Está a tornar-se tão físico que me está a assustar. Sinto a comida a navegar dentro de mim, como se fossem barcos inteiros. Sinto que vou vomitar a toda a hora. Sinto que a qualquer altura tudo o que comi pode simplesmente sair, em qualquer momento, sem eu estar à espera. Não tenho controlo sobre este meu lado que não está a saber gerir o que se está a passar. Só agora é que estou a processar realmente, até aqui deixei que tudo se instalasse bem longe de mim, tentei fechar tudo isto a sete chaves num local ermo e sem acesso... E só agora... Só desde segunda feira, quando começamos a conversar é que me sinto a aperceber-me que vai ter um fim. É real. Passou a ser a partir do segundo em que abordamos, sem medo - eu tinha-o, tinha tanto medo e sei que só o fiz porque estava ali comigo - as opções que existem e que a deixam mais confortável e segura de que o trabalho que temos vindo a desenvolver não vai cair por terra...
E eu sinto que me estão a matar. Estão a matar a parte de mim que nasceu ali dentro e que aprende que é possível ser melhor, mais aberta, mais positiva, com mais ferramentas para olhar a vida de outra forma. É uma revolta interior tão grande e tão intensa que se transforma em bloqueios totais quando como e em ácido quando a comida me cai no estômago. É tão difícil de lidar que o meu corpo rejeita qualquer género alimentar, como simplesmente porque sei que tenho que comer para manter uma aparência... Não que não tenha fome. Mas tenho mais medo do que sinto quando a refeição acaba. Do contorcionista que vive no meu estômago desde segunda feira e parece não querer sair.
Estou tão ansiosa que o meu corpo treme em muitos momentos onde não deveria e demonstra uma fraqueza que não me comove. Eu deveria ser mais forte e mostrar-me mais segura para que a máscara não caia. Mas, a cada dia que passa, mais parece que só serei feliz se parar de olhar o mundo por estes olhos e desviar a máscara para aprender a ver com lucidez. A terapia trouxe-me uma lucidez que tenho medo que morra assim que fechar a porta pela última vez. Talvez o que me vá custar mais é perder o sorriso com que me brinda sempre e o olhar que me vê por dentro. Apesar de continuar a assustar não há sensação melhor do que esta de ser verdadeiramente (re)conhecida por quem sou, mesmo que eu ainda não saiba. Porque eu não sei mas sei que sabe, que vê o que eu não vejo, que percebe o que eu não percebo e que está dez passos à frente de onde me coloco. E é muito bom saber que, ainda assim, está exatamente ao meu lado no meu ritmo de caminhada. Nunca me senti desamparada e é essa sensação de abandono que me assusta mais - mesmo que ainda não tenha terminado nada.
Sei que o nosso tempo vai acabar. E sei-o com medo porque agora estou sozinha e consigo senti-lo. O meu corpo pede-me que me acalme mas eu simplesmente não consigo. O meu corpo pede-me que tente gerir da melhor forma todas estas mudanças mas eu sinto-me só a falhar-me à grande.