sábado, 18 de maio de 2019

Não foi, de todo, leve, mas pareceu. Houve sorrisos, risos, gargalhadas. Houve gargalhadas por entre o meu choro - até fiz piadas secas. A incerteza do futuro assusta-me e tenho um medo danado do que será o futuro sem a sua presença - mesmo que vá em mim, mesmo que tenha essa convicção profunda de que está algures dentro de mim de uma forma muito forte. E sempre que me lembro do seu sorriso sei que está. Sempre que me recordo de qualquer coisa que me disse, dou-lhe razão. Mas lá, só lamento saber que, muito brevemente, não terei este apoio tão certo, disponível e especial, tão coerente e concreto. 
Sei que, na sexta feira, houve, principalmente, uma coisa que não estou muito habituada que aconteça, um abordar do assunto sem lhe fugir. Porque é mais fácil dar um pontapé no elefante branco que está no meio da sala do que deixá-lo instalar-se entre nós - só o consegui por me guiar, por me fazer falar sobre o nosso prazo de validade, por ter introduzido o assunto por meio de mais uma das provocações que não me importo nada que existam. E tem-me ensinado que mandar pontapés em elefantes é a melhor solução para as situações e que fugir não é viável. E o melhor de tudo é que o faz por meio de ações concretas e claras. Não é muito melhor falar sobre o assunto do que deixar por abordar? Não é muito melhor parar o ciclo dos assuntos por abordar, dos silêncios dolorosos em mim e dos gritos que vociferam para dentro? Sim, prefiro falar por muito que doa, por muito que no meu primeiro impacto só tenha querido fugir sem pensar - e até disso fez uma piada, e eu não me importo nem um pouco com as provocações leves ou fortes que me envia porque são um sinal da conexão e da relação que fomos construindo. Só me faz ter mais a certeza que não haveria mais ninguém com quem eu iniciar este caminho de descoberta interior. 
Falámos muito sobre o privilégio do tempo que passou por nós e deste caminho que parece parado mas onde os passos são, mais ou menos, constantes. Falou-me sobre a vontade que tem em ver o outro crescer, em assistir ao desabrochar das pessoas, à formação do carácter. Falou-me muito da sua paixão e eu vi a psicoterapia pelos seus olhos e ainda me pareceu mais apaixonante. Falou sobre o meu caminho e o meu crescimento, voltou a dizer-me que eu sobrevivi, que estou aqui, que terminei uma etapa na faculdade, que estou a fazer um doutoramento e que sou uma mulher inteligente e sensível. E eu gritei-lhe se era só isso que interessava... E agora tenho vergonha da reação que tive mas sinto-me farta que a sociedade conte os estudos que temos e não olhe ao carácter humano - antes de ter falado da minha inteligência e sensibilidade já lhe gritava... 
Garantiu-me que iríamos arranjar uma solução para tudo juntas, foi uma promessa sentida que eu sei que será cumprida algures no tempo e que não vamos perpetuar o ciclo dos não assuntos porque eu não posso funcionar assim. Falei-lhe sobre o medo de sair prematura e sobre a sensação de que saírei dessa forma e sinto que se orgulhou de mim quando o disse. 
Mas comecei pelo que é mais difícil e pelo que manchou a minha semana... Li-lhe trechos do diário do meu avô e chorei. Chorei à medida que falava comigo e que a ouvia e agora não sei precisar nem um pouco do que ouvi. Chorei por mim criança e chorei por mim mulher, por não me sentir uma - por sentir que nada do que faço, faz com que tenha uma vida mais estável no imediato, por continuar em casa dos meus pais, por não ter avançado, por continuar a utilizar uma máscara todos os dias. Chorei quando me perguntou se eu chorava pela bebé de dois anos ou pela menina crescida, e eu chorava só. Pelas duas. Chorei porque tenho tudo mas tenho noção dos alicerces tão pouco seguros onde a minha construção foi feita. Chorei pela dor e pela consciência e, sobretudo, a certeza de que a terapia me dá as respostas certas antes de fazer as perguntas que deveria. E fiquei tão pesada, sai de lá com um peso em cima, apesar dos risos que demos e das piadas que fiz enquanto chorava. Acho que o peso ainda é parte de mim e terei tão pouco tempo para processar e regressar - e cada vez que regresso é menos um regresso porque o calendário está a contar.
A única coisa que não queria era ficar sem si. Às vezes sou tão sincera que até me assusto com o transparente que consigo ser com os seus olhos presos em mim.