segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Esta espécie de catarse estranha. Este misturado de frases fez-me acalmar de uma forma que ainda nada tinha feito. Ou talvez seja só o efeito de segunda, que acalma a doer muito, e que se mantém terça. Talvez esteja meio dormente e daqui a pouco volte tudo em triplicado. Por enquanto tenho uma bomba relógio a contar o tempo na minha cabeça. Tic-tac. Por enquanto tenho um décimo, apenas, do aperto na garganta. Por enquanto acho que nem dormir me ajuda. Então o que é que me ajuda? Como é que eu me ajudo?  

Esta semana perturbou-me e afectou-me muito. Sinto que ainda estou a apanhar bocadinhos de mim do chão. Está zangada com o pai. Desiludida com ele. E a aprender a cola-los, sem saber bem onde. Está zangada comigo ou consigo? Com as duas. Por termos falado nisto. Porque eu nunca tinha falado nisto ou procurado dar-lhe um nome. Mas era uma coisa que sempre esteve lá. Só lhe demos um nome. E agora já não dá para ignorar. Está ali e eu posso tocar-lhe. Não há magia que resolva isto. Preferia a altura em que não via porque acabava por passar ao lado. Por ser uma ferida aberta, que não fecha. Como é que eu fico bem? Podemos saltar para a parte em que eu fico bem? Não é por artes mágicas que fica tudo bem.  O que é que eu faço para me defender? Eu sou a mais fraca. É uma angústia? Como é que eu tiro este peso de dentro de mim? Lá está, a querer fugir. Porquê a culpa? E quando é que eu não me culpo? Como é que eu resolvo isto? E está a perguntar-me a mim? Posso ter essa responsabilidade e aparentar essa força, que eu nem sei se é força, mas vou ser sempre a mais fraca dali. Há uma sensibilidade muito grande, sente que tem que cuidar dos pais. Está a pagar? Sentiu como uma ameaça? Acha que lhe vão fazer mal a ela? Eu sei, eu sei. Estamos aqui numa coisa muito importante. Eu percebi, nas últimas semanas, que só depois de sair de casa e ter o meu espaço é que vou conseguir libertar-me disto. Precisa de ter um espaço seguro para o qual voltar. Precisa de garantir a estabilidade e a segurança. Então e o futuro? Então e todo o futuro? Qual é o mal de ter um projeto de vida com uma mulher? Vai estar a pagar uma dívida o resto da vida? Lembra-se quando eu fico revoltada por ver? Estou assim e queria não estar. Quero ficar bem. A grande questão aqui é que não confia. Não confia neles. Como é que espera que eu confie depois de tudo? É desconfiada. Não confia, sobretudo, nela. Quanto a esse assunto, vou ser sempre aquela criança de 14 anos. Não, vai levar-me consigo dentro de si. Sinto que estou a viver duas vidas e que sou duas pessoas. E isso é muito doloroso, carregar esse segredo custa muito. O ambiente está a tornar-se tóxico, porque agora vejo tudo. Porque é que não se deixa ser quem é? Desde que entrou aqui pela primeira vez já percorreu um bocado do caminho, tem vindo a aceitar-se. Eu estou atenta. Só observo. Não consigo suportar muito mais tempo. Fala-se mas não se diz. Anda-se às rodas. Mas elas sabem. O problema não é o que vou dizer mas o que eu vou ouvir. Eu sei que vai acontecer assim. Eu já passei por isso. Cuidar dos pais, cuidar da irmã. Não quer que ela passe pelo mesmo. Eu não me sei defender. Ninguém tem a certeza da reação. Eu vou ser sempre aquela miúda que chorou no sofá. Vai explodir, um dia vai explodir. E depois como é que vai ser quando explodir? Vai levar tudo à frente? Nós vamos sempre ter ali, dê por onde der, vamos lá bater. E é disso que tem medo?