terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Ainda bem que estávamos lá quando recebeste a notícia. Se já te admirava, quando o teu marido morreu, passei a admirar-te mais quando te vi reagir à notícia mais inesperada de sempre. A forma digna como te comportaste durante os últimos dias... Espero que cada vez que te tenha dado a mão ontem no carro, tenhas entendido isso. Espero que não estejas a falar a sério quando dizes que és a próxima a ir... porque não és. Vais viver até aos 120 anos e já sem dentinhos. Diz que sim, avó. Diz que sim. Mas tu não disseste...


Podia não vos ver há mais de dez anos, mas, mesmo assim, acho que dei todo o apoio que conseguia. Os abraços dizem mais que as palavras. E estarmos todos juntos também. Termo-nos sentado em volta do aquecedor quentinho, na capela onde há umas horas estava o corpo da minha tia, vossa mãe, vossa irmã, vossa... Ela ia adorar. E eu adorei rever-vos, a todos, e sentir que a palavra família é tão forte, mesmo num momento como este...
Permiti-me um dia de desespero. Um dia em que podia sentir tudo cá dentro às voltas. Um dia em que podia chorar tudo o que me apetecesse. Em que podia maldizer todas as partes do meu corpo e o meu próprio cérebro. Em que podia rever todos os passos que dei e todas as coisas que fiz desde que entrei naquele carro. Eu tinha tudo para passar naquele exame e não o fiz. Eu tinha tudo. E eu não consigo acreditar, ainda, que não o fiz. Que fui burra ao ponto de deixar escapar totalmente esta oportunidade. Bastava não ter parado o carro naquele cruzamento. Porque, assim, não me tinha descontrolado. Eu nem precisava... Ou, por outro lado, bastava simplesmente acalmar-me antes de colocar o carro a trabalhar de novo. Pensar. Pensar antes de agir. Não deixar que os nervos, a ansiedade e o pânico tomassem conta de mim e de todos os pequenos contornos do meu corpo. Burra. Mil vezes burra. Espero que tenhas aprendido. E agora pára de olhar para trás. E vai resolver a tua vida. Se só aprendes quando cais... já caíste. 

Obrigada por todo o apoio quando cheguei a casa ou quando liguei a chorar descontroladamente. Obrigada, de verdade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Há uma razão pela qual eu estou a escrever isto hoje. Estou a escrever isto hoje porque quero que fique marcado como uma coisa especial. Foi importante para mim ter chegado até aqui. Estar como estou hoje. E ontem. Depois do que aconteceu na terça feira. Sentir orgulho pelo que consegui alcançar, mesmo que as coisas não corram exatamente bem, no final.

Terça feira tive a pior aula de condução de sempre. Eu não sabia fazer nada. E, à noite, quando fui treinar ouvi um comentário que me deixou, ainda mais, enervada. «Mas porque é que estás assim? É mesmo preciso estares assim? Acalma-te. Acalma-te porque já nem consegues falar direito. Estás quase sem oxigénio. Ainda vou ter que ir contigo para o hospital.» E ter ouvido isto - e uns segundo antes ter gritado que me sentia uma autêntica merda... Fez curto-circuito no meu cérebro. Acho que foi a explosão que eu precisava para que conseguisse entrar nos eixos. Ter sentido aquele apoio, que não foi diferente de todas as outras vezes, modificou alguma coisa dentro de mim... Ter estado uma hora acordada durante a noite, a chorar, por achar que não seria capaz de enfrentar isto e a sentir que era uma inútil, fez-me abrir os olhos. E ter falado nas coisas durante o resto do tempo que faltava para entrar, novamente, no carro, também.

Na quarta eu sei que surpreendi o instrutor. Eu própria fiquei surpreendida. E senti que os meus níveis de ansiedade diminuíram exponencialmente. E senti que era capaz de dar a volta a isto. Que queria dar a volta a isto. Que ia dar a volta a isto. A aula de hoje de manhã era só a minha nova oportunidade de mostrar que sou melhor que o meu cérebro. E mostrei. Mostrei e vou continuar esse caminho.

No fundo, encontrei o busílis da questão. Isto da condução só faz parte da minha luta constante contra mim própria... E, por isso, o meu grande objetivo é acalmar-me. E incentivar-me a ser melhor do que já fui antes. E a fazer melhor. E a condução é só uma constante oportunidade disso. Foi isto que eu pensei. 

[E quando pensei nisto veio-me à cabeça uma coisa que  me diz várias vezes. «Isto apareceu aqui mas podia ter aparecido noutra coisa qualquer porque estás preparada, tens os olhos abertos, vês coisas e sentes coisas que antes não sentias». Quase que aposto que na próxima segunda - vai ficar tudo bem, não precisas já dela esta segunda que vem - quando lhe disser isto que vai ser isso que me vai dizer e vou rir-me e dizer-lhe que pensei nisto e vai responder-me «Afinal sempre fala comigo». Também já a conheço um bocadinho.]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Eu sempre senti que o nosso método de trabalho era demasiado semelhante e que pensávamos da mesma maneira. Eu sempre fiz força, na minha cabeça, para a ter do meu lado, mesmo quando toda a gente me dizia para escolher outras pessoas... Eu sabia que era a escolha certa. E, pelo menos, ia tentar. 
E todos os dias, de todas as horas que nos cruzamos, eu sinto, cada vez mais, que fiz a escolha certa para mim. Eu podia repetir isto mil vezes e mesmo assim não chegava. Sinto-me tão confortável por saber que está lá, por saber que posso chatear de todas as vezes e por saber que se vai rir quando vê o esforço todo que eu faço por isto. Por saber que o apoio e o entusiasmo são mais que sinceros. Por saber que está ali.  

Mas ontem... ontem foi muito mais do que isso. Ontem existiu uma linha qualquer invisível a ligar-nos, talvez eu estivesse disposta a isso, como em nenhum outro dia. Porque só ali é que percebi que estava demasiado sensível, que a segunda feira me tinha mandado abaixo... (burra, não sabes já isso? não sabes que mandam todas?!) Mas o melhor de ter um caminho definido e de ter uma linha de investigação que espero que não modifique mais... é ter a pessoa certa ao meu lado. É ter aquela pessoa que se preocupa verdadeira e sinceramente comigo muito para lá de um (importante) pedaço de papel. É saber que gosta de mim e que é por isso que pode parecer bruta. É saber que está disponível para me ouvir e que quer fazer perguntas e tem medo de as fazer porque pode intrometer-se demasiado na minha vida e posso pedir para se calar. Ontem houve uma altura em que comecei a tremer de todas as frases que dizia, parecia que me estava a descrever. Foi fazer com que me dissesse várias vezes que somos parecidas, muito parecidas, que estava a dizer-me todas aquelas coisas porque não queria que eu passasse o mesmo... Que gostava de mim, que me revia algures na pessoa que era. E depois eu sei que a conversa só terminou porque as horas mostraram isso, porque sei que tínhamos ficado ali mais tempo. Não fui só eu que senti tudo isto. Sei que não. 

Ter-me abraçado quando nos despedimos fez-me compreender que tudo isto não lhe passou ao lado, que o que aconteceu ali dentro foi incrivelmente verdadeiro. Sou uma sortuda por estar a aliar uma excelente orientadora com uma pessoa extraordinária, que era o que mais procurava.
Eu sei qual é que vai passar a ser a música das segundas feiras. 
Eu sei que devia de pensar nas coisas para as conseguir arrumar nas gavetinhas dentro de mim. E não estou a conseguir fazer isso. Não consegui fazer isso na altura porque tentei, ao máximo, não pensar nas coisas e adiar o enfrentar da realidade. E quando me doeu a sério continuei a ignorar, a deixar andar... a fazer o que faço com tudo... Então já estou a dever uns quantos pensamentos a mim própria. Estou a deixá-los de lado enquanto não posso focar-me completamente neles porque esta semana o foco tem que ser a condução.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os objetivos deste ano estão mais que definidos na minha cabeça, já desde o final do ano passado. São três, mais que principais.

Fazer a tese e fazer com que não me arrependa de todos os dias que batalhei por ela, que me levantei cedo, que percorri livros que não serviam para nada, que vi artigos que não tinham o que esperava, que desesperei pelas ideias todas que foram colocadas de lado... Eu quero isto, eu quero fazer isto com a orientadora que tenho, e não posso deixar de sentir o entusiasmo que se encontra dentro de mim desde o início. A tese, com uma nota de mais que excelência, por todo o trabalho que desenvolvi ao longo de todos os meses. Não ir abaixo com as dificuldades que vão aparecendo, que estão a ser mais que muitas... Não desistir. Não ouvir quem fala sem saber. Respirar fundo. 
Ter a carta de condução. Deixar de sentir ansiedade e nervosismo dentro de um carro porque eu sei conduzir. Deixar de sentir medo porque eu sei. Eu faço, eu consigo. Eu sou capaz. Não interessa ser surda. Não interessa nada. Interessa que eu consigo fazer porque toda a gente consegue. Um dia de cada vez e vou chegar lá. Não importa o que já passou. É só concentrar-me. Eu sou capaz. E esta semana vai provar-me isso.
Sentir-me bem, psicologicamente, para continuar a avançar em relação a quem sou. Sentir-me segura, confiante. Sentir que tenho capacidade para enfrentar as situações e que não lhes fujo com medo. Não ter ataques de pânico. Não me sentir paranóica. Maluca. Só sentir que sou capaz. Preciso de sentir que sou capaz. De resolver tudo. De ter a cabeça fria. De deixar de passar pelas situações, não posso mais ver a minha vida a passar, isso acabou. Sei que este é o mais difícil de atingir e o início deste ano não está a ser fácil para mim. Está a ser muito mais difícil do que esperaria. Mas eu sou capaz de lidar com o que veio, com o que vem, com o que virá. Não estou sozinha.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Quando eu ouço a música que preciso, na manhã que (mais) preciso. A música que me fez chorar quando eu mais precisava disso. São sempre eles. Irreconhecíveis, completamente. Mas era o que eu precisava, sem dúvida nenhuma. Em repeat.
A frase que martelou na minha cabeça durante toda a semana... A frase que eu não me conseguia recordar e que disse a toda a gente que me queria lembrar, passo o exagero. A frase que define a minha semana. 

«Quando não estamos preparados para uma situação, nunca mais voltamos a estar. Pelo menos para a mesma situação, na mesma circunstância.»
Estávamos a precisar de uma conversa como a que tivemos ontem. Estávamos a precisar de falar sobre as coisas sem qualquer tipo de tempo. E estávamos, ainda mais, a precisar de ter essa conversa cara a cara. Com um abraço no final. Porque eu preciso de ti estupidamente. Ouvir-te a chorar ontem assustou-me mas primeiro surpreendeu-me, foi uma coisa que me deixou totalmente sem chão.

«Sabes... Eu assustei-me quando choraste. Mas o teu choro foi a maior prova de amor que tu me poderias ter dado. Eu sei que os últimos tempos não têm sido fáceis para nós. Sei que eu faço pior muitas vezes. Sei que sou teimosa. Penso o contrário do que tu pensas. Quero levar a minha avante. Ou pelo menos que me entendas. Sei que existe uma parte de mim que exige demais em determinadas alturas... mas tu estares aqui... E especialmente esta semana... obrigada. O meu mundo colapsou. Ou o meu cérebro colapsou. Mas, tu estares aqui, torna tudo mais suportável. E chorares hoje foi provavelmente uma das coisas mais bonitas que fizeste até agora. Eu percebi o quanto gostas de mim só ali. Tive medo. Mas percebi.»
de ontem à noite. 

«I: Estava a pensar em ti. 

She: Porquê?

I: Em como foste mais que sei lá o quê nesta semana. Como contaste as horas comigo e esperaste ao meu lado. Como não me deixaste desmarcar quando a única coisa que eu queria era fugir. A sete pés. Como me fizeste acreditar que eu ia ficar bem quando saísse. Mesmo que não completamente, um bocadinho melhor. Como ficaste, ficaste e tornaste a ficar, mesmo que todas as noites tenhas acabado por ficar sem resposta da minha parte. Como estavas. Sempre. Incondicionalmente. Ao meu lado. A fazer-me rir ou a fazer-me abrir os olhos. Para o que vejo mas não quero ver. Para o que não me apercebo logo. Para o que quer que seja. 
Dizer que te agradeço é pouco. Espero que tenhas noção disso.»
«Eu estou aqui. Eu vou estar aqui, aconteça o que acontecer. Não importa o que acontece porque eu vou estar aqui. Venha a tempestade que vier. E depois da tempestade vem a bonança... Nós vamos resolver juntas.»

Lembro-me disto. Do resto lembro-me de frases soltas. Do meu desespero. Da minha dor. Da minha aflição. De sentir que estou a perder todos os filtros e que digo simplesmente o que sinto, como sinto e da forma que sinto. E que está ali uma pessoa à minha frente que consegue fazer o mesmo comigo sem ter que ter cuidado com as palavras, que está ali e que até pode gostar de estar ali, comigo. E que me diz que não estou sozinha. Por muita merda que venha ao virar da esquina não estou sozinha. Que me diz que a culpa é minha, mesmo quando eu não quero ver e não aceito isso, que me diz que eu quero dizer as coisas quando dois minutos antes eu disse que não queria... Que me faz sentir-me acompanhada como nunca estive.

«E eu sei que estás farta de viver assim, que os segredos te estão a matar por dentro e que se estão a tornar demasiado pesados.»

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sinto que não consigo ser coerente e que o meu cérebro não está, totalmente, a colaborar comigo. Só sei que estou onde nunca pensei voltar a estar e com aquela sensação que nunca pensei voltar a sentir. Desespero no nível máximo, pânico total. Não consigo deixar de pensar, de reconstruir na minha cabeça. Mesmo que por fora aparente uma estranha normalidade eu sei que não é assim. Afinal de contas eu já vivi semelhante... Só tenho que me esforçar muito para me lembrar que desta vez acaba por ser diferente porque desta vez eu tenho ajuda. E foi por isso que eu pedi ajuda. Mesmo que tenha sido no meio do pânico e que nem sequer me tenha feito sentido o que escrevi, quando li mais tarde. Mesmo apesar de ter acabado de (quase) sair de lá. A manhã de ontem parece que aconteceu há muitas vidas atrás. Nem a consegui processar porque não consigo processar nada depois disto. Só consigo tentar reconstruir as peças na minha cabeça para ver se lhes encontro um sentido que não vi ainda. A culpa é minha. A culpa é minha. A culpa é minha outra vez. Porque é que eu me desajudo em vez de me ajudar? Porquê? O meu cérebro não está a fazer sentido. Eu não sei o que digo, o que faço e o que sinto. Só preciso de aguentar até quinta. Só preciso de aguentar até voltar a entrar lá dentro. E acho que é desta vez que não quero sair. Vou com a tenda e fico lá. Não quero enfrentar o mundo cá fora.  

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sinto que passaram mil anos desde a última vez que escrevi porque não tenho conseguido fazê-lo. Não é que não sinta a necessidade disso mas não consigo. Já aconteceram mil coisas que eu deveria ter marcado aqui e que só navegam na minha cabeça porque não dá... E ter-te ouvido a dizer que estavas preocupada comigo porque eu não escrevia... é só sinal que me conheces de uma forma bonita.