Ouço-vos ultimamente dizer que as pessoas não têm culpa de ser assim, argumentos como ser uma combinação de genes e que não se pega e que as pessoas são como são e têm que ser respeitadas e penso sempre que o vosso discurso mudou. Ou, pelo menos, que mudou para o geral do mundo lá fora porque não me recordo de algum dia ter sido desta maneira. E não sei se sou eu que estou maluca porque o vosso discurso sempre foi assim, tal como o ouço hoje, e eu apreendi-o de forma contrária ou se realmente as minhas inseguranças quanto a tudo isto são realidades palpáveis. Sinto-me confusa, sinto que estou a enlouquecer cada vez que este assunto me passa pela cabeça. Começo a sentir-me mesmo maluca quando vos ouço falar, só me apetece gravar tudo para não perder nenhum fio da conversa, para a rebobinar de seguida e conseguir, de forma mais calma, perceber se tenho razão. E depois, quando acaba, começo a imaginar o que sentiriam na possibilidade de algum dia eu assumir a minha própria verdade. E isso ainda me assusta mais porque é lançar-me para o absoluto desconhecido sem ter a certeza da forma como ficaremos, como família, no final de tudo isso.