resposta positiva vinda deste lado, uma esperança neste mar de dúvidas, verbalizo em voz alta a minha vontade de simplesmente sair e me preocupar com o meu doutoramento e com todas as coisas inerentes ao meu futuro. Falamos sobre a minha falta de coragem - o meu segundo nome é exatamente esse - em relação a muitas coisas mas eu acho que ela aparece quando me sinto a respirar livremente por uns segundos, quando me permito algumas golfadas de ar, depois de ventos amenos de esperança. O que me continua a doer é esta facilidade em ver fendas numa rocha [a minha família] que achava concreta, dura e inquebrável. Quanto mais olho, mais fendas vejo e menos rocha. Ver o sofrimento dos que me rodeiam, pressentir esse sofrimento antes de o ver... A forma de agir desta família centra-se, aos meus olhos, num desmentido total de toda a realidade e isso, cada vez mais, é sinónimo de sofrimento. Terminou a dizer-me - e a abrir-me uma ferida que sangra - que sabia que eu tinha medo, do que ela ia dizer, do que ela poderia fazer. E tenho. E ter ouvido isso doeu mais do que nunca. Porque eu sei que é verdade, só é difícil verbalizar e, por isso, nunca o fiz. Fez por mim. Faz por mim. 

sábado, 18 de maio de 2019

Não foi, de todo, leve, mas pareceu. Houve sorrisos, risos, gargalhadas. Houve gargalhadas por entre o meu choro - até fiz piadas secas. A incerteza do futuro assusta-me e tenho um medo danado do que será o futuro sem a sua presença - mesmo que vá em mim, mesmo que tenha essa convicção profunda de que está algures dentro de mim de uma forma muito forte. E sempre que me lembro do seu sorriso sei que está. Sempre que me recordo de qualquer coisa que me disse, dou-lhe razão. Mas lá, só lamento saber que, muito brevemente, não terei este apoio tão certo, disponível e especial, tão coerente e concreto. 
Sei que, na sexta feira, houve, principalmente, uma coisa que não estou muito habituada que aconteça, um abordar do assunto sem lhe fugir. Porque é mais fácil dar um pontapé no elefante branco que está no meio da sala do que deixá-lo instalar-se entre nós - só o consegui por me guiar, por me fazer falar sobre o nosso prazo de validade, por ter introduzido o assunto por meio de mais uma das provocações que não me importo nada que existam. E tem-me ensinado que mandar pontapés em elefantes é a melhor solução para as situações e que fugir não é viável. E o melhor de tudo é que o faz por meio de ações concretas e claras. Não é muito melhor falar sobre o assunto do que deixar por abordar? Não é muito melhor parar o ciclo dos assuntos por abordar, dos silêncios dolorosos em mim e dos gritos que vociferam para dentro? Sim, prefiro falar por muito que doa, por muito que no meu primeiro impacto só tenha querido fugir sem pensar - e até disso fez uma piada, e eu não me importo nem um pouco com as provocações leves ou fortes que me envia porque são um sinal da conexão e da relação que fomos construindo. Só me faz ter mais a certeza que não haveria mais ninguém com quem eu iniciar este caminho de descoberta interior. 
Falámos muito sobre o privilégio do tempo que passou por nós e deste caminho que parece parado mas onde os passos são, mais ou menos, constantes. Falou-me sobre a vontade que tem em ver o outro crescer, em assistir ao desabrochar das pessoas, à formação do carácter. Falou-me muito da sua paixão e eu vi a psicoterapia pelos seus olhos e ainda me pareceu mais apaixonante. Falou sobre o meu caminho e o meu crescimento, voltou a dizer-me que eu sobrevivi, que estou aqui, que terminei uma etapa na faculdade, que estou a fazer um doutoramento e que sou uma mulher inteligente e sensível. E eu gritei-lhe se era só isso que interessava... E agora tenho vergonha da reação que tive mas sinto-me farta que a sociedade conte os estudos que temos e não olhe ao carácter humano - antes de ter falado da minha inteligência e sensibilidade já lhe gritava... 
Garantiu-me que iríamos arranjar uma solução para tudo juntas, foi uma promessa sentida que eu sei que será cumprida algures no tempo e que não vamos perpetuar o ciclo dos não assuntos porque eu não posso funcionar assim. Falei-lhe sobre o medo de sair prematura e sobre a sensação de que saírei dessa forma e sinto que se orgulhou de mim quando o disse. 
Mas comecei pelo que é mais difícil e pelo que manchou a minha semana... Li-lhe trechos do diário do meu avô e chorei. Chorei à medida que falava comigo e que a ouvia e agora não sei precisar nem um pouco do que ouvi. Chorei por mim criança e chorei por mim mulher, por não me sentir uma - por sentir que nada do que faço, faz com que tenha uma vida mais estável no imediato, por continuar em casa dos meus pais, por não ter avançado, por continuar a utilizar uma máscara todos os dias. Chorei quando me perguntou se eu chorava pela bebé de dois anos ou pela menina crescida, e eu chorava só. Pelas duas. Chorei porque tenho tudo mas tenho noção dos alicerces tão pouco seguros onde a minha construção foi feita. Chorei pela dor e pela consciência e, sobretudo, a certeza de que a terapia me dá as respostas certas antes de fazer as perguntas que deveria. E fiquei tão pesada, sai de lá com um peso em cima, apesar dos risos que demos e das piadas que fiz enquanto chorava. Acho que o peso ainda é parte de mim e terei tão pouco tempo para processar e regressar - e cada vez que regresso é menos um regresso porque o calendário está a contar.
A única coisa que não queria era ficar sem si. Às vezes sou tão sincera que até me assusto com o transparente que consigo ser com os seus olhos presos em mim. 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Uma miscelânea de tudo o que tenho pensado e falado nos dois últimos dias sobre esta situação, com a única pessoa com a qual consigo conversar minimamente sobre o assunto e sobre as dores que me têm rasgado pedaços da alma... Uma miscelânea porque tenho tido vontade de lá voltar, de forma constante, para me lembrar que o que eu vejo se vê de fora - se não estivermos de olhar toldado somos capazes de ver muito mais e muito melhor. 

"Ela precisa de aprender a estar numa relação, independentemente das circunstâncias. (....) Ela tem que saber ser em condições para ti, independentemente de estar a dois metros ou a 2000 km. Não interessa. É a pessoa que ela é que conta, não a distância. (...) E olha que a distância e as circunstâncias relativas a elas não são a maior das coisas. (....) Lá está. Tu estás lá, tu ouves, tu fazes tudo, excepto estares disponível para estares mais vezes com ela. E ela, está "super disponível" para estar pessoalmente contigo, mas, tirando isso, não faz mais nada. Faz meia dúzia de perguntas de "como está tudo" e acha que já fez imenso. Mas lá está, agora para ela a única coisa que importa é o estarem juntas. Para ela, isso vai resolver tudo."

De hoje... "Mas ela tem noção? Não, não tem. Que pergunta a minha. (...) eu já não me consigo escandalizar."

Disseste-me que não valia a pena passar-me porque já tantas vezes me passei e não ia resolver nada. Então estou a tentar acalmar-me sozinha e pensar que passar-me só me vai fazer mal a mim, que as respostas serão sempre do mesmo género frio, sem noção e pouco empáticas, vazias de qualquer sentido de preocupação e querer bem... E vou aprender a parar de lutar porque, tal como disseste, eu continuo a tentar - embora tenha dito e volte a repetir uma e outra vez que já desisti. Às vezes, se não estivesses aqui, achava que estava a enlouquecer, a pedir o impossível e a ser só maluca. Não sou maluca quando vês o que eu vejo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Os pés arrastavam-se enquanto deveriam andar. Sentia que estava a ir para o único sítio do mundo onde poderia estar em ferida total por dentro sem ter medo que se visse do lado de fora. Ao mesmo tempo não queria ir, não queria mostrar a dor, não queria falar sobre ela. Mas queria ser acalmada pelo sorriso com que sempre me espera e tocada pelas palavras que tem sempre para mim. Por mais que seja a minha voz que se ouça... Nunca me vou habituar completamente à sensação de ouvir a minha voz a dizer exactamente o que eu sinto, sem pensar antes e ponderar muito bem sobre o que sinto. Nunca me vou habituar à dor que é ouvir o que sinto sem vir da minha voz, porque como dói tanto deixo por dizer. Como não percebo opto por não tocar. 
Eu preciso sempre de escrever para refletir e deixar as memórias tornarem-se mais focadas na minha mente e sei que, desta vez, não me estou a permitir a isso. Mais uma vez, bloqueei tanto do que disse, do que me disse, do que me fez sentir. Só sei que há um assunto que vai estar sempre presente daqui para a frente: o nosso fim. É inevitável. Vai acontecer. E isso embrulha-me o estômago porque tenho um medo danado de ficar sozinha com tudo o que se passa em mim. Não consigo, aliás, conceber a solidão de ouvir em silêncio os meus próprios pensamentos depois de os ouvir realmente a viva voz durante tanto tempo - é realmente um amor-ódio este caminho que percorro. Este assunto embrulha-me tanto o estômago que sei que ainda não tive capacidade de o esboçar como poderia, que isso me deveria fazer sentir melhor... Mas não sei, sinto-me como se estivesse a perder uma parte muito importante de mim que não vou recuperar. Não sinto que me esteja a abandonar de propósito mas sinto que estão a obrigar-nos a que tudo seja mais apressado e eu estou cansada de perpetuar o ciclo das saídas prematuras. Eu mereço estar preparada, presente e concreta nos meus tempos, segura da força com que caminho. E não estarei, só sei que não estarei, ainda. E a minha preocupação maior com o que lhe ia acontecer do que comigo deu-me a frase da semana (porque há sempre uma à qual me agarro quando custa muito a passar) "lá está, a querer sempre cuidar mais do outro do que de si. Eu vou ficar bem e quem tem que cuidar de si aqui sou eu", e há mesmo frases que são abraços de alma...
Há pontos que conecta que me fazem sempre impressão depois de os conectar e que demonstro logo à partida não concordar absolutamente com eles e o ponto do "como fez boom aqui, fez boom lá" não liga, de todo, com a situação. Porque eu sei que eu andava a adiar o "boom lá" há muito tempo, a tentar erguer uma relação sozinha, a tentar dar o meu melhor quando não era ouvida, sentida e acarinhada como deveria... O amor por ela foi sempre mais forte que o amor por mim. Até que, sessão atrás de sessão, voltávamos ao colo roto e tudo em mim rompia mais um pouco... E não aguentei, não consegui aguentar nem sequer um dia mais... E, há um lado de mim, que saiu da sessão aliviada por saber ouvir as minhas próprias palavras e saber mesmo que, por agora, por muito que doa, não dá agora. Só que é tão diferente de todas as outras vezes que é tão difícil de falar e que tenho sentido tanta confusão dentro de mim que até o meu cérebro é vazio. Toda eu sou vazio. Vazio e dor momentânea no peito. Vazio e cabeça a explodir. Vazio e tristeza. Vazio. 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

30 de abril de 2019

terça-feira, 30 de abril de 2019

Acho que nunca estamos preparados para levar com um golpe e quando a bomba vem, aparece sem avisar. Foi isso que aconteceu e foi por isso que o meu cérebro parou e questionou várias vezes se era tudo mesmo verdade. E só umas horas depois começou a articular algum género de pensamento concreto e o primeiro nem foi sobre mim... O que lhe vai acontecer exatamente? Quer dizer que vai perder este emprego? Ou que, simplesmente, as funções vão mudar e vai ter outras valências? Tenho o cérebro a processar tudo isto de uma forma muito lenta porque não quero lidar com esta informação. Eu sei que teria que sair, que algum dia iria acontecer, que não poderia ser acompanhada eternamente mas há tanta coisa que só ali deixo... Há tanto de mim que só ali sou. Que não consigo ser em mais lado nenhum. Assusta-me, verdadeiramente, a possibilidade de termos que terminar isto sem eu sentir que posso ser capaz de caminhar sozinha. Já uma vez nos aproximamos deste fim e já uma vez me disse que, nessa altura, eu lutei com unhas e dentes para ficar, mesmo que eu não o tenha feito de forma absolutamente consciente. No entanto, este fim é diferente e mais definitivo e é isso que me revolta o ser. Que me revoltou tanto que nem consegui encontrar palavras para expressar o que estava a sentir sem ser repetir se era mesmo verdade... Eu quis, dizer tudo ali, levar com o primeiro impacto ali, porque ali estava comigo e eu não trazia tanta dor cá para fora, mas não sei se fui bem sucedida neste meu querer. 
Ter iniciado com esta bomba mudou tudo, mudou toda a minha capacidade de me aguentar com tudo o que aí vinha e a minha cabeça só explodia mais e mais. Tic-tac. Tenho - temos - dois meses para decidir o que é que eu consigo fazer a partir daqui. E eu sei que não há forma de construir uma relação destas com mais ninguém. A confiança é uma base profunda e eu confio de olhos fechados que não me vai deixar cair. É em si. É por sua causa. Como é que eu posso imaginar que vou ter isso com outra pessoa? Por muito que me diga que não vai ser a primeira vez e que já vou estar habituada à sensação... É completamente diferente reconstruir tudo de novo. E não é consigo. E com outra pessoa qualquer, mesmo que seja da sua inteira confiança. Dói-me tanto tudo isto. E eu demorei quase três anos a deixar-me ir... Como e quanto tempo vou demorar com outra pessoa? 
"Tem assim tantas dúvidas da relação que temos?", disse-me, às tantas, depois de lhe confessar que tinha ficado tão magoada a semana passada... Essa relação que temos permitiu-me dizer que tinha ficado magoada. "Comigo, com o que eu disse, ou consigo?", com tudo... Porque era uma coisa que sabíamos que estava lá mas não se dizia e destapou-a. "Então queria o mesmo funcionamento de casa?" e cada pergunta era mais uma ferida a arder dentro de mim. Tal como disse, clicou numa tecla qualquer tão verdadeira que me incendiou por dentro e, ao mesmo tempo, me fez questionar o meu comportamento... A zanga, a agressividade, a raiva, a dor, podem ser sentidas para fora e não para dentro. Para dentro destroem-me. É sobre isso que nos temos debatido nas últimas sessões e vamos continuar nessa viagem de uma maior conexão comigo, uma viagem dolorosa e profunda. Da qual quero fugir. Mas não fujo porque está ali e há uma confiança cega apesar da dor. 
O meu único medo era de que eu fosse vista como uma mentira, dissimulada, e que o cuidado com que caminho fosse visto dessa forma. Disse-me que não. Que não (me) via assim. E isso descansou-me porque não quero ser vista dessa forma pela única pessoa que vê todos os meus lados e que sabe que me conhece como ninguém. A pessoa que me olha e vê quem realmente sou, que não tem medo de me desconstruir, que diz que não posso ter medo que me odeie. A pessoa que vê o meu corpo a tremer e que me faz rir disso. Como é que é suposto isto tudo acabar quando eu não estou minimamente preparada para que acabe? Dói muito percorrer este caminho mas dói mais saber que vai acabar. 
"Não merecias ter tido o final de dia que tiveste. Não merecias. Pelo menos o final de dia deveria ter sido diferente. 
Só quero que saibas que eu vou estar aqui, mesmo que seja muito difícil a solução para a bomba de hoje. Estou aqui. E tenho a certeza que tu vais ter a força necessária para enfrentar isto."

Obrigada por me teres ouvido quando eu estava perto do colapso mental, quando todo o meu corpo tremia e quando eu não sabia se chorava ou ria. De dor. De desespero. De raiva. De solidão. Por antecipação a tudo o que virá. Obrigada por teres só atendido a chamada a dizer "vamos respirar fundo e contar até dez as duas".

E obrigada ao meu padrinho que não sabe mas permitiu-me quase duas horas com o coração mais tranquilo do que aquilo que era possível. Estar ao teu lado com a brisa do vento e o calor do sol acalmou a dor profunda que fazia, faz, parte de mim. 

sábado, 27 de abril de 2019

Eu queria escrever sobre esta sessão porque escrever é pensar sozinha e deixar pousar as memórias que circulam, velozes, na minha mente. Desta vez, tenho poucas. E fui percebendo isso à medida que a ouvia - sabia claramente que iria bloquear a maior parte do que tinha ali sido dito - e a semana ia correndo sem eu me recordar de mais. Sei que estive absolutamente ocupada e isso pode ter ajudado a não me lembrar mais no entanto, não foi só isso. E sei disso quando, na segunda feira, ouvi que estava com uma cara mesmo triste e se precisava de alguma coisa. Disfarcei. Voltei a fazê-lo na terça feira, quando fui relembrada do mesmo; o teu aspeto está melhor hoje, parecias mesmo triste ontem [e estava]. Desta vez fiquei profundamente magoada. E como fiquei tão magoada sinto que não consigo pensar sem tocar na ferida. Sei que fiquei tão surpreendida - e magoada - porque não esperava aquela análise tão profunda e verdadeira de quem sou. Acho que me fez confrontar com um lado meu que eu sabia que tinha e, talvez, vá sempre ter, que eu não queria trazer à luz do dia. Era só meu, estava só lá e não se falava disso dentro de mim. Agora, por culpa das suas palavras, tenho a memória inundada por esta única frase que me queima cada vez que me aparece. "É sempre tão delicada, tem medo de a partir. E essa delicadeza esconde uma zanga muito grande e uma agressividade muito grande", andamos em círculos e os círculos magoam-me, porque eu não queria chegar a nenhuma conclusão e obrigou-me a fazê-lo. Demonstrou-me que sentir esta agressividade é bom, é mais verdadeiro que a delicadeza que diz que mascara o que verdadeiramente está cá, que tenho que me permitir sentir essa espécie de dor, zangar-me. Deixar passar. Não deixar as coisas remoer dentro de mim. Disse que eu sabia bem o porquê de tudo isto, mesmo que eu tenha dito que não sabia. E, no final, disse-me que era eu quem estava ali. Que não a podíamos tratar a ela. Só a mim. 
E eu tenho medo de voltar e lhe dizer que me sinto abanada, que sinto que me empurrou de forma brusca, que não deveria ter sido assim. Quase como se tivesse desvendado um segredo que não era suposto ser dito, mesmo que fosse visto. Mas sei que vou chegar e não vou dizer nada disto desta forma porque não vai sair assim, vai sair de outra maneira qualquer. E não sei se é bom, já que tantas vezes diz que me posso zangar com o que representa para mim. E que, na verdade, na última semana, eu estive foi zangada e a precisar de si e não estava. Descarreguei a minha frustração em quem não tinha exatamente a culpa disso porque me deixou sem colo. E eu acho que esta análise é estranha e enviosada porque, por muito que eu estivesse aflita por estar sozinha, não descarreguei nada que não tivesse exatamente sido no sítio correto. Só me doeu muito a sensação da falta de colo - como, já percebi, vai doer sempre. E disse-me uma verdade tão dolorosa e importante, que a morte do meu avô me doeu tanto e continua a doer por ter sido um perpetuar dos colos rotos, que já não estão bem lá, que não cuidam, que não percebem que está tudo errado. É essa a minha forma de ver quem está à minha volta. E é isso que custa tanto. E ainda me custa mais o facto de eu tentar, desesperadamente, repor a verdade das situações e sentir que bato sempre contra uma parede e que estou - estamos - a perpetuar, novamente, uma ilusão de que está tudo bem assim... Continuar a viver na ilusão de que está tudo bem não é ver a verdade e confrontar-se com ela. E eu tento destapar e mostrar o que é feio (já dei um passo muito importante ao estar a fazer isto) e não estou a ser acompanhada por quem deveria - e a minha dor é tão grande, nem quero imaginar a dela, a vergonha e a humilhação de tudo isto. Continuar a viver assim é continuar, todos os dias, a colocar uma máscara e não mostrar o que está errado. E não sei se essa é a melhor forma de ultrapassar tudo isto. Desconfio que (me) traga muito mais dor. 

domingo, 21 de abril de 2019

Nunca quis viver este dia, achava que ia colapsar com a tua ausência. Não quero acreditar que já passou um ano, porque este ano foi demasiado duro, intenso e desesperado. Muitas vezes, senti que me arrastava em vez de caminhar. Os meus passos tornaram-se ainda menos confiantes e sei que todos os meus alicerces foram abanados pelo vento da tua partida. Inesperada - e não tanto assim porque vou sempre lembrar-me que uma semana antes, quando nos despedimos, nos despedimos realmente. Essa viagem de carro e a sessão no dia seguinte foram lágrimas fortes e uma sensação profunda de que te iria perder. Eu recordo-me claramente de ter dito essas palavras em voz alta e custa muito saber que tinha razão e que partiste quando eu ainda estava tão magoada contigo e, por isso, tão distante. Talvez por isso, na sessão em que sou capaz de balbuciar a tua morte, o meu corpo tenha simplesmente querido desligar [vou sempre lembrar-me da mão que me agarrou e me agarra sempre.] 
A madrugada de 20 para 21 de Abril de 2018 marcou o ponto de viragem. Marcou a (re)descoberta de toda a loucura em que vivo, apesar de, no fundo, sempre ter sabido que vivia. Há alguma coisa de muito disfuncional nesta família e na forma como abordamos os problemas, como cuidamos e como amamos. Sempre achei que éramos uma espécie de rochas fundas e que isso nos salvaria de todos os males e eu sei que continuamos juntos... Mas agora vejo mais e melhor e sei que, desde que te tornaste pó, há fendas nas profundidades das rochas que somos e sinto que tudo abre mais rápido do que seria suposto. Como se tu fosses uma cola que nos unia a todos com a tua personalidade. Este ano mostrou-me que eu sou capaz de quase me destruir para manter tudo coeso - e talvez estivesse a tentar fazer o papel que era o teu, mesmo sabendo que não o fazias de forma totalmente correta... O meu medo que tudo colapsasse era tanto que quase cheguei a um ponto sem retorno. Há poucas alturas em que um terapeuta dá conselhos e depois de teres ido... Foi a primeira vez que ouvi a minha a dizer-me que eu tinha que me afastar ou me destruía. Eu estava a dar mais do que podia dar, a fazer mais do que podia fazer, a tentar colar peças que não poderia ser eu a colar. Ouvi tantas vezes que tinha que me preocupar comigo e com as minhas coisas e tantas vezes questionei que coisas eram essas quando tudo à minha volta parecia lava saída de um furacão prestes a explodir novamente. Fui um penso rápido que impedia a cura mais tempo do que aquele que seria suposto e acho que, ainda hoje, não saramos. Mas sei, com toda a certeza, que eu não sarei. Há uma dor em mim e uma ferida aberta que não desaparece desde que partiste. Talvez por isso o ataque de pânico antes de entrar na capela [sei que só entrei ali dentro pela mão e pela força da Ana e isso nunca esquecerei] e não há poesia mais bonita do que te teres tornado pó e partido no dia da liberdade. Libertaste-te desta vida aqui. E és luz noutro lugar. 
E, na minha vida, há, claramente um antes e um depois da tua partida. Mas, na nossa, enquanto família, há o que éramos contigo e o que nos tornámos, sem ti. Há sempre uma tristeza latente nos olhares e um cruzar de memórias com sorrisos ternos que escondem mágoas profundas. Agora vejo muito mais do que via e sei muito mais do que sabia. Estou desperta a sons, cheiros e percepções que não queria ver - e tantas vezes que digo que era melhor ser cega, porque ser cega trazia menos desespero interno. No entanto, a tua morte ensinou-me que a vida não pára, só corre. E sei que houve momentos que achei que não ia aguentar. Sei que houve momentos em que quase não quis aguentar. Sei que falei muito contigo nos caminhos que percorria. Sei que senti muitas lágrimas a escorrerem pela minha cara. Sei que pensei muitas vezes não ser quem tu querias que eu fosse. Sei que tenho tanto medo de te desiludir. Sei que não sou quem sonhavas. Mas também não sei se eras capaz de me amar incondicionalmente, independentemente das minhas escolhas - e agora nunca saberei. Mas quero honrar a tua vida e isso inclui viver a minha. Traçar o meu caminho, porque mesmo com todas as dificuldades, eu estou cá. Eu escolho viver e tu sabias disso, quando fazias o caminho para o trabalho e paravas em frente ao hospital, olhavas para a janela e me pedias para ter força. Eu tive, avô. Eu tenho. E tenho que encontrar mais agora desde que não estás. 
Dizias, muitas vezes, que íamos sentir muito a falta do velho, como se soubesses que o fim se aproximava. E eu agora digo-te que a tua falta sente-se em todos os momentos, há um silêncio estranho em todas as casas, particularmente nas tuas, o teu lugar já não está ocupado à mesa e há menos histórias. Repetias tantas, tantas vezes e agora só queria ter questionado mais, ouvido mais, sabido melhor. Há menos alegria no ar e menos cantorias como som de fundo. Há um desiquilíbrio profundo desde que partiste - em mim e não só, em todos. Talvez tudo se torne mais fácil com a passagem do tempo mas desconfio que será muito difícil curar a forma como partiste, em mim. Um ano sem ti, meu avô Zé. Estejas onde estiveres, és luz. Sempre. 

sábado, 20 de abril de 2019

«Parece que, finalmente, chegaste onde ela queria e lhe deste o que ela queria. Felicidades para ela. 
Agora que isso já aconteceu, cuida de ti, Rosa. Porque ela não o está a fazer. Nem tem feito, nos últimos tempos. Isto até pode ser clichê, mas não há ninguém melhor que tu para cuidares de ti. Há que a pessoa que mais o devia fazer, não faz.
Ela levou-te ao limite pelo puro "prazer/orgulho" de te ter a dizer o que ela queria e como ela queria. Mesmo depois de todas as merdas que lhe disseste.
Sim, certamente também erraste. E sim, não te devias ter passado porque isso não é a solução para nada. Mas lá está, se aconteceu, houve algo por trás. E ela, como tu dizes, esteve cega de tudo.
E agora que teve o que queria, já vem toda cordeirinho falar contigo. É ridículo. 
Cuida de ti, Rosa. Mesmo. Porque ela neste momento não merece nada de ti.
E não te digo que isto é o fim de tudo e etc etc. Isso é algo que tu decidirás para a semana. Mas neste momento, agora, ela não te merece. Nem que tu te partas mais um bocado por ela. Já chega como estás.»

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Agora só consigo escrever: Obrigada, Ana. Pelo abanão. 
Podia ter sido tão melhor hoje do que fui. Sei disso. Mas, ainda assim, levei com um choque eléctrico mal li estas pequenas palavras. São curtas mas intensas. Só sei que hoje não consegui passar em frente e ultrapassar. Não consegui colocar para trás das costas e ser melhor. Sei que dei o meu melhor. Não chorei no meio da rua, embora tenha começado a chorar. Não deixei de andar quando me senti em pânico. Não faltei aos meus compromissos. Não fui tão besta como o meu cérebro me gritava. Estou demasiado magoada, não vai passar tão cedo. Mas também sei que errei. Já pedi desculpa, voltarei a pedir entretanto depois de tudo acalmar. É uma das coisas que ando a tentar mudar em mim; quando tudo acalma, pedir desculpa outra vez. Porque sei reconhecer os meus erros e os meus comportamentos menos bons. Só gostava de sentir que não sou a única - e sinto, e vejo, e dói.

quarta-feira, 17 de abril de 2019


Talvez hoje pudesse ter sido melhor em muitas alturas e não fui capaz. Mas dei por mim a ter vontade de estragar tudo em tantas alturas e não o fiz - isso tem que demonstrar que alguma coisa mudou dentro de mim... Sei que deixei que tudo gritasse e que cedi à tentação de iniciar uma discussão que só me ia deixar ainda mais desgastada. Se já estou mal, não posso contribuir para a minha própria dor. Acho que o pior é que estou a sentir um acumular de mágoa em mim e não estou a saber sair deste ciclo. Só sei que consegui parar de todas as vezes que ia voltar a ser a pessoa que critica e precisa de demonstrar demasiado o que sente; sei que consegui afastar-me do centro da confusão em que me estava a tornar. E isso tem que valer para que eu deite a cabeça na almofada e esteja o mais tranquila possível com o meu comportamento. Só sei que tudo em mim dói e que o meu peito arde demasiado. A dor. Tanta dor. 

terça-feira, 16 de abril de 2019


A primeira frase que me disseste foi "temos coisas para falar" e eu respondi que sabia - talvez o quisesse mais do que tu, há mais tempo do que tu, por motivos diferentes dos teus. Não o disseste em voz alta, para toda a gente ouvir, como era o meu medo, mas sim dentro do abraço forte com o qual me presenteaste mal me viste. Menos um medo dentro de mim, só faltava apagar mais uns quantos focos de incêndio e ficaria tudo bem. Não paro de pensar na coragem que tive para te pedir para conversarmos. Isso foi impulsivo em mim como poucas coisas são - porque o impulso dói. E depois disso achei mesmo que não iríamos falar, porque não ia voltar a ganhar coragem nem ia insistir - eu já deixei de insistir. Estou a aprender a respeitar o meu espaço e o dos outros e a respeitar que as pessoas podem querer o mesmo que eu ou não, e isso não faz mal. Pode magoar-me mas não é absolutamente errado.
E não param de me dançar na memória as frases que trocamos nos minutos em que estivemos juntas, banhadas pela luz da lua. Não fazia sentido de outra forma porque assim, quase sem luz, tive menos tempo de sentir vergonha. Quase não nos conseguíamos distinguir e isso ajudou-me a puxar os fios. Comecei no mais fácil, no que é mais simples e fui escalando a montanha sem me aperceber do que escalava. Só com a certeza de que não ia voltar atrás, já há muito tempo que desejava só partilhar pensamentos não pensados contigo. Acho que sempre senti uma energia diferente dentro de ti mas ganhaste-me totalmente quando ficaste comigo, quando eu não conseguia entrar na capela. Nunca vou esquecer esse gesto. O meu descontrolo encontrou um pouso concreto onde acalmar nessa noite. 
Tu e esta conversa marcaram um pequeno progresso em mim que quero assinalar como vitória. Eu estou a dar-me ao outro, apesar do medo da queda. Eu estou a confiar, apesar de achar que não deveria. Eu estou a partilhar a minha verdade e a minha essência, mesmo quando me rebelo contra... Mim própria. Eu já nem sei contra quem é a minha luta. Sinto que, um dia, o Dragão vai matar-me. Até lá estou a tentar não o alimentar e alimentar a minha luz. A minha paz interior constrói-se muito lentamente...  E tenho muito medo de não ter capacidade de a construir em melhores alicerces. Porque a cabeça onde habito não é, nunca foi, e duvido que algum dia possa ser, a minha melhor amiga. Por enquanto, só sinto que tenho a cabeça às voltas com a nossa conversa, sinto que acabou por acontecer o que me acontece tantas vezes - quando dói, bloqueio. Só sei que tenho muita pena que tenhamos sido interrompidas.

terça-feira, 9 de abril de 2019


Sem me aperceber que estou a fazer isso, vou entregando pequenos pedaços da minha verdade e sei que só acontece depois de o verbalizar em voz alta, aí, no meu sítio seguro. Onde não há nada proibido. Onde tudo é possível de ser sentido e explicado. Onde podemos assumir que os pequenos passos, para os olhos de todos os que estão fora daquelas paredes, são para nós (mim) vitórias passíveis de celebração. Que o que levo comigo seja, também, a capacidade de ver sem receio disso, as minhas mudanças. 
Já tantas vezes assumi que não há verdade maior do que este caminho que estou a construir, estes pés na terra, este contacto com o meu eu que deixei perdido algures no tempo... Estou a ganhar confiança e consistência. É um caminho com muitos tropeços, com muitas mazelas e com uma dor profunda que já estranho quando acalma. Mas é o meu caminho e só consigo sentir orgulho (e dor) quando deito a cabeça na almofada no final de mais um dia onde senti que dei mais de mim ao outro. O medo inqualificável de que me vão deixar cair, de que me vão magoar, de que não posso confiar, começa a esbater-se porque me ensina semana após semana, que é possível confiar em alguém de olhos fechados. E o quanto eu procurei o que temos vindo a construir... Nunca lhe disse - talvez um dia lhe diga - que durante vários anos o meu escape foi aproximar-me de professores. Falar com eles sobre a (minha) vida. Houve os que deixaram marcas intensas em mim de tal forma que ainda sei quem são, onde estão. E sei que guardam pedaços de mim. Naquela altura, e sei-o agora,  tentava fazer o que faço hoje, com a psicoterapia. É estranho como nós arranjamos sempre forma de ter o que precisamos... De uma forma ou de outra. A nossa mente é um lugar complexo mas arranja sempre forma de se curar.
Há muita coisa que preciso de desbloquear sobre esta semana. Há um medo profundo de não conseguir fazê-lo e de ficar em falta para comigo própria... Voltar a afastar-me dos que estão à minha volta e que não têm culpa nenhuma de nada. Mas acho que se há frase que resume tudo o que se passou ontem é "Sai sempre daqui remexida? (aceno) Eu sei, é como se estivesse a tocar em carne viva.", pode ter havido uma continuação deste trecho, e houve, mas resume tão bem o que estou a tentar abafar que nem mais capacidade tenho de escrever depois disto.

quarta-feira, 3 de abril de 2019


Disse-me, várias vezes - e já não é a primeira vez que o diz - que me sente, sobretudo, muito irritada. E agora, em retrospectiva ou em modo futuro e presente, eu sei que me irrito, mas não mostro. Eu não sei lidar com as minhas emoções e expressa-las corretamente, para fora do meu corpo. A forma como eu sempre lidei com tudo o que sentia de mais profundo foi colocar para dentro e não mostrar. E estarmos a fazer este trabalho conjunto vai-me permitindo perceber que posso ir dizendo pequenas coisas e que não faz mal quando não são apreendidas da forma que eu esperava. Ou melhor, faz mal, mas não faz porque são mais vitórias minhas que derrotas - porque eu disse, porque eu consegui dizer. E a propósito disto, da irritação que diz que sente em mim, disse-me também, que não fazia mal zangar-me. Que, de certeza, já me tinha zangado e que não fazia mal aparecer zangada [acho que mais facilmente apareci magoada mas passa quando a vejo e me sorri e eu sei que estou segura, ou passa durante a semana em que me consigo acalmar e acontecem mil coisas ao mesmo tempo]. "Pode zangar-se comigo. Não comigo, Teresa, mas com o que represento." e eu respondi-lhe, a rir, que realmente me zangava mas apenas durante cinco segundos. E seguimos em frente até que a minha boca abriu e não saiu um som... E continuou a falar, talvez tenha sido tão breve que nem se apercebeu deste meu movimento, mas questionei baixinho uns momentos depois "Como é que eu posso zangar-me com a única pessoa que me ouve assim?". Porque não posso. Não posso zangar-me, nem tenho motivos para isso, com a pessoa que ouve tudo o digo sem pestanejar. Que me diz que não me falham as palavras. Que me abre os olhos quando nem queria. Que me dá colo quando nem sabia que precisava. Não são palmadas nas costas e não é chamar-me coitadinha - nunca o fez, não o fará. E isso faz-me crescer. 
Diz-me que eu deveria ter em atenção as minhas questões e que ambas sabemos o porquê das atitudes que vou tendo, da falta de confiança de que me vão agarrar quando precisar disso. Diz-me, especialmente, que a posição dela é muito complicada. E eu disse-lhe que poderia ser, no entanto, as atitudes não ajudavam nada... Respondeu-me que eu não estava a perceber, que não estava a desculpar as atitudes nem estava do lado dela. Mas que, com ela, era sempre mais fácil discutir. E depois abriu um sorriso de quem me conhece profundamente, de quem conhece cantos de mim que nem eu sei que existem, de quem sabe tudo o que está por detrás de cada palavra que digo e de quem tem uma paciência infinita para me mostrar quem sou. Esse riso, que tem um toque de gozo, é daqueles que fica sempre comigo o resto da semana e me passa, muitas vezes, pela cabeça. Está, muitas vezes, dentro de mim, como costuma dizer. Costuma dizer que vem comigo e é verdade. 

Eu disse que tinha medo do que pudesse sentir na consulta de terça feira uma vez que me tinha sentido tão presa aos aspectos positivos da consulta de sexta feira que tinha escolhido ignorar os lados maus e a forma como fui puxada para a realidade fez com que os três dias seguintes fossem passados numa espécie de letargia estranha em que não sabia bem o que sentia - nem como me iria aguentar até conseguir dizer alguma coisa e me ouvir, como só quando é a minha única interlocutora se torna possível. Posso dizer frases pontuais às pessoas que me rodeiam e até achar que estou a fazer desabafos mais profundos mas sei que nunca vão ser apreendidos da forma que seriam - que são - quando somos só nós as duas. O meu maior medo era que voltasse a acontecer tudo outra vez e sabia que teria que ter os pés bem assentes no chão para não me deixar levar pela sensação de que finalmente estava a atingir uma etapa que tanto precisava e que tanto demorou. Sentia-me tão nervosa que todo o meu corpo tremia, enquanto sentada na sala de espera. Espasmos daqueles visíveis que não me importo de ter ao pé de duas pessoas mas que morro de vergonha que aconteçam perante outros olhares. Estava com tanto medo e saí completamente rendida, com um termo de comparação que me fez ver que deveria andar mesmo com os pés no chão e não nas nuvens. O facto de os exames terem sido pedidos naquele momento e de não me ter deixado sair do hospital sem os realizar são provas de que alguma coisa preocupou a doutora. Isso e a frase sobre as cicatrizes antigas, de infecções não curadas - ouço-a tão claramente que me dói -, são provas para apresentar no meu tribunal cerebral de que não estou maluca e que as minhas dores foram sendo caladas. O mais grave no meio de tudo isto são as questões que há três sessões deixa no ar "Quantas dores guardou? Quantas dores desistiu de dizer em voz alta? Quantas infecções curaram sozinhas? Quantas dores calou?". Estou ansiosa para conversarmos sobre a consulta de terça feira, para lhe dizer que o meu medo passou - em parte, pelo menos. O medo de não ser bem acompanhada e de não encontrar alguém que sentisse que se preocupou genuinamente. O sorriso da doutora, as questões sobre mim, a preocupação sobre todos os meus hábitos e a forma como vim ao mundo fizeram com que eu acalmasse este meu lado meio aflito perante o tratamento de poucos dias antes. Mas o medo de que todos os exames que eu fizer permaneçam normais e que nada me seja diagnosticado por assim dizer... Não basta só a minha descrição do género de dor e uma medicação associada a isso - que vou tomar direitinha porque estou focada na minha saúde, muito mais do que até aqui. Não basta só isto para me tranquilizar e eu não sei o que poderia tranquilizar-me. Disse em voz alta, pela primeira vez e talvez a única, que tenho medo que tudo seja normal e que as minhas dores permaneçam e falou-me em Psiquiatria e o meu cérebro já nem centra a altura em que isso aconteceu. O meu medo com as minhas dores nos ouvidos - ou sensações ou o que raio é isto que não desaparece - fez-me dizer, já duas ou três vezes, que tenho medo de ter tomado medicação durante tanto tempo que o meu corpo simplesmente se habituou a ela; soltou um "Calma lá, que isso não é assim!" E pode perfeitamente não o ser mas as minhas dores aparecem vindas de onde? Que explicação é que há para a sua continuidade? 
Estou só a escrever à medida que sinto o meu ritmo cardíaco a acalmar e a dor no peito a diminuir de intensidade, sem pensar muito no encadeamento da escrita, sem pensar muito no que devo dizer a seguir. É um pouco como estando aí, há uma altura em que me solto totalmente e sou só eu - o ser - e é a altura mais bonita de todas. Quando lhe falei de toda a consulta e todo o pós consulta e lhe disse que me sentia abananada perante todos os acontecimentos, enviou-me de volta a minha confusão, até disse que também se sentia assim... Talvez fosse normal porque começou a ver ligações que eu não (quis) vi(er) ["Ela mete a culpa na médica..."]. Disse-me, depois, que sabia que estava sempre a insistir neste assunto mas... e fez-me dizer, em voz muito baixa, aquilo que já repeti muitas vezes "acho que eles não iam aguentar", porque já fiz muito mal, porque já causei muito sofrimento, porque já esgotei muitas forças e porque não quero ser mais um peso. E durante tanto tempo calei tanta coisa que aquilo que mais ouço agora é que estou insubordinada e insolente, que saí da casca, que tenho que voltar a tomar a medicação para me acalmar - e essas palavras doem, mas, ao mesmo tempo, são também uma pequena vitória deste (longo) caminho que tem sido tão duro de percorrer.

quarta-feira, 27 de março de 2019


A forma como entrei e a primeira coisa que verbalizei foi uma antevisão para o que mais me marcou... O meu  pensamento mais recorrente ao longo da semana foi desilusão. Sentir que estava a desiludir-me e pior, sentir que estava a desiludi-la. Não deve ser muito normal este sentimento e, pior, não deve ser confortável a posição em que se/me/nos colocou/colocamos. Percebi isso quando disse que o seu papel não era interferir na realidade lá fora e que sabia que o tinha feito porque me tinha aconselhado ou mandado sair e ir marcar uma consulta. Disse-me claramente que não era esse o seu papel e eu senti como se de um pedido de desculpas se tratasse. Podia não ser, mas senti-o assim. Na verdade, e como lhe disse, não foram as dores persistentes que me assustaram, o que me assustou verdadeiramente no meio de tudo o que estava a passar foi aquele momento que me abanou com tanta violência - sempre com palavras - e me mandou cuidar de mim. Diz-me que não pode ser ninguém a fazê-lo, que já tenho idade suficiente, que não posso sentir-me mais uma criança e que não posso esperar por ninguém. Diz-me que tenho que ser capaz porque só fez o que fez depois de me ver enrolada e aprisionada, aflita, cheia de dores, desesperada e desnorteada. E eu perdoo este infiltrar na minha realidade de uma forma que nunca aconteceu antes porque o sinto como preocupação genuína e como um colo tão profundo que é difícil alguma vez classificar. A ligação que construímos permite-me avançar por entre tantas situações pontiagudas, atravessar tantas montanhas e perceber verdadeiramente o que sinto em mim... Que só tenho a agradecer por não me abandonar nas minhas dores, ouvir todas as perguntas que deixo no ar, todas as frases não planeadas e todos os suspiros. Faz-me sentir - e diz-me, também - que está verdadeiramente comigo. Fez isso quando disse que estava da parte de dentro, que via mais de fora do que eu, mas que estava comigo, portanto nem tanto assim... E é tão bom ter esta segurança. É bom ter esta certeza dentro de mim que não confio em mais ninguém desta forma, mesmo quando me lança um "se calhar já nem em mim confia". Disse-me que eu tinha que confiar nos médicos, mais uma vez, porque eu precisava. Confiar neles como ali. E depois destruíram a minha confiança e agora só tenho medo de ser ainda mais destruída e de não conseguir mostrar que não sou louca, que as dores estão lá, que há qualquer coisa de errado comigo. Eu paraliso perante as minhas dores e eu quero aprender a lidar com isto de forma diferente, eu gostava de ter outras capacidades de defesa que não tenho. Só que o que mais me custa no meio de tudo isto é a análise que faz de toda a situação e o que aponta... Deveria levar outra pessoa. A tia. A avó. A irmã. Só que não posso... Pensa que a está a trair? E é sempre assim, chegamos sempre a isto... E é por isso que tudo em mim arde tanto. É por isso, também, que as noites se tornaram menos bem dormidas. É por isso que o peso apareceu e não desaparece. A sessão tem estado em segundo plano no meu cérebro e as dores gerais têm estado em primeiro, e quando não incomoda um, sintonizo no outro. E estou cansada porque sinto sempre falta do único sítio onde me sinto profundamente a 100% e onde me posso comprometer comigo própria. Está a guiar-me (ou a acompanhar-me, porque todas as decisões estão na vida real onde não interfere) na minha procura pela vida mais plena. E cada vez mais tenho a certeza que  entreguei totalmente e estou absolutamente empenhada em ser melhor, encontrar um equilíbrio e construir dias felizes. Mesmo quando me parte o coração em mil pedacinhos que demoram muito mais do que uma semana a colar. E desta vez saí bastante partida. Tão partida que mais de metade está fechado algures, a sete chaves, para não espetar mais. Para não torcer mais. E o que me custa mais é que deixei de conseguir chorar. É apenas uma vontade incontrolável que não se torna real e só torna tudo mais pesado. 

quarta-feira, 20 de março de 2019


Cada vez que paro, o que me vem à memória é o tom inflamado que se manteve quase até meio da sessão. Foi a forma como a sua voz soou desesperada e absolutamente aflita de cada vez que eu me calava - porque a minha é apenas cansada, triste e desiludida. Cada vez que me permito parar e estou sozinha dentro da minha cabeça vou até lá e penso que pode ter razão quando diz que sente que eu tentei e depois deixei de tentar por sentir que não me davam ouvidos. A forma como deixei que as lágrimas saíssem simplesmente enquanto dizia isto... Eu só tenho as minhas fracas memórias e só trabalhamos baseadas nelas... E penso, muitas vezes, como é que seria se tivéssemos acesso, por breves instantes, ao outro lado da história. Porque a verdade não é minha e absoluta. A verdade é um conjunto de todas as verdades que não só o que sou. Isso assusta-me, assusta-me trabalhar em cima de possíveis percepções falsas de acontecimentos que me marcaram desta forma porque eu simplesmente deixei andar, fui tão negligente comigo própria que me abandonei e deixei de dar ouvidos ao meu corpo. Porque a minha tristeza é, também, para comigo e para com a forma como me deixei abandonar e como não cuidei de mim, como perdi a capacidade de bater o pé e dizer que precisava de mais. 
Pela primeira vez - e demorou tanto tempo - sou capaz de compreender que não me dei atenção, que fui curando estas dores sozinha e que poderia ter ficado muito mais grave do que agora ficou. É assustador. Repeti, muitas vezes, baixinho, que tinha medo. E disse-me que eu tinha que deixar o medo de lado e que este susto que eu estava a sentir poderia fazer-me ir perceber o que tinha, ouvir os médicos e deixar-me cuidar. Pedir ajuda. Como faço ali. Como confio ali [e eu só pensava que não era bem assim porque não confio desta forma em mais ninguém]. Pediu-me tantas vezes que eu não adiasse mais. Disse tantas vezes "já chega!" e de forma tão clara e, ao mesmo tempo, exasperada que, às tantas, percebeu que o tom de voz não estava calmo como o habitual. Disse que estava demasiado inflamada e que não estava a ver o lado em que eu cheguei até aqui. Mas o que, sem sombra de dúvida, me atravessa e dilacera completamente o peito, é a forma como me diz que eu sei que não me dá conselhos mas que vai dar. Porque estivemos praticamente o tempo todo à volta disto e não saímos do lugar... "vai sair daqui e vai imediatamente marcar uma consulta porque tem que cuidar de si".
E eu (ainda) não fui. Eu falei sobre o assunto duas vezes. Logo na segunda e depois na terça feira - em pequenas coisas já vislumbro pequenos pedaços da minha força interna. E não resultou em nada porque a minha opinião é que tenho que ser vista o mais rápido possível e que não posso continuar a esperar... Mas não me sinto com coragem de bater mais o pé do que referir o assunto de passagem. Eu começo a saber que tenho que cuidar de mim mas isso não me dá (ainda) a força necessária para ser capaz de mais. Ir sozinha. Como me disse que eu deveria ir. Cuidar de mim sozinha porque já tenho idade para isso. E está a começar quarta feira, estamos a meio da semana, e eu continuo à deriva, simplesmente à deriva, como se fosse uma criança pequena amarrada. Como se não soubesse cuidar de mim sozinha. Neste momento, estou desiludida comigo própria e sei que, se chegar lá na segunda feira, com a situação muito perto do que estava há dois dias, que não serei a única desiludida... E isso ainda dói mais.

quarta-feira, 13 de março de 2019


"A terapia é muitas vezes uma forma de espelho sonoro. É a própria pessoa, com as suas palavras, que descobre o problema e o resolve. Quem não se cura é porque não se escuta mal a si próprio."



Tem graça ter esbarrado com esta frase precisamente no dia em que mais tempo tive para pensar e mais medo tive do que pensei. Pesou tanto ter lido isto. Pesa tanto fazer isto. Escrever frases e deixá-las a meio por medo de tudo. É tão desgastante e doloroso este caminho. É tão bom sentir, bem no profundo de mim, que estou nas mãos da pessoa certa para me ajudar. A ver o que não quero. A sentir o que não gostaria. A ouvir-me mesmo quando falo baixo. A ouvir até o que não digo. Tenho cada vez mais medo de ficar sozinha. Principalmente quando sei que o caminho é longo e que não me sinto assim tão forte quanto me vê e me garante que sou. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019


A falta que me fazes. A falta profunda que me (nos) fazes. As coisas que não dissemos. A forma como me dói tanto, ainda, a tua ausência física. A dor profunda do como tudo aconteceu. Continua a arder tanto. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Quanta pedra é que foi preciso partir para chegarmos até aqui?

Desde a sessão da semana passada que o medo não me abandona, posso não ter falado mais no assunto, posso estar a reagir como se não se tivesse passado nada, mas continuo a preferir não estar acompanhada, continuo a deitar-me e sentir os espasmos no meu corpo, as lágrimas a correr na minha face, a dor gritante que me envolve. Continuo a sentir-me presa, no medo daquele momento, da conversa não terminada, o assunto inacabado, o segredo, a pedra no sapato. Está lá sempre. Está, sempre, em tudo. E dói sempre, cada vez mais. Viver nesta teia de aranha custa cada vez mais e eu continuo a perpetuar tudo isto por medo de simplesmente sair. Questiono-me, muitas vezes, sobre como o fazer. Questiono-a, muitas vezes, sobre que caminho seguir. Porque já percebi que quero conseguir sair disto, que viver nestas amarras me está a destruir. Gostava de conseguir sair de todos os segredos que me envolvem, de ser capaz de os destapar e mostrar a verdade - e lembro-me da dor, sempre da dor que está presa no meu peito e de ter dito que a verdade é que faz crescer, que estou a perpetuar uma mentira e que, apesar de não querer ter este poder e não me sentir bem com ele, continuo a agir como se estivesse tudo bem e que isso não lhe faz bem. Disse-me que eu estava a destruir... Abanou-me com tanta força que eu ainda estou desequilibrada - e magoada. Acho que também me magoou muito. Não esperava ter ouvido o que ouvi esta semana. Esta dor não me vai largar mas, como disse, vemo-nos para a semana. E eu sou mais forte do que julgo. E eu tenho que arranjar coragem - e palavras, porque me disse que tinha que ser com as minhas palavras - para ter uma conversa que não quero ter. Porque não posso só ouvir que não é bom, tenho que dizer que não podemos viver mais assim - tenho que acabar com os "não faz mal" que digo sempre que acontece. Porque faz mal. E abanou-me tanto que me sinto absolutamente partida. É precisa muita coragem para continuar a fazer isto - mas tenho noção que se não o fizesse, não era capaz de lidar com metade. Porque continuar a meter para debaixo do tapete e a ignorar o que, no fundo, está à vista de todos, não pode continuar a ser a dinâmica. E eu tenho que vestir o papel que não deveria ter e ser a adulta nisto, e é isso que esmaga tanto. Sinto-me esmagada.
Disse-me que eu não podia ter medo de pedir ajuda - e eu não tenho, ali - e eu lembrei-me muito disso quando, ontem, ouvi a minha voz a dizer claramente, que precisava de ajuda. Foi um grande passo para mim. Disse que eu tinha que lutar, que arregaçar as mangas, que dizer que precisava, ir atrás, não desistir... Deu-me a força que eu não estava a sentir porque eu só sentia que não chegava para mais. Disse-me que eu tinha que ser clara, que tinha que dizer que não sabia o que faria sem a bolsa, se não teria que desistir de tudo... Porque era (é) o que eu sentia. E, por isso, tinha que o dizer - ela, mais que ninguém, tinha que saber. Disse que eu tinha que batalhar pelo meu artigo, que tinha que questionar, ser chata e não largar a vontade que tenho de ir mais longe e fazer mais. Por ser injusto, por ser difícil... E eu tentei, eu disse e eu fiz tudo até ter paralisado, como me acontece tantas vezes, e ter as palavras a gritar na minha mente mas sem serem reais, dentro de mim eram gritos, fora era o silêncio. Pedir-me desculpa e assumir a culpa era o mínimo. O facto de ter passado ao próximo objetivo da lista e eu ter permanecido calada... deixa-me arrasada - a minha atitude deixa-me arrasada. Nem sequer conseguir questionar se não vamos nem tentar enviá-lo... Apesar de sentir que toda a reunião me deixou mais tranquila e que tenho um caminho traçado para percorrer até à entrega do projecto ao centro de investigação, depois à Fundação e depois, mais tarde, à faculdade... E que, tudo isto, vai sendo melhorado ao longo do tempo, não deixei de me sentir uma miúda pequena e sair de lá e fechar-me na casa de banho. Fiquei de pé, encostada à porta fria, até conseguir aceitar que houve uma parte importante e sobre a qual batalhei tanto desde o final da minha tese de mestrado que - sem culpa minha e que poderia ter atingido - não vai ver a luz do dia, por agora. Por isso, tenho que me focar nas partes deste projecto que posso atingir e nas quais tenho controlo absoluto... Sei que ter um projecto melhor, este ano, do que aquele que tive o ano passado, era um dos objectivos desde que o entreguei e que, durante muito tempo, não me sentia a atingir. Não quero ter um projecto mediano qualquer, quero que seja uma coisa mais estruturada, pensada e consistente. Quero que existam críticas diferentes - porque tenho noção que vão existir -, quero que eu possa sentir - quando o entregar no final de março à fundação - que fiz melhor, que dei o que tinha e não tinha e que fui capaz. E termos falado no facto de a resposta poder vir a ser negativa e ter-me dito que existia um caminho se eu quisesse prosseguir no doutoramento mesmo nesse sentido, ajudou a acalmar as minhas dúvidas cada vez maiores no "e se...?". Vou focar-me no que tenho nas mãos, vou fazer um bom trabalho, vou ser capaz. Só não posso focar o meu pensamento naquele pedaço ao qual dei voz - só ali, sempre ali - de sentir que estava a ser boicotada, porque a culpa disto não estar feito não é minha... Dói muito. Dói muito trabalhar e não colher os frutos desse trabalho. É duro reagir desta forma, paralisada e depois a passar por cima, como se não valesse a pensa sentir-me zangada - e, no fundo, não vale, porque não é isso que me trará uma publicação no currículo...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

"E, espantem-se, talvez os psicólogos sejam mesmo para malucos, para todo aqueles que são malucos por crescer, por se desenvolver, por se conhecerem melhor, para os malucos que querem desconstruir os seus medos, as suas angústias, tudo aquilo que de alguma forma é mais escuro dentro de si. Assim, se pensarmos bem, talvez os psicólogos sejam mesmo para malucos, aqueles malucos que querem ser cada vez mais autênticos, melhor consigo próprios."

Talvez acabe por ter coragem de processar tudo o que se passou na segunda feira. Ou talvez não. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mal deitei a cabeça na almofada desabei completamente. Já não era eu. Eram lágrimas, eram tremores no corpo, espasmos, soluços. Não esperava que fosse assim. Não esperava nada disto e assustou-me. Eu sabia que tinha saído com uma vontade de chorar incontrolável. Mas também sei que consegui afastar essa sensação e focar-me, o melhor possível, e trabalhar no resto do tempo. E, por isso, não esperava...
A dor que sinto dentro de mim é inexplicável. E eu pensei muito, às voltas na cama, ontem à noite, sobre como é que se pode pedir ajuda quando não se sabe o que dizer. Quando as palavras doem tanto, quando o silêncio impera sempre mais forte. Demorei mesmo muito a adormecer ontem. Tive uma noite para lá de horrível. Estava sempre a acordar com a sensação de que estava a chorar. Estava sempre a acordar com um peso enorme no peito. Estava sempre a limpar as lágrimas, com medo que fossem vistas. Há lágrimas que não devem ser vistas porque não são possíveis de ser explicadas. 
A semana passada vivi angustiada com a dificuldade em compreender tudo o que tinha acontecido - e a saber que tinha uma necessidade profunda dessa compreensão. E acalmou-me ontem quando disse que não fazia mal não me lembrar porque nos íamos lembrar as duas. Não reviver. Só fazer um esforço para voltar e perceber o que me tinha deixado num estado tão triste. Acalmou-me, também, quando disse que eu tinha que agarrar a tranquilidade que me trazia enquanto estávamos juntas porque é tão profundo e verdadeiro... Por muito que tudo doa, estar acompanhada, deixa-me menos insegura. Faz-me sentir mesmo verdadeiramente importante, ouvida. Viver nesta violência extrema, como lhe chamou, de existirem coisas ditas sem serem ouvidas, apreendidas... Viver neste contexto vem acompanhado de muita insegurança, muita dor, muita tristeza acumulada. É de uma violência extrema ignorarem, desmentirem, porque a Rosa disse! É muito pior eu ter dito e não ter sido ouvido, ter sido ignorado, ter havido uma negação completa... E diz-me, tantas vezes, que tem a certeza que está tudo lá e que, tal como eu, também não se esqueceu. Mas eu não sei, eu não consigo saber porque eu não sou outra pessoa, só sou eu... E eu não sei como lidar com tudo isto porque não sei como lidar com nada. Sinto mesmo que cheguei a uma encruzilhada em todos os caminhos que percorro e que não sei sair de lado nenhum, não sei como lidar com nada, não sei como resolver nada.
Entretanto, muito a medo, perguntei se achava que eu me fazia de vítima... E demorou a responder, demorou mesmo muito, e acho que não pode ter compreendido totalmente a minha questão porque a resposta não fez sentido - não faz, agora que penso nela... Foi inesperado ouvir que estava só a tentar ser a filha, no meio de tudo isto. Porque estou a ser constantemente colocada num papel que não é o meu, a ter um poder que não quero ter, a viver uma tensão que não quero viver. 
Sinto que tudo isto está por terminar. Sinto que preciso tanto ou mais de percorrer este caminho que no início, quando o comecei, e sinto que vai doer tanto mas tanto daqui para a frente. E, tal como disse no final desta sessão, dói-me tudo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O único desabafo concreto que consegui fazer ontem foi "sinto que a semana vai ser dura" e isso está a assustar-me, porque normalmente consigo mais que isso - mesmo que seja só comigo própria, nem que seja apenas e só pensar, pelo menos. E agora tenho o cérebro completamente vazio, como se estivesse sem nada lá dentro. Tenho uma sensação constante dentro de mim de que procuro sem encontrar, que devo desistir porque só me vai cansar ainda mais. Custou-me tanto ter dito o que disse porque foi com tanto medo que o verbalizei. Porque eu sei - bem dentro de mim - o quão importante foi a sessão de ontem e o quanto eu precisava de organizar a minha mente em condições, para mim, sozinha, comigo. E, talvez, aquela frase tenha tido o condão de me deixar ainda mais angustiada pela verdade que carrega. Desta vez não sinto que fiquei lá dentro, sinto sim, que não deveria ter saído sem compreender nem arrumar as gavetas porque esta sensação de vazio está a destruir-me completamente. Acordei com uma incapacidade de sentir ar a circular em mim, com uma sensação estranha de que perdia o compasso da respiração, custou-me caminhar. O aperto no peito era brutal e a vontade de me desfazer em lágrimas sem parar, avassaladora. A dor que tenho na cabeça faz-me perceber que não me sinto mesmo - nada - bem. E eu sei que fiz um esforço para me recordar de tudo porque sei que vivi uma das sessões mais profundas de que tenho memória - como se estivesse chegado ao cimo de uma montanha que me fizesse analisar e compreender tudo com uma visão de conjunto que sinto ser tão necessária. Só que não consigo. Não consigo analisar. Não consigo escrever. Não consigo, sequer, recordar. Tenho pequenos rasgos e uma dor dentro de mim que nem consigo descrever. Não sei libertar-me desta sensação constante de vazio de pensamentos e eu precisava - tanto, mas tanto - de refletir. Eu sei que me diz sempre que quanto mais tento, pior é, e, por isso, eu estou a tentar não me passar completamente... Só me sinto tão angustiada e desesperada porque não consigo ligar nenhum destes rasgos... E depois lembro-me da forma como me disse que tudo o que eu fazia a mim própria que eram maus tratos psíquicos constantes e ainda me sinto mais embrulhada no meio deste novelo de que sou feita. Não queria nada estar sozinha nesta semana de loucura de um cérebro que está a tentar processar informação sem chegar a lado nenhum.
Estou tão cansada.  E eu sei que hoje é só terça feira. Desta vez, faz-me mesmo uma falta danada.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Na mesma semana, mais um dia 21 e o teu dia de aniversário e eu não sei como ando nem o que sinto. O aperto que me adorna o peito voltou em força. A melancolia dos últimos tempos desagua sempre no dia 21. Vem cá sempre ter - mostra sempre a razão. Como é que vai ser? Digo que tenho que me preparar, baixinho, porque ainda não confessei - a quase ninguém - este meu pensamento. E sempre o medo de te desiludir que só a mensagem repentina da Ana acalmou - "os anjos não julgam, respeitam o teu livre arbítrio".

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Eu podia dizer que, desta vez, foi leve, porque não chorei, porque o meu peito batia ao compasso da respiração pausada do meio da sessão [naquela altura em que disse uma vez que sabia que eu já estava lá dentro] porque não ardeu enquanto a melodia era a nossa voz e os silêncios que respeita sempre. É tão bom sentir-me completamente ligada e respeitada em quem sou (mesmo que eu ainda não saiba isso completamente e tudo isto da vida seja só uma gigante descoberta interior), durante um bocadinho todas as semanas, sinto que há um espaço em que me é permitido tudo. Em que é tudo possível de ser dito porque não há julgamentos e em que não me vai falhar. É o meu colo, mesmo sem existir praticamente nenhum toque entre nós. É a minha força, quando não a tenho e ajuda-me a encontrá-la quando nem sei onde está ou sequer se existe... É, também, as minhas palavras, quando as procuro sem saber onde estão. É tudo isso, com a noção de que o é e com a capacidade de o dizer, o que torna tudo ainda mais verdadeiro. E isso é tão bonito e tão forte ao mesmo tempo. Porque sabe tudo o que me dá - e é clara e segura quando o diz, e essa força da experiência que pauta a vida é mesmo inspiradora - e eu sei perceber que sentiu os elogios - não são elogios, são verdades puras - da semana passada. E eu tive medo de voltar a cruzar os nossos olhares porque, para além do peso que senti quando o disse, senti também muita vergonha por ter dito o que disse em voz alta. Sinto sempre que há coisas que não se dizem mas depois vem e mostra-me que não posso ter medo das palavras ditas e eu acabo por confessar sentimentos que nunca esperei... Eu sei que me salvou, não é que não saiba, mas nunca equacionei dizê-lo em voz alta. E sentir que quis voltar a isso, esta semana, deixou-me mais envergonhada, mas talvez lá voltemos, algures, porque voltamos sempre a tantos sítios para fechar ciclos e abrir novos. Mas saber que referiu isso fez-me ter a certeza que o tinha sentido como eu e que a força do que disse foi arrebatadora. Rimos muito e sorrimos mais. Está ligada. Retira muito prazer disto, desta ligação, da intimidade que temos, por muito que diga que é doloroso e que não quer ver mais porque custa demasiado, está cá.
E parecia bem quando sai, tentei concentrar as minhas energias ao máximo num trabalho que me está a custar muito fazer. Depois da conversa que tivemos, senti que ganhei um pequeno boom de energia e aproveitei-o sem pensar muito no que tinha acontecido antes e no que poderia acontecer depois. Talvez esteja tão bloqueada em tudo porque estou a tentar gerir o meu tempo nas coisas, porque o meu plano inicial não era este e porque tenho que me adequar a este novo plano, e ali podemos só pensar em voz alta porque não há mal nenhum nisso. E disse-me que estas dúvidas todas que sinto, que as inseguranças e a ansiedade são muito mais verdadeiras do que se dissesse simplesmente que era tudo muito fácil e que era perfeitamente capaz de enfrentar o doutoramento sem nenhuma questão de fundo. Esta situação é diferente de tudo o que já vivi. É mais exigente. E eu sei - e soube antes de iniciar, daí o meu plano - que este período da minha vida deveria contar comigo completamente madura, nas ideias, nos sentimentos, na experiência de vida. Aos 24 anos não se sabe nada e não se pode seguir por ali porque a sociedade impõe que estudemos e que depois disso se lhe siga o emprego, a casa e os filhos. Os tempos são nossos e não é porque nos dizem que é melhor assim que vamos fazer assim... Sinto que tudo isto está a ser difícil e vai desaguar no sentimento de que entrei cedo demais nisto, mas não quer dizer que desista agora, só quer dizer que preciso de me habituar a esta realidade e sentir que sou capaz... E todos os "e se?" que me disse que compreende perfeitamente, que pense neles, ou que me assustem, porque existem. Se renovo o contrato? Se não renovo? Se tenho tempo para me candidatar em condições ao projecto da FCT? Se não falho nas minhas notas... Se falho? Disse-me que eu não aceitava menos de 18 e eu rio-me agora sozinha porque me conhece tão bem que não tenho palavras... Antes de começar o doutoramento fiz uma lista de objectivos e esse era o primeiro. E continua a ser, apesar de sentir que pode estar a ir por água abaixo. Sinto-me desiludida e sinto que estou a desiludir toda a gente à minha volta que espera que eu seja muito melhor do que me sinto a ser. E lidar com tudo isto tem dado muitas dores de cabeça e muitos bloqueios nas alturas menos devidas. Disse-me uma coisa que eu achei realmente bonita porque não costuma ser muito normal que eu fale no assunto mas a verdade é que sabe sem que eu diga... E diz que precisa de ajuda porque não adivinha, mas é só meio verdade, porque adivinha muitas coisas. O facto de me ter dito que achava que eu precisava mais do apoio da minha orientadora e que a relação de proximidade que tinha desenvolvido com ela me fazia muita falta neste momento... Falar-me em ir ter com ela, em nos sentarmos a trabalhar lado a lado no meu projeto... Há coisas que eu não preciso de dizer porque não é preciso, sabe e eu sei que sabe. Apesar de já o ter feito, sinto necessidade de o fazer novamente e paira na minha cabeça pedir-lhe para a ver, sem nunca o ter dito em voz alta até agora, devolve-me a ideia de que eu preciso dela ao meu lado. Já percebi que este assunto não morreu aqui, que vamos continuar a lidar com toda esta avalanche de sentimentos e emoções nas próximas semanas mas já não tenho medo de falar nelas, porque me ouve, porque está ali. Porque não me diz só que vou conseguir e que vai passar, porque me faz pensar nos porquês do que sinto e, com isso, nas formas possíveis de resolução. Diz sempre que estamos a falar sobre as coisas e que estamos a resolver dessa forma e sinto que é verdade, confio plenamente. Portanto, por muito que eu pergunte muitas vezes como é que desbloqueio tudo isto, eu sei que vamos encontrar algures uma maneira de me sentir bem no meio deste doutoramento. De me sentir capaz de o fazer. De sentir que não estou a falhar em cada passo que dou.
Sorriu quando lhe disse que o meu avô estava melhor, mas não respirei de alívio ainda. Este susto custou-me e vai continuar a custar-me... E isso levou-me a percorrer os velhos sentimentos de negligência que parece que me rodeiam. Disse-me que só via isso à minha volta neste momento porque estávamos a trabalhar nisso mas não sei se é só por isso ou se é porque há um monte de pessoas incompetentes... E eu sei que as pessoas não são perfeitas mas quem tem a vida de outros nas mãos deveria ter mais cuidado. Fez um comentário que me deixou confusa, porque as ligações que faz são sempre muito mais profundas do que alguma vez imagino... É engraçado porque, num outro prisma, foram os médicos que a salvaram. Talvez. Talvez não, de verdade.
Contei-lhe sobre a dificuldade que foi, para mim, sentir que saí... Ou, pelo contrário, que fiquei... Porque a semana passada eu senti que foi tudo tão pesado e que eu não estava a conseguir lidar com nada do que tínhamos falado. Que tinha ficado ali... Mas celebrei, durante alguns minutos, o bom que tinha sido não sentir aquele aperto doloroso que já é parte de mim durante algum tempo depois da sessão... Ah, só teve data de validade de meio dia? Dia e meio? Então é preciso termos sessões todos os dias. E rimos, porque não foi nada disso que eu disse, mas as pequenas provocações são sempre essenciais nos minutos em que nos vemos. Falámos sobre o facto de me ajudar, de me fazer sentir mais leve muitas vezes quando saio e eu disse que não, que não sentia mas disse-me que sim e que este era um dos exemplos disso. Tentou que eu falasse sobre o que me custou tanto na semana passada mas eu penso que não lhe especifiquei nada porque não queria lidar com isso profundamente... Portanto fui só respondendo afirmativamente às questões. Foi por termos falado da inevitabilidade da morte? De, pela idade que têm, ser natural que os avós morram? Foi tudo isto, e foram tantas outras coisas... Até que ganhei coragem para partilhar o que tinha prometido partilhar na semana anterior... Quando referiu o assunto de passagem eu disse que ficaria para a semana seguinte, porque naquele momento não tinha coragem ou força para partilhar ou falar sobre o assunto... E respirei fundo, com o peito a arder, e falei. Disse-me, quando lhe pedi para pararmos só para admirar o facto de ter dito a palavra em voz alta, que não podia ter medo das palavras, que elas não matavam... Mas matam por dentro.
E mostrou-me, logo de seguida, que não tem medo de nenhuma palavra... Quando eu parei, porque parando a meio chegava lá de certeza... Fez questão de me mostrar que não faz mal... Filho da... Puta. Sim, isso. E continuei... Expliquei tudo o que tinha acontecido e voltei a parar. Porque não vejo - vi - necessidade de expor o resto por ser perceptível... Perguntou-me o que tinha dito. Preto no branco. E acho que toda esta sessão foi uma imensa aprendizagem para mim, sobre não ter medo das palavras. Sobre não ter medo de falar. Sobre lhe poder dizer tudo. Porque não há nada que seja proibido. Que seja julgado. Que seja ignorado. Disse-me que sabia que eu tinha medo que acontecesse alguma coisa grave. Perguntou-me, e pergunta tanta vez, de que tenho medo... De um acidente? De morrerem todos? Disse-me que sabia que eu não queria morrer. E eu respondi às vezes. Disse-me que me incomodava todo o ambiente à minha volta, que me custava que tivesse a nossa vida nas mãos dele, para além de tudo o resto... De sentir que não éramos protegidas e que algum dia tudo ia explodir. Que eu estava sempre à espera que acontecesse - não hei de me sentir mal... Perguntou-me se tinha falado depois sobre o assunto diretamente, mas não, não falei. Já tentei falar algumas vezes e não penso que a minha opinião seja igual à opinião geral. Não sei se alguém vê um problema aqui. Já referi muitas vezes que me sentia maluca, porque nem sequer sei se eu vejo um problema aqui ou se é normal ser assim - estar assim, comportar-se assim. Disse-me que eu não podia fazer nada neste caso, só falar sobre o assunto, mesmo que não fosse ouvido... Disse-me que compreendia a falta de protecção que sentia por causa de tudo isto mas, sempre, que não existem milagres se as pessoas não quiserem fazer nada. E ainda falamos de pé, coisa que não é habitual. Falamos mesmo até abrir a porta.
E desde meio da tarde de ontem que carrego um peso no peito tão profundo... Sei que não me lembro de muito do nosso final mas estou a tentar acalmar-me porque me disse que era melhor isso, do que ficar irritada por não me lembrar... As coisas estão lá, diz-me tantas vezes. E eu só espero que estejam mesmo algures dentro de mim porque preciso de as encontrar para ter força.