sábado, 27 de abril de 2019

Eu queria escrever sobre esta sessão porque escrever é pensar sozinha e deixar pousar as memórias que circulam, velozes, na minha mente. Desta vez, tenho poucas. E fui percebendo isso à medida que a ouvia - sabia claramente que iria bloquear a maior parte do que tinha ali sido dito - e a semana ia correndo sem eu me recordar de mais. Sei que estive absolutamente ocupada e isso pode ter ajudado a não me lembrar mais no entanto, não foi só isso. E sei disso quando, na segunda feira, ouvi que estava com uma cara mesmo triste e se precisava de alguma coisa. Disfarcei. Voltei a fazê-lo na terça feira, quando fui relembrada do mesmo; o teu aspeto está melhor hoje, parecias mesmo triste ontem [e estava]. Desta vez fiquei profundamente magoada. E como fiquei tão magoada sinto que não consigo pensar sem tocar na ferida. Sei que fiquei tão surpreendida - e magoada - porque não esperava aquela análise tão profunda e verdadeira de quem sou. Acho que me fez confrontar com um lado meu que eu sabia que tinha e, talvez, vá sempre ter, que eu não queria trazer à luz do dia. Era só meu, estava só lá e não se falava disso dentro de mim. Agora, por culpa das suas palavras, tenho a memória inundada por esta única frase que me queima cada vez que me aparece. "É sempre tão delicada, tem medo de a partir. E essa delicadeza esconde uma zanga muito grande e uma agressividade muito grande", andamos em círculos e os círculos magoam-me, porque eu não queria chegar a nenhuma conclusão e obrigou-me a fazê-lo. Demonstrou-me que sentir esta agressividade é bom, é mais verdadeiro que a delicadeza que diz que mascara o que verdadeiramente está cá, que tenho que me permitir sentir essa espécie de dor, zangar-me. Deixar passar. Não deixar as coisas remoer dentro de mim. Disse que eu sabia bem o porquê de tudo isto, mesmo que eu tenha dito que não sabia. E, no final, disse-me que era eu quem estava ali. Que não a podíamos tratar a ela. Só a mim. 
E eu tenho medo de voltar e lhe dizer que me sinto abanada, que sinto que me empurrou de forma brusca, que não deveria ter sido assim. Quase como se tivesse desvendado um segredo que não era suposto ser dito, mesmo que fosse visto. Mas sei que vou chegar e não vou dizer nada disto desta forma porque não vai sair assim, vai sair de outra maneira qualquer. E não sei se é bom, já que tantas vezes diz que me posso zangar com o que representa para mim. E que, na verdade, na última semana, eu estive foi zangada e a precisar de si e não estava. Descarreguei a minha frustração em quem não tinha exatamente a culpa disso porque me deixou sem colo. E eu acho que esta análise é estranha e enviosada porque, por muito que eu estivesse aflita por estar sozinha, não descarreguei nada que não tivesse exatamente sido no sítio correto. Só me doeu muito a sensação da falta de colo - como, já percebi, vai doer sempre. E disse-me uma verdade tão dolorosa e importante, que a morte do meu avô me doeu tanto e continua a doer por ter sido um perpetuar dos colos rotos, que já não estão bem lá, que não cuidam, que não percebem que está tudo errado. É essa a minha forma de ver quem está à minha volta. E é isso que custa tanto. E ainda me custa mais o facto de eu tentar, desesperadamente, repor a verdade das situações e sentir que bato sempre contra uma parede e que estou - estamos - a perpetuar, novamente, uma ilusão de que está tudo bem assim... Continuar a viver na ilusão de que está tudo bem não é ver a verdade e confrontar-se com ela. E eu tento destapar e mostrar o que é feio (já dei um passo muito importante ao estar a fazer isto) e não estou a ser acompanhada por quem deveria - e a minha dor é tão grande, nem quero imaginar a dela, a vergonha e a humilhação de tudo isto. Continuar a viver assim é continuar, todos os dias, a colocar uma máscara e não mostrar o que está errado. E não sei se essa é a melhor forma de ultrapassar tudo isto. Desconfio que (me) traga muito mais dor.