Sempre que saio cá para fora, depois de percorrer a maratona interior mais longa da minha semana, ouço que estou estranha. Fico demasiado introspectiva, sem saber o que dizer, o que pensar, o que sentir. Como lidar com o mundo que continuou a correr enquanto eu voei.
A avalanche de emoções toma conta de mim de tal maneira que não há como não parecer deslocada deste mundo e num outro qualquer. O meu corpo permanece, a minha cabeça está noutro lado. Talvez lá dentro, talvez muito longe. A forma como tudo me toca - e toca tão profundamente - é diferente todas as semanas. Tenho que procurar dentro de mim capacidade para absorver todas as palavras ditas e todas as palavras não ditas, todos os olhares, todas as perguntas que deixo no ar e teima em não responder... Eu sei que tenho que ser eu a fazê-lo e não quero demitir-me da minha responsabilidade em tomar as minhas decisões de vida, mas, às vezes, poderia ajudar mais - em vez de desajudar, como lhe disse que fazia esta semana. Não digo que não me ajudou, ajuda sempre, mas não responder às questões diretas que lanço e fazer-me pensar em situações que ainda não me tinham passado pela cabeça é trazer mais lenha para uma fogueira que já está a arder. Sei que erro quando digo que desajudou porque, na verdade, não criou nenhum castelo no ar, apresentou-me a realidade, nua, crua e fria, mas continuou sem me responder - e eu sei que não pode, mas raios... Eu precisava. Já quase que a ouço dizer que agora me apetece mandá-la também à merda, mas nunca poderia. Só não posso deixar de me zangar quando necessito desesperadamente de respostas e deixo perguntas no ar sem as obter. Só sorri. Só espera que eu fale. Só não me deixa sozinha. Mas não tem voz, não tem opinião e à medida que avançamos nesta floresta profunda eu sinto que preciso mais de um guia com uma lanterna do que andar de mão dada às cabeçadas... Guia-me sem eu ver nada, ainda assim, porque durante a semana vou recebendo pedacinhos do que me diz - do que parecia não estar a ajudar-me - e sentir que podem ser uma possível solução. E a lembrar-me de frases assustadoras e de paralelos que não vejo, que me são transmitidos e que me causam tanta impressão como dor. Como comparar a minha relação - e a forma como me comporto nela - com a minha relação com a minha mãe. E, mais uma vez, ouvir que me estou a destruir... É difícil viver a separação, não é? O mais difícil é o equilíbrio entre a emoção e a razão - porque não quero viver sem ela mas também não posso viver com ela. E é esse desequilíbrio que me faz entrar completamente de cabeça perdida, a fervilhar de raiva. Quando já pedi tanto colo e continuo sem o ter. Quando já implorei tantas vezes e continuam ser ver. O que mais me custa é continuar a magoar-me para manter toda a gente à tona. [tu estás a afundar-te para as manteres a respirar]
Tenho medo, de ficar sozinha, de ser sozinha. Sinto-me cada vez com mais medo e mais anulada, desesperada e caída. A força que tenho para caminhar é cada vez menos. Tal como lhe disse, sou uma árvore que não está segura, vem uma rabanada de vento e... Tenho medo de ser arrancada, de tombar. E qualquer coisa me pode fazer esgotar por completo as minhas forças... Qualquer coisa, o mínimo que seja, pode ser o trigger que despoleta uma tempestade da qual não sei sair - mas, ao mesmo tempo, parece que nunca saí do centro da tempestade. Disse-me que eu me estava a destruir e constantemente mo diz e custa-me mais ouvir quando é da boca de alguém que tudo vê de fora e só a mim me conhece. "Para ser o plano B deles está a deixar de lado o seu plano A". E a prova em como isso está a acontecer é que, precisamente no dia em que tenho uma resposta positiva vinda deste lado, uma esperança neste mar de dúvidas, verbalizo em voz alta a minha vontade de simplesmente sair e me preocupar com o meu doutoramento e com todas as coisas inerentes ao meu futuro. Falamos sobre a minha falta de coragem - o meu segundo nome é exatamente esse - em relação a muitas coisas mas eu acho que ela aparece quando me sinto a respirar livremente por uns segundos, quando me permito algumas golfadas de ar, depois de ventos amenos de esperança. O que me continua a doer é esta facilidade em ver fendas numa rocha [a minha família] que achava concreta, dura e inquebrável. Quanto mais olho, mais fendas vejo e menos rocha. Ver o sofrimento dos que me rodeiam, pressentir esse sofrimento antes de o ver... A forma de agir desta família centra-se, aos meus olhos, num desmentido total de toda a realidade e isso, cada vez mais, é sinónimo de sofrimento. Terminou a dizer-me - e a abrir-me uma ferida que sangra - que sabia que eu tinha medo, do que ela ia dizer, do que ela poderia fazer. E tenho. E ter ouvido isso doeu mais do que nunca. Porque eu sei que é verdade, só é difícil verbalizar e, por isso, nunca o fiz. Fez por mim. Faz por mim.