Estar alerta é uma verdadeira treta. Ter os olhos abertos e começar a perceber todas as pequenas ligações que existem dentro de mim (até aqui não fazia ideia que existiam) é uma treta ainda maior. Não consigo voltar à altura em que não conhecia nada disto e simplesmente caminhava pela vida. E gostava, gostava tanto de conseguir voltar a essa fase da minha vida. E só há uma razão para querer voltar atrás: tenho medo, tenho montes de medo porque nesta fase onde eu estou não consigo perceber qual é o passo a dar. Não consigo perceber se vou atirar-me completamente para a frente de um carro e nunca mais acordar. Não consigo perceber se vou simplesmente estragar tudo ou se consigo ter capacidade de ir fazendo as coisas certas. Mas o que é fazer as coisas certas? Eu não sei. Eu não sei nada. Não sei, principalmente, como é que me desenvencilho de todas as pequenas merdas que o meu cérebro cria, como é que me torno na pessoa adulta que quero ser. A verdade é que começo a perceber tudo e estou cheia de medo. Parece que não consigo desligar-me completamente do que lhes "devo", da culpa que sinto - mesmo sem querer - e de tudo o que não vivi porque me obriguei a fechar-me algures. Eu não quero continuar a sentir-me culpada. Não quero continuar a mentir. Não posso mentir mais. Não posso ser mais essa pessoa que mostra alguma coisa mas que deixa um espaço por mostrar. Não posso nem quero. Eu tenho que perceber como é que se vive esta vida. Porque esta vida é diferente da outra que eu vivi até aqui. Eu tenho que descobrir o equilíbrio entre o que lhes devo como filha que sou e o que me devo como pessoa que sou. Tenho que entender que há coisas que são minhas, íntimas, e que há outras que podem ser partilhadas, que posso deixar de erguer um muro onde tudo está bloqueado e só falo sobre algumas - poucas - coisas. Eu estou realmente cansada de viver desta forma e quero aprender a viver da nova forma. Quero mudar isto e estar consciente do que quero mudar é um primeiro passo muito importante. Mas como é que se muda uma coisa que não se vê? Como é que se muda o que esteve tantos anos fechado no mesmo sítio dentro de mim?
Parece que não sei viver. Estou cansada de tudo isto.