Eu podia dizer que, desta vez, foi leve, porque não chorei, porque o meu peito batia ao compasso da respiração pausada do meio da sessão [naquela altura em que disse uma vez que sabia que eu já estava lá dentro] porque não ardeu enquanto a melodia era a nossa voz e os silêncios que respeita sempre. É tão bom sentir-me completamente ligada e respeitada em quem sou (mesmo que eu ainda não saiba isso completamente e tudo isto da vida seja só uma gigante descoberta interior), durante um bocadinho todas as semanas, sinto que há um espaço em que me é permitido tudo. Em que é tudo possível de ser dito porque não há julgamentos e em que não me vai falhar. É o meu colo, mesmo sem existir praticamente nenhum toque entre nós. É a minha força, quando não a tenho e ajuda-me a encontrá-la quando nem sei onde está ou sequer se existe... É, também, as minhas palavras, quando as procuro sem saber onde estão. É tudo isso, com a noção de que o é e com a capacidade de o dizer, o que torna tudo ainda mais verdadeiro. E isso é tão bonito e tão forte ao mesmo tempo. Porque sabe tudo o que me dá - e é clara e segura quando o diz, e essa força da experiência que pauta a vida é mesmo inspiradora - e eu sei perceber que sentiu os elogios - não são elogios, são verdades puras - da semana passada. E eu tive medo de voltar a cruzar os nossos olhares porque, para além do peso que senti quando o disse, senti também muita vergonha por ter dito o que disse em voz alta. Sinto sempre que há coisas que não se dizem mas depois vem e mostra-me que não posso ter medo das palavras ditas e eu acabo por confessar sentimentos que nunca esperei... Eu sei que me salvou, não é que não saiba, mas nunca equacionei dizê-lo em voz alta. E sentir que quis voltar a isso, esta semana, deixou-me mais envergonhada, mas talvez lá voltemos, algures, porque voltamos sempre a tantos sítios para fechar ciclos e abrir novos. Mas saber que referiu isso fez-me ter a certeza que o tinha sentido como eu e que a força do que disse foi arrebatadora. Rimos muito e sorrimos mais. Está ligada. Retira muito prazer disto, desta ligação, da intimidade que temos, por muito que diga que é doloroso e que não quer ver mais porque custa demasiado, está cá.
E parecia bem quando sai, tentei concentrar as minhas energias ao máximo num trabalho que me está a custar muito fazer. Depois da conversa que tivemos, senti que ganhei um pequeno boom de energia e aproveitei-o sem pensar muito no que tinha acontecido antes e no que poderia acontecer depois. Talvez esteja tão bloqueada em tudo porque estou a tentar gerir o meu tempo nas coisas, porque o meu plano inicial não era este e porque tenho que me adequar a este novo plano, e ali podemos só pensar em voz alta porque não há mal nenhum nisso. E disse-me que estas dúvidas todas que sinto, que as inseguranças e a ansiedade são muito mais verdadeiras do que se dissesse simplesmente que era tudo muito fácil e que era perfeitamente capaz de enfrentar o doutoramento sem nenhuma questão de fundo. Esta situação é diferente de tudo o que já vivi. É mais exigente. E eu sei - e soube antes de iniciar, daí o meu plano - que este período da minha vida deveria contar comigo completamente madura, nas ideias, nos sentimentos, na experiência de vida. Aos 24 anos não se sabe nada e não se pode seguir por ali porque a sociedade impõe que estudemos e que depois disso se lhe siga o emprego, a casa e os filhos. Os tempos são nossos e não é porque nos dizem que é melhor assim que vamos fazer assim... Sinto que tudo isto está a ser difícil e vai desaguar no sentimento de que entrei cedo demais nisto, mas não quer dizer que desista agora, só quer dizer que preciso de me habituar a esta realidade e sentir que sou capaz... E todos os "e se?" que me disse que compreende perfeitamente, que pense neles, ou que me assustem, porque existem. Se renovo o contrato? Se não renovo? Se tenho tempo para me candidatar em condições ao projecto da FCT? Se não falho nas minhas notas... Se falho? Disse-me que eu não aceitava menos de 18 e eu rio-me agora sozinha porque me conhece tão bem que não tenho palavras... Antes de começar o doutoramento fiz uma lista de objectivos e esse era o primeiro. E continua a ser, apesar de sentir que pode estar a ir por água abaixo. Sinto-me desiludida e sinto que estou a desiludir toda a gente à minha volta que espera que eu seja muito melhor do que me sinto a ser. E lidar com tudo isto tem dado muitas dores de cabeça e muitos bloqueios nas alturas menos devidas. Disse-me uma coisa que eu achei realmente bonita porque não costuma ser muito normal que eu fale no assunto mas a verdade é que sabe sem que eu diga... E diz que precisa de ajuda porque não adivinha, mas é só meio verdade, porque adivinha muitas coisas. O facto de me ter dito que achava que eu precisava mais do apoio da minha orientadora e que a relação de proximidade que tinha desenvolvido com ela me fazia muita falta neste momento... Falar-me em ir ter com ela, em nos sentarmos a trabalhar lado a lado no meu projeto... Há coisas que eu não preciso de dizer porque não é preciso, sabe e eu sei que sabe. Apesar de já o ter feito, sinto necessidade de o fazer novamente e paira na minha cabeça pedir-lhe para a ver, sem nunca o ter dito em voz alta até agora, devolve-me a ideia de que eu preciso dela ao meu lado. Já percebi que este assunto não morreu aqui, que vamos continuar a lidar com toda esta avalanche de sentimentos e emoções nas próximas semanas mas já não tenho medo de falar nelas, porque me ouve, porque está ali. Porque não me diz só que vou conseguir e que vai passar, porque me faz pensar nos porquês do que sinto e, com isso, nas formas possíveis de resolução. Diz sempre que estamos a falar sobre as coisas e que estamos a resolver dessa forma e sinto que é verdade, confio plenamente. Portanto, por muito que eu pergunte muitas vezes como é que desbloqueio tudo isto, eu sei que vamos encontrar algures uma maneira de me sentir bem no meio deste doutoramento. De me sentir capaz de o fazer. De sentir que não estou a falhar em cada passo que dou.
Sorriu quando lhe disse que o meu avô estava melhor, mas não respirei de alívio ainda. Este susto custou-me e vai continuar a custar-me... E isso levou-me a percorrer os velhos sentimentos de negligência que parece que me rodeiam. Disse-me que só via isso à minha volta neste momento porque estávamos a trabalhar nisso mas não sei se é só por isso ou se é porque há um monte de pessoas incompetentes... E eu sei que as pessoas não são perfeitas mas quem tem a vida de outros nas mãos deveria ter mais cuidado. Fez um comentário que me deixou confusa, porque as ligações que faz são sempre muito mais profundas do que alguma vez imagino... É engraçado porque, num outro prisma, foram os médicos que a salvaram. Talvez. Talvez não, de verdade.
Contei-lhe sobre a dificuldade que foi, para mim, sentir que saí... Ou, pelo contrário, que fiquei... Porque a semana passada eu senti que foi tudo tão pesado e que eu não estava a conseguir lidar com nada do que tínhamos falado. Que tinha ficado ali... Mas celebrei, durante alguns minutos, o bom que tinha sido não sentir aquele aperto doloroso que já é parte de mim durante algum tempo depois da sessão... Ah, só teve data de validade de meio dia? Dia e meio? Então é preciso termos sessões todos os dias. E rimos, porque não foi nada disso que eu disse, mas as pequenas provocações são sempre essenciais nos minutos em que nos vemos. Falámos sobre o facto de me ajudar, de me fazer sentir mais leve muitas vezes quando saio e eu disse que não, que não sentia mas disse-me que sim e que este era um dos exemplos disso. Tentou que eu falasse sobre o que me custou tanto na semana passada mas eu penso que não lhe especifiquei nada porque não queria lidar com isso profundamente... Portanto fui só respondendo afirmativamente às questões. Foi por termos falado da inevitabilidade da morte? De, pela idade que têm, ser natural que os avós morram? Foi tudo isto, e foram tantas outras coisas... Até que ganhei coragem para partilhar o que tinha prometido partilhar na semana anterior... Quando referiu o assunto de passagem eu disse que ficaria para a semana seguinte, porque naquele momento não tinha coragem ou força para partilhar ou falar sobre o assunto... E respirei fundo, com o peito a arder, e falei. Disse-me, quando lhe pedi para pararmos só para admirar o facto de ter dito a palavra em voz alta, que não podia ter medo das palavras, que elas não matavam... Mas matam por dentro.
E mostrou-me, logo de seguida, que não tem medo de nenhuma palavra... Quando eu parei, porque parando a meio chegava lá de certeza... Fez questão de me mostrar que não faz mal... Filho da... Puta. Sim, isso. E continuei... Expliquei tudo o que tinha acontecido e voltei a parar. Porque não vejo - vi - necessidade de expor o resto por ser perceptível... Perguntou-me o que tinha dito. Preto no branco. E acho que toda esta sessão foi uma imensa aprendizagem para mim, sobre não ter medo das palavras. Sobre não ter medo de falar. Sobre lhe poder dizer tudo. Porque não há nada que seja proibido. Que seja julgado. Que seja ignorado. Disse-me que sabia que eu tinha medo que acontecesse alguma coisa grave. Perguntou-me, e pergunta tanta vez, de que tenho medo... De um acidente? De morrerem todos? Disse-me que sabia que eu não queria morrer. E eu respondi às vezes. Disse-me que me incomodava todo o ambiente à minha volta, que me custava que tivesse a nossa vida nas mãos dele, para além de tudo o resto... De sentir que não éramos protegidas e que algum dia tudo ia explodir. Que eu estava sempre à espera que acontecesse - não hei de me sentir mal... Perguntou-me se tinha falado depois sobre o assunto diretamente, mas não, não falei. Já tentei falar algumas vezes e não penso que a minha opinião seja igual à opinião geral. Não sei se alguém vê um problema aqui. Já referi muitas vezes que me sentia maluca, porque nem sequer sei se eu vejo um problema aqui ou se é normal ser assim - estar assim, comportar-se assim. Disse-me que eu não podia fazer nada neste caso, só falar sobre o assunto, mesmo que não fosse ouvido... Disse-me que compreendia a falta de protecção que sentia por causa de tudo isto mas, sempre, que não existem milagres se as pessoas não quiserem fazer nada. E ainda falamos de pé, coisa que não é habitual. Falamos mesmo até abrir a porta.
E desde meio da tarde de ontem que carrego um peso no peito tão profundo... Sei que não me lembro de muito do nosso final mas estou a tentar acalmar-me porque me disse que era melhor isso, do que ficar irritada por não me lembrar... As coisas estão lá, diz-me tantas vezes. E eu só espero que estejam mesmo algures dentro de mim porque preciso de as encontrar para ter força.