terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mal deitei a cabeça na almofada desabei completamente. Já não era eu. Eram lágrimas, eram tremores no corpo, espasmos, soluços. Não esperava que fosse assim. Não esperava nada disto e assustou-me. Eu sabia que tinha saído com uma vontade de chorar incontrolável. Mas também sei que consegui afastar essa sensação e focar-me, o melhor possível, e trabalhar no resto do tempo. E, por isso, não esperava...
A dor que sinto dentro de mim é inexplicável. E eu pensei muito, às voltas na cama, ontem à noite, sobre como é que se pode pedir ajuda quando não se sabe o que dizer. Quando as palavras doem tanto, quando o silêncio impera sempre mais forte. Demorei mesmo muito a adormecer ontem. Tive uma noite para lá de horrível. Estava sempre a acordar com a sensação de que estava a chorar. Estava sempre a acordar com um peso enorme no peito. Estava sempre a limpar as lágrimas, com medo que fossem vistas. Há lágrimas que não devem ser vistas porque não são possíveis de ser explicadas. 
A semana passada vivi angustiada com a dificuldade em compreender tudo o que tinha acontecido - e a saber que tinha uma necessidade profunda dessa compreensão. E acalmou-me ontem quando disse que não fazia mal não me lembrar porque nos íamos lembrar as duas. Não reviver. Só fazer um esforço para voltar e perceber o que me tinha deixado num estado tão triste. Acalmou-me, também, quando disse que eu tinha que agarrar a tranquilidade que me trazia enquanto estávamos juntas porque é tão profundo e verdadeiro... Por muito que tudo doa, estar acompanhada, deixa-me menos insegura. Faz-me sentir mesmo verdadeiramente importante, ouvida. Viver nesta violência extrema, como lhe chamou, de existirem coisas ditas sem serem ouvidas, apreendidas... Viver neste contexto vem acompanhado de muita insegurança, muita dor, muita tristeza acumulada. É de uma violência extrema ignorarem, desmentirem, porque a Rosa disse! É muito pior eu ter dito e não ter sido ouvido, ter sido ignorado, ter havido uma negação completa... E diz-me, tantas vezes, que tem a certeza que está tudo lá e que, tal como eu, também não se esqueceu. Mas eu não sei, eu não consigo saber porque eu não sou outra pessoa, só sou eu... E eu não sei como lidar com tudo isto porque não sei como lidar com nada. Sinto mesmo que cheguei a uma encruzilhada em todos os caminhos que percorro e que não sei sair de lado nenhum, não sei como lidar com nada, não sei como resolver nada.
Entretanto, muito a medo, perguntei se achava que eu me fazia de vítima... E demorou a responder, demorou mesmo muito, e acho que não pode ter compreendido totalmente a minha questão porque a resposta não fez sentido - não faz, agora que penso nela... Foi inesperado ouvir que estava só a tentar ser a filha, no meio de tudo isto. Porque estou a ser constantemente colocada num papel que não é o meu, a ter um poder que não quero ter, a viver uma tensão que não quero viver. 
Sinto que tudo isto está por terminar. Sinto que preciso tanto ou mais de percorrer este caminho que no início, quando o comecei, e sinto que vai doer tanto mas tanto daqui para a frente. E, tal como disse no final desta sessão, dói-me tudo.