domingo, 21 de abril de 2019

Nunca quis viver este dia, achava que ia colapsar com a tua ausência. Não quero acreditar que já passou um ano, porque este ano foi demasiado duro, intenso e desesperado. Muitas vezes, senti que me arrastava em vez de caminhar. Os meus passos tornaram-se ainda menos confiantes e sei que todos os meus alicerces foram abanados pelo vento da tua partida. Inesperada - e não tanto assim porque vou sempre lembrar-me que uma semana antes, quando nos despedimos, nos despedimos realmente. Essa viagem de carro e a sessão no dia seguinte foram lágrimas fortes e uma sensação profunda de que te iria perder. Eu recordo-me claramente de ter dito essas palavras em voz alta e custa muito saber que tinha razão e que partiste quando eu ainda estava tão magoada contigo e, por isso, tão distante. Talvez por isso, na sessão em que sou capaz de balbuciar a tua morte, o meu corpo tenha simplesmente querido desligar [vou sempre lembrar-me da mão que me agarrou e me agarra sempre.] 
A madrugada de 20 para 21 de Abril de 2018 marcou o ponto de viragem. Marcou a (re)descoberta de toda a loucura em que vivo, apesar de, no fundo, sempre ter sabido que vivia. Há alguma coisa de muito disfuncional nesta família e na forma como abordamos os problemas, como cuidamos e como amamos. Sempre achei que éramos uma espécie de rochas fundas e que isso nos salvaria de todos os males e eu sei que continuamos juntos... Mas agora vejo mais e melhor e sei que, desde que te tornaste pó, há fendas nas profundidades das rochas que somos e sinto que tudo abre mais rápido do que seria suposto. Como se tu fosses uma cola que nos unia a todos com a tua personalidade. Este ano mostrou-me que eu sou capaz de quase me destruir para manter tudo coeso - e talvez estivesse a tentar fazer o papel que era o teu, mesmo sabendo que não o fazias de forma totalmente correta... O meu medo que tudo colapsasse era tanto que quase cheguei a um ponto sem retorno. Há poucas alturas em que um terapeuta dá conselhos e depois de teres ido... Foi a primeira vez que ouvi a minha a dizer-me que eu tinha que me afastar ou me destruía. Eu estava a dar mais do que podia dar, a fazer mais do que podia fazer, a tentar colar peças que não poderia ser eu a colar. Ouvi tantas vezes que tinha que me preocupar comigo e com as minhas coisas e tantas vezes questionei que coisas eram essas quando tudo à minha volta parecia lava saída de um furacão prestes a explodir novamente. Fui um penso rápido que impedia a cura mais tempo do que aquele que seria suposto e acho que, ainda hoje, não saramos. Mas sei, com toda a certeza, que eu não sarei. Há uma dor em mim e uma ferida aberta que não desaparece desde que partiste. Talvez por isso o ataque de pânico antes de entrar na capela [sei que só entrei ali dentro pela mão e pela força da Ana e isso nunca esquecerei] e não há poesia mais bonita do que te teres tornado pó e partido no dia da liberdade. Libertaste-te desta vida aqui. E és luz noutro lugar. 
E, na minha vida, há, claramente um antes e um depois da tua partida. Mas, na nossa, enquanto família, há o que éramos contigo e o que nos tornámos, sem ti. Há sempre uma tristeza latente nos olhares e um cruzar de memórias com sorrisos ternos que escondem mágoas profundas. Agora vejo muito mais do que via e sei muito mais do que sabia. Estou desperta a sons, cheiros e percepções que não queria ver - e tantas vezes que digo que era melhor ser cega, porque ser cega trazia menos desespero interno. No entanto, a tua morte ensinou-me que a vida não pára, só corre. E sei que houve momentos que achei que não ia aguentar. Sei que houve momentos em que quase não quis aguentar. Sei que falei muito contigo nos caminhos que percorria. Sei que senti muitas lágrimas a escorrerem pela minha cara. Sei que pensei muitas vezes não ser quem tu querias que eu fosse. Sei que tenho tanto medo de te desiludir. Sei que não sou quem sonhavas. Mas também não sei se eras capaz de me amar incondicionalmente, independentemente das minhas escolhas - e agora nunca saberei. Mas quero honrar a tua vida e isso inclui viver a minha. Traçar o meu caminho, porque mesmo com todas as dificuldades, eu estou cá. Eu escolho viver e tu sabias disso, quando fazias o caminho para o trabalho e paravas em frente ao hospital, olhavas para a janela e me pedias para ter força. Eu tive, avô. Eu tenho. E tenho que encontrar mais agora desde que não estás. 
Dizias, muitas vezes, que íamos sentir muito a falta do velho, como se soubesses que o fim se aproximava. E eu agora digo-te que a tua falta sente-se em todos os momentos, há um silêncio estranho em todas as casas, particularmente nas tuas, o teu lugar já não está ocupado à mesa e há menos histórias. Repetias tantas, tantas vezes e agora só queria ter questionado mais, ouvido mais, sabido melhor. Há menos alegria no ar e menos cantorias como som de fundo. Há um desiquilíbrio profundo desde que partiste - em mim e não só, em todos. Talvez tudo se torne mais fácil com a passagem do tempo mas desconfio que será muito difícil curar a forma como partiste, em mim. Um ano sem ti, meu avô Zé. Estejas onde estiveres, és luz. Sempre.