terça-feira, 1 de maio de 2018

A minha família está a desintegrar-se, a fugir-me por entre os dedos. E eu sinto que nada posso fazer para manter tudo coeso. Gostava de conseguir ouvir, verdadeiramente, e para interiorizar, quando me diz que não posso fazer nada e que têm que ser os adultos a tomar as decisões. Mas eu não consigo sentir que não estou a fazer nada, que só vejo as coisas a acontecer. Ainda está tudo uma confusão, ainda é tudo muito recente, ainda não há decisões concretas sobre o futuro. E isso assusta-me. Assusta-me que, de repente, todos se vão embora. Assusta-me, de verdade, estar a observar em primeira mão o contrário do que sempre tive como uma verdade absoluta: que a minha família era uma rocha. Não é uma rocha no sentido em que achei que era, há uma dose de loucura insana em todos nós que, nos momentos difíceis, se torna a pele de quem somos. Perdemos o fio condutor e simplesmente parece que tudo desaba à frente dos nossos olhares. Podemos ser uma rocha uns para os outros, ser tipo ciganos e estar quando é mais preciso, mas a loucura continua a fazer parte do nosso ADN. E é isso que me custa tanto a aceitar, é a revolta de saber que não se fez o suficiente e que mesmo que se tivesse feito o desfecho poderia ser o mesmo. Mas acho que me era mais confortável em termos de aceitação e luto saber que ele tinha falecido a caminho ou no hospital que aqui... sem socorro adequado. Eu sei que há o lado bom, eu sei que ele pode ter-se sentido feliz no final, em casa, com as suas coisas e com a sua companheira de 60 anos... e isso acalma, levemente, esta revolta de que tenho sido feita. Pedir-me para compreender e dizer-me que sabe que eu compreendo o que ela fez e a forma como reagiu quando eu sinto tanta revolta dentro de mim não me ajuda, não me ajuda porque depois fico sozinha cá fora e não está comigo a todos os passos que dou. Sinto que está tudo a desfazer-se, sinto que só estou rodeada de problemas e que não existem soluções visíveis. Sinto-me aprisionada, como se a partir de agora a nossa vida enquanto família nunca mais pudesse ser a mesma. Perguntou-me quais eram as soluções que estavam a pensar e eu só sei que não sei. Tentei, na noite de ontem (e com a nossa conversa na memória), perguntar ao meu pai se não seria melhor colocar a avó num lar, por exemplo, para termos a certeza de que estava acompanhada e segura... E a resposta "mais vale matá-la já", destruiu-me, ouvir que não tens a certeza que ela aguente os próximos dois meses... está tudo tão confuso, a minha vida está uma autêntica confusão. Por isso, às tantas, lhe disse que tinha medo de saber o que era estar sozinha, numa altura destas, e pediu-me para não pensar nisso porque eu não estava sozinha, que está comigo. E é isso que me vale, é sempre ter uma forma de explorar tudo isto com alguém que nunca irá julgar nada do que eu diga.