[Escrito e enviado a 26 de julho e conversado nesse mesmo dia. Durante os próximos dias não haverá qualquer tipo de contacto entre nós. E eu sei que me fará muito bem. Espero que também te seja tão benéfico como pensavas que seria quando conversamos.]
Sei que me neguei a escrever até agora porque não queria enfrentar verdadeiramente tudo o que tem acontecido entre nós - e parece que só enfrento quando escrevo, depois de acalmar. Agora penso que já chega de fugir, já chega da atitude de deixar passar os dias porque continua o elefante no meio da sala e não desaparece só porque não lhe toco. Sei que tenho que pensar verdadeiramente e deixar de ignorar porque dói. Ignorar só me faz sentir que continua a doer cada vez mais e, por isso, tenciono ser clara, uma última vez. Não quero sentir, daqui a uns tempos, que não estou tranquila e que deixei partes por dizer, não quero sentir que não fiz tudo o que podia (que já fiz, não sei o que fazer mais) e que não disse tudo o que sentia.
Sabia, no dia em que falamos pessoalmente pela última vez, que me estava a limitar a adiar o inevitável. Não me quis afastar de ti logo abruptamente porque te tenho um carinho enorme, porque quero fazer parte da tua vida - sim, ainda uso o presente do indicativo embora saiba que não o mereces. Quero estar ao teu lado nos bons e nos maus momentos, quero sentir que te incentivo a seres melhor, quero fazer parte da tua vida futura. Quis tanto tudo isto até sentir que não via mais nada à minha frente porque nem o presente me aparecia. Não era um dia de cada vez, simplesmente já não era nada. Era vazio. Há muitos meses que era vazio, carregado de discussões sobre tudo e qualquer coisa que se transformavam sempre e iam desaguar aos verdadeiros problemas da nossa relação. Não me quis afastar de ti, sobretudo, porque não queria sentir que te estava a falhar e a abandonar-te. Sei bem o que dói quando parece que a pessoa que mais precisas de ter ao teu lado não está. Não te queria fazer sentir o mesmo e fiquei. Mas não fiquei só por ti. Fiquei porque ainda tinha uma esperança ténue dentro de mim. Apesar de sentir, ao mesmo tempo, que estava a adiar uma decisão que teria que tomar, para o bem da minha paz interior. Sabia, como vim a provar nos últimos dias, que tudo o que te disse não ia resolver nada, de fundo, em ti. Esse caminho tens que ser tu a fazê-lo e não podia esperar que, só por te ter dado as ferramentas e por te ter feito sentir que me estavas a perder, que ias mudar. Mas esperei, esperei tanto que sentisses que me estavas a perder e quisesses que eu ficasse... E esperei que tudo entre nós voltasse a fazer algum sentido. Tinha esperança, tinha uma esperança profunda que, falando contigo e mostrando-te que não te ia abandonar, que os teus comportamentos fossem modificar depois disso. Apenas te ia dar algum tempo de manobra, algum espaço longe de mim para pensares, apesar de estar profundamente magoada com os teus comportamentos passados e de sentir que tudo poderia ficar ainda pior. Na verdade, foi essa réstia de esperança que atropelaste nos últimos dias porque eu esperei que fosses tomar algum tipo de atitude - esperei, de todas as vezes que me falaste, que abordasses o "nós" que estava no canto qual elefante e que me demonstrasses o que pensavas, a que conclusões tinhas chegado, que caminho querias fazer. Porque eu queria, pacientemente, fazer parte desse caminho. Apesar da dor. Apesar da desilusão. Apesar da raiva. Pensei que, ao longo dos últimos dias, me fosses dizer que não querias que eu fosse embora, nos momentos em que me falaste. Pensei que me fosses dizer que querias recuperar o que tínhamos - mesmo sabendo eu que isso era impossível porque já tudo tinha mudado. Mas, construir de novo, era, ainda, uma opção na minha cabeça. Pensei que fosses mudar o meu pensamento de que tu não estavas verdadeiramente cá. Pensei que fosses mostrar-me que me valorizavas o suficiente para crescer comigo, para alterares as tuas atitudes para que tudo pudesse ser melhor do que sabíamos que poderia ser.
Nos últimos dias, o que vi das tuas atitudes foi uma pessoa que apenas continuou no rumo em que estava, que nunca tomou uma iniciativa concreta de falar comigo sobre nós - dado que, afinal de contas, ainda éramos um nós - e que me foi fazendo sentir mais e mais invisível. A falta de respeito para comigo, a falta de compreensão nas atitudes próprias e a apatia, a distância quando conversávamos e a forte convicção de que não ias mudar brevemente, fizeram-me procurar forças dentro de mim para um final que não desejava. Ainda hoje não desejo que isto seja real apesar de saber que é o melhor para mim, para manter a minha sanidade mental intacta. Sei que te tinha dito que iríamos ficar afastadas e que o propósito era realmente não falarmos, mas dado que falamos pontualmente, esperei diferente do que aconteceu. Esperei mais de ti porque eras tu quem tinha que dar mais, mostrar mais, sentir mais. Tu tinhas que me mostrar que eu era importante na tua vida. Tu tinhas que me fazer sentir que havia espaço para um presente estável, sem dor. Sei que te tinha pedido, também, para vires ter comigo quando precisasses de mim e a verdade é que não esperei que viesses, não pensei que fosses falar-me sobre ti própria por saberes que eu não iria falar sobre mim - embora, quando vieste ter comigo dia 21, tivesses mostrado totalmente o contrário. O que eu sei é que precisas de avançar, de sentir que estás a comandar o teu futuro e que acreditas que sairás a sentir-te uma nova pessoa - se bem que sei que essa perspectiva é irrealista e infantil e, talvez um dia, percebas o que te tentei dizer.
Se formos dizer a verdade sobre os últimos meses - quiçá o último ano - , apesar de estarmos juntas, já não estavas comigo há muito tempo. Estávamos em páginas diferentes e a puxar cada uma para o seu lado. Estávamos a escrever diferentes versões da mesma história e nunca chegando a nenhuma conclusão, juntas. Porque uma relação faz-se a dois. Sempre a dois. E tu não estiveste comigo. E eu fiz tudo o que podia para estar contigo, para compreender o incompreensível. Tentei de tantas maneiras compreender o que nem tu compreendes e, por isso mesmo, torna-se ainda mais difícil ficar. O que sinto verdadeiramente, e pelos últimos dias, é que perdeste a noção do que é ouvir o que a outra pessoa precisa. Porque eu voltei a tentar - várias vezes, fazer-te entender que tinhas que mudar. Mas, pior ainda, é que não sabes - e isto penso que nunca soubeste - pensar por ti própria, colocar-te no lugar do outro e perceber como tens que agir. Simplesmente fazer o exercício de agir com a outra pessoa da forma que gostarias que agissem contigo. Não é difícil, pois não? Pelos vistos, é. Porque nunca aconteceu. Precisas de crescer, para ti e contigo e espero que faças esse caminho e que te tornes quem queres ser - quando chegares ao que isso é.
Já desisti de te explicar o que me fazias sentir. Já desisti de esperar atitudes diferentes da tua parte. Já desisti, simplesmente. Custa-me desistir mas custa-me muito mais continuar à espera de uma atitude da tua parte que pareces não querer tomar. Talvez tenhas que crescer e aprender, sem mim. Este é o meu ponto final. Não tens que me responder. Sê feliz. Talvez, um dia, nos voltemos a encontrar e as páginas em que vivemos se encontrem também.