sexta-feira, 29 de junho de 2018

Peguei no casaco para ajudar a transportar, não era por nada em especial. Até seria apenas para deixar já no carro. E lembrei-me da pergunta que me fez, numa das sessões, sobre o cheiro, sobre se as roupas ainda cheiravam a ele. E, meio a medo, juntei o meu nariz ao tecido e inspirei. Cheirava a ti como ainda nada, nos últimos dois meses, me tinha cheirado a ti. E foi com uma voz como se dissesse um segredo e em pavor que me aproximei do pai dizendo "cheira ao avô", e ele respondeu "então leva-o para casa" e cheguei ao pé da minha mãe, que cheirou e disse "e não é que cheira mesmo?". Peguei no casaco, abracei-o e parecia que ia vomitar as entranhas. Saiu-me um som mesmo estranho de dentro, parecia um começo de um pranto misturado com o início de um vómito. 

Não consigo dormir, avô. Cheirou-me a casa. E tu não estás em lado nenhum e eu não sei que mundo é este. Porquê? Porque é que tiveste que ir embora?

[São duas semanas sem a ver e sem a ouvir e ainda vão doer mais do que costumam doer. Com quem é que eu vou depositar tudo isto? Só existe cota desse lado... faz-me uma falta profunda.]