quinta-feira, 26 de abril de 2018

24 de abril de 2018

A casa parece vazia sem ti, avô. Silenciosa. Porque tu eras a alma e a alegria da casa. Eras a luz e a felicidade palpável. Agora parece fria, um pouco como tu estavas quando te beijei a testa ainda agora.
Estamos sempre em viagem, avô. Só tenho ido dormir à minha casa, tomar um banho, fazer uma coisa ou outra para não pensar muito... mas sabes? Arrependo-me sempre de sair de casa, e tenho saído pouco, quatro horas por dia. Não quero ver pessoas. Não quero estar sozinha. Não sei o que sinto, parece que estou vazia.
Nós voltamos sempre à vivenda, estamos com a avó até à uma da manhã, estamos sempre com ela. Chegamos a casa às duas. E depois quem é que diz que eu durmo? O pai não tem ido a casa. Não vai a casa desde sábado. Acabou de se despedir, sabias? Tu estás aqui deitado, frio, e ele despediu-se... diz que não vai deixar a mãe sozinha, não vai trabalhar mais... E agora?
Sabes, avô? Ontem foi um dia mesmo difícil, as notícias pareciam pingos de água numa torneira estragada. Estava tudo em aberto, um monte de hipóteses plausíveis sem nenhuma certeza concreta. E nós precisamos de certezas concretas para que o luto se faça. Ainda agora, que estás aqui deitado à minha frente, não sabemos o que aconteceu contigo, não sabemos por que é que morreste. Tu sabes, avô? Eu sei que percebeste que ias morrer, eu sei, a avó contou-me. Ela contou a história tantas vezes a tanta gente e cada vez que a ouvia falar apetecia-me berrar até que ela se calasse... 
Eu tive medo, avô, do que ia acontecer. Eu sabia que os próximos dias seriam um autêntico calvário, mas não tinha noção da loucura e da confusão. Porque o pesadelo já estamos todos a viver, desde as cinco da manhã de sábado. 
Desculpa-me por ter demorado a entrar na capela para te ver, desculpa. Eu tive uma descarga de energia tão grande, só chorava e tremia... estava com tanto medo de te ver, de saber que tinhas uma ligadura na cara, de saber que te tinham cortado a cabeça... isso quer dizer que não encontraram a causa da tua morte no coração? Avô, isto é tudo tão confuso. Estou tão cansada. E quem é que diz que algum de nós dorme? Foi tudo tão repentino, estamos todos completamente paralisados. A dor paralisa-nos. 
Desculpa termos vindo embora, nós vamos descansar um pouco e voltamos, sim? Até já, meu avô. E sabes? Tinhas razão. Nós estamos a sentir muito a falta do velho.