quarta-feira, 3 de abril de 2019


Disse-me, várias vezes - e já não é a primeira vez que o diz - que me sente, sobretudo, muito irritada. E agora, em retrospectiva ou em modo futuro e presente, eu sei que me irrito, mas não mostro. Eu não sei lidar com as minhas emoções e expressa-las corretamente, para fora do meu corpo. A forma como eu sempre lidei com tudo o que sentia de mais profundo foi colocar para dentro e não mostrar. E estarmos a fazer este trabalho conjunto vai-me permitindo perceber que posso ir dizendo pequenas coisas e que não faz mal quando não são apreendidas da forma que eu esperava. Ou melhor, faz mal, mas não faz porque são mais vitórias minhas que derrotas - porque eu disse, porque eu consegui dizer. E a propósito disto, da irritação que diz que sente em mim, disse-me também, que não fazia mal zangar-me. Que, de certeza, já me tinha zangado e que não fazia mal aparecer zangada [acho que mais facilmente apareci magoada mas passa quando a vejo e me sorri e eu sei que estou segura, ou passa durante a semana em que me consigo acalmar e acontecem mil coisas ao mesmo tempo]. "Pode zangar-se comigo. Não comigo, Teresa, mas com o que represento." e eu respondi-lhe, a rir, que realmente me zangava mas apenas durante cinco segundos. E seguimos em frente até que a minha boca abriu e não saiu um som... E continuou a falar, talvez tenha sido tão breve que nem se apercebeu deste meu movimento, mas questionei baixinho uns momentos depois "Como é que eu posso zangar-me com a única pessoa que me ouve assim?". Porque não posso. Não posso zangar-me, nem tenho motivos para isso, com a pessoa que ouve tudo o digo sem pestanejar. Que me diz que não me falham as palavras. Que me abre os olhos quando nem queria. Que me dá colo quando nem sabia que precisava. Não são palmadas nas costas e não é chamar-me coitadinha - nunca o fez, não o fará. E isso faz-me crescer. 
Diz-me que eu deveria ter em atenção as minhas questões e que ambas sabemos o porquê das atitudes que vou tendo, da falta de confiança de que me vão agarrar quando precisar disso. Diz-me, especialmente, que a posição dela é muito complicada. E eu disse-lhe que poderia ser, no entanto, as atitudes não ajudavam nada... Respondeu-me que eu não estava a perceber, que não estava a desculpar as atitudes nem estava do lado dela. Mas que, com ela, era sempre mais fácil discutir. E depois abriu um sorriso de quem me conhece profundamente, de quem conhece cantos de mim que nem eu sei que existem, de quem sabe tudo o que está por detrás de cada palavra que digo e de quem tem uma paciência infinita para me mostrar quem sou. Esse riso, que tem um toque de gozo, é daqueles que fica sempre comigo o resto da semana e me passa, muitas vezes, pela cabeça. Está, muitas vezes, dentro de mim, como costuma dizer. Costuma dizer que vem comigo e é verdade.