Não consigo nem sei (ainda) evitar a sensação que se apodera de mim à medida que os dias passam no calendário e chegam a meio do mês. Torno-me apática e todos os movimentos que faço são mais lentos e muito mais dolorosos. Como se pressentisse sempre que o dia está a chegar. Como se a dor fosse escalando até chegar ao dia em que me lembro de todos os passos que dei e que me lembro que já não estavas, já não eras. Que nunca mais te vi naquela porta. Que nunca mais disseste Adeus em vez de Olá. Nunca mais te vi. E, sobretudo, não te vi ainda em casa. Naquele quarto frio que é sinónimo da tua morte. Não me pude despedir de ti nem estar no centro de toda aquela tragédia triste que foi a madrugada em que partiste, sem eu perceber bem porquê.
Ontem entrei no quarto e aproximei-me da cómoda, não sei bem porquê. Fiquei ali por uns segundos, a fixar o meu olhar no espelho. Estendi a mão até à tua urna e a mão ficou no ar porque não cheguei a tocar naquela mala que a protege. E depois retirei a mão, ao ouvir um chamamento, e fugi dali tão rápido como entrei.
Não costumo entrar dentro daquele quarto, já não era habitual antes. Mas desde que morreste deitado naquela cama, muito menos... Olhar lá para dentro faz-me lembrar que morreste ali. Que as tuas cinzas estão em cima da cómoda, naquela mala estúpida e ridícula que a protege de olhar para o que te tornou, porque ela foi uma das causas mais fortes pelas quais já não fazes parte deste mundo. E ela chega ali e fala sempre contigo, como não fazia quando estavas vivo. E lamenta-se sempre de aqui estar. E eu sei que o maior lamento de todos é a forma como foste, isso era o que ela deveria lamentar. Só que é mais fácil repetir até à exaustão que aconteceu tudo como deveria, que a tua morte foi santa e que não havia nada a fazer perante um ataque fulminante. A dor disto tudo é que é fulminante. E eu, estranhamente, continuo à espera que me digam que isto é um sonho mau, que vais voltar. É sempre como se fosses voltar... Porque nada disto faz sentido. Porque não pode fazer sentido que a morte nos chegue assim, em dias normais em que aparentemente é tudo igual ao anterior. É tão estranho. Podia ser só mais um dia, mas foi o dia da tua morte. Estava tudo a ser normal e, de repente, morreste. E estás em todo o lado e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. Estás em todos nós e, ao mesmo tempo, nenhum de nós te vê. És parte do que dizemos. És parte do que sentimos. Do que foi e já não volta a ser mais.
Custa tanto saber que há partes de mim que nunca chegaste a conhecer e que as que conhecias não estavam à altura do que era o teu patamar - porque só pode ser isso. Custa-me saber que fiquei sempre aquém do potencial que, supostamente, achavas que poderia alcançar - porque só pode ser isso. Custa-me saber que todas as escolhas que fiz e que conheceste são erradas ou menos certas e que todas as que não chegaste a conhecer te fariam dar saltos para longe de quem sou. Um dos maiores medos que tenho é desiludir todos aqueles que me rodeiam e que gosto mais do que de mim... Porque só posso gostar tanto mais de todos e ter mais medo que certezas, para não me libertar e simplesmente ser quem sou. Viver com esta máscara de forma permanente causa danos internos quase impossíveis de sarar e vai demorar muito tempo até me conseguir perdoar do caminho que decidi fazer. E uma das dores que mais vai custar a ultrapassar é a dor da tua partida, que deixou uma ferida permanente em mim, muito difícil de curar.