Desde o início da semana que quero escrever mas tenho medo de o fazer. Desde o início da semana que quero partilhar [aqui] para que seja possível que o peso diminua de intensidade; como se isso fosse possível. Estou aqui, sem saber como vai ser o meu futuro. Com receio que ele chegue e sem perceber que já chegou, uma hora após a outra e ele chega. Está a acontecer enquanto escrevo e enquanto ouço os acordes da guitarra e a voz do Tiago Bettencourt em repeat. "Dragão" em repeat.
Não há palavras que façam jus ao que tenho sentido. Não há simplesmente. Os dias passam por mim e eu tento retirar deles o melhor que posso, ajuda quando tenho alguma coisa por que esperar. Ficar em casa a olhar para o nada, a ver um filme, a ver um episódio de uma série qualquer, não me ajuda. Ajudaria se fizesse parte de uma rotina mais larga que agora não tenho. Ajudaria se me permitisse esquecer brevemente o cansaço de alguns problemas diários. Sinto-me, agora. Sinto-me como nunca me permiti sentir-me. Sinto-me como não sabia que era possível. E sei-me, um bocadinho melhor do que há um ano atrás. Sei que neste momento [o pior é quanto tempo o momento dura...] estou naquela fase mais baixa do ciclo do "vai e vem". Naquela fase em que não consigo ter energia para nada, para além de sentir as dores que constroem quem sou. Sinto-me muito bipolar ultimamente e isto faz parte de dois movimentos internos que, agora, apercebo-me que existem em mim desde sempre. Um puxa para o futuro, quer ir, fazer, ser e acreditar que há algures um espaço onde consigo ser eu, plena e feliz. E o outro quer fechar-se dentro de casa, fingir que não cresceu [porque crescer não pode ser isto!] porque o desconhecido dói. E a obsessão com o primeiro movimento é por medo que o segundo permaneça. Sou feita de confrontos tão distantes quanto estes dois movimentos que parece que não poderiam coexistir mas coexistem em mim. Sentir isto ao mesmo tempo que sinto um aperto tão profundo dentro de mim que chega a doer... sentir isto ao mesmo tempo que tudo em mim arde, como ferida aberta que não sara. Também este aperto é uma parte do movimento "vai e vem". Às vezes, consigo esquecer-me que sinto este aperto horrível no meu peito. Às vezes. estou aparentemente normal. Às vezes... E nas outras vezes, choro sem motivo aparente quando deito a cabeça na almofada. Nas outras, sinto o escuro a abater-se sobre mim e estou às voltas na cama até que as lágrimas sequem. Nas outras vezes, não consigo falar com ninguém, quero que me deixem em paz e sinto que o melhor é desaparecer. O aperto torna-se tão forte que nem adormecer consigo - e só adormecer me permitiria deixar de sentir esta dor. Porque isto é uma dor profunda que não desejo a ninguém. Nas outras vezes acredito que nem respirar fundo me vai ajudar a que o aperto consiga diminuir. Nas outras vezes acredito que esta dor profunda fará sempre parte de quem sou e que o que sinto na garganta ficará. O pior disto tudo é sentir que, quando falo, não há quem perceba que estou neste ponto. Posso, em algumas alturas, ganhar coragem e pedir ajuda. Ganhar coragem e escrever estas linhas na esperança que libertem o peso que agora faz parte de mim... Mas nessas alturas... é como se ninguém visse, na mesma, o que digo. E os dias passam e continuo a viver comigo. Os dias passam e continuo a sentir-me na mesma mas não há mais conversa depois disso. Os dias passam e eu continuo a afastar-me o melhor que consigo de todas as pessoas que me poderiam dizer que percebem o que sinto mas não percebem mesmo nada. Vai ficar tudo bem? Vais ficar bem? Eu percebo o que estás a dizer? Não, não percebes. Não, não vai ficar tudo bem. Não, não vou ficar bem. Não sabem nada. Só quem sente um milímetro do que é viver com um aperto no peito pode opinar sobre isto tudo. Sobre o quanto dói. Sobre o quanto custa respirar. Sobre as vezes em que não queremos sair da cama e que nem sabemos como sair de casa. Sinto-me uma merda, fiz isto para que o aperto diminuísse de intensidade... Só que não aconteceu.