Os meses podem suceder-se uns aos outros da forma que quiserem porque nada disso importa quando a dor que sinto dentro de mim desde que és luz não se evapora. Dizem que temos que aprender a viver com as saudades mas eu acho que antes disso temos que conseguir compreender os porquês. E eu não consigo compreender porque é que tiveste que ir. Que raio de ensinamento queria a vida, o tempo, os cometas, ensinar a esta família para que te arrancassem de nós sem dó nem piedade. Só sofrimento, teu e nosso. Teu, tanto.
Eu não consigo conceber o mundo que me tirou o meu avô da forma mais atroz que é possível lembrar-me que exista. Eu não sei entender o que é suposto retirar de tudo isto sem ser uma loucura que me leva ao desespero. Os meses continuam a passar e parece que a vida se vai reconstruindo aos bocadinhos mas eu fiquei parada no tempo em que aqui estavas. Eu fiquei parada porque continuo sem conseguir entender. Todos os momentos continuam a fazer-me lembrar a tua partida e o aperto que mora em mim não me deixa ter paz. E por falar em paz, saber que não a tiveste nos últimos momentos da tua vida térrea faz-me sentir uma revolta imensa que não tem passado de maneira nenhuma. Acalma quando me afasto do epicentro do furacão que a avó se tornou. Quando não ouço e quando não arde nos ouvidos e na pele aquilo que ela diz. É um insulto à forma como tu foste embora. É um insulto à vida que ainda tinhas dentro de ti quando poderia ter chamado por ajuda. Porque não era necessário fazer grandes malabarismos, bastava ligar para casa do filho onde alguém a iria acudir muito mais rápido do que ela poderia pensar. Eu não compreendo como é que ela continua a negar tudo o que aconteceu apenas e só para se deitar com a cabeça na almofada de forma mais tranquila. Nem sequer sei se é exactamente essa a razão e eu precisava de saber. Não sei que tipo de paz me trariam as respostas a estas perguntas mas sinto que corro uma maratona louca desde que foste embora e estou cansada disto. Só queria que tudo parasse um momento. Eu queria saber se tu agora ainda gostas verdadeiramente de mim, com tudo o que imagino que sabes desde que partiste. Sempre tive medo que soubesses em vida e que a desilusão pautasse o teu olhar mas a verdade é que não sei que orgulho tinhas de mim porque sinto que todas as escolhas que fiz desde que me tornei senhora das minhas próprias vontades não foram de encontro ao que tu gostarias. E agora que partiste gostava de saber se me amas, tal como amavas em vida. Porque eu quero acreditar que o amor que me tinhas era inquebrável, fossem quais fossem as minhas escolhas. Sinto tanto a falta de tantas coisas que nunca te disse e sinto tanto o último dia em que te vi, a despedida do teu olhar. E choro, por dentro. E caem-me lágrimas no colo sem as conseguir - ou tentar - controlar. Porque há dores que não se controlam e a tua partida é ferida aberta em mim, que não tem data de resolução. Dizias tantas vezes que íamos sentir tanto a falta do velho e dizias tantas vezes que te estavas a sentir cada vez mais doente. E eu só pergunto como é que não te lembraste, tu também, de nos pedir ajuda naquelas horas fatídicas? Nós iríamos socorrer-te. Sabias disso, certo? Morreste sabendo disso? Vês, avô? As questões nunca param e não sei como me ajudar.