Ontem à noite voltei a escrever - mesmo com todo o medo que tinha disso. Só porque achava que isso faria diminuir toda a dor que sentia dentro de mim.
O meu peito é chumbo e explode ao sê-lo. Eu não sei se isto é possível mas é exactamente o que sinto, pequenas explosões dentro de mim que teimam em não parar. Tenho um peso dentro do peito que não me deixa respirar em condições, o ar não passa, é rarefeito. É mais fácil respirar lá dentro. Mesmo com o cheiro a médico que, às vezes, se encontra infiltrado no ar quando entro. E queixo-me algumas vezes e outras calo-me porque sei que vou respirar melhor mesmo que o peito arda. Não tenho medo de me queixar porque sei que é a única pessoa que consegue entender as nuances do que digo ainda antes sequer de eu própria entender. E dou graças a quem quer que exista a puxar os cordelinhos por me ter colocado neste caminho, apesar de saber que a decisão de continuar a percorrê-lo é minha. Porque por mais dor que traga, também me faz ser mais forte e conhecer melhor as minhas capacidades de entrega interior para me tornar alguém melhor para si própria.
Ajuda voltar a achar que vou respirar um pouco melhor, muitas vezes, à medida que parece que vamos desatando os nós e esta semana disse-me que parecia que eu estava enroladinha num novelo de lã. E eu não sei sair daqui, sinto que me enrolo mais à medida que o tempo vai passando. E que o meu peito dói mais. O único sítio onde a dor quase permanente em que vivo acalma é quando sei que não estou só. Porque me sinto só constantemente com as minhas coisas e os meus pensamentos. Estou só nos meus problemas porque não sou ouvida da forma que gostaria de ser, parece ser tudo sujidade que se esconde debaixo do tapete, parece ser tudo assobiado para o lado, empurrado com um pontapé, como se já não fosse possível trazer mais sofrimento a ninguém - talvez nunca tenha havido cota, merda. Merda. Eu não rebentei com a cota assim que nasci. Simplesmente nunca fizeram uma para mim porque lhes esgotei o ser ao nascer. [Foi isto? É isto? O meu cérebro explode porque eu não sei que palavras usamos. Só me lembro da dor e de querer fugir. De estar pregada à cadeira a sentir todo o meu corpo tremer.] Mas eu não tive culpa disso e eles também não. Não tens problema nenhum, és uma criança normal, não há nada errado contigo. Mas havia, sempre houve. O que é que se passa com esta família em que o sofrimento não pode ser sentido e vivido? Parece que existe um grau de loucura cujo expoente máximo é aquela que negou completamente a morte do marido e que deixou que ele sofresse horas seguidas, não auxiliando o marido moribundo, não lhe dando um pouco de paz. E ele precisava tanto dela, ele precisava de não ter morrido como morreu. E eu pergunto como é que é suposto lidar com isto? Não acho que seja possível conseguir ultrapassar um acontecimento tão traumatizante como este - e diz-me que tudo isto colocou a nu o que sinto e a forma como os vejo. Quando me diz que não confio neles. Que não acredito neles. Quando me pergunta se já perdi a esperança. Sei que sorri. E talvez não saiba a resposta a estas perguntas ou não queira saber. Às vezes prefiro não saber o que sinto - pode ser essa a causa pela qual neguei durante tantos anos precisar de percorrer este caminho. Na verdade, eu sinto que eu não sei aceitar isto tudo que agora vejo. Isto tudo que agora sei. Eu não sei aceitar tudo o que se arrasta à minha volta e tudo o que permanece assim, sem resolução visível. Eu não sei aceitar que tenho as mãos atadas e que não consigo fazer nada para resolver nada, que sou apenas uma espectadora atenta a certos detalhes da minha vida. E é por isso que tento estar em todo o lado ao mesmo tempo, perceber tudo e apoiar em tudo o que posso. É por isso que diz que eu tenho tendência para ser omnipotente e que quando o meu corpo paralisa e entro em pânico que é a maior verdade que poderia acontecer. Porque o meu pânico paralisante repõe o facto de eu não ser uma adulta que toma decisões. Repõe o facto de existirem pessoas antes de mim que as têm que tomar. Eu não posso ser mãe dos meus pais. Eu sou a filha. Diz-me isso provavelmente há dois meses e eu continuo sem conseguir saber como reagir e o que fazer - e já me afastei de tantos epicentros de crise. Só que continuo a sofrer. Continua a ser desesperante e aterrorizador viver assim. Continuo sem saber como sair deste novelo de lã onde vivo há mais anos do que quero admitir - do que sempre quis admitir.
Evitei pensar porque doía até ter falado no assunto e ter sentido que abri um imenso buraco dentro de mim que sangra abundantemente e que não consigo controlar. Evito escrever mais que isto porque continua a doer. Só queria rebobinar tudo de forma a recordar exactamente todas as partes que me deixaram em ferida aberta e com as quais tenho que aprender a lidar. Colocar para o lado não é um bom princípio e eu tenho tendência a fazê-lo, com algumas dores de crescimento que as conversas me trazem. E eu sei que não me ajuda, no final do dia. A verdade é que poderia, muito bem, continuar a juntar palavras a estas que deixo aqui escritas e que isso não me faria diminuir, nem um pouco, o aperto que se instalou no meu peito. Dói-me não conseguir sair de mim para saber o que fazer.