Cada vez que paro, o que me vem à memória é o tom inflamado que se manteve quase até meio da sessão. Foi a forma como a sua voz soou desesperada e absolutamente aflita de cada vez que eu me calava - porque a minha é apenas cansada, triste e desiludida. Cada vez que me permito parar e estou sozinha dentro da minha cabeça vou até lá e penso que pode ter razão quando diz que sente que eu tentei e depois deixei de tentar por sentir que não me davam ouvidos. A forma como deixei que as lágrimas saíssem simplesmente enquanto dizia isto... Eu só tenho as minhas fracas memórias e só trabalhamos baseadas nelas... E penso, muitas vezes, como é que seria se tivéssemos acesso, por breves instantes, ao outro lado da história. Porque a verdade não é minha e absoluta. A verdade é um conjunto de todas as verdades que não só o que sou. Isso assusta-me, assusta-me trabalhar em cima de possíveis percepções falsas de acontecimentos que me marcaram desta forma porque eu simplesmente deixei andar, fui tão negligente comigo própria que me abandonei e deixei de dar ouvidos ao meu corpo. Porque a minha tristeza é, também, para comigo e para com a forma como me deixei abandonar e como não cuidei de mim, como perdi a capacidade de bater o pé e dizer que precisava de mais.
Pela primeira vez - e demorou tanto tempo - sou capaz de compreender que não me dei atenção, que fui curando estas dores sozinha e que poderia ter ficado muito mais grave do que agora ficou. É assustador. Repeti, muitas vezes, baixinho, que tinha medo. E disse-me que eu tinha que deixar o medo de lado e que este susto que eu estava a sentir poderia fazer-me ir perceber o que tinha, ouvir os médicos e deixar-me cuidar. Pedir ajuda. Como faço ali. Como confio ali [e eu só pensava que não era bem assim porque não confio desta forma em mais ninguém]. Pediu-me tantas vezes que eu não adiasse mais. Disse tantas vezes "já chega!" e de forma tão clara e, ao mesmo tempo, exasperada que, às tantas, percebeu que o tom de voz não estava calmo como o habitual. Disse que estava demasiado inflamada e que não estava a ver o lado em que eu cheguei até aqui. Mas o que, sem sombra de dúvida, me atravessa e dilacera completamente o peito, é a forma como me diz que eu sei que não me dá conselhos mas que vai dar. Porque estivemos praticamente o tempo todo à volta disto e não saímos do lugar... "vai sair daqui e vai imediatamente marcar uma consulta porque tem que cuidar de si".
E eu (ainda) não fui. Eu falei sobre o assunto duas vezes. Logo na segunda e depois na terça feira - em pequenas coisas já vislumbro pequenos pedaços da minha força interna. E não resultou em nada porque a minha opinião é que tenho que ser vista o mais rápido possível e que não posso continuar a esperar... Mas não me sinto com coragem de bater mais o pé do que referir o assunto de passagem. Eu começo a saber que tenho que cuidar de mim mas isso não me dá (ainda) a força necessária para ser capaz de mais. Ir sozinha. Como me disse que eu deveria ir. Cuidar de mim sozinha porque já tenho idade para isso. E está a começar quarta feira, estamos a meio da semana, e eu continuo à deriva, simplesmente à deriva, como se fosse uma criança pequena amarrada. Como se não soubesse cuidar de mim sozinha. Neste momento, estou desiludida comigo própria e sei que, se chegar lá na segunda feira, com a situação muito perto do que estava há dois dias, que não serei a única desiludida... E isso ainda dói mais.