Não sei o que se está a passar comigo, na verdade. Estou a estranhar a sensação de tranquilidade que se abateu sobre mim desde meio da sessão (desde aquela parte em que disse que já me sentia verdadeiramente presente e que agora nos tínhamos mesmo encontrado no mesmo sítio) e que se tem mantido presente durante o resto do tempo. Acho que desbloqueou o meu medo quanto ao que aí vêm em relação à tese e acho que isso me permitiu olhar para o trabalho que está a meio com outros olhos. O facto de compreender que eu ainda não tenho uma data marcada e que é normal que me sinta sem objetivos concretos, ajudou a instalar esta tranquilidade que, espero, não seja só em aparência. Ajudou que me tivesse relembrado todos os objetivos que tenho de seguida, assim que despachar a defesa da tese. Ajudou a acalmar-me. Não me lembro se já tínhamos, alguma vez, conversado sobre as minhas ideias de propostas de estágios, sobre as minhas ideias de transformação da tese em artigo, sobre tudo o que pode vir a seguir se pedir auxílio à minha orientadora... mas ter ouvido que tenho estas ideias - e que vieram da minha cabeça - fez-me sentir, um bocadinho menos, à deriva. Ajudou, muito claramente, ter sentido que fui ouvida quando disse que me sentia no vazio. Apesar de estar a esforçar-me para fazer coisas que me permitam não sentir tanto esse vazio, quando consigo ter energia e não estou letárgica. Não estou maluca, é normal sentir-me assim. Estou só francamente bipolar, tal como já escrevi aqui. Só não posso deixar-me levar por esta sensação negativa. É quase como se não quisesse viver os momentos de angústia que sei que vêm aí. Porque não me vai cair tudo no colo. Porque tenho que fazer por mim. E está a assustar-me ter que fazer por mim. Não saber se vou ter força e capacidade para isso. Ajudou-me, muito, que me tivesse feito perceber que eu absorvo todos os momentos menos bons que vivo em casa e que estou a assumir-me como quase derrotada logo de início, mesmo que não tenha qualquer experiência. Disse-me que eu não podia deixar-me levar pelo negro. E eu só consegui rir-me e responder que o meu cérebro era mesmo assim, só havia negro. Porque há poucas luzes. Já há mais; são em forma de vitórias pequeninas quando descubro mais um pedacinho da pessoa que sou feita. Sozinha não conseguiria, juro que não.
Ajudou quando me disse que sabia que eu me sentia isolada e sozinha, mesmo que eu nunca lho tenha dito. Que era normal sentir-me assim. Porque era o que me acontecia constantemente, sempre que dizia alguma coisa de profundo, era diminuída ou desmentida. Que me sentia constantemente atacada. Que eu apreendia assim as coisas que me eram ditas - e eu já começo a colocar em causa a forma como recebo o que me dizem, a achar que estou maluca, que não sinto bem, que não vejo bem. Começo a pensar se sabem o mal que me fazem. Porque não é gratuito. Não é para magoar. Então, só posso ser eu a culpada de receber as críticas - ou o que seja - de forma errada. Ajudou quando percebeu que me sentia humilhada e um bocadinho traída nos meus sentimentos. Que começava a colocar toda e qualquer memória em causa. Que tudo o que tenho dentro de mim não é - nem nunca foi - por causa da "questão da homossexualidade", como lhe chama.
Ajudou ter-me perguntado o que escrevi. Há uma liberdade muito grande em falar do que escrevo, do medo que tenho - quando tenho -, do adiar a escrita por medo do que iria sair. Nunca me senti ouvida desta forma em todas as vertentes que considero importantes.
Ajudou, de uma forma muito inesperada, que me tivesse dito que íamos esquecer aquela data marcada na agenda porque não me queria deixar sozinha enquanto eu estava a passar por estes processos internos de uma forma tão pouco tranquila. Porque, com tudo o que está a acontecer comigo, era natural que estivesse tudo em ebulição dentro de mim. [Que está, tenho o estômago todo embrulhado.]
Ainda consigo maravilhar-me com a forma como vê e apreende aquilo que eu não digo. Isto sim, é uma boa magia. Acho que foi a primeira vez que saí ligeiramente colada. Vamos celebrar isso para a semana como mais uma pequenina vitória?