terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O que me quero recordar de ontem é que a sensação de pânico incontrolável e a dor profunda que me adorna o peito há mais dias do que aqueles que quero admitir... Desapareceu por umas horas. Diz sempre que isto não é magia e que não é mágica mas eu começo a duvidar disso. É o mais perto de magia que já estive. Existem poucas sensações parecidas ao alívio que senti assim que percebi que o aperto no peito já não me sugava a todo o segundo, não me puxava, não me empurrava contra qualquer coisa e me deixava esmagada no chão. Foi a primeira noite desde há muitas noites que não tive que carregar com força no peito para sentir outra coisa para além desta dor profunda - foi a primeira vez que confessei a alguém que o faço antes de adormecer. E só por isso a sensação de alívio e agradecimento é muito maior do que alguma vez serei capaz de colocar em palavras. Sei que ainda sinto, e estou de pé atrás quanto ao teor de tempo no qual esta magia faz efeito... Tenho medo de voltar a sentir o mesmo e sei que não desapareceu completamente... Assusta-me esta espécie de limbo onde não sinto tudo mas sinto um bocadinho porque esse bocadinho aumenta sempre para um tudo que me volta a assustar. Porque é sempre assim. Posso achar que desaparece mas não, está sempre cá. Ontem disse-me que parecia que quando parávamos, que eu resvalava. Como se descesse a pique uma encosta íngreme sem nada que me parasse e me trouxesse para cima em segurança, senti agora que esta era a melhor metáfora para o que (me) tinha dito... Talvez seja. Talvez a utilize numa das próximas sessões.
Ontem não queria falar, comecei estranhamente calada, só a deixar que o meu ritmo respiratório se acalmasse... o medo de me desfazer em lágrimas era maior do que qualquer outra coisa. O medo de ser inundada por todas estas sensações, o medo, o pânico, a inutilidade. A morte. O medo da morte. O vir tudo outra vez à superfície, como se alguma vez tivesse saído daqui... O susto que eu apanhei trouxe-me muita dor mas também me fez ver que é diferente, que se lida de forma diferente com as coisas deste lado - e se eu não visse encarregava-se de me fazer ver, porque faz sempre isso. E puxa-me para a realidade mesmo quando eu não quero viver nela. Disse-me que nunca tínhamos discutido sobre as saudades do meu avô ou as memórias que tenho dele. Disse-me que parecia que eu não tinha vivido o luto, disse-me que sabia que eu não o tinha vivido. E não. Eu não sei o que é o luto. Eu só estou no meio do caos, como sempre lhe chama. O caos que a morte dele me trouxe... O abandono, a negligência, a falta de cuidado. É assim que os meus olhos vêem tudo isto e eu não quero que o vejam... Porque eu preferia não estar no meio desta avalanche da qual não sei sair. A forma como eu vejo a morte dele é diferente da forma como o resto da família a vê, e eu sei. E eu sei que ainda não fui capaz de passar à fase seguinte. Eu só quero sentir-me bem e tenho um buraco no peito que se instalou. E depois lembrei-me da sombra do pesadelo/sonho que se repetiu durante tantos anos e que tantas vezes me fez acordar completamente sem chão. Este que deixei de ter quando comecei a terapia. E, ontem, pela primeira vez, fomos mais profundamente a este tema... Nunca me tinha feito tantas perguntas sobre isso, nunca me tinha feito pensar tanto sobre isso. Sobre como era. O que se parecia. O que me fazia sentir. E depois perguntou-me se poderia ser eu. E essa pergunta vai ficar-me marcada para sempre. A sombra era eu? Como se estivesse engasgada? Não... Eu não estava engasgada com alguma coisa por dizer. Eu estava só e sempre a ser asfixiada. Se era eu... Se era o meu lado mau.... Se era o meu lado que destrói tudo o que tenho de bom... Não sei, poderia ser. Este meu lado é o lado que aparece mais vezes, que vem à superfície respirar com mais força, que carrega com ele todo o negativismo de que sou feita. Acha mesmo isso ou é só o lado negativo a falar? E eu ri-me porque me lembrei da minha mãe e da quantidade de vezes que ela me diz que sou tão negativa que ela não compreende. Mas não esbocei o pensamento. Deixei-o ir. Os pensamentos ali dentro demoram segundos e desaparecem como névoas. Continuamos em círculos, continua com todo o esforço a fazer-me entender que tenho demasiadas coisas nas mãos e na cabeça, que talvez fosse melhor deixar de lado alguma coisa. Pensar num estatuto trabalhador/estudante, diminuir o peso que carrego. Disse-me que não mudei o chip, que continuo a pensar que estou apenas a fazer o doutoramento. Mas não estou. E eu sei disso quando sou racional mas quando volta tudo ao mesmo... Disse-me que sou demasiado exigente. Que não largo esta minha ideia de que estou a falhar mas que não me vê a falhar em lado nenhum, que tenho que ver as coisas ao contrário, que deveria estar a ver vitórias e que só vejo derrotas. E depois deu-me um pequeno presente em tom de palavras, disse que eu era uma lutadora desde sempre, "é uma lutadora, raios". Mas não me sinto assim. Pode não se sentir mas é, sempre foi. Disse-me que eu não me dava espaço para ser frágil, para me sentir vulnerável, que não me dava espaço para deixar de olhar para todas as frentes e ver falhas...
Sinto que temos sempre demasiadas conversas ao mesmo tempo e que vamos rodando até a minha cabeça ficar tonta, como se estivesse numa montanha russa. E eu disse-lhe que ia sair dali maluca. Que me desconcertava sempre. E agarrei na cabeça - talvez hoje esteja a sofrer com tudo isto aqui dentro... Disse-me, e já não é a primeira nem a segunda vez que me diz isto, que sente que eu não confio em ninguém, que o meu medo que me peguem e me deixem cair faz com que eu não me deixe estar com certezas... E eu, baixinho, disse-lhe "pois não, só em si" e o "eu sei" foi tão certo, tão bom. No meio do mau que é perceber isto e falarmos sobre o doloroso que é não me deixar simplesmente relaxar... Saber que tem a certeza que eu confio... É impagável. É de um impacto tão grande em mim que nem sequer tive coragem de olhar nos olhos quando o disse. 
E sobre ontem há tanta coisa a dizer, pensar e repensar, que sinto que o meu cérebro parou. Tremi o tempo todo, ou não fosse isso já quase habitual em mim. Mas também fiquei muito calada. Ouvi muito. E agora sinto que o meu cérebro bloqueou muito do que ouviu. Como sempre, o que é difícil de ser sentido pode ser ignorado.... E lá estou eu a perpetuar tudo o que me queixo que existe à minha volta e do qual quero sair. Mostro não querer cometer os mesmos erros mas dou-lhes vida nas atitudes que tenho perante mim própria. Eu só quero ser feliz. Só quero ser eu. Mesmo que existam muitos dias em que não goste de mim nem tenha a certeza de quem gosta. 
Acho que desta vez foi tudo tão forte que nem consegui desligar. Sinto que fiquei lá. O que disse no final, sobre me querer esconder dentro do armário - há metáforas mesmo estranhas quando as uso - para não sair cá para fora... É mesmo isso, não queria sair porque enfrentar o mundo cá fora sem conseguir andar, sem ter força nas pernas, a sentir-me completamente aérea... Eu sinto que saí mas que não sai. Eu sinto que estou ainda lá dentro e só queria estar efectivamente lá dentro porque estar cá fora com esta sensação de que estou lá dentro deixa-me desarmada. O dia de hoje custou demasiado a passar, ouvir as pessoas enquanto intervalava com as frases que dissemos uma à outra ontem, ouvir as pessoas e sentir que não lhes estava com a atenção devida, sentir a cabeça a explodir, tentar despachar-me ao máximo para me deitar. Dormir a maioria da tarde, em vão. E depois, só depois, tentar concentrar-me um pouco para trabalhar. Ainda tenho mais um trabalho para fazer e tenho que me focar nele um bocadinho todos os dias. Só para não me sentir a falhar (ainda mais). Mesmo que me diga que não...
Sei que não tinha força para sair. Sei que não parei de tremer, sei que não tinha força para mexer as pernas. E, no final, aconteceu uma das memórias mais ternas e frágeis que guardo de todos estes anos de terapia... Estávamos a conversar sobre quem é que eu seria se não tivesse pedido ajuda, estava a dizer-me que acreditava que me tivesse permanecido mesmo muito fechada, sem perceber os contextos à minha volta, muito triste, como eu estava ao início... E eu soltei um baixinho "Salvou-me a vida, sabia?" e sorriu-me, de forma tão terna, tão carinhosa... E brincou "ainda agora estava chateada comigo porque..." e eu interrompi o que estava a dizer e respondi "isto é amor-ódio" e rimo-nos. Disse-me que estava ali. Que na segunda feira estava ali. E eu resmunguei que não queria parecer um bebé a ser acalmado, mas disse-me que talvez fosse parte do nosso trabalho. Cada vez que me recordo disto só me apetece chorar e tenho vergonha de o ter dito. Muito provavelmente vivi o ponto mais frágil de toda a terapia. Não sei como é que devo voltar. Já me tinha há muito tempo mas agora tem-me mesmo.