A minha memória prega-me partidas nos dias que são mais dolorosos e eu já sei disso mas não me consigo habituar a querer deslindar tudo o que aconteceu - por saber que só assim avanço (avançamos, porque utiliza sempre o plural e isso me faz sentir bem mais acompanhada no meio de todo este circo que sinto à minha volta) - e só conseguir fragmentos, como se a minha cabeça fizesse gala em se livrar do que mais custa. Nesta altura sinto-me tão cansada como desiludida com este meu cérebro que gosta de reagir desta forma à dor profunda que este caminho causa. E gostava de conseguir perceber o porquê de ser esta a minha reacção principal, quando deveria ser lembrar-me de todos os segundos para desenhar uma fita do tempo e, com isso, ser capaz de unir as linhas e chegar às conclusões, ainda que muito inacabadas, sozinha. Não que eu sinta que já chegou a altura de ficar sozinha, porque não sinto, acho que estou muito longe disso e tenho cada vez mais medo do dia que possa acontecer. Vamos ser as duas a decidir, e ainda ontem me recordou que se eu sentisse que estava pronta para estar sozinha, que teríamos que fazer um plano para que isso acontecesse. Mas não sinto, não sinto e tenho medo em todos os pontos do meu corpo. Não me sinto bem, nunca me sinto bem. Como é que é suposto eu estar sozinha? Disse-lhe ontem que é triste não saber estar bem e não saber qual foi o último momento em que me senti bem e é realmente triste. Talvez tenha razão quando ouço que estou sempre com a mesma cara de infeliz como se tivesse muitos problemas... E a verdade é que tenho alguns que me deixam na lama e que não sei resolver - e já não tenho máscara, tenho feito um esforço enorme para viver sem ela e, por isso, mostro-me cada vez mais pele e sensações. Talvez odeie isto. Talvez seja melhor ser da outra maneira mas este caminho só anda em frente e a máscara já caiu.
Questionou-me tantas vezes, em diferentes momentos, sobre o que era para mim estar bem e eu sinto que a minha resposta não foi à altura de tudo o que sinto e gostava de arranjar uma máquina do tempo para retroceder e conseguir dizer-lhe que estar bem é, sobretudo, não sentir esta bola no peito que me prende a respiração, este aperto pesado que nunca sai. Esta forma de respirar estranha que se apoderou de mim e que poucas vezes não sinto. Estar bem é não me sentir a enlouquecer no meio da loucura que sinto à minha volta. Saber viver no meio do desassossego onde vivo e saber que posso ser independente dele, que não tenho que ser sugada para este buraco profundo. Estar bem é ter o olhar de fora sobre a vida que a terapia me trás, é conseguir ser a minha própria doutora Teresa. É analisar de fora, com ainda mais distância e com menos dor. Porque só assim é que me sentirei mais saudável no futuro. É saber mostrar que não foram os medicamentos que me deram a capacidade de dizer mais vezes o que sinto e como sinto, de questionar quando está errado e de não me sentir mal quando ouço esse comentário. É dar os louros a quem os tem e o nosso caminho está a ser pautado de vitórias pequeninas para que eu me sinta melhor no futuro e a gargalhada com gosto que deu quando disse que estávamos - estava - safas do olhar delas sobre a minha pequena mudança...
Comecei pelo assunto que levei preso a mim a semana passada e pela certeza de que quero acreditar que este é o caminho certo, apesar do bloqueio que sinto em mim e do medo que tenho que seja para durar. Quero deixar aqui claro que me disse que sentia que eu tinha tentado enfrentar o assunto e não me falhar - embora me sinta constantemente a falhar. E, do seu lado, senti medo também, que me tenha enrolado em tanta coisa só para me afastar do centro do furacão que me trouxe essa frase que lhe disse há tantas semanas atrás... Sobre querer fugir e me sentir bem com tudo o que existe fora de casa, porque sempre estou mais longe e não levo com a avalanche de forma direta. E disse-me tantas vezes ao longo da conversa que eu queria ser omnipotente e diz-me isso tantas vezes que eu ganhei coragem e insisti nessa palavra, questionando o porquê de estar sempre a dizer isso sobre mim e garantindo que começava a compreender o que me dizia. Sobre querer fazer tudo e estar em todo o lado e garantiu-me que isso não era possível. Quer fazer o doutoramento, trabalhar, cuidar dos pais, cuidar das finanças da casa, isso não é humanamente possível. Insistiu comigo com todas as coisas que lhe tenho dito que estou a fazer e que quero fazer, enumerou-as por tópicos, mostrou-me que eu não podia estar em todos os sítios ao mesmo tempo. Sinto que estou melhor agora do que estava há uns meses atrás, ou sinto que agora é diferente. Vamos sempre falar sobre ele e sobre a dor que tudo o que tem acontecido nos últimos meses me causou, porque foi um rombo profundo nos alicerces de que sou feita... Aos seus olhos a morte do avô é um espelho de toda a negligência que se vive, do que se manda para debaixo do tapete, do que não se fala, do que está no meio de todos mas não se diz. E é por isso que lhe custa tanto e é por isso que não consegue ultrapassar. É por isso que a dor é diferente em si. Ainda o procura pela casa? Disse que sim mas não continuei a resposta porque não quis abrir a caixa de memórias que me faziam sentir ainda pior do que já estava. Todas as vezes, quando vou lavar a loiça e ele deveria entrar na cozinha a perguntar-me se me estava queimar. Todas as vezes, que deveria colocar as mãos debaixo da água quente para dar um pequeno salto e gritar em tom de brincadeira "está quentjinha". Sinto tanto a falta da presença porque esta ausência grita muito mais do que alguma vez pensei, pela forma repetina como ocorreu e pela loucura toda que trouxe associada. Sinto-me realmente abandonada enquanto tudo acontece ao mesmo tempo e mostrou-me claramente que pensa que o centro de toda a minha dor não vem de onde eu sempre pensei que viria, chamar-lhe a situação dos 14 anos já é quase uma piada entre nós porque em poucas palavras definimos a imensidão que tem em mim. Disse-me que achava que a situação em si era apenas a ponta de um icebergue muito mais profundo e doloroso, embora não quisesse retirar ou diminuir a dor que tudo isso me causou. E tudo isto levou-nos à velha conversa da sensação de cegueira em que vivia, no escuro onde me encontrava e zangou-se comigo quando questionou se eu queria mesmo ser cega perante tudo isto, não foi? Senti que o tom de voz de alterou e que me tentou mostrar que é melhor viver na claridade dolorosa que na floresta profunda onde não existe saída. Porque aqui existe um caminho algures para descobrir. Por muito longo que seja, por muito que custe.
Antes de nos despedirmos, perguntei baixinho e como é que eu vou viver o natal? Há alguma forma de parar o tempo e não viver o dia de natal, tinha eu dito no início... E a resposta foi tão clara que até me assustou: Fazer como a avó diz que quer fazer? Mas disse-me que tinha que me lembrar que ele não quereria que nós estivéssemos assim. Portanto teria que viver o dia com as memórias dele. Esteja onde ele estiver, ele não gostaria que fosse assim como me está a dizer. E eu vou lembrar-me disso à medida que o tempo chegar.
Estava tão cansada. Estive a tremer o tempo todo. Olhava-me e via o meu corpo aos solavancos. E fingia que não estava a acontecer nada, tentava respirar fundo por entre cada frase. Tentava acalmar o meu corpo enquanto me respondia e a olhava, muitas vezes sem ser nos olhos porque tenho sempre medo de olhar de forma tão direta... E nunca me fez reparos sobre isso, talvez tenha sido melhor assim. E no final, mesmo no final, não me conseguia levantar. Tinha tantas dores no corpo. Lembro-me de ter perguntado se tínhamos corrido a maratona durante esta última sessão porque me sentia completamente exausta e acelerada. E sorriu. Sorriu e deu-me forças para me levantar garantindo que estaremos de volta num abrir e fechar de olhos e que lhe poderei contar a porcaria de natal que tive.
O que a memória me permite escrever, o que quero deixar claro aqui.