Dois meses de um "porquê?" seguido de um "como?" ainda sem resposta e de uma dor diária que não desaparece. Dois meses a ter mais medo de ter a resposta a estas perguntas do que viver na ignorância. Ou melhor, acho que há um balançar destas duas opções que não me agrada. Porque viver na ignorância está a manter-nos a todos juntos. E se não for assim? E se os medos do meu pai (e os meus...) estiverem corretos e existir mesmo negligência de cuidados prestados? O que acontece depois? São dois meses de um medo puro que tudo se mantenha tal e qual está mas medo puro que tudo mude abruptamente. São dois meses a viver num pânico que me tolda, muitas vezes, o raciocínio e me faz achar que vou vomitar. Dois meses a acordar para a dura realidade que é viver num mundo onde não estás. Nos primeiros cinco segundos em que abro os olhos está tudo bem, não aconteceu nada. Estou simplesmente a despertar para um novo dia. Mas depois, quando a realidade me atinge, parece que o meu peito vai rebentar de uma dor com a qual tenho que viver. Dois meses a procurar por ti, sempre à espera de te ouvir ou te ver. A entrar por todos os sítios que eram teus e a fazer questão de te encontrar, sabendo bem que não é possível. São dois meses de conversas mentais contigo, perguntando-me milhões de vezes as mesmas coisas e chegando a nenhuma resposta. São dois meses de uma falta tremenda. Perdi um pilar absolutamente essencial para o meu crescimento da forma mais abrupta possível e não estou a saber lidar com isto.
Sei que hoje deveria ligar à avó mas não consigo passar por isso. Não hoje. Eu sei que deveria ligar-lhe, precisamente por ser hoje, mas não consigo. Falta-me a coragem quando ainda ontem ela me repetiu quase a história toda até me dizer "bem, tu já sabes o resto", porque sim, eu sei o resto. O resto é que o perdemos todos e que nada disto é justo.
Tu, de sorriso e voz alegre, de espírito firme e sempre animado. Tu, a alegria de qualquer festa e a boa disposição de qualquer sítio. Tu e as tuas histórias, contadas vezes sem conta. Adoravas a vida e dizias sempre que era tão bom estar aqui. Dizias que a vida era tão bonita e que era boa para nós. Dizias que devíamos ser felizes. "É preciso calma e paz na alma", repetias muitas vezes nos últimos tempos. Estou a tentar, avô, e acho que estamos todos a tentar. Por favor, olha por nós, sejas tu o que fores.