Faltava uma semana para fazerem cinco meses da tua partida e, finalmente, conseguimos todos ter uma noção daquilo que te aconteceu; a resposta chegou. E eu demorei uma semana a sentir-me capaz de escrever tudo isto porque me dói profundamente relembrar. Dói-me profundamente entrar nesta casa e saber que não te vou ver, ouvir e cheirar. Dói-me muito tudo isto mas dói-me ainda mais a forma como partiste. E, no meio de tudo isto, dói-me o alívio que aquele pedaço de papel lhe trouxe. Eu tinha medo que trouxesse uma desgraça ainda maior. Mas não me preparei para a eventualidade deste acontecimento, não me preparei para ouvir que tinhas morrido bem, depois de sofreres oito horas sem ela te dar nenhum tipo de auxílio de maior. Eu tinha medo que tudo corresse mal e que ficasses ainda pior, que a nuvem negra que se abateu sobre nós ainda aumentasse de tamanho... Mas não esperei que a falta de consciência dela fosse a vertente maior. A raiva consome-nos e eu tenho que arranjar forma de fazer as pazes com as coisas que ouço, tenho que filtrar a informação e guardar apenas o que vale a pena guardar. Só que não sei se sei fazer isso porque tudo isto poderia ter sido evitado - ou quase. O alívio que ela sentiu... Não deveria ter sido assim. Não queria que ela sentisse ainda mais culpa e que tudo piorasse exponencialmente... Mas também acho que o outro lado da escala é demasiado para saber lidar.
Espero que estejas em paz. E tenho tantas saudades tuas. Tantas. De chegar e te ver. De estares aqui. De te ouvir. Fazes-me uma falta profunda. Este nosso mundo está louco demais sem ti aqui. Parece que perdemos todos o norte. Mesmo que tenha ouvido que no tempo em que aqui estavas as coisas já estavam complicadas... que nada era fácil... Mas a dor? A dor de não estares não existia e só por isso já era tudo bem melhor.