Dói-me tanto estar nesta casa onde não te vejo em nenhum lado, os locais onde estavas estão agora vazios. Faz-me tanta impressão estar aqui onde tu não estás. No quintal onde não caminhas, não regas as flores e os legumes e não vês se faz chuva ou sol. Não cavas a terra, não colocas espinhas para os teus gatinhos virem comer no final das nossas refeições... No meu quarto onde não entras, nunca, quando entravas tantas vezes, para perguntar se estamos bem e se está tudo bem connosco. Não entras aqui, já cansado, a vir dar as boas noites, sem os dentinhos. Não entras mais e isso faz-me impressão. Não estás ali na sala, no teu computador, a querer mostrar-nos todas as novidades que encontraste no facebook nesta nova semana em que não nos conseguimos ver pessoalmente. E eu procuro-te, avô. E não estás à mesa, a contar histórias do teu passado na guerra e a partilhar-te pela milésima vez com a tua família. Não entras na cozinha, quando eu estou a lavar a louça, preocupado se me estou a queimar, se tens que desligar a água por estar muito quente. Preocupado por ser eu sempre a lavar a louça ou a trazer-me notícias das conversas que correm na sala. Não fazes mais queixas da avô, não fazes mais nada e eu tenho medo de estar aqui, nesta casa que me soa a tristeza da tua morte. Dormir aqui custa muito mais do que dormir na minha cama, em minha casa. Aqui acordo várias vezes por noite, quase que parece que estou à espera de te ouvir acordar, de te ouvir fazer algum barulho que antes me deixava irritada por me acordar... agora, de bom grado, gostaria que me acordasses. Ainda me levanto a meio da noite para ir à casa de banho e, às seis ou sete da manhã, ainda acho que te vou encontrar lá a fazer a tua higiene matinal. Lembraste quando fechavas as portadas das janelas e o gradeamento de toda a casa, à noite, e chegavas ao quarto e dizias "vocês ainda vão sentir muito a falta deste velho?"... oh, avô, tu tinhas tanta razão e a verdade é que nós sempre ta demos. Nós sabíamos que íamos sentir muito a tua falta. Ninguém está preparado para perder um alicerce da maneira que nós te perdemos. Custa-me tanto, meu avô. Esta última semana foi das mais longas da minha vida e eu sinto-me tão cansada.