A primeira frase que me disseste foi "temos coisas para falar" e eu respondi que sabia - talvez o quisesse mais do que tu, há mais tempo do que tu, por motivos diferentes dos teus. Não o disseste em voz alta, para toda a gente ouvir, como era o meu medo, mas sim dentro do abraço forte com o qual me presenteaste mal me viste. Menos um medo dentro de mim, só faltava apagar mais uns quantos focos de incêndio e ficaria tudo bem. Não paro de pensar na coragem que tive para te pedir para conversarmos. Isso foi impulsivo em mim como poucas coisas são - porque o impulso dói. E depois disso achei mesmo que não iríamos falar, porque não ia voltar a ganhar coragem nem ia insistir - eu já deixei de insistir. Estou a aprender a respeitar o meu espaço e o dos outros e a respeitar que as pessoas podem querer o mesmo que eu ou não, e isso não faz mal. Pode magoar-me mas não é absolutamente errado.
E não param de me dançar na memória as frases que trocamos nos minutos em que estivemos juntas, banhadas pela luz da lua. Não fazia sentido de outra forma porque assim, quase sem luz, tive menos tempo de sentir vergonha. Quase não nos conseguíamos distinguir e isso ajudou-me a puxar os fios. Comecei no mais fácil, no que é mais simples e fui escalando a montanha sem me aperceber do que escalava. Só com a certeza de que não ia voltar atrás, já há muito tempo que desejava só partilhar pensamentos não pensados contigo. Acho que sempre senti uma energia diferente dentro de ti mas ganhaste-me totalmente quando ficaste comigo, quando eu não conseguia entrar na capela. Nunca vou esquecer esse gesto. O meu descontrolo encontrou um pouso concreto onde acalmar nessa noite.
Tu e esta conversa marcaram um pequeno progresso em mim que quero assinalar como vitória. Eu estou a dar-me ao outro, apesar do medo da queda. Eu estou a confiar, apesar de achar que não deveria. Eu estou a partilhar a minha verdade e a minha essência, mesmo quando me rebelo contra... Mim própria. Eu já nem sei contra quem é a minha luta. Sinto que, um dia, o Dragão vai matar-me. Até lá estou a tentar não o alimentar e alimentar a minha luz. A minha paz interior constrói-se muito lentamente... E tenho muito medo de não ter capacidade de a construir em melhores alicerces. Porque a cabeça onde habito não é, nunca foi, e duvido que algum dia possa ser, a minha melhor amiga. Por enquanto, só sinto que tenho a cabeça às voltas com a nossa conversa, sinto que acabou por acontecer o que me acontece tantas vezes - quando dói, bloqueio. Só sei que tenho muita pena que tenhamos sido interrompidas.