Os pés arrastavam-se enquanto deveriam andar. Sentia que estava a ir para o único sítio do mundo onde poderia estar em ferida total por dentro sem ter medo que se visse do lado de fora. Ao mesmo tempo não queria ir, não queria mostrar a dor, não queria falar sobre ela. Mas queria ser acalmada pelo sorriso com que sempre me espera e tocada pelas palavras que tem sempre para mim. Por mais que seja a minha voz que se ouça... Nunca me vou habituar completamente à sensação de ouvir a minha voz a dizer exactamente o que eu sinto, sem pensar antes e ponderar muito bem sobre o que sinto. Nunca me vou habituar à dor que é ouvir o que sinto sem vir da minha voz, porque como dói tanto deixo por dizer. Como não percebo opto por não tocar.
Eu preciso sempre de escrever para refletir e deixar as memórias tornarem-se mais focadas na minha mente e sei que, desta vez, não me estou a permitir a isso. Mais uma vez, bloqueei tanto do que disse, do que me disse, do que me fez sentir. Só sei que há um assunto que vai estar sempre presente daqui para a frente: o nosso fim. É inevitável. Vai acontecer. E isso embrulha-me o estômago porque tenho um medo danado de ficar sozinha com tudo o que se passa em mim. Não consigo, aliás, conceber a solidão de ouvir em silêncio os meus próprios pensamentos depois de os ouvir realmente a viva voz durante tanto tempo - é realmente um amor-ódio este caminho que percorro. Este assunto embrulha-me tanto o estômago que sei que ainda não tive capacidade de o esboçar como poderia, que isso me deveria fazer sentir melhor... Mas não sei, sinto-me como se estivesse a perder uma parte muito importante de mim que não vou recuperar. Não sinto que me esteja a abandonar de propósito mas sinto que estão a obrigar-nos a que tudo seja mais apressado e eu estou cansada de perpetuar o ciclo das saídas prematuras. Eu mereço estar preparada, presente e concreta nos meus tempos, segura da força com que caminho. E não estarei, só sei que não estarei, ainda. E a minha preocupação maior com o que lhe ia acontecer do que comigo deu-me a frase da semana (porque há sempre uma à qual me agarro quando custa muito a passar) "lá está, a querer sempre cuidar mais do outro do que de si. Eu vou ficar bem e quem tem que cuidar de si aqui sou eu", e há mesmo frases que são abraços de alma...
Há pontos que conecta que me fazem sempre impressão depois de os conectar e que demonstro logo à partida não concordar absolutamente com eles e o ponto do "como fez boom aqui, fez boom lá" não liga, de todo, com a situação. Porque eu sei que eu andava a adiar o "boom lá" há muito tempo, a tentar erguer uma relação sozinha, a tentar dar o meu melhor quando não era ouvida, sentida e acarinhada como deveria... O amor por ela foi sempre mais forte que o amor por mim. Até que, sessão atrás de sessão, voltávamos ao colo roto e tudo em mim rompia mais um pouco... E não aguentei, não consegui aguentar nem sequer um dia mais... E, há um lado de mim, que saiu da sessão aliviada por saber ouvir as minhas próprias palavras e saber mesmo que, por agora, por muito que doa, não dá agora. Só que é tão diferente de todas as outras vezes que é tão difícil de falar e que tenho sentido tanta confusão dentro de mim que até o meu cérebro é vazio. Toda eu sou vazio. Vazio e dor momentânea no peito. Vazio e cabeça a explodir. Vazio e tristeza. Vazio.