Ontem à tarde, quando estávamos a caminho de casa, eu ouvi o quanto vos enjoavam os homossexuais. Eu ouvi que, na vossa altura, não era como agora, que já são assumidos e ouvir comentários semelhantes a este... tem sido a minha vida nos últimos anos. E é por isso que eu não posso ser sincera: porque ouço isto quase diariamente, em momentos que não estou à espera, sou surpreendida com comentários destes que me colocam no chão, sem me conseguir levantar. E eu ainda não percebi se olham assim para todos os seres humanos ou se o que vos repugna são mesmo os homens porque são homens. Não consigo perceber se com as mulheres não faz mal. Ou se acham, como já ouvi algumas vezes, que é um desperdício porque as mulheres bonitas devem estar com homens. Eu não consigo compreender o que pensam, o que sentem... e vou adiando porque estou no meio desta tensão toda - aqui em casa - e destes comentários todos, sempre que nos vemos como família. Eu não sei lidar com a desilusão e com a certeza quase absoluta que não sou quem vocês desejam que eu seja. Eu não consigo lidar com o facto de vos perder. E, por isso, quando me deitei na cama ontem à tarde, morta de cansaço e a pensar que ia dormir, acabei por desabafar realmente sobre isto tudo [obrigada, Ana, por tudo o que conversámos mas por não me teres abandonado quando o assunto se tornou este] e chorar. Esta é uma dor constante dentro de mim. É um peso que não diminui de intensidade. É, sobretudo, uma certeza de que não posso ser, para vocês e ao vosso lado, a pessoa que sou normalmente. Porque é que vos importa com quem é que os outros dormem? Qual é o problema, se não é convosco? E é por isto que sou falsa... dissimulada, sonsa, mentirosa. É essa a única explicação que encontro para os mais variados ataques verbais que me lançam aqui em casa em tantos momentos.