Lembro-me de tão pouco do que me disse porque só me lembro de ter que desesperadamente falar, dizer muitas coisas. Demonstrar a falta que me fez e, atabalhoadamente, dizer um monte de coisas que me foram surgindo e que me foi perguntando... E há sempre uma certeza de que faz o puzzle comigo. E de não ter medo que as lágrimas caíam. De não ter medo de me mostrar frágil e vulnerável, porque cada vez que fala é como se não estivesse sozinha. É, mesmo, o tom de voz certo e sempre, a coisa certa a dizer. E nunca me vou cansar desta sensação de que cheguei a um lugar absolutamente seguro apesar do medo puro que sinto, ao mesmo tempo.
Saber que poderia ter estado na segunda anterior e que não estive por lapso meu... Mas saber que também não me procurou ou perguntou se estava tudo bem... Não sei. Seria mais uma semana de caminhada e não menos uma. Seria menos uma semana sozinha. E sinto que me falhei. Mas não consigo deixar de sentir que também falhou um bocadinho, poderia ter perguntado por mim....
A terapia tem que ser... verdadeira.
[Depois da viagem de carro de quinta feira]
A dada altura, depois de ter dito tanta coisa, quase em vómito, e de me ter ouvido apenas, perguntou-me naquele tom de voz suave, com um meio sorriso, já adivinhando a minha resposta rápida - e as suas coisas? Que coisas são essas? Porque nem me lembro que tenho coisas. Sinto que a minha vida é uma espera por respostas, comportamentos, soluções... Nem sei que tenho coisas no meio de tudo o que está a acontecer à minha volta e de tudo o que me sufoca. Às tantas também me perguntou se tinha vergonha ali dentro e eu penso que lhe respondi que não tenho, não no meu sítio seguro, não posso ter vergonha quando estou a dizer tudo o que estou a dizer para ser ajudada quando não me consigo ajudar. Já sei que não vou ser julgada, já sei que não estou sozinha. E também me lembro que me perguntou se o casaco tinha ficado com cheiro - e nunca vou entender como é que uma simples pergunta que me faz me pode destruir tanto por dentro - mas eu sorri e respondi rapidamente que não ficou, porque ele não o vestiu. O casaco ainda cheira ao avô, ainda cheira a casa.
[Depois da viagem de carro de quinta feira]
A dada altura, depois de ter dito tanta coisa, quase em vómito, e de me ter ouvido apenas, perguntou-me naquele tom de voz suave, com um meio sorriso, já adivinhando a minha resposta rápida - e as suas coisas? Que coisas são essas? Porque nem me lembro que tenho coisas. Sinto que a minha vida é uma espera por respostas, comportamentos, soluções... Nem sei que tenho coisas no meio de tudo o que está a acontecer à minha volta e de tudo o que me sufoca. Às tantas também me perguntou se tinha vergonha ali dentro e eu penso que lhe respondi que não tenho, não no meu sítio seguro, não posso ter vergonha quando estou a dizer tudo o que estou a dizer para ser ajudada quando não me consigo ajudar. Já sei que não vou ser julgada, já sei que não estou sozinha. E também me lembro que me perguntou se o casaco tinha ficado com cheiro - e nunca vou entender como é que uma simples pergunta que me faz me pode destruir tanto por dentro - mas eu sorri e respondi rapidamente que não ficou, porque ele não o vestiu. O casaco ainda cheira ao avô, ainda cheira a casa.