domingo, 22 de abril de 2018

21.04.2018


O choque do som estridente do telefone em contraste com as horas, 5.14h da madrugada. O meu sono era leve e levantei-me de um salto ao mesmo tempo que ouvia os meus pais a fazer o mesmo no quarto ao lado. Chego à porta do meu quarto, o meu pai encara comigo e esboça a notícia sem sequer ter a certeza do que está a dizer. O meu corpo sofreu uma alteração no seu equilíbrio, senti que ia desfazer-me e passar a ser chão. Achei que ia perder o pé, vomitar e desmaiar, tudo ao mesmo tempo. Deitei-me na cama a tremer de medo. Por eles, por piorar ainda mais uma situação já de si horrível. Terem que se preocupar comigo não faria parte do rol dos acontecimentos de um dia que começou bem cedo. Os meus pais voaram para cá, eu e a minha irmã não voltamos a deitar-nos para dormir. Só para ajudar na má disposição física que se instalou. Aqueci água para fazer um chá enquanto rezava a Deus nenhum para que tudo isto fosse só um pesadelo e que salvassem o meu avô. Mas, dentro de mim, já sabia. Talvez tenha sido por isso que a reacção da minha irmã foi incontrolável enquanto eu me limitei a abraça-la e a deixar que o corpo dela soluçasse simplesmente até acalmar. Eu não chorei até me sentar no sofá e ficar sozinha. As lágrimas vieram em força, a dificuldade em respirar instalou-se. Parecia que ia sufocar. Quando decidimos sair de casa e vir para perto do resto da família eu estava incontrolável. Lembro-me de não saber que roupa vestir, de não me saber despir. De apenas chorar e procurar ar desesperadamente. Sentei-me no chão do quarto enquanto ganhava força e me tentava acalmar e só agora em retrospectiva entendo que deixei a minha irmã ver um dos meus ataques internos, exteriormente, e sinto vergonha e medo do que aí vem.
Desde que aqui chegamos, perto das oito da manhã, que a minha avó tem momentos de uma lucidez incrível onde repete até à exaustão tudo o que aconteceu nas últimas horas de vida do meu avô ou nas últimas semanas... misturados com outros em que agarra as faces com as mãos e apenas chora em silêncio. Já várias vezes lhe pedimos que ela se deitasse para descansar mas ela afirma com toda a certeza que não quer deitar-se naquela cama e olhar para o lado... Não termina nunca a frase e tanto pode querer dizer que não quer deitar-se na cama onde o seu marido faleceu como não quer deitar-se mais numa cama vazia, depois de mais de cinquenta anos a dormir com alguém. A minha mãe é uma capa de força, foi ela quem me deu a notícia ao telemóvel e pediu desculpa. Como se tivesse culpa de alguma coisa que aconteceu. Não tem. Ela. Eu. A minha irmã. A minha avó. O meu pai. Ninguém tem. A morte vêm quando tem que vir. O meu pai fuma um cigarro atrás do outro como se por entre o fumo do tabaco as memórias do seu próprio pai estivessem mais vividas. Às tantas, depois de mil tentativas, conseguimos que ele se sentasse ao fundo do sofá onde a minha mãe se deitou, exausta. E os olhos dele estavam vidrados na parede em frente, nunca disse nada. Levantou-se depois e não voltou a sentar-se, saiu para trabalhar, o que, para mim, deve ser melhor do que estar aqui à espera de alguma coisa que não vem. Já todos nos levantamos, mais vezes do que era suposto, e estou a olhar para elas enquanto dormem. Ao menos elas dormem. Espero que a minha avó também esteja a descansar. E eu não consigo dormir. Acho que não fui talhada para dormir nas alturas de maior stress e acho que era parecida contigo. Que sou. Esta casa é vazia sem ti, avô. Eu estava magoada contigo por muita coisa e talvez nunca mais te consiga explicar nada disto mas eu não estava preparada para te perder. Só espero que tenhas ido em paz para um sítio melhor que este. Vais transformar-te em cinzas porque era o que gostarias. Nós vamos cuidar de tudo e da avó. Eu prometo.