Antes de chegar há um tremor nervoso dentro de mim que se vai instalar na minha barriga. Às vezes é tão forte que começo a sentir os pés pesados. Andar é como puxar um conjunto de pesos. O meu corpo parece chumbo. Os nervos que me assolam não começam aqui, quando me aproximo da estação de comboio em que tenho que sair. Bem antes disso há uma dificuldade extrema em adormecer, na noite anterior, ou muitas vezes, nas noites anteriores. O sono não chega, os pensamentos confundem-se, velozes. É por isso que a noite nunca é sinónimo de paz e dormir bem não é uma tarefa fácil. Não sei o que é cair na cama, cansada, e simplesmente acordar no dia a seguir. As horas que antecedem a entrada pela porta que me vai levar de volta à luta interior passam lentas. Ou passam rápidas. Não me sei decidir quanto ao teor do tempo. É como se não fosse como naturalmente, como todos os outros dias da semana. E a minha luta nunca cessa, claro que não, apenas se torna muito mais real ali dentro. Entretanto, forço-me a caminhar. Forço-me a colocar um pé à frente do outro. Ouço música enquanto caminho e sei que demoro mais dez minutos a alcançar a rampa que me leva à porta que tenho que abrir. Passo pela casa de banho porque isso me acalma, sentir-me realmente uma pessoa, permitir-me a lavar a cara ou olhar-me ao espelho. Permitir-me uns momentos de repouso interior antes de iniciar a batalha. Isto é tudo ridículo porque racionalmente eu sei que vai correr tudo bem, sei que vou sentir-me inteira, completa no querer avançar e que não estarei sozinha. E, sobretudo, eu sei que vou ser sempre bem recebida. Há um sorriso que me espera por detrás daquela porta. É só ter a coragem para a abrir e vou sentir-me segura por dentro, lá dentro. Uma segurança misturada com o doce sabor do medo. O medo já me sabe a doce, já é quase como a dose quase diária de chocolate ou bolachas que acabo por comer porque não consigo abandonar. Talvez o medo se tenha tornado uma espécie de vício que não consigo largar porque me faz sentir. Tem sido a minha companhia durante tanto tempo que já não sei viver sem ele. Há medo, há um sentimento de cair permanente porque não sei para onde as palavras nos levam. Não há um guião, há uma conversa de onde não posso achar que sei as respostas. Só conheço as minhas perguntas, só conheço aquilo que está dentro da minha cabeça. Tudo o que me é dado, eu não sei se era o que queria. O que acreditava. O que imaginava. Chega até mim, como névoas, e quando pousa finalmente, tenho de fazer o exercício de perceber se o aceito como parte da minha realidade. Daquela que não percepciono normalmente mas sei que existe. É por isso que é tão difícil. É por isso que cada semana passa de uma forma tão pesada, como um ciclo interminável, começa pesada e vai diminuindo levemente até chegar aos dias em que volta a pesar. Nunca estou realmente bem, não estou tranquila, sem ser quando me sento na cadeira e afirmo, com um pequeno sorriso, e ainda a medo, "cheguei". Talvez exista um pequeno prazer em não estar sozinha e ouvir a minha voz. Talvez tenha razão. Talvez me leia de uma forma que me assusta e me arrepia. E talvez eu tenha que deixar de ter medo que me leia os pensamentos porque só assim vou conseguir ser realmente ajudada. Talvez escrever sobre o assunto também seja um passo importante a dar. Só talvez. E talvez eu consiga recuperar a minha sanidade mental de forma a que consiga ser mais eu, mais forte e segura de mim. Pelo menos, sei que estou na luta, sei que estou a fazer por isso.
[Escrever sobre isto e não ter medo das palavras e de abordar sentimentos confusos é, sem dúvida, um passo. Muito orgulho do que alcancei com este conjunto de linhas.]