quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Os meses podem suceder-se uns aos outros da forma que quiserem porque nada disso importa quando a dor que sinto dentro de mim desde que és luz não se evapora. Dizem que temos que aprender a viver com as saudades mas eu acho que antes disso temos que conseguir compreender os porquês. E eu não consigo compreender porque é que tiveste que ir. Que raio de ensinamento queria a vida, o tempo, os cometas, ensinar a esta família para que te arrancassem de nós sem dó nem piedade. Só sofrimento, teu e nosso. Teu, tanto. 
Eu não consigo conceber o mundo que me tirou o meu avô da forma mais atroz que é possível lembrar-me que exista. Eu não sei entender o que é suposto retirar de tudo isto sem ser uma loucura que me leva ao desespero. Os meses continuam a passar e parece que a vida se vai reconstruindo aos bocadinhos mas eu fiquei parada no tempo em que aqui estavas. Eu fiquei parada porque continuo sem conseguir entender. Todos os momentos continuam a fazer-me lembrar a tua partida e o aperto que mora em mim não me deixa ter paz. E por falar em paz, saber que não a tiveste nos últimos momentos da tua vida térrea faz-me sentir uma revolta imensa que não tem passado de maneira nenhuma. Acalma quando me afasto do epicentro do furacão que a avó se tornou. Quando não ouço e quando não arde nos ouvidos e na pele aquilo que ela diz. É um insulto à forma como tu foste embora. É um insulto à vida que ainda tinhas dentro de ti quando poderia ter chamado por ajuda. Porque não era necessário fazer grandes malabarismos, bastava ligar para casa do filho onde alguém a iria acudir muito mais rápido do que ela poderia pensar. Eu não compreendo como é que ela continua a negar tudo o que aconteceu apenas e só para se deitar com a cabeça na almofada de forma mais tranquila. Nem sequer sei se é exactamente essa a razão e eu precisava de saber. Não sei que tipo de paz me trariam as respostas a estas perguntas mas sinto que corro uma maratona louca desde que foste embora e estou cansada disto. Só queria que tudo parasse um momento. Eu queria saber se tu agora ainda gostas verdadeiramente de mim, com tudo o que imagino que sabes desde que partiste. Sempre tive medo que soubesses em vida e que a desilusão pautasse o teu olhar mas a verdade é que não sei que orgulho tinhas de mim porque sinto que todas as escolhas que fiz desde que me tornei senhora das minhas próprias vontades não foram de encontro ao que tu gostarias. E agora que partiste gostava de saber se me amas, tal como amavas em vida. Porque eu quero acreditar que o amor que me tinhas era inquebrável, fossem quais fossem as minhas escolhas. Sinto tanto a falta de tantas coisas que nunca te disse e sinto tanto o último dia em que te vi, a despedida do teu olhar. E choro, por dentro. E caem-me lágrimas no colo sem as conseguir - ou tentar - controlar. Porque há dores que não se controlam e a tua partida é ferida aberta em mim, que não tem data de resolução. Dizias tantas vezes que íamos sentir tanto a falta do velho e dizias tantas vezes que te estavas a sentir cada vez mais doente. E eu só pergunto como é que não te lembraste, tu também, de nos pedir ajuda naquelas horas fatídicas? Nós iríamos socorrer-te. Sabias disso, certo? Morreste sabendo disso? Vês, avô? As questões nunca param e não sei como me ajudar. 

sábado, 17 de novembro de 2018

Nunca sequer imaginei que este final de ano pudesse ser como está a ser - enfrentar um trabalho que não sei sequer se gosto dele, com mais aulas de doutoramento que as que acho necessárias, com um novo desafio de trabalhar durante dois meses, com pouco tempo para estar dentro de casa na minha zona de conforto... Incluir isso tudo nos entretantos em que tento terminar trabalhos, em que assisto a conferências, em que volto às consultas... Não pensei que conseguisse tudo isto. E gostaria de incluir os treinos no ginásio, a ajuda em casa, dormir um pouco melhor... Não cheguei ainda a uma rotina que consiga considerar confortável mas quero caminhar para isso. Afinal de contas ter arranjado um emprego ao mesmo tempo que faço o doutoramento era um objetivo e deveria servir para me organizar melhor - sempre o quis. Sentir que estou a fazer mais por mim, que sou capaz disso. 

Em relação ao trabalho de dois meses, quero deixar aqui para ler daqui a uns tempos que agora sinto que será uma imensa experiência benéfica para mim. Sei que me sinto extremamente honrada por terem pensado em mim para desempenhar estas tarefas - que vão ser bem pagas, mas que, mais que isso, me vão permitir construir um currículo bem melhor do que aquele que estaria prestes a construir. O objetivo de trabalhar para o projeto da FCT para o ano encontra-se ainda na minha mente - se bem que o papão da defesa do projeto de tese no final do próximo ano... Está tudo tão longe e ao mesmo tempo tão perto. Eu só espero conseguir ser capaz de fazer tudo sem erros. Ser a melhor profissional que consigo ser. Responsável. Atenta. Disse-me que era mérito meu, que estou a colher os frutos daquilo que temos vindo a construir, que me estou a tornar mais sólida profissionalmente e a traçar o meu caminho e é bom ouvir todas essas coisas e guardá-las no meu peito - porque também guardo as menos boas, as confusas, as dolorosas. 

E tenho muitas saudades de me sentar numa sala em que estejamos apenas as duas e sentir que temos tempo para conversarmos, sobre tudo e sobre nada. Tenho saudades de quando diz que agora é o confessionário e que o que dizemos ali dentro que não repetimos lá fora, porque é verdade. É mesmo. É uma ligação bonita a que temos. Esta semana disse que sentia saudades e é verdade, sinto. Há muita coisa a acontecer que gostava de partilhar, faz parte da maior parte dos projetos que quero ver nascidos, palpáveis. Bonitos. Quando crescer... E sinto que estou a crescer.
Ontem à noite voltei a escrever - mesmo com todo o medo que tinha disso. Só porque achava que isso faria diminuir toda a dor que sentia dentro de mim.

O meu peito é chumbo e explode ao sê-lo. Eu não sei se isto é possível mas é exactamente o que sinto, pequenas explosões dentro de mim que teimam em não parar. Tenho um peso dentro do peito que não me deixa respirar em condições, o ar não passa, é rarefeito. É mais fácil respirar lá dentro. Mesmo com o cheiro a médico que, às vezes, se encontra infiltrado no ar quando entro. E queixo-me algumas vezes e outras calo-me porque sei que vou respirar melhor mesmo que o peito arda. Não tenho medo de me queixar porque sei que é a única pessoa que consegue entender as nuances do que digo ainda antes sequer de eu própria entender. E dou graças a quem quer que exista a puxar os cordelinhos por me ter colocado neste caminho, apesar de saber que a decisão de continuar a percorrê-lo é minha. Porque por mais dor que traga, também me faz ser mais forte e conhecer melhor as minhas capacidades de entrega interior para me tornar alguém melhor para si própria. 
Ajuda voltar a achar que vou respirar um pouco melhor, muitas vezes, à medida que parece que vamos desatando os nós e esta semana disse-me que parecia que eu estava enroladinha num novelo de lã. E eu não sei sair daqui, sinto que me enrolo mais à medida que o tempo vai passando. E que o meu peito dói mais. O único sítio onde a dor quase permanente em que vivo acalma é quando sei que não estou só. Porque me sinto só constantemente com as minhas coisas e os meus pensamentos. Estou só nos meus problemas porque não sou ouvida da forma que gostaria de ser, parece ser tudo sujidade que se esconde debaixo do tapete, parece ser tudo assobiado para o lado, empurrado com um pontapé, como se já não fosse possível trazer mais sofrimento a ninguém - talvez nunca tenha havido cota, merda. Merda. Eu não rebentei com a cota assim que nasci. Simplesmente nunca fizeram uma para mim porque lhes esgotei o ser ao nascer. [Foi isto? É isto? O meu cérebro explode porque eu não sei que palavras usamos. Só me lembro da dor e de querer fugir. De estar pregada à cadeira a sentir todo o meu corpo tremer.] Mas eu não tive culpa disso e eles também não. Não tens problema nenhum, és uma criança normal, não há nada errado contigo. Mas havia, sempre houve. O que é que se passa com esta família em que o sofrimento não pode ser sentido e vivido? Parece que existe um grau de loucura cujo expoente máximo é aquela que negou completamente a morte do marido e que deixou que ele sofresse horas seguidas, não auxiliando o marido moribundo, não lhe dando um pouco de paz. E ele precisava tanto dela, ele precisava de não ter morrido como morreu. E eu pergunto como é que é suposto lidar com isto? Não acho que seja possível conseguir ultrapassar um acontecimento tão traumatizante como este - e diz-me que tudo isto colocou a nu o que sinto e a forma como os vejo. Quando me diz que não confio neles. Que não acredito neles. Quando me pergunta se já perdi a esperança. Sei que sorri. E talvez não saiba a resposta a estas perguntas ou não queira saber. Às vezes prefiro não saber o que sinto - pode ser essa a causa pela qual neguei durante tantos anos precisar de percorrer este caminho. Na verdade, eu sinto que eu não sei aceitar isto tudo que agora vejo. Isto tudo que agora sei. Eu não sei aceitar tudo o que se arrasta à minha volta e tudo o que permanece assim, sem resolução visível. Eu não sei aceitar que tenho as mãos atadas e que não consigo fazer nada para resolver nada, que sou apenas uma espectadora atenta a certos detalhes da minha vida. E é por isso que tento estar em todo o lado ao mesmo tempo, perceber tudo e apoiar em tudo o que posso. É por isso que diz que eu tenho tendência para ser omnipotente e que quando o meu corpo paralisa e entro em pânico que é a maior verdade que poderia acontecer. Porque o meu pânico paralisante repõe o facto de eu não ser uma adulta que toma decisões. Repõe o facto de existirem pessoas antes de mim que as têm que tomar. Eu não posso ser mãe dos meus pais. Eu sou a filha. Diz-me isso provavelmente há dois meses e eu continuo sem conseguir saber como reagir e o que fazer - e já me afastei de tantos epicentros de crise. Só que continuo a sofrer. Continua a ser desesperante e aterrorizador viver assim. Continuo sem saber como sair deste novelo de lã onde vivo há mais anos do que quero admitir - do que sempre quis admitir. 
Evitei pensar porque doía até ter falado no assunto e ter sentido que abri um imenso buraco dentro de mim que sangra abundantemente e que não consigo controlar. Evito escrever mais que isto porque continua a doer. Só queria rebobinar tudo de forma a recordar exactamente todas as partes que me deixaram em ferida aberta e com as quais tenho que aprender a lidar. Colocar para o lado não é um bom princípio e eu tenho tendência a fazê-lo, com algumas dores de crescimento que as conversas me trazem. E eu sei que não me ajuda, no final do dia. A verdade é que poderia, muito bem, continuar a juntar palavras a estas que deixo aqui escritas e que isso não me faria diminuir, nem um pouco, o aperto que se instalou no meu peito. Dói-me não conseguir sair de mim para saber o que fazer.