domingo, 26 de maio de 2019

«Acho que para ti, de uma forma ou outra, isto é estar perto dela. Independentemente de estares a ser rebaixada a alguém com quem ela não se preocupa, não quer saber e por quem não tem mostrado nada a não ser crueldade, frieza e até um certo desprezo. Mas tu estás perto dela. E isso parece que te apazigua, mesmo estando a ser espezinhada em todos os sentidos. Ela está a falar contigo. E pronto. (...) Preferia não conhecer, preferia achar que isto era apenas mais uma tentativa de resolver seja o que for. Mas já nem isso é. Isto és tu, com o único motivo de estares perto dela. Mas sabes uma coisa, Rosa? Neste momento, és tu que estás a ser cruel para contigo própria. Juntamente com ela. Tu estás a compactuar com tudo o que ela te faz, ao ajudares a fazê-lo a ti própria. E acredita que me custa dizer-te isto, mas custa-me ainda mais ver o que (te) estas a fazer.»

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Para não (me) esquecer.

"Tens. Tens de abrir os olhos e deixar de ser tão exigente. Tens de abrir os olhos e ver que dificilmente vais encontrar outra pessoa que aguente mais ou tanto que eu, que ature os teus problemas, que espere pela resolução deles, que espere por ganhares a tua liberdade. As pessoas ficam mais velhas e não querem chatices de merda. Muito menos querem andar a brincar aos adolescentes que não saem e não fazem a vida deles por causa dos pais. As pessoas ficam mais velhas e sabem muito bem aquilo que querem ou pelo menos aquilo que não querem. E as pessoas não querem alguém numa situação como a tua. Não esperes encontrar alguém que vá estancar a sua vida para esperar eternamente por ti. Isso não acontece. Nem eu consegui e também eu tenho os meus problemas que não me deixam avançar e viver a vida normalmente. Por isso abre os olhos e mete os pés, as pernas à estrada. Rapidamente. Porque vais acordar e já vais ter mais de 25 anos e não aproveitaste a vida. É o meu conselho"

Mal li a mensagem, andei uns metros e desabei. Perdi a força nas pernas e perdi a vontade de caminhar. Sentei-me num banco, a tremer, a chorar. Não entendo como é que, numa capa de sinceridade, alguém pode ser tão cruel ao ponto de utilizar todas as fraquezas e fragilidades do outro e atira-las e, depois, simplesmente lhe dizer que não vai ser feliz com mais ninguém. Porque ninguém vai aturar "isto". Isto sou eu. Isto são as minhas dores. As que entrego a poucos e as que te entreguei, nunca pensando que fosses cravar mais uma faca na minha essência de forma tão clara. É uma traição a quem sou de cada vez que tens que cuidar-me e não o fazes e é uma traição ainda maior utilizares os meus piores pesadelos para me magoar desta forma, sabendo deliberadamente que o fazes - porque só podes saber. Nunca te fiz o mesmo, nunca te atirei à cara todo o caminho que tens que percorrer, porque as coisas dizem-se de várias formas. Não a forma cruel que escolheste. Agradeci-te pela sinceridade porque, cega como estás, nunca vais entender a dor que me causaste - ou, se calhar, sabes, e foi propositada. Mandar alguém à merda não é insulto nenhum e não é nada, mesmo nada, comparado com a dor que causaste. Depois disto, qualquer esperança que eu tivesse de que abrisses os olhos para o que (me) andas a fazer foi aniquilada totalmente. Porque se nem te importas em me magoar desta forma, é sinal que não te importas, de todo, comigo. Eu já sabia, mas, ainda assim, dói. 
Sempre que saio cá para fora, depois de percorrer a maratona interior mais longa da minha semana, ouço que estou estranha. Fico demasiado introspectiva, sem saber o que dizer, o que pensar, o que sentir. Como lidar com o mundo que continuou a correr enquanto eu voei. 
A avalanche de emoções toma conta de mim de tal maneira que não há como não parecer deslocada deste mundo e num outro qualquer. O meu corpo permanece, a minha cabeça está noutro lado. Talvez lá dentro, talvez muito longe. A forma como tudo me toca - e toca tão profundamente - é diferente todas as semanas. Tenho que procurar dentro de mim capacidade para absorver todas as palavras ditas e todas as palavras não ditas, todos os olhares, todas as perguntas que deixo no ar e teima em não responder... Eu sei que tenho que ser eu a fazê-lo e não quero demitir-me da minha responsabilidade em tomar as minhas decisões de vida, mas, às vezes, poderia ajudar mais - em vez de desajudar, como lhe disse que fazia esta semana. Não digo que não me ajudou, ajuda sempre, mas não responder às questões diretas que lanço e fazer-me pensar em situações que ainda não me tinham passado pela cabeça é trazer mais lenha para uma fogueira que já está a arder. Sei que erro quando digo que desajudou porque, na verdade, não criou nenhum castelo no ar, apresentou-me a realidade, nua, crua e fria, mas continuou sem me responder - e eu sei que não pode, mas raios... Eu precisava. Já quase que a ouço dizer que agora me apetece mandá-la também à merda, mas nunca poderia. Só não posso deixar de me zangar quando necessito desesperadamente de respostas e deixo perguntas no ar sem as obter. Só sorri. Só espera que eu fale. Só não me deixa sozinha. Mas não tem voz, não tem opinião e à medida que avançamos nesta floresta profunda eu sinto que preciso mais de um guia com uma lanterna do que andar de mão dada às cabeçadas... Guia-me sem eu ver nada, ainda assim, porque durante a semana vou recebendo pedacinhos do que me diz - do que parecia não estar a ajudar-me - e sentir que podem ser uma possível solução. E a lembrar-me de frases assustadoras e de paralelos que não vejo, que me são transmitidos e que me causam tanta impressão como dor. Como comparar a minha relação - e a forma como me comporto nela - com a minha relação com a minha mãe. E, mais uma vez, ouvir que me estou a destruir... É difícil viver a separação, não é? O mais difícil é o equilíbrio entre a emoção e a razão - porque não quero viver sem ela mas também não posso viver com ela. E é esse desequilíbrio que me faz entrar completamente de cabeça perdida, a fervilhar de raiva. Quando já pedi tanto colo e continuo sem o ter. Quando já implorei tantas vezes e continuam ser ver. O que mais me custa é continuar a magoar-me para manter toda a gente à tona. [tu estás a afundar-te para as manteres a respirar] 
Tenho medo, de ficar sozinha, de ser sozinha. Sinto-me cada vez com mais medo e mais anulada, desesperada e caída. A força que tenho para caminhar é cada vez menos. Tal como lhe disse, sou uma árvore que não está segura, vem uma rabanada de vento e... Tenho medo de ser arrancada, de tombar. E qualquer coisa me pode fazer esgotar por completo as minhas forças... Qualquer coisa, o mínimo que seja, pode ser o trigger que despoleta uma tempestade da qual não sei sair - mas, ao mesmo tempo, parece que nunca saí do centro da tempestade. Disse-me que eu me estava a destruir e constantemente mo diz e custa-me mais ouvir quando é da boca de alguém que tudo vê de fora e só a mim me conhece. "Para ser o plano B deles está a deixar de lado o seu plano A". E a prova em como isso está a acontecer é que, precisamente no dia em que tenho uma resposta positiva vinda deste lado, uma esperança neste mar de dúvidas, verbalizo em voz alta a minha vontade de simplesmente sair e me preocupar com o meu doutoramento e com todas as coisas inerentes ao meu futuro. Falamos sobre a minha falta de coragem - o meu segundo nome é exatamente esse - em relação a muitas coisas mas eu acho que ela aparece quando me sinto a respirar livremente por uns segundos, quando me permito algumas golfadas de ar, depois de ventos amenos de esperança. O que me continua a doer é esta facilidade em ver fendas numa rocha [a minha família] que achava concreta, dura e inquebrável. Quanto mais olho, mais fendas vejo e menos rocha. Ver o sofrimento dos que me rodeiam, pressentir esse sofrimento antes de o ver... A forma de agir desta família centra-se, aos meus olhos, num desmentido total de toda a realidade e isso, cada vez mais, é sinónimo de sofrimento. Terminou a dizer-me - e a abrir-me uma ferida que sangra - que sabia que eu tinha medo, do que ela ia dizer, do que ela poderia fazer. E tenho. E ter ouvido isso doeu mais do que nunca. Porque eu sei que é verdade, só é difícil verbalizar e, por isso, nunca o fiz. Fez por mim. Faz por mim. 

sábado, 18 de maio de 2019

Não foi, de todo, leve, mas pareceu. Houve sorrisos, risos, gargalhadas. Houve gargalhadas por entre o meu choro - até fiz piadas secas. A incerteza do futuro assusta-me e tenho um medo danado do que será o futuro sem a sua presença - mesmo que vá em mim, mesmo que tenha essa convicção profunda de que está algures dentro de mim de uma forma muito forte. E sempre que me lembro do seu sorriso sei que está. Sempre que me recordo de qualquer coisa que me disse, dou-lhe razão. Mas lá, só lamento saber que, muito brevemente, não terei este apoio tão certo, disponível e especial, tão coerente e concreto. 
Sei que, na sexta feira, houve, principalmente, uma coisa que não estou muito habituada que aconteça, um abordar do assunto sem lhe fugir. Porque é mais fácil dar um pontapé no elefante branco que está no meio da sala do que deixá-lo instalar-se entre nós - só o consegui por me guiar, por me fazer falar sobre o nosso prazo de validade, por ter introduzido o assunto por meio de mais uma das provocações que não me importo nada que existam. E tem-me ensinado que mandar pontapés em elefantes é a melhor solução para as situações e que fugir não é viável. E o melhor de tudo é que o faz por meio de ações concretas e claras. Não é muito melhor falar sobre o assunto do que deixar por abordar? Não é muito melhor parar o ciclo dos assuntos por abordar, dos silêncios dolorosos em mim e dos gritos que vociferam para dentro? Sim, prefiro falar por muito que doa, por muito que no meu primeiro impacto só tenha querido fugir sem pensar - e até disso fez uma piada, e eu não me importo nem um pouco com as provocações leves ou fortes que me envia porque são um sinal da conexão e da relação que fomos construindo. Só me faz ter mais a certeza que não haveria mais ninguém com quem eu iniciar este caminho de descoberta interior. 
Falámos muito sobre o privilégio do tempo que passou por nós e deste caminho que parece parado mas onde os passos são, mais ou menos, constantes. Falou-me sobre a vontade que tem em ver o outro crescer, em assistir ao desabrochar das pessoas, à formação do carácter. Falou-me muito da sua paixão e eu vi a psicoterapia pelos seus olhos e ainda me pareceu mais apaixonante. Falou sobre o meu caminho e o meu crescimento, voltou a dizer-me que eu sobrevivi, que estou aqui, que terminei uma etapa na faculdade, que estou a fazer um doutoramento e que sou uma mulher inteligente e sensível. E eu gritei-lhe se era só isso que interessava... E agora tenho vergonha da reação que tive mas sinto-me farta que a sociedade conte os estudos que temos e não olhe ao carácter humano - antes de ter falado da minha inteligência e sensibilidade já lhe gritava... 
Garantiu-me que iríamos arranjar uma solução para tudo juntas, foi uma promessa sentida que eu sei que será cumprida algures no tempo e que não vamos perpetuar o ciclo dos não assuntos porque eu não posso funcionar assim. Falei-lhe sobre o medo de sair prematura e sobre a sensação de que saírei dessa forma e sinto que se orgulhou de mim quando o disse. 
Mas comecei pelo que é mais difícil e pelo que manchou a minha semana... Li-lhe trechos do diário do meu avô e chorei. Chorei à medida que falava comigo e que a ouvia e agora não sei precisar nem um pouco do que ouvi. Chorei por mim criança e chorei por mim mulher, por não me sentir uma - por sentir que nada do que faço, faz com que tenha uma vida mais estável no imediato, por continuar em casa dos meus pais, por não ter avançado, por continuar a utilizar uma máscara todos os dias. Chorei quando me perguntou se eu chorava pela bebé de dois anos ou pela menina crescida, e eu chorava só. Pelas duas. Chorei porque tenho tudo mas tenho noção dos alicerces tão pouco seguros onde a minha construção foi feita. Chorei pela dor e pela consciência e, sobretudo, a certeza de que a terapia me dá as respostas certas antes de fazer as perguntas que deveria. E fiquei tão pesada, sai de lá com um peso em cima, apesar dos risos que demos e das piadas que fiz enquanto chorava. Acho que o peso ainda é parte de mim e terei tão pouco tempo para processar e regressar - e cada vez que regresso é menos um regresso porque o calendário está a contar.
A única coisa que não queria era ficar sem si. Às vezes sou tão sincera que até me assusto com o transparente que consigo ser com os seus olhos presos em mim. 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Uma miscelânea de tudo o que tenho pensado e falado nos dois últimos dias sobre esta situação, com a única pessoa com a qual consigo conversar minimamente sobre o assunto e sobre as dores que me têm rasgado pedaços da alma... Uma miscelânea porque tenho tido vontade de lá voltar, de forma constante, para me lembrar que o que eu vejo se vê de fora - se não estivermos de olhar toldado somos capazes de ver muito mais e muito melhor. 

"Ela precisa de aprender a estar numa relação, independentemente das circunstâncias. (....) Ela tem que saber ser em condições para ti, independentemente de estar a dois metros ou a 2000 km. Não interessa. É a pessoa que ela é que conta, não a distância. (...) E olha que a distância e as circunstâncias relativas a elas não são a maior das coisas. (....) Lá está. Tu estás lá, tu ouves, tu fazes tudo, excepto estares disponível para estares mais vezes com ela. E ela, está "super disponível" para estar pessoalmente contigo, mas, tirando isso, não faz mais nada. Faz meia dúzia de perguntas de "como está tudo" e acha que já fez imenso. Mas lá está, agora para ela a única coisa que importa é o estarem juntas. Para ela, isso vai resolver tudo."

De hoje... "Mas ela tem noção? Não, não tem. Que pergunta a minha. (...) eu já não me consigo escandalizar."

Disseste-me que não valia a pena passar-me porque já tantas vezes me passei e não ia resolver nada. Então estou a tentar acalmar-me sozinha e pensar que passar-me só me vai fazer mal a mim, que as respostas serão sempre do mesmo género frio, sem noção e pouco empáticas, vazias de qualquer sentido de preocupação e querer bem... E vou aprender a parar de lutar porque, tal como disseste, eu continuo a tentar - embora tenha dito e volte a repetir uma e outra vez que já desisti. Às vezes, se não estivesses aqui, achava que estava a enlouquecer, a pedir o impossível e a ser só maluca. Não sou maluca quando vês o que eu vejo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Os pés arrastavam-se enquanto deveriam andar. Sentia que estava a ir para o único sítio do mundo onde poderia estar em ferida total por dentro sem ter medo que se visse do lado de fora. Ao mesmo tempo não queria ir, não queria mostrar a dor, não queria falar sobre ela. Mas queria ser acalmada pelo sorriso com que sempre me espera e tocada pelas palavras que tem sempre para mim. Por mais que seja a minha voz que se ouça... Nunca me vou habituar completamente à sensação de ouvir a minha voz a dizer exactamente o que eu sinto, sem pensar antes e ponderar muito bem sobre o que sinto. Nunca me vou habituar à dor que é ouvir o que sinto sem vir da minha voz, porque como dói tanto deixo por dizer. Como não percebo opto por não tocar. 
Eu preciso sempre de escrever para refletir e deixar as memórias tornarem-se mais focadas na minha mente e sei que, desta vez, não me estou a permitir a isso. Mais uma vez, bloqueei tanto do que disse, do que me disse, do que me fez sentir. Só sei que há um assunto que vai estar sempre presente daqui para a frente: o nosso fim. É inevitável. Vai acontecer. E isso embrulha-me o estômago porque tenho um medo danado de ficar sozinha com tudo o que se passa em mim. Não consigo, aliás, conceber a solidão de ouvir em silêncio os meus próprios pensamentos depois de os ouvir realmente a viva voz durante tanto tempo - é realmente um amor-ódio este caminho que percorro. Este assunto embrulha-me tanto o estômago que sei que ainda não tive capacidade de o esboçar como poderia, que isso me deveria fazer sentir melhor... Mas não sei, sinto-me como se estivesse a perder uma parte muito importante de mim que não vou recuperar. Não sinto que me esteja a abandonar de propósito mas sinto que estão a obrigar-nos a que tudo seja mais apressado e eu estou cansada de perpetuar o ciclo das saídas prematuras. Eu mereço estar preparada, presente e concreta nos meus tempos, segura da força com que caminho. E não estarei, só sei que não estarei, ainda. E a minha preocupação maior com o que lhe ia acontecer do que comigo deu-me a frase da semana (porque há sempre uma à qual me agarro quando custa muito a passar) "lá está, a querer sempre cuidar mais do outro do que de si. Eu vou ficar bem e quem tem que cuidar de si aqui sou eu", e há mesmo frases que são abraços de alma...
Há pontos que conecta que me fazem sempre impressão depois de os conectar e que demonstro logo à partida não concordar absolutamente com eles e o ponto do "como fez boom aqui, fez boom lá" não liga, de todo, com a situação. Porque eu sei que eu andava a adiar o "boom lá" há muito tempo, a tentar erguer uma relação sozinha, a tentar dar o meu melhor quando não era ouvida, sentida e acarinhada como deveria... O amor por ela foi sempre mais forte que o amor por mim. Até que, sessão atrás de sessão, voltávamos ao colo roto e tudo em mim rompia mais um pouco... E não aguentei, não consegui aguentar nem sequer um dia mais... E, há um lado de mim, que saiu da sessão aliviada por saber ouvir as minhas próprias palavras e saber mesmo que, por agora, por muito que doa, não dá agora. Só que é tão diferente de todas as outras vezes que é tão difícil de falar e que tenho sentido tanta confusão dentro de mim que até o meu cérebro é vazio. Toda eu sou vazio. Vazio e dor momentânea no peito. Vazio e cabeça a explodir. Vazio e tristeza. Vazio. 

quinta-feira, 2 de maio de 2019

30 de abril de 2019