Já não me lembrava da última vez que tinha deixado alguém entrar desta forma, que tinha deixado que uma conversa decorresse de forma relativamente normal, olho no olho, sem ser ali dentro. Tenho passado mais tempo calada do que a falar em voz alta daquilo que sinto. Ou até a escrevê-lo, tendo outras pessoas como leitores dos meus sentimentos. E estava, de certa forma, a necessitar de uma conversa destas, ainda que tenha sentido em muitos momentos que continuei a fugir à realidade das palavras, ao cru do que sinto. Sou tão boa a não dizer, dizendo, que acabo por escolher mesmo não o fazer. Talvez tenha medo que me vejam de outra forma se for absolutamente sincera ou talvez tenha medo do que já aconteceu tantas vezes, que diminuam o que sinto e a forma como sinto, que digam que exagero, ou mesmo só que me digam que compreendem de forma vazia. E falando diretamente do que aconteceu hoje e de todas as vezes que a voz não me saiu quando queria dizer a verdade total: talvez tenha medo que me veja a mim de outra forma porque a verdade é que não sei de que forma me vê. A verdade é que me faltou a coragem de abrir mais a nossa relação. Porque sinto que a mim me diz as coisas sem medos de as dizer. Não sou só eu a desabafar ali dentro... Aos meus olhos a nossa relação já deixou de ser, há muito tempo, de uma professora e uma aluna normal. A admiração, o respeito e o carinho que lhe tenho são muito mais do que a normalidade real. Já passou a ser mais do que isso, na minha cabeça, e daí o medo de dizer as coisas como elas são. Já para não falar do medo que tenho de o dizer, em relação a mim própria, pela vergonha que (ainda) sinto, pelas inseguranças que isto tudo coloca a nu. Por isto, sei que poderia não ser nada, ouvir o que tenho para dizer, sem utilizar meias palavras. Mas, para mim, é alguma coisa. É, também, deixar mais uma pessoa entrar da qual depois posso vir a esperar algum tipo de apoio e segurança porque dado tudo aquilo que tenho sentido, o meu instinto de proteção tornou-se mais forte e não digo nada com medo de que me falhem. Porque sinto que todos falham. E hoje não me falhou, e senti muitas vezes que não sabia o que me dizer, só me conseguia ouvir. Senti, mesmo assim, que nunca fez tensões que a conversa terminasse. Mesmo quando os silêncios se instalaram. Disse-lhe várias vezes que já não conversava assim com alguém há muito tempo porque sentia que todas as pessoas me irritavam. Tremi o tempo todo e nunca tive frio, embora os tremores me estivessem a fazer senti-lo. Várias vezes me passou pela cabeça levantar-me e fugir mas a troca de experiências foi de tal forma intensa que nem me conseguia mexer. Spoiler alert: nunca vai deixar de se sentir assim. A mim nunca me disseram por isso eu estou a dizer-lhe. E fui eu que terminei a conversa, por sentir que estava prestes a desabar, por não querer chorar, embora várias vezes as lágrimas me tenham picado os olhos. E ficou ali, só se levantou depois de eu me levantar e disse que me queria abraçar. E eu, dentro do abraço, disse-lhe baixinho "estou tão cansada" e respondeu-me que sabia. Agradeceu-me por eu confiar e eu agradeci-lhe por me deixar confiar, e por também me fazer sentir que não é só de um lado que esta relação se está a construir, porque, quero acreditar, que estas trocas intensas que acontecem entre nós, não lhe acontecem assim às três pancadas com todos os seus alunos...
E, às vezes, não há coisas certas a dizer, basta que deixemos alguém entrar. Foi isto que eu aprendi hoje e que precisava tanto de aprender. Não posso esperar pela coisa certa, por muito que sinta que tudo o que me dizem é errado, eu tenho que deixar alguém entrar. Tenho que partilhar algumas das coisas, tenho que confiar no processo terapêutico e tenho que acreditar no caminho que estou a fazer. Que é difícil, que é doloroso, mas que é meu. E tenho que acreditar que eu sou capaz. E, como diz muitas vezes, isto agora aqui é o confessionário, o que se diz aqui, fica aqui. Mas sabe? Este é o meu confessionário e já tenho muitas palavras sobre nós por aqui. Talvez um dia lhe diga isto. E talvez um dia perca o medo e lhe crie uma etiqueta.
E, às vezes, não há coisas certas a dizer, basta que deixemos alguém entrar. Foi isto que eu aprendi hoje e que precisava tanto de aprender. Não posso esperar pela coisa certa, por muito que sinta que tudo o que me dizem é errado, eu tenho que deixar alguém entrar. Tenho que partilhar algumas das coisas, tenho que confiar no processo terapêutico e tenho que acreditar no caminho que estou a fazer. Que é difícil, que é doloroso, mas que é meu. E tenho que acreditar que eu sou capaz. E, como diz muitas vezes, isto agora aqui é o confessionário, o que se diz aqui, fica aqui. Mas sabe? Este é o meu confessionário e já tenho muitas palavras sobre nós por aqui. Talvez um dia lhe diga isto. E talvez um dia perca o medo e lhe crie uma etiqueta.