«Olho para mim como se não fosse eu, como se estivesse a ver-me noutra pessoa. Olho para mim de maneira tão indiferente, às vezes até reparo mais numa mera pessoa pela qual passo na rua. Vivo a minha vida da mesma forma, como se não estivesse a vivê-la verdadeiramente, vivo como se estivesse apenas de passagem. Como se não fosse responsável pelas acções que realizo, pelas decisões que tomo e pelas palavras que me assomam na garganta e que deslizam pela minha boca. Não me sinto responsável por mim e pelo meu caminho. Ou, pelo menos, não sentia até aqui. Até à altura em que decidi que não aguentava mais viver a minha vida como se não fosse minha. E agora tenho descoberto que há razões pelas quais sou como sou e vivo da forma que vivo. Há dores que guardo no peito e nem sei que existem. Só vou percebendo aos poucos, uma hora de cada vez e com muito trabalho de raciocínio à mistura. E é por isso que digo tantas vezes que não quero estar sozinha. Estar sem esta forma de (me) perceber é estar sozinha. Desculpem aqueles que sentem que me apoiam infinitamente, não diminuo, de todo, o trabalho que têm em encontrar tempo no meio do vosso tempo para me dar tudo o que têm. E não é, de todo, não precisar do que têm. Mas a verdade é esta; eu preciso de perceber coisas em mim que os meus não me conseguem explicar. Eu preciso desta bengala para conseguir andar. O meu espírito está tão velho como já ouvi dizer que o sentiam. Rasteja em vez de caminhar seguro. Aos vinte anos é suposto sermos donos de nós e donos do mundo. E eu, sou dona de quê se nem a mim me tenho? Estou velha por dentro, preciso de me renovar. Preciso de retirar todo o oxigénio e sangue de que sou feita, fazer-me uma transfusão. Ensinar-me a guiar a minha vida como nunca soube. Fechei-me no quarto, fechei-me dentro de mim e não me permiti a sair. Durante anos e anos seguidos. Presa em mim mesma, presa por mim mesma. Não foi ninguém que me fez isto, fui eu que fiz isto comigo. E aprendi a viver assim, nesta espécie de dor total em que não sei aproveitar o bom. Em que não consigo resolver completamente um problema por que há um fundo de masoquismo em mim que não me permite largar totalmente. Preciso de sentir dor para me sentir. Preciso de sentir desassossego para acreditar que estou viva. Não sei sair desta roda de negativismo onde me lembro de viver desde sempre. Quero aprender a olhar para o mundo com outros olhos, limpos desta fase negra onde me instalei e sei que tenho que começar por mim. E é por isso que fiz isto, é por acreditar que tenho que começar por mim que realmente comecei. Só que o processo de mudança de um comportamento instalado é tão lento que não consigo ver nada... E vou perdendo a esperança de me ver por aí, a enfrentar a vida, completamente segura de ser quem sou.»